A CIDADE DOS DEUSES
SELVAGENS

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES
SELVAGENS
Traduo de
Maria Helena Pitta
2. Edio
_] DIFEL
Diuso Ediorw, S.A.

NDICE
Ttulo original: La Ciudad de Ias Bestias
 2002, Isabel Allende
Todos os direitos de publicao desta obra em lngua portuguesa, excepto Brasil, 
reservados por:
=I DIFEL A
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Capa: VHM Produes Grficas Lda. sobre foto  Sandro Soddano, The Special 
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Reviso Tipogrfica: Maria do Carmo de Sousa Branco Composio: Jos Campos de 
Carvalho
Impresso e acabamento: Tipografia Guerra - Viseu Depsito Legal n. 183534 / 
2002
ISBN 972-29-0625-9
Setembro 2002
Proibida a reproduo total ou parcial sem a prvia autorizao do Editor
1 0 pesadelo, 11
2 Uma av excntrica, 23
3 0 Abominvel Homem da 4 0 rio Amazonas, 43 5 0 xam, 61 6 0 plano, 71 7 0 
jaguar negro, 77 8 A expedio, 89 9 0 povo da neblina, 107 10 Raptados, 123 11 
A aldeia invisvel, 137 12 Ritual de iniciao, 153 13 A montanha sagrada, 171 
14 As bestas, 189 15 Os ovos de cristal, 203 16 A gua da sade, 213 17 0 
pssaro canibal, 229 18 Manchas de sangue, 249 19 Proteco, 261 . 20 Caminhos 
separados, 277
Selva, 35

Para Alejandro, Andrea e Nice que me pediram esta histria

CAPTULO 1
O pesadelo


Alexander Cold acordou ao amanhecer sobressaltado por pesadelo. Sonhava que um 
enorme pssaro preto se atirava c tra a janela com um fragor de vidros 
estilhaados, entrava em c e levava a sua me. No sonho, ele observava impotente 
com abutre gigantesco agarrava em Lisa Cold pela roupa, com as s garras 
amarelas, saindo pela mesma janela partida e desaparec do num cu carregado de 
grandes nuvens negras. Acordoubarulho da tempestade, o vento fustigando as 
rvores, a chi sobre o telhado, os relmpagos e os troves. Acendeu a luz coe 
sensao de estar num barco  deriva e acnchegou-se contra o to do co enorme 
que dormia ao seu lado. Calculou que a pou quarteires da sua casa, o oceano 
Pacfico rugia, agigantando em ondas furiosas contr a muralha. Ficou a ouvir a 
tempestac a pensar no pssaro preto e na sua me, esperando que acalmas., os 
batimentos de tambor que sentia no peito. Estava ainda enle; nas imagens daquele 
pesadelo.
O rapaz olhou para o relgio: seis e meia, horas de se lev tar. L fora mal 
comeara a clarear. Pressentiu que este seria dia desastroso, um daqueles dias 
em que mais valia ficar na ca porque tudo corri mal. Havia muitos dias assim 
desde que a r adoecera. s vezes o ambiente em casa era pesado, como se e vesse 
no fundo do mar. Nesses dias o nico alvio era fugir, a correr pela praia, com 
Poncho, at ficar sem flego. Mas h u semana que no parava de chover, um 
verdadeiro dilvio, e al

ISABEL ALLENDE
disso um veado tinha mordido Poncho e este no queria mexer-se. Alex estava 
convencido de que tinha o co mais pateta da histria, o nico labrador de 
quarenta quilos mordido por um veado. Nos seus quatro anos de vida, Poncho tinha 
sido atacado por mapachesl, pelo gato do vizinho e agora por um veado, sem 
contar as vezes em que foi borrifado por zorrilhos2 e foi preciso lav-lo com 
molho de tomate para diminuir o cheiro. Alex saiu da cama sem incomodar Poncho e 
vestiu-se tiritando. O aquecimento ligava-se s seis, mas ainda no conseguira 
aquecer o seu quarto, o ltimo do corredor.
 hora do pequeno-almoo, Alex estava de mau humor e no teve disposio para 
aplaudir o esforo do pai em fazer panquecas. John Cold no era exactamente um 
bom cozinheiro. S sabia fazer panquecas que ficavam como tortilhas mexicanas de 
borracha. Para no o ofender, os filhos levavam-nas  boca, mas aproveitavam 
qualquer descuido para as cuspirem no caixote do lixo. Em vo tentaram treinar 
Poncho a com-las: o co era tonto, mas no tanto.
- Quando  que a mam vai melhorar?- perguntou Nicole,
tentando espetar a panqueca elstica com o garfo.
- Cala-te, tonta! - replicou Alex, farto de ouvir a sua irm
mais nova fazer a mesma pergunta vrias vezes por semana. -A mam vai morrer - 
comentou Andrea.
- Mentirosa! No vai morrer nada! - guinchou Nicole. - Vocs so umas fedelhas, 
no sabem o que dizem! -
exclamou Alex.
Vamos, meninos, acalmem-se. A mam vai ficar boa... - interrompeu John Cold, sem 
convico.
Alex sentiu raiva contra o seu pai, contra as suas irms, contra Poncho, contra 
a vida em geral e at contra a sua me por ter

l Mapache: mamfero da famlia dos Musteldeos, semelhante ao texugo, comum na 
Amrica do Norte.
2 Zorrilho: mamfero ftido, da famlia dos Musteldeos, semelhante ao texugo.
12
adoecido. Saiu da cozinha com grandes passadas, disposto a sem tomar o pequeno-
almoo, mas, no corredor, tropeou no c caiu de bruos.
- Sai do meu caminho, tarado! - gritou-lhe. E Poncho, a gre, deu-lhe uma ruidosa 
lambidela na cara, que lhe deixou culos cheios de saliva.
Sim, definitivamente era um daqueles dias agourentos. Algi minutos mais tarde, o 
pai descobriu que tinha uma roda da ca nha furada e teve de o ajudar a mud-la. 
De qualquer maneira F deram minutos preciosos e as trs crianas chegaram tarde 
aulas. Na precipitao da sada, Alex esqueceu-se dos trabal] de matemtica, o 
que acabou por deteriorar a sua relao cor professor. Considerava-o um 
homenzinho pattico que se pro; sera arruinar-lhe a existncia. Como se no 
bastasse, tambm c xou a flauta e nessa tarde tinha ensaio com a orquestra da 
esct Ele era o solista e no podia faltar.


A flauta foi a razo pela qual Alex teve de sair durante o reci do almoo para 
ir a casa. O temporal tinha passado, mas o mar da estava agitado e no pde 
cortar caminho pela praia, porqut ondas rebentavam por alma do parapeito, 
inundando a rua. Ft correr pelo caminho mais longo, porque dispunha apenas de q 
renta minutos.
Nas ltimas semanas, desde que a me adoecera, vinha u mulher fazer as limpezas, 
mas nesse dia tinha avisado que no devido ao temporal. De qualquer forma no 
servia de muito que a casa continuava suja. De fora j se notava a deterioras 
como se a propridde estivesse triste. O ar de abandono col ava no jardim e 
espalitava-se pelos quartos at ao ltimo recai
Alex pressentia que a sua famlia estava a desintegrar-se. A irm Andrea, que 
fora sempre um pouco diferente das outras mi nas, andava agora mascarada e 
mergulhava durante horas no
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mundo de fantasia, onde havia bruxas  espreita nos espelhos e extraterrestres 
nadando na sopa. J no tinha idade para isso, aos doze anos devia interessar-se 
pelos rapazes e por furos nas orelhas, achava ele. Por outro lado, Nicole, a 
mais pequena da famlia, estava montando um zoolgico, como se quisesse 
compensar a ateno que a me no podia dar-lhe. Alimentava vrios mapaches e 
zorrilhos que rondavam a casa, tinha adoptado seis gatinhos rfos que mantinha 
escondidos na garagem, salvou a vida a um passaro com uma asa partida e 
guardava uma cobra de um metro de comprimento dentro de uma caixa. Se a me 
encontrasse a cobra morria ali mesmo de susto, embora no fosse provvel isso 
acontecer porque, quando no estava no hospital, Lisa Cold passava o dia na 
cama.
Excepto as panquecas do seu pai e umas sandes de atum com maionese, 
especialidade de Andrea; ningum cozinhava naquela famlia h j alguns meses. 
No frigorfico havia apenas sumo de laranja, leite e gelados.  tarde pediam 
pizza ou comida chinesa por telefone. No princpio foi quase uma festa, porque 
cada um comia a qualquer hora o que lhe apetecia, sobretudo acar, mas j todos 
sentiam a falta da dieta saudvel dos tempos normais. Alex pde avaliar nesses 
meses como tinha sido enorme a presena da sua me e quanto pesava agora a sua 
ausncia. Sentia tantas saudades do seu riso fcil e do seu carinho, como da sua 
severidade. Ela era mais rigorosa que o seu pai e mais perspicaz. Era impossvel 
engan-la porque tinha um terceiro olho para ver as coisas invisveis. J no se 
ouvia a voz dela cantarolando em italiano, no havia msica, nem flores, nem 
aquele cheiro caracterstico a bolachas acabadas de fazer e a tintas. 
Antigamente, a sua me arranjava-se de maneira a conseguir trabalhar vrias 
horas no seu estdio, manter a casa impecvel e esperar os filhos com bolachas. 
Agora mal se levantava um bocadinho e andava s voltas pelos quartos com um ar 
perplexo, como se no reconhecesse o ambiente, consumida, com os olhos fundos e 
rodeados de sombras. Os seus quadros, que antes
pareciam verdadeiras exploses de cor, permaneciam agora esq cidos nos cavaletes 
e as tintas de leo secavam nos tubos. Lisa C parecia ter encolhido, era apenas 
um fantasma silencioso.
Alex j no tinha quem lhe coasse as costas ou o anima quando amanhecia 
sentindo-se um bicho. O pai no era homem mimos. Iam juntos escalar montanhas, 
mas falavam pouco. Al disso, John Cold tinha mudado, como toda a gente na 
famlia, no era a pessoa serena de sempre, irritava-se com frequncia, i apenas 
com os filhos, mas tambm com a mulher. s vezes c surava Lisa aos gritos por 
esta no comer o suficiente ou no tot os medicamentos, mas imediatamente se 
arrependia do seu ai batamento e pedia-lhe perdo, angustiado. Estas cenas 
deixav Alex a tremer: no suportava ver a me sem foras e o pai cote olhos 
cheios de lgrimas.
Ao chegar a casa nesse dia  hora do almoo estranhou vE carrinha do pai, que a 
essa hora estava sempre a trabalhar na nica. Entrou pela porta da cozinha, que 
estava sempre destranca com a inteno de comer alguma coisa, ir buscar a flauta 
e sair 4 parado de regresso  escola. Deu uma vista de olhos em volta e apenas 
os restos fossilizados da pizza da noite anterior. Resign a passar fome, 
dirigiu-se ao frigorifico  procura de um copo de te. Nesse instante ouviu'o 
choro. Ao princpio pensou que eran gatinhos de Nicole na garagem, mas 
imediatamente se aperce de que o rudo vinha do quarto dos pais. Sem coragem 
para esf de uma forma quase automtica, aproximou-se e empurrou sua mente a 
porta entreaberta. O que viu deixou-o paralisado.
A sua me estava a. meio do quarto em camisa de noite e c cala, sentada num 
banco, com a cara entre as mos, chorar O pai, de p atrs dela, pipunhava uma 
antiga navalha de 1 bear, que pertencera o v. Longas madeixas de cabelo p~ 
cobriam o cho e os ombros frgeis da sua me, enquanto o seu nio careca 
brilhava como mrmore na luz plida que se filtrava janela.
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
O rapaz permaneceu por alguns segundos gelado de estupor, sem compreender a 
cena, sem saber o que significava o cabelo pelo cho, a cabea barbeada ou 
aquela navalha na mo do seu pai, brilhando a escassos milmetros do pescoo 
inclinado da sua me. Quando conseguiu reagir, um grito terrvel subiu-lhe desde 
os ps e uma vaga de loucura sacudiu-o por completo. Lanou-se contra John Cold, 
atirando-o ao cho com um empurro. A navalha fez um arco no ar, passou a roar-
lhe a testa e espetou-se no cho. A me comeou a cham-lo, puxando-lhe pela 
roupa para o separar, enquanto ele distribua pancadas s cegas, sem ver onde 
caam.
- Est tudo bem, filho, no aconteceu nada - suplicava Lisa Cold agarrando-o com 
as suas escassas foras, enquanto o pai protegia a cabea com os braos.
Finalmente, a voz da me penetrou-lhe na mente e a sua ira esvaziou-se num 
instante, dando lugar  perplexidade e ao horror pelo que tinha feito.-Ps-se de 
p e retrocedeu cambaleando. Depois desatou a correr e fechou-se no quarto. 
Arrastou a sua secretria e trancou a porta, tapando os ouvidos para no ouvir 
os pais chamando-o. Permaneceu durante muito tempo apoiado contra a parede, com 
os olhos fechados, tentando controlar o furaco de sentimentos que o sacudia at 
aos ossos. A seguir dedicou-se a destruir sistematicamente tudo o que havia no 
quarto. Tirou os cartazes das paredes e rasgou-os um por um; agarrou no seu taco 
de basebol e arremeteu contra os quadros e vdeos; esmagou a sua coleco de 
carros antigos e de avies da Primeira Guerra Mundial; arrancou as pginas dos 
seus livros; esventrou com o seu canivete suo o colcho e as almofadas; cortou 
 tesourada a sua roupa e os cobertores e por fim pontapeou o candeeiro at o 
deixar em fanicos. Levou a cabo esta destruio sem pressa, metodicamente, em 
silncio, como quem efectua uma tarefa fundamental e s se deteve quando as 
foras o abandonaram e no havia mais nada para partir. O cho ficou coberto de 
penas e do recheio do colcho, de vidros, papis, trapos e pedaos de 
brinquedos. Devastado pelas
emoes e pelo esforo, deitou-se a meio daquele naufrgio, colhido como um 
caracol, com a cabea nos joelhos e chorou adormecer.
Alexander Cold acordou horas mais tarde com as vozes das ss irms e demorou 
alguns instantes a lembrar-se do que acontece Quis acender a luz, mas o 
candeeiro estava destrudo. Aproxime -se da porta s apalpadelas, tropeou e 
blasfemou ao sentir qu sua mo caa em cima de um pedao de vidro. No se 
lembrava ter deslocado a secretria e teve de empurr-la com todo o coe para 
conseguir abrir a porta. A luz do corredor iluminou o cair de batalha em que o 
seu quarto se tinha convertido e as caras sombradas das suas irms no umbral.
- Ests a mudar a decorao do teu quarto, Alex? - tro5 Andrea, enquanto Nicole 
tapava a cara para esconder o riso.
Alex fechou-lhes a porta no nariz e sentou-se no cho a p sar, comprimindo o 
golpe da mo com os dedos. A ideia de moi exangue pareceu-lhe tentadora, 
livrava-o pelo menos de ter de frentar os pais depois do que tinha feito, mas 
imediatamente mu< de opinio. Tinha de lavar a ferida antes que esta infectasse, 
df diu. Alm disso, j comeava a doer-lhe, devia ser um corte p fundo, podia 
provocar-lhe o ttano... Saiu com um passo vacilai s apalpadelas porque mal 
conseguia ver; os culos tinham-se 1 dido no desastre e tinha os olhos inchados 
de chorar. Espreito cozinha, onde estava o resto da famlia, incluindo a sua 
me, c um leno de algodo amarrado  cabea, que lhe dava o aspectc uma 
refugiada.
- Peo desculpa...	balbuciou Alex com os olhos cra dos no cho.	' ,
Lisa conteve uma exclamao ao ver a camisola do filho m chada de sangue, mas 
quando o marido lhe fez um sinal, agar nas duas midas pelos braos e levou-as 
sem dizer uma pala` John Cold aproximou-se de Alex para examinar a ferida da m
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
- No sei o que me deu, pap... - murmurou o rapaz, sem se atrever a erguer os 
olhos.
- Eu tambm tenho medo, filho.
- A mam vai morrer? - perguntou Alex com um fio de voz. - No sei, Alexander. 
Pe a mo debaixo do jorro de gua fria - ordenou-lhe o pai.
John Cold lavou o sangue, examinou o corte e decidiu injectar um anestsico para 
tirar os vidros e dar alguns pontos. Alex, que a vista de sangue costumava 
debilitar, desta vez suportou o tratamento sem um nico gesto, contente por ter 
um mdico na famlia. O pai aplicou-lhe uma pomada desinfectante e ligou-lhe a 
mo.
- De qualquer forma o cabelo da mam ia cair, no  verdade? - perguntou o 
rapaz.
- Sim, devido  quimioterapia.  prefervel cort-lo de uma vez que v-lo cair 
aos punhados. Isso  o menos, filho, voltar a crescer-lhe. Senta-te, temos de 
conversar.
- Desculpa-me, pap... Vou trabalhar para repor tudo o que parti.
- Est bem, suponho que precisavas de desabafar. No falemos mais disso, tenho 
coisas mais importantes a dizer-te. Terei de levar Lisa a um hospital do Texas, 
onde lhe faro um tratamento longo e complicado.  o nico stio onde podem 
faz-lo.
- E com isso curar-se-? - perguntou o rapaz, ansiosamente.
-Assim o espero, Alexander. Irei com ela, evidentemente. Ser preciso fecharmos 
a casa durante algum tempo.
- E o que nos acontecer, s minhas irms e a mim?
- Andrea e Nicole vo viver com a av Carla. Tu irs para junto da minha me - 
explicou-lhe o pai.
- Kate? No quero ir para l, pap! Por que no posso ir com
as minhas irms? A av Carla pelo menos sabe cozinhar...
- Trs crianas so muito trabalho para a minha sogra.
- Tenho quinze anos, pap, idade de sobra para que ao menos
peas a minha opinio. No  justo mandares-me para junto de Kate
como se eu fosse uma encomenda.  sempre a mesma coisa, tomas as decises e eu 
tenho de aceit-las. J no sou uma cria a! - alegou Alex, furioso.
- s vezes ages como tal - replicou John Cold apontam para o corte na mo.
- Foi um acidente, pode acontecer a qualquer pessoa. Port -me bem em casa de 
Carla, prometo-te.
- Sei que as tuas intenes so boas, filho, mas s vezes pf des a cabea.
- J te disse que ia pagar o que parti! - gritou Alexand dando um murro na mesa.
- Ests a ver como perdes o controlo? De qualquer forma, A xander, isto no tem 
nada a ver com a destruio do teu quarto. estava combinado com a minha sogra e 
com a minha me. Os ti tero de ir para junto das avs, no h outra soluo. Tu 
viajai para Nova Iorque dentro de alguns dias - disse-lhe o pai.
- Sozinho?
- Sozinho. Receio que de agora em diante ters de fazer mi tas coisas sozinho. 
Levas o teu passaporte, porque creio que v, iniciar uma aventura com a minha 
me.
- Onde?
- No Amazonas...
- No Amazonas?! - exclamou Alex aterrorizado - Vi i: documentrio sobre o 
Amazonas, esse stio est cheio de mosgi tos, jacars e bandidos! Tm todo o 
tipo de doenas, at lepra!
- Suponho que a minha me sabe o que faz, no te levaria p, um stio onde a tua 
vida corresse perigo, Alexander.
- Kate  capaz de me empurrar para um rio infestado de pii nhas, pap. Com uih 
av como a minha, no preciso de inimig -balbuciou o rapaz;	1
- Sinto muito, mas ters de ir de qualquer forma, filho.
- E a escola? Estamos em poca de exames. Alm disso, n posso abandonar a 
orquestra de um dia para o outro...
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ISABEL ALLENDE	A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
- Temos de ser flexveis, Alexander. A nossa famlia est a	lhe corriam 
pelas faces. Parecia diminuda, vulnervel e be:
passar por uma crise. Sabes quais so os caracteres chineses para	apesar de 
tudo. O rapaz entrou no avio pensando nela e na pos
escrever crise? Perigo + oportunidade. Talvez o perigo da doena	bilidade 
aterradora de perd-la. No! No posso encarar essa pc
de Lisa te oferea uma oportunidade extraordinria. Vai emalar as
	sibilidade, tenho de ter pensamentos positivos, a minha m
tuas coisas.	curar-se-, murmurou vezes sem conta durante a longa viagei
- Vou emalar o qu? No  muito o que tenho - resmungou Alex, ainda aborrecido 
com o pai.
- Ento ters de levar pouca coisa. Agora vai dar um beijo  tua me, que est 
muito agitada com o que se est a passar. Para Lisa  muito mais duro que para 
qualquer um de ns, Alexander. Temos de ser fortes, tal como ela - disse John 
Cold tristemente.
At h alguns meses atrs, Alex tinha sido feliz. Nunca teve grande curiosidade 
em explorar para alm dos limites seguros da sua existncia. Achava que, se no 
fizesse asneiras, tudo lhe correria bem. Tinha planos simples para o futuro, 
pensava tomar-se um msico famoso, como o seu av Joseph Cold, casar-se com 
Cecilia Burns, no caso de ela o aceitar, ter dois filhos e viver perto das 
montanhas. Estava satisfeito com a sua vida, era um bom estudante e um bom 
desportista, embora no fosse excelente, era amistoso e no se metia em 
problemas graves. Considerava-se uma pessoa bastante normal, pelo menos em 
comparao com as aberraes da Natureza que havia neste mundo, como aqueles 
rapazes que entraram numa escola do Colorado de metralhadoras na mo, 
massacrando os colegas. No era preciso ir to longe, na sua prpria escola 
havia alguns tipos repelentes. No, ele no era desses. A verdade  que a nica 
coisa que desejava era voltar  vida que tinha h alguns meses, quando a sua me 
ainda estava saudvel. No queria ir para o Amazonas com Kate Cold. Aquela av 
inspirava-lhe um pouco de medo.
Dois dias mais tarde, Alex despediu-se do lugar onde tinham decorrido os quinze 
anos da sua existncia. Levou consigo a imagem da sua me  porta de casa, com 
um gorro cobrindo a cabea barbeada, sorrindo e acenando-lhe com a mo, enquanto 
as lgrimas
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CAPTULO 2
Uma av excntrica


Alexander Cold estava no aeroporto de Nova Iorque a me de uma multido apressada 
que passava ao seu lado arrastar malas e embrulhos, empurrando, atropelando. 
Pareciam autm tos, metade deles com um telemvel colado ao ouvido e falam para 
o ar, como dementes. Estava sozinho, com a sua mochila costas e uma nota 
enrugada na mo. Levava outras trs dobrad e metidas nas botas. O pai 
aconselhara-lhe cautela porque n quela cidade enorme as coisas no eram como na 
pequena povo o da costa californiana onde viviam e onde nunca acontec nada. Os 
trs midos Cold tinham crescido brincando na rua ce outras crianas, conheciam 
toda a gente e entravam nas casas d seus vizinhos como na sua prpria casa.
O rapaz tinha viajado seis horas, atravessando o continer de um extremo ao 
outro, sentado ao p de um gordo suado, cl; gordura transbordava o assento, 
reduzindo o seu espao a mel de. A toda a hora o homem agachava-se com 
dificuldade, deita a mo a um saco de mantimentos e punha-se a mastigar algur 
guloseima, sem o deixar dormir ou ver o filme em paz. Alex ia mi to cansado, 
contando as horas que faltavam para terminar aque suplcio, at aterrarem 
finamente e poder esticar as pernas. Df ceu do avio aliviado, procurando a av 
com o olhar, mas no viu  porta, como esperava.
Uma hora mais tarde Kate Cold ainda no tinha aparecido Alex comeava a 
angustiar-se seriamente. Pedira para a chamara

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
duas vezes pelos microfones, sem obter resposta e agora teria de trocar a sua 
nota por moedas para usar o telefone. Felicitou-se pela sua boa memria. 
Conseguia lembrar-se do nmero sem vacilar, tal como se lembrava da direco sem 
nunca l ter estado, devido apenas aos postais que ela enviava de vez em quando. 
O telefone da av tocou em vo, enquanto ele, mentalmente, fazia fora para que 
ela o atendesse. O que fao agora? - murmurou, perplexo. Lembrou-se de fazer um 
telefonema de longa distncia para o pai pedindo-lhe instrues, mas isso podia 
custar-lhe todas as moedas. Por outro lado, no quis portar-se como um fedelho. 
O que podia fazer o pai de to longe? No, decidiu, no podia perder a cabea s 
porque a sua av se atrasara um pouco. Talvez estivesse presa no trnsito, ou 
andasse s voltas no aeroporto  sua procura, cruzando-se sem se verem.
Passou outra meia hora e nessa altura j sentia tanta raiva contra Kate Cold 
que, se a tivesse pela frente, certamente a teria insultado. Lembrou-se das 
partidas violentas que ela lhe fizera durante anos, como a caixa de chocolates 
recheados com molho picante que lhe mandou num aniversrio. Nenhuma av normal 
se daria ao trabalho de tirar o contedo de cada bombom com uma seringa, 
substituindo-o por tabasco, embrulhar os chocolates em papel prateado e coloc-
los novamente na caixa, s para troar dos netos.
Lembrou-se tambm das histrias de terror com que os atemorizava quando ia 
visit-los e como insistia em cont-las com a luz apagada. Agora essas histrias 
j no pareciam to reais, mas na infncia quase o tinham matado de medo. As 
suas irms ainda tinham pesadelos com os vampiros e os zombies sados das suas 
tumbas que aquela av malvada invocava na escurido. No entanto, no podia negar 
que eram viciados naquelas histrias truculentas. Tambm no se cansavam de a 
ouvir falar dos perigos, reais ou imaginrios, que ela tinha enfrentado nas suas 
viagens pelo mundo. A histria preferida era a de uma cobra pito de oito metros 
de comprimento que, na Malsia, tinha engolido a sua mquina fotogrfica.
-  uma pena no te ter engolido a ti, av - comentou Ale a primeira vez que 
ouviu a histria, mas ela no se ofendeu. Es& mesma mulher ensinara-o a nadar em 
menos de cinco minuto empurrando-o para uma piscina quando tinha quatro anos. 
Saiu nadar pelo outro lado, por puro desespero, mas podia ter-se afc gado. Com 
razo Lisa Cold ficava bastante nervosa quando a soga os vinha visitar: era 
obrigada a duplicar a vigilncia para prese var a sade das crianas.
Depois de uma hora e meia de espera no aeroporto, Alex j n sabia o que fazer. 
Imaginou como Kate Cold gozaria ao v-lo t angustiado e decidiu no lhe dar 
essa satisfao. Tinha de ag como um homem. Vestiu o casaco, endireitou a 
mochila nos on bros e saiu para a rua. O contraste entre o aquecimento, o bulci 
e a luz branca dentro do edificio, e o frio, o silncio e a escurid da noite l 
fora, quase o deitou abaixo. No fazia ideia de que Inverno em Nova Iorque fosse 
to desagradvel. Havia um cheil a gasolina, neve suja sobre o passeio e um 
ventinho gelado que fu; tigava a cara como se fossem agulhas. Apercebeu-se de 
que, coi a emoo das despedidas  famlia, se esquecera das luvas e d gorro, 
que nunca tinha, oportunidade de usar na Califrnia e qu guardava num ba na 
garagem, com o restante equipamento d esqui. Sentiu a ferida na mo esquerda, 
que at essa altura no incomodara, comear a latejar e calculou que deveria 
mudar a l gadura mal chegasse a casa da av. No suspeitava a que disti cia 
estava do seu apartamento nem quanto custaria uma corrida d txi. Precisava de 
um mapa, mas no sabia onde adquiri-lo. Com orelhas geladas e as mos metidas 
nos bolsos, ps-se a andar ai  paragem de autocarros. .
- Ol, ests szinho? - perguntou uma rapariga, aproa mando-se.	{
A rapariga levava uma carteira de lona ao ombro, um chap enfiado at s 
sobrancelhas, as unhas pintadas de azul e uma ai gola de prata atravessada no 
nariz. Alex ficou a olhar para ela m~ ravilhado. Era quase to bonita como o seu 
amor secreto, Cecili
24
2

ISABEL ALLENDE

Burns, apesar das suas calas esfarrapadas, das suas botas de soldado e do seu 
aspecto bastante sujo e famlico. Como nica proteco vestia um casaco curto 
de pele artificial cor de laranja, que mal lhe tapava a cintura. No calava 
luvas. Alex balbuciou uma resposta vaga. O pai avisara-o para no falar com 
estranhos, mas essa rapariga no podia representar qualquer perigo, era apenas 
alguns anos mais velha, quase to magra e baixa como a sua me. Na verdade, ao 
seu lado Alex sentiu-se forte.
- Para onde vais? - insistiu a desconhecida acendendo um cigarro.
- Para casa da minha av, que vive na Rua Catorze com a Segunda Avenida. Sabes 
como posso chegar at l? - inquiriu Alex.
- Claro, eu vou para os mesmos lados. Podemos apanhar o autocarro. Sou Morgana - 
apresentou-se a jovem.
- Nunca tinha ouvido esse nome - comentou Alex.
- Eu mesma o escolhi. A parva da minha me ps-me um nome to vulgar como ela. E 
tu, como te chamas? - perguntou, expelindo o fumo pelas narinas.
- Alexander Cold. Chamam-me Alex - replicou, um pouco escandalizado por ouvi-la 
referir-se  famlia naqueles termos.
Esperaram na rua, batendo com os ps no cho coberto de neve para os aquecerem, 
durante uns dez minutos, que Morgana aproveitou para lhe oferecer um resumo 
sucinto da sua vida: h anos que no ia  escola - isso era para os estpidos - 
e fugira de casa porque no suportava o padrasto, que era um porco imundo.
- Vou entrar para uma banda rock,  esse o meu sonho - acrescentou. - A nica 
coisa de que preciso  de uma guitarra elctrica. O que  essa caixa que tens 
amarrada  mochila?
- Uma flauta.
- Elctrica?
- No, a pilhas - troou Alex.
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Justamente quando as suas orelhas se estavam a transformar e cubinhos de gelo, 
apareceu o autocarro e subiram ambos. O rap pagou a sua passagem e recebeu o 
troco, enquanto Morgana revi tava um bolso do seu casaco cor de laranja, e 
depois outro.
- A minha carteira! Acho que ma roubaram... - gaguejo
- Tenho muita pena, menina. Tens de descer - ordenou-11 o motorista.
- No tenho culpa de me terem roubado! - exclamou e quase a gritar, perante a 
perplexidade de Alex, que sentia horr em chamar a ateno.
- Eu tambm no tenho culpa. Vai  polcia - replicou sec mente o motorista.
A jovem abriu a sua carteira de lona e despejou todo o co tedo no corredor do 
veculo: roupa, cosmticos, batatas fritas, v rias caixas e pacotes de diversos 
tamanhos e uns sapatos de sal alto que pareciam pertencer a outra pessoa, porque 
era dificil im gin-la com eles. Revistou cada pea de roupa com uma lentidi 
espantosa, dando voltas  roupa, abrindo cada uma das caixas e ca um dos 
pacotes, sacudindo a roupa interior  vista de toda a gene Alex desviou os 
olhos, cada vez mais embaraado. No queria qi as pessoas pensassem que ele e 
aquela rapariga estavam juntos,
- No posso esperai toda a noite, menina. Tens de descer - repetiu o motorista, 
desta vez num tom de voz ameaador. Morg na ignorou-o. Nessa altura j tinha 
despido o casaco cor de larar e estava a examinar o forro, enquanto os 
restantes passageiros, autocarro comeavam a reclamar pelo atraso em partirem.
- Empresta-me alguma coisa! - acabou por exigir, dirigi do-se a Alex.
O rapaz sentiu,derretertse o gelo das suas orelhas e calcule que estavam a ficar 
vermelhas, como sempre lhe acontecia nos m mentos culminantes. Eram a sua cruz, 
essas orelhas que sempre traam, sobretudo quando estava diante de Cecilia 
Burns, a rapa ga por quem estava apaixonado desde o jardim-escola sem a mI
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE

ISABEL ALLENDE

pequena esperana de ser correspondido. Alex tinha concludo que no havia 
qualquer razo para Cecilia reparar nele, podendo escolher entre os melhores 
atletas da escola. Ele em nada se distinguia. Os seus nicos talentos eram 
escalar montanhas e tocar flauta, mas nenhuma rapariga com dois dedos de testa 
se interessava por montes ou flautas. Estava condenado a am-la em silncio pelo 
resto da sua vida, a menos que acontecesse um milagre.
- Empresta-me para a passagem - repetiu Morgana.
Em circunstncias normais, Alex no se importava de perder o seu dinheiro, mas 
nesse momento no estava em condies de armar em generoso. Por outro lado, 
decidiu, nenhum homem podia abandonar uma mulher naquela situao. Tinha 
precisamente o suficiente para no ter de recorrer s notas dobradas que tinha 
nas botas. Pagou a segunda passagem. Morgana enviou-lhe um beijo trocista com a 
ponta dos dedos, mostrou a lngua ao motorista, que olhava para ela indignado, 
apanhou rapidamente as suas coisas e seguiu Alex at  ltima fila do veculo, 
onde se sentaram juntos.
Salvaste-me o coiro. Assim que puder, pago-te - garantiu-lhe.
Alex no respondeu. Tinha um princpio: se emprestas dinheiro a uma pessoa que 
no voltas a ver,  dinheiro bem gasto. Morgana provocava-lhe uma mistura de 
fascnio e de rejeio, era totalmente diferente de qualquer uma das raparigas 
da sua povoao, mesmo das mais atrevidas. Para evitar olhar para ela de boca 
aberta, como um tolo, fez a maior parte da longa viagem em silncio, com os 
olhos fixos no vidro escuro da janela, onde Morgana se reflectia e tambm o seu 
prprio rosto magro, com culos redondos e o cabelo escuro, como o da me. 
Quando poderia comear a barbear-se? No se desenvolvera como vrios dos seus 
amigos, ainda era um mido imberbe, um dos mais baixos da sua turma. At Cecilia 
Burras era mais alta do que ele. A sua nica vantagem era que, ao contrrio de 
outros adolescentes da sua escola, tinha uma boa pele, porque, assim que lhe 
aparecia uma espinha, o pai o injectava com
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cortisona. A me garantia-lhe que no se preocupasse, alguns cre cem mais cedo e 
outros mais tarde, na famlia Cold todos os homs~ eram altos. Mas ele sabia que 
a herana gentica era capricho e que bem podia sair  famlia da sua me. Lisa 
Cold era baix mesmo para uma mulher, vista detrs parecia uma miudinha de c 
torze anos, sobretudo desde que a doena a reduzira a um simpt esqueleto. Ao 
pensar nela sentiu que o peito se lhe apertava e q1 lhe faltava o ar, como se um 
punho gigantesco o tivesse atingido I pescoo.
Morgana tinha tirado o seu casaco de pele cor de laranja. P baixo levava uma 
camisola de manga curta de renda preta que 11 deixava a barriga  mostra e um 
colar de couro com pregos met licos, como de um co bravio.
- Morro por um cigarro - disse.
Alex apontou para o aviso que proibia fumar no autocarro. E deu uma vista de 
olhos em redor. Ningum lhes prestava aten Havia vrios assentos vazios  
volta deles e outros passageiros lia ou dormitavam. Verificando que ningum 
reparava neles, meteu mo na blusa e tirou do peito uma bolsinha nojenta. Deu-
lhe u!I pequena cotovelada abanando a bolsa diante do nariz dele.
- Erva - murmurou.
Alexander Cold*recusou abanando a cabea. No se consid rava um puritano, nem 
nada que se parecesse, tinha experimentas algumas vezes, como quase todos os 
seus colegas do secundri marijuana e lcool mas no conseguia compreender a sua 
atra o, excepto pelo facto de serem proibidos. No gostava de perd o controlo. 
Escalando montanhas tomara o gosto pela exaltao ter o controlo do corpo e do 
esprito. Regressava esgotado, doris e esfomeado dessas pxcursps com o pai, mas 
absolutamente feli cheio de energia, orgulhoso por ter vencido mais uma vez os 
se temores e os obstculos da montanha. Sentia-se electrizado, pod roso, quase 
invencvel. Nessas ocasies o pai dava-lhe uma palma. amistosa nas costas, em 
jeito de prmio pela proeza, mas no diz
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
nada para no lhe alimentar a vaidade. John Cold no era amigo de lisonjas, dava 
muito trabalho conseguir arrancar uma palavra de elogio da sua parte, mas o 
filho no esperava ouvi-la, bastava-lhe essa palmada viril.
Imitando o pai, Alex tinha aprendido a cumprir com as suas obrigaes o melhor 
possvel, sem se convencer de nada, mas secretamente gabava-se de trs virtudes 
que considerava suas: coragem para escalar montanhas, talento para tocar flauta 
e clareza para pensar. Era mais dificil reconhecer os seus defeitos, embora se 
apercebesse de que havia pelo menos dois que devia tentar melhorar, tal como a 
sua me lhe fizera notar mais que uma vez: o seu cepticismo, que o fazia duvidar 
de quase tudo e o seu mau feitio, que o fazia explodir nas alturas menos 
convenientes. Isto era uma situao nova, porque h apenas alguns meses era 
confiante e andava sempre de bom humor. A sua me garantia que eram coisas da 
idade e que lhe passariam, mas ele no tinha a mesma certeza dela. De qualquer 
forma, no lhe atraa o oferecimento de Morgana. Nas ocasies em que 
experimentara drogas no sentira ter voado at ao paraso, como diziam alguns 
dos seus amigos. Sentira apenas que a cabea se enchia de fumo e que ficava sem 
fora nas pernas. Para ele no havia maior estmulo que estar suspenso de uma 
corda a cem metros de altura, sabendo exactamente qual era o passo que devia dar 
a seguir. No, as drogas no eram para ele. O cigarro tambm no, porque 
precisava de pulmes sos para escalar e tocar flauta. No conseguiu evitar um 
breve sorriso ao recordar o mtodo utilizado pela sua av Kate para cortar pela 
raiz a sua tentao do tabaco. Ele tinha onze anos nessa altura e, apesar do pai 
j lhe ter feito um sermo sobre o cancro do pulmo e as outras consequncias da 
nicotina, costumava fumar s escondidas com os amigos atrs do ginsio. Kate 
Cold veio passar o Natal com eles e, com o seu nariz de co de caa, no demorou 
muito a descobrir o cheiro, apesar da pastilha elstica e da gua-de-colnia com 
que ele tentava dissimul-lo.
- Fumando to novo, Alexander? - perguntou-lhe de mu to bom humor. Ele tentou 
neg-lo, mas ela no lhe deu tempo - Acompanha-me, vamos dar um passeio - disse.
O rapaz entrou no carro, colocou o cinto de segurana be apertado e murmurou 
entre dentes um esconjuro de boa sorte, pa que a av era uma terrorista ao 
volante. Com a desculpa de qu em Nova Iorque, ningum tinha carro, conduzia como 
se a pers guissem. Levou-o entre estertores e travagens at ao supermercad onde 
comprou quatro grandes charutos de tabaco preto. Levou depois at uma rua 
tranquila, estacionou longe de olhares indiscr tos e tratou de acender um puro 
para cada um. Fumaram e fumara com as portas e as janelas fechadas at o fumo os 
impedir de v atravs das janelas. Alex sentia a cabea andar  roda e o estm go 
a subir e a descer. Subitamente no aguentou mais, abriu a por e deixou-se cair 
na rua como um saco, doente at  alma. A a` esperou, a sorrir, que esvaziasse o 
estmago, sem se oferecer pa lhe segurar a testa ou consol-lo, como teria feito 
a sua me, e d pois acendeu outro charuto e entregou-lho.
- Vamos, Alexander, prova-me que s um homem e fun outro - desafiou-o, o mais 
divertida possvel.
Durante os dois dias seguintes o rapaz teve de ficar na cam verde como uma 
lagartixa e convencido de que as nuseas e a d de cabea iam mat-lo. O pai 
julgou que era um vrus e a me de confiou imediatamente da sogra, mas no se 
atreveu a acusdirectamente de envenenar o neto. Desde essa altura, o hbito c 
fumar, que tanto xito tinha entre alguns dos seus amigos, revc via-lhe o 
estmago.
- Esta erva  do melhor que h - insistiu Morgana, apo tando para o contejidt da 
sua bolsinha. - Tambm tenho isto, preferires - acrescentou, Mostrando-lhe duas 
pastilhas branc, na palma da mo.
Alex voltou a fixar os olhos na janela do autocarro, sem re ponder. Sabia por 
experincia que era melhor calar-se ou mudar i
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ISABEL ALLENDE
assunto. Qualquer coisa que dissesse ia parecer estpida e a rapariga pensaria 
que era um fedelho ou que tinha ideias religiosas fundamentalistas. Morgana 
encolheu os ombros e guardou os seus tesouros  espera de uma ocasio mais 
apropriada. Estavam a chegar ao terminal de autocarros, em pleno centro da 
cidade e tinham de descer.
A essa hora ainda no diminura nem o trfego nem a quantidade de gente nas ruas 
e, embora os escritrios e o comrcio j estivessem fechados, havia bares, 
teatros, cafs e restaurantes abertos. Alex cruzava-se com as pessoas sem lhes 
ver o rosto, via apenas as suas figuras envoltas em sobretudos escuros, 
caminhando depressa. Viu alguns vultos deitados pelo cho junto de alguns 
gradeamentos nos passeios, por onde saam colunas de vapor. Compreendeu que eram 
vagabundos dormindo acocorados junto das sadas de aquecimento dos edificios, 
nica fonte de calor na noite invernosa.
As duras luzes de non e os faris dos automveis davam s ruas molhadas e sujas 
um aspecto irreal. Pelas esquinas havia montes de sacos pretos, alguns rotos e 
com o lixo derramado. Uma mendiga envolta num casaco esfarrapado esgaravatava os 
sacos com um pau, recitando uma eterna litania num idioma inventado. Alex teve 
de saltar para um lado tentando evitar uma ratazana com a cauda mordidaa e 
sangrenta que estava a meio do passeio e no se mexera quando passaram. As 
buzinadelas do trfego, as sirenes da polcia e, de vez em quando, o ulular de 
uma ambulncia, cortavam o ar. Um homem jovem, muito alto e grotesco, passou 
gritando que o mundo ia acabar e colocou-lhe na mo uma folha de papel enrugada, 
na qual aparecia uma loura de lbios grossos meio despida que oferecia 
massagens. Algum com patins e auscultadores nos ouvidos atropelou-o, atirando-o 
contra a parede.
- Olha por onde andas, imbecil! - gritou o agressor.
Alexander sentiu que a ferida na mo comeava novamente a latejar. Pensou que 
estava mergulhado num pesadelo de fico
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cientfica, numa gigantesca e pavorosa cidade de cimento, a vidro, poluio e 
solido. Foi invadido por uma vaga de nostalg pelo lugar junto ao mar onde tinha 
passado a sua vida. Aquela p~ voao tranquila e aborrecida, de onde to 
frequentemente quise fugir, parecia-lhe agora maravilhosa. Morgana interrompeu c 
seus lgubres pensamentos.
- Estou morta de fome... Podamos comer alguma coisa. - sugeriu:
- J  tarde, tenho de chegar a casa da minha av - de culpou-se.
- Calma, homem, que j te levo at l. Estamos perto, m; calhava-nos bem meter 
alguma coisa na barriga - insistiu ela.
Sem lhe dar oportunidade para recusar, arrastou-o por um br o para o interior 
de um local ruidoso que cheirava a cerveja, a ca: ranoso e a fritos. Atrs de 
um comprido balco de frmica, do empregados asiticos serviam uns pratos 
gordurosos. Morgana in talou-se num tamborete diante do balco e ps-se a 
estudar o men escrito a giz num quadro pregado na parede. Alex compreendeu qt 
teria de pagar a comida e dirigiu-se  casa de banho para tirar notas que trazia 
escondidas nas botas.
As paredes da casa de banho estavam cobertas de palavres de desenhos obscenos, 
no cho havia papis amarrotados e cha cos de gua, que, gotejava das 
canalizaes oxidadas. Entrou nui cubculo, fechou 'a porta com a tranca, 
colocou a mochila no ch e, apesar do asco, teve de sentar-se na sanita para 
tirar as bota tarefa nada fcil naquele espao reduzido e com uma mo ligad 
Pensou nos germes e nas inmeras doenas que se podem apanh, nas casas de banho 
pblicas, como dizia o pai. Tinha de ter cuid do com o seu reduzido capital.
Contou o seu dinheiro com um suspiro. Ele no comeria e e~ perava que Morgana se 
conformasse com um prato barato. Ela n parecia ser das que comem muito. 
Enquanto no estivesse a salvo r apartamento de Kate Cold, aquelas trs notas 
dobradas e voltad<
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI

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a dobrar eram tudo o que possua neste mundo. Representavam a diferena entre a 
salvao e morrer de fome e de frio deitado na rua, como os mendigos que vira h 
apenas uns instantes. Se no desse com a direco da av, podia sempre regressar 
ao aeroporto para passar a noite nalgum canto e regressar a casa no dia 
seguinte, para isso dispunha da passagem de volta. Calou novamente as botas, 
guardou o dinheiro num compartimento da sua mochila e saiu do cubculo. No 
estava mais ningum na casa de banho. Ao passar diante do lavatrio, pousou a 
mochila no cho, endireitou a ligadura da mo esquerda, lavou meticulosamente a 
mo direita com sabo, deitou bastante gua na cara para desanuviar o cansao e 
depois secou-se com papel. Ao inclinar-se para apanhar a mochila apercebeu-se, 
horrorizado, de que tinha desaparecido.
Saiu disparado da casa de banho, com o corao aos pulos. O roubo tinha 
decorrido em menos de um minuto, o ladro no poderia estar longe, apressando-
se, apanh-lo-ia antes de este desaparecer entre a multido das ruas. No local 
estava tudo na mesma, os mesmos empregados suados atrs do balco, os mesmos 
fregueses indiferentes, a mesma comida gordurosa, o mesmo rudo de pratos e de 
msica rock no mximo volume. Ningum reparou na sua agitao, ningum se voltou 
para olhar quando gritou que tinha sido roubado. A nica diferena era Morgana 
j no estar sentada diante do balco, onde a tinha deixado. No havia rasto 
dela.
Alex adivinhou imediatamente quem o seguira discretamente, quem tinha esperado 
no outro lado da porta da casa de banho aguardando a sua oportunidade, quem 
levara a sua mochila num abrir e fechar de olhos. Deu uma palmada na testa. Como 
podia ter sido to inocente! Morgana enganara-o como a um beb, despojando-o de 
tudo excepto da roupa que tinha vestida. Tinha perdido o seu dinheiro, a 
passagem de volta de avio e at a sua preciosa flauta. A nica coisa que lhe 
restava era o passaporte que, por acaso, levava no bolso do casaco. Teve de 
fazer um esforo tremendo, lutando contra a vontade de se pr a chorar como um 
mido.
Quem tem boca, vai a Roma, era um dos axiomas de Ka Cold. O seu trabalho 
obrigava-a a viajar para lugares remoo onde certamente muitas vezes pusera em 
prtica esse ditado. Al era bastante mais tmido, custava-lhe abordar um 
desconheci para averiguar o que quer que fosse, mas no havia outra solu< Assim 
que conseguiu acalmar e recuperar a fala, aproximou-se um homem que mastigava um 
hambrguer e perguntou-lhe cor poderia chegar  esquina da Rua Catorze com a 
Segunda Avenic O tipo encolheu os ombros e no lhe respondeu. Sentindo-se 
sultado, o rapaz corou. Hesitou durante alguns minutos e acab por abordar um dos 
empregados que estava atrs do balco. O r mem indicou, com a faca que tinha na 
mo, uma direco vaga deu-lhe algumas instrues aos gritos por cima do bulcio 
do ri taurante, com uma pronncia to incompreensvel que ele no e tendeu uma 
nica palavra. Decidiu que era uma questo de lgi~ tinha de averiguar para que 
lado ficava a Segunda Avenida e cc tar as ruas. Muito simples. Mas no lhe 
pareceu to simples qua do soube que estava na esquina da Rua Quarenta e Dois 
com a Oita Avenida e calculou o que teria de percorrer com aquele frio glaci 
Agradeceu o seu treino em. escalar montanhas. Se conseguia pa sar seis horas 
trepando dono uma mosca pelas rochas, bem poc andar meia dzia de quarteires em 
terreno plano. Fechou o fec do seu casaco, afundou a cabea nos ombros, meteu as 
mos r bolsos e ps-se a andar.
CAPTULO 3
O Abominvel Homem da Selva
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ISABEL ALLENDE

J passava da meia-noite e comeava a nevar quando o rapaz chegou  rua da av. 
O bairro pareceu-lhe decrpito, sujo e feio, no havia uma rvore em lado nenhum 
e h um bom bocado que no se via vivalma. Pensou que s um desesperado como ele 
podia andar quelas horas pelas ruas perigosas de Nova Iorque. S se livrara de 
um assalto porque nenhum bandido tinha coragem de sair com aquele frio. O 
edificio era uma torre cinzenta a meio de muitas outras torres idnticas, 
rodeada de grades de segurana. Tocou  campainha e, de imediato, a voz rouca de 
Kate Cold perguntou quem se atrevia a incomodar quelas horas da noite. Alex 
pressentiu que ela o esperava embora, evidentemente, jamais o admitisse. Estava 
gelado at aos ossos e nunca na sua vida precisara tanto dos braos de algum 
mas quando, finalmente, a porta do elevador se abriu no dcimo primeiro andar e 
se viu diante da av, estava determinado a no permitir que ela o visse 
fraquejar.
- Ol av - cumprimentou, o mais claramente que conseguiu, devido ao tremor 
constante dos dentes.
- J te disse que no me chames av! - repreendeu-o ela.
- Ol, Kate.
- Chegas bastante tarde, Alexander.
- No combinmos que ias buscar-me ao aeroporto? - replicou ele tentando evitar 
que lhe saltassem as lgrimas.
- No combinmos nada. Se no s capaz de vir do aeroporto  minha casa, muito 
menos sers capaz de vir comigo para a selva - disse Kate Cold. - Tira o casaco 
e as botas, vou preparar-te uma chvena de chocolate e um banho quente, mas que 
conste que s o fao para evitar que tenhas uma pneumonia. Tens de estar 
saudvel para a viagem. No esperes que, de futuro, te mime, entendido?
- Nunca esperei que me mimasses - replicou Alex.
- O que te aconteceu na mo? - perguntou ela ao ver a ligadura empapada.
-  uma longa histria.
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O pequeno apartamento de Kate Cold era escuro, apinhadc catico. Duas das 
janelas - com os vidros imundos - davam pa um ptio interior e a terceira para 
uma parede de azulejos ce umas escadas de incndio. Viu malas, mochilas, pacotes 
e caix atirados pelos cantos, livros, jornais e revistas amontoados p cima das 
mesas. Havia dois crnios humanos trazidos do Tibei arcos e flechas dos pigmeus 
africanos, vasos funerrios do dese to de Atacama, escaravelhos petrificados do 
Egipto e milhares outros objectos. Uma enorme pele de cobra estendia-se ao lon; 
de toda uma parede. Pertencera  famosa pito que tinha engo do a mquina 
fotogrfica na Malsia.
At essa altura, Alex nunca tinha visto a av no seu ambie te natural e teve de 
admitir que agora, ao v-la rodeada das su coisas, parecia muito mais 
interessante. Kate Cold tinha sesser e quatro anos, era magra e musculosa, fibra 
pura e pele curtida pe intemprie. Os seus olhos azuis, que tinham visto meio 
mune eram agudos como punhais. O cabelo grisalho, que ela prpria cc tava  
tesourada sem se olhar ao espelho, espetava-se em todas direces, como se nunca 
o tivesse penteado. Gabava-se dos se dentes, grandes e fortes, capazes de partir 
nozes e destapar g, rafas. Tambm tinha orgulho de nunca ter partido um osso, 
nun ter consultado um mdica' e ter sobrevivido, desde a ataques de n lria at 
a mordeduras de escorpio. Bebia vodka seco e fuma tabaco negro num cachimbo de 
marinheiro. Vestia-se, de Inver e de Vero, com as mesmas calas folgadas e com 
um casaco sc mangas, com bolsos por todos os lados, onde levava o indispen; vel 
para sobreviver em caso de cataclismo. s vezes, quando c preciso vestir-se de 
uma forma mais elegante, tirava o colete e pun um colar de dentes '& urso, 
oferta de um chefe apache.
Lisa, a me de Alek, tinha pnico de Kate, mas as crian aguardavam a sua visita 
com ansiedade. Aquela av extravagar protagonista de aventuras incrveis, 
trazia-lhes notcias de lugar to exticos que tinham dificuldade em imagin-
los. Os trs nel
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
coleccionavam os seus relatos de viagens, que apareciam em diversas revistas e 
jornais, e os postais e fotografias que ela lhes enviava dos quatro pontos 
cardeais. Embora s vezes tivessem vergonha de apresent-la aos seus amigos, no 
fundo sentiam-se orgulhosos por um membro da sua famlia ser quase uma 
celebridade.
Meia hora mais tarde, Alex aquecera com o banho e estava envolto num roupo, com 
meias de l, devorando almndegas de carne com pur de batata, uma das poucas 
coisas que ele comia com agrado e a nica coisa que Kate sabia cozinhar.
- So restos de ontem - disse ela, mas Alex calculou que ela cozinhara 
especialmente para ele. No quis contar-lhe a sua aventura com Morgana, para no 
parecer um imbecil, mas teve de admitir que lhe tinham roubado tudo o que 
trazia.
- Suponho que me vais dizer que aprenda a no confiar em ningum - resmungou o 
rapaz, corando.
- Pelo contrrio. Ia dizer para aprenderes a confiar em ti prprio. J vs, 
Alexander, apesar de tudo conseguiste chegar at ao meu apartamento sem 
problemas.
- Sem problemas? Quase morri congelado pelo caminho! Iriam descobrir o meu 
cadver no degelo da Primavera - replicou ele.
- Uma viagem de muitas milhas comea sempre aos tropees. E o passaporte? - 
inquiriu Kate.
- Salvou-se porque o trazia no bolso.
- Cola-o ao peito com fita-cola porque, se o perderes, ests frito.
- O que mais lamento  a minha flauta - comentou Alex.
- Terei de te dar a flauta do teu av. Pensava guard-la at demonstrares algum 
talento, mas suponho que ficar melhor nas tuas mos que atirada por a - 
ofereceu Kate.
Procurou nos armrios que cobriam as paredes do apartamento, do cho ao tecto, e 
entregou-lhe um estojo poeirento de cabedal preto.
- Toma, Alexander. O teu av usou-a durante quarenta ano Cuida bem dela.
O estojo continha a flauta de Joseph Cold, o mais clebre fia tista do sculo, 
segundo a opinio dos crticos quando morrera
- Era melhor terem-no dito quando o pobre Joseph ainda e vivo - foi o comentrio 
de Kate quando o leu na imprensa. Tinha estado divorciados durante trinta anos 
mas, no seu testamento, J seph Cold deixara metade dos seus bens  sua ex-
mulher, inclui do a sua melhor flauta, que agora o neto tinha nas mos. Alex abi 
com reverncia a velha caixa de couro e acariciou a flauta: e magnfica. 
Agarrou-a com delicadeza e levou-a aos lbios. Ao s prar, as notas saram do 
instrumento com uma beleza tal que f prprio se surpreendeu. Soava de uma forma 
muito diferente da fia ta que Morgana lhe tinha roubado.
Kate Cold deu tempo ao neto para inspeccionar o instrumel e agradecer-lhe 
efusivamente, tal como ela esperava, e de imed to lhe entregou um livreco 
amarelado com as capas soltas: Guia Sade do Viajante Audaz. O rapaz abriu-o ao 
acaso e leu os sin mas de uma doena mortal que se adquire por comer o crebro c 
antepassados.
- No como rgos - disse.
- Nunca se sabe o que pem nas almndegas - replicou a a
Sobressaltado, Alex observou com desconfiana os restos seu prato. Com Kate Cold 
era preciso muita cautela. Era perigo ter um antepassado como ela.
- Amanh ters de te vacinar contra meia dzia de doem tropicais. Deixa-me ver 
essa mo, no podes viajar com uma inf co - ordenou-lhe Kate..i
Examinou-o com brusquido, concluiu que o seu filho Jc tinha feito um bom 
trabalho, despejou-lhe meio frasco de des fectante na ferida, para prevenir, e 
participou-lhe que, no dia guinte, ela prpria lhe tiraria os pontos.  muito 
fcil - disse
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ISABEL ALLENDE
qualquer pessoa pode faz-lo. Alex estremeceu. A av via mal e usava uns culos 
riscados que tinha comprado em segunda mo num mercado da Guatemala. Enquanto 
lhe colocava uma nova ligadura, Kate explicou-lhe que a revista International 
Geographic tinha financiado uma expedio ao corao da selva amaznica, entre o 
Brasil e a Venezuela, em busca de uma criatura gigantesca, possivelmente 
humanide, que fora vista em vrias ocasies. Tinham sido encontradas pegadas 
enormes. Aqueles que tinham estado nas suas proximidades, diziam que aquele 
animal - ou aquele ser humano primitivo - era mais alto do que um urso, tinha 
braos bastante compridos e estava todo coberto por plos pretos. Era o 
equivalente ao abominvel homem das neves dos Himalaias, em plena selva.
- Pode ser um macaco - sugeriu Alex.
- No achas que mais algum ter pensado nessa possibilidade? - cortou a sua 
av.
- Mas no h provas de que, de facto, existe... - aventurou Alex.
- No temos uma certido de nascimento da Besta, Alexander. Ah! Um pormenor 
importante: dizem que expele um odor to penetrante que os animais e as pessoas 
desmaiam ou ficam paralisados na sua presena.
- Se as pessoas desmaiam, ento ningum o viu.
- Exactamente, mas pelas pegadas sabe-se que anda sobre duas patas. E no usa 
sapatos, no caso de esta ser a tua prxima pergunta.
- No, Kate, a minha prxima pergunta  se usa chapu! - explodiu o neto.
- No creio.
-  perigoso?
-No, Alexander.  amabilssimo. No rouba, no rapta crianas e no destri a 
propriedade privada. Mata apenas. F-lo com limpeza, sem rudo, partindo os 
ossos e estripando as suas vtimas com verdadeira elegncia, como um 
profissional - troou a av.
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- Quantas pessoas matou? - inquiriu Alex, cada vez mais quieto.
- No muitas, se considerarmos o excesso de populao planeta.
- Quantas, Kate?
- Vrios garimpeiros, alguns soldados, alguns comercia tes... Enfim, no se sabe 
o nmero exacto.
- Matou ndios? Quantos? - perguntou Alex.
- Na realidade no se sabe. Os ndios s sabem contar at dc Alm disso, para 
eles a morte  relativa. Se julgam que algum 11 roubou a alma, ou andou sobre 
as suas pegadas, ou se apoderou c seus sonhos, por exemplo, isso  pior do que 
estar morto. Pelo c< trrio, algum que est morto pode continuar vivo em 
espirito.
-  complicado - disse Alex, que no acreditava em es ritos.
- Quem te disse que a vida era simples?
Kate Cold explicou-lhe que a expedio era dirigida por i famoso antroplogo, o 
professor Ludovic Leblanc, que tinha pp sado anos investigando as pegadas do 
denominado Yeti ou abor nvel homem das neves, na fronteira entre a China e o 
Tibete, s, o encontrar. Tambm tinha estado com certa tribo do Amazona defendia 
que eram os mais selvagens do planeta: ao primeiro d, cuido, comiam os seus 
prisioneiros. Esta informao no era trn quilizadora, admitiu Kate. Serviria de 
guia um brasileiro chama Csar Santos, que tinha passado a vida nessa regio e 
tinha bc contactos com os ndios. O homem possua uma avioneta m~ desconjuntada 
mas ainda em bom estado, com a qual poderiam temar-se no territrio das tribos 
indgenas.
- Na escola; studamps o Amazonas numa aula de ecolo~ - comentou Alex, qu&j 
sentia os olhos a fechar-se.
- Essa aula  suficiente, no precisas de saber mais nada disse Kate. E 
acrescentou: - Suponho que ests cansado. Po< dormir no sof e amanh cedo 
comeas a trabalhar para mim.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI

ISABEL ALLENDE
- O que devo fazer?
- O que eu te mandar. Por agora, ordeno-te que durmas. - Boa-noite, Kate... - 
murmurou Alex enroscando-se nas almofadas do sof.
- Bah! - grunhiu a av. Esperou que ele adormecesse e tapou-o com algumas 
mantas.
CAPTULO 4
O rio Amazonas
Kate e Alexander Cold estavam num avio comercial soba voando o Norte do Brasil. 
Durante horas e horas tinham visto, ar uma interminvel extenso de floresta, 
toda do mesmo ver intenso, atravessada por rios que corriam como serpentes lun 
nosas. O mais fantstico de todos eles era cor de caf com lei
O rio Amazonas  o mais largo e extenso da Terra, cinco vez mais do que qualquer 
outro. S os astronautas em viagem  L conseguiram v-lo,  distncia, em toda a 
sua extenso, leu Al num roteiro turstico que a av lhe comprara no Rio de 
Janeii No dizia que essa regio imensa, ltimo paraso do planeta, e destruda 
sistematicamente pela cobia de empresrios e ave tureiros, tal como ele 
aprendera na escola. Estavam a constn uma estrada, uma ferida berta em plena 
selva, por onde os coo nos chegavam em massa e saam s toneladas as madeiras e 
minerais.
Kate informou o neto de que subiriam pelo rio Negro at Alto Orenoco, um 
tringulo quase inexplorado onde se conce trava a maior parte das tribos. Da se 
supunha provir a Besta.
- Neste livro diz-se que esses ndios vivem como na Ida da Pedra. Ainda nem 
inventaram a roda - comentou Alex.
- No precisam 'dela. No lhes serve para nada naquele t~ reno, no tm nada 
para transportar e no tm pressa de ir a la nenhum - replicou Kate Cold, que 
no gostava de ser interro:
e
pida quando estava a escrever. Tinha passado uma boa part
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
viagem tomando apontamentos nos seus cadernos, com uma letra minscula e 
emaranhada, como caganitas de mosca.
- No conhecem a escrita - acrescentou Alex.
- Tm, com certeza, boa memria - disse Kate.
- No h manifestaes de arte entre eles, pintam apenas o corpo e enfeitam-se 
com penas - explicou Alex.
- Importa-lhes pouco a posteridade ou sobressair entre os restantes. A maior 
parte dos nossos chamados artistas deveria seguir o seu exemplo - respondeu a 
av.
Iam para Manaus, a cidade mais povoada da regio amaznica, que tinha prosperado 
nos tempos da borracha, no final do sculo xix.
- Vais conhecer a selva mais misteriosa do mundo, Alexander. A h stios onde 
os espritos aparecem em plena luz do dia - explicou Kate.
- Claro, como o abominvel homem da selva que procuramos - disse o neto, 
sorrindo sarcstico.
- Chamam-no a Besta. Talvez no seja s um exemplar, mas vrios, uma famlia ou 
uma tribo de Bestas.
- s muito crdula para a idade que tens, Kate - comentou o rapaz, sem conseguir 
evitar o tom sarcstico ao ver que a av acreditava naquelas histrias.
- Com a idade adquire-se uma certa humildade, Alexander. Quanto mais anos tenho, 
mais ignorante me sinto. S os jovens tm explicaes para tudo. Na tua idade 
pode-se ser arrogante e no importa muito fazer figuras ridculas - replicou 
ela, secamente.


Ao descerem do avio em Manaus, sentiram o clima sobre a pele como uma toalha 
empapada em gua quente. A se reuniram aos restantes membros da expedio da 
International Geographic. Alm de Kate Cold e do neto Alexander, iam Timothy 
Bruce, um fotgrafo ingls com uma longa cara de cavalo e dentes amarelos
de nicotina, com o seu ajudante mexicano, Joel Gonzlez, e o fan so antroplogo 
Ludovic Leblanc. Alex imaginara Leblanc como i sbio de barbas brancas e figura 
imponente, mas acabou por revelar um homenzinho de uns cinquenta anos, baixo, 
magro, n~ voso, com uma permanente expresso de desprezo ou de cruelda nos 
lbios e uns olhos fundos de rato. Ia disfarado de caador feras ao estilo dos 
filmes, desde as armas que levava  cintura, s suas pesadas botas e um chapu 
australiano enfeitado com pe: nhas s cores. Kate comentou entre dentes que a 
Leblanc s 1 faltava um tigre morto para apoiar o p. Durante a sua juventu~ 
Leblanc tinha passado uma curta temporada no Amazonas e esc vera um tratado 
volumoso sobre os ndios, que causou sensao r crculos acadmicos. O guia 
brasileiro, Csar Santos, que devii busc-los a Manaus, no conseguiu chegar 
porque a sua avion~ estava avariada, de forma que os esperaria em Santa Maria de 
Lluvia, para onde o grupo teria de se fazer transportar de barcc
Alex verificou que Manaus, situada na confluncia entre o : Amazonas e o rio 
Negro, era uma cidade grande e moderna, c( edificios altos e um trfego 
opressivo, mas a av esclareceu-o que ali a Natureza era indmita e em tempo de 
inundaes apa ciam jacars e serpentes nos quintais das casas e nos buracos c 
elevadores. Aquela era tmbm uma cidade de traficantes onde lei era frgil e se 
quebrava facilmente: drogas, diamante, ouro, n deiras preciosas, armas. Ainda 
nem h duas semanas tinham di coberto um barco de peixe... e cada peixe ia 
recheado de cocai
Para o rapaz americano, que s sara do seu pas para coni cer a Itlia, terra 
dos antepassados da sua me, foi uma surpn ver o contraste entre a riqueza de 
alguns e a extrema pobreza outros, tudo misturado. Os Famponeses sem terra e os 
trabalhas res sem emprego chegawan em massa procurando novos horizc tes, mas 
muitos acabavam vivendo em choas, sem recursos e si esperana. Nesse dia 
celebrava-se uma festa e a populao am va alegre, como no Carnaval: passavam 
bandas de msica pe
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
ruas, as pessoas danavam e bebiam, muitos estavam mascarados. Hospedaram-se num 
hotel moderno, mas no conseguiram dormir devido ao rudo da msica, dos 
petardos e dos foguetes. No dia seguinte, o professor Leblanc amanheceu de muito 
mau humor pela m noite e exigiu que embarcassem o mais depressa possvel, 
porque no queria passar nem mais um minuto do que o indispensvel naquela 
cidade desavergonhada, como a qualificou.
O grupo da International Geographic subiu o rio Negro, que era dessa cor devido 
aos sedimentos que as suas guas arrastavam, para se dirigirem a Santa Mara de 
Ia Lluvia, uma aldeia em pleno territrio indgena. A embarcao era bastante 
grande, com um motor antigo, ruidoso e fumegante, e um improvisado tecto de 
plstico para se protegerem do sol e da chuva, que caa quente como um duche 
vrias vezes por dia. O barco ia cheio de gente, de volumes, sacos, cachos de 
bananas e de alguns animais domsticos em gaiolas ou simplesmente amarrados 
pelas patas. Dispunham de algumas mesas compridas, de uns bancos corridos para 
se sentarem e de uma srie de redes penduradas em paus, umas por cima das 
outras.
A tripulao e a maior parte dos passageiros eram caboclos, como chamavam s 
pessoas do Amazonas, mistura de vrias raas: branco, ndio e negro. Iam tambm 
alguns soldados, dois jovens americanos - missionrios mrmones - e uma mdica 
venezuelana, Omayra Torres, que pretendia vacinar os ndios. Era uma bela mulata 
de uns trinta e cinco anos, cabelo negro, pele cor de mbar e uns olhos verdes, 
amendoados, de gato. Deslocava-se com graciosidade, como se danasse ao som de 
um ritmo secreto. Os homens seguiam-na com os olhos, mas ela parecia no se 
aperceber da impresso causada pela sua beleza.
- Temos de ir bem preparados - disse Leblanc apontando para as suas armas. 
Falava em geral, mas era evidente que se dirigia apenas  doutora Torres. - 
Encontrar a Besta  o menos. O pior sero os ndios. So guerreiros brutais, 
cruis e traioeiros. Tal
como descrevo no meu livro, matam para provar a sua coragen quantos mais 
assassinatos cometem, mais alto se colocam na h rarquia da tribo.
- Pode explicar isso, professor? - perguntou Kate Cold, sE dissimular o seu tom 
de ironia.
-  muito simples, senhora... como disse que era o seu non
- Kate Cold - esclareceu ela pela terceira ou quarta vez. Al rentemente, o 
professor Leblanc tinha m memria para os non femininos.
- Repito: muito simples. Trata-se da competio mortal q existe na Natureza. Os 
homens mais violentos dominam nas soc dades primitivas. Suponho que j deve ter 
ouvido o termo mac alfa. Entre os lobos, por exemplo, o macho mais agressivo 
conta todos os outros e fica com as melhores fmeas. Entre os humar  a mesma 
coisa: os homens mais violentos mandam, obtm m mulheres e passam os seus genes 
a mais filhos. Os outros tm se conformar com o que sobra, entende?  a 
sobrevivncia do m forte - explicou Leblanc.
- Quer dizer que a brutalidade  que  natural?
- Exactamente. A compaixo  uma inveno moderi A nossa civilizao protege os 
mais fracos, os pobres, os doent Do ponto de vista da gentica isso  um erro 
terrvel. Por issi raa humana est a degenerar-se.
- O que faria o senhor com os fracos desta sociedade, p: fessor? - perguntou 
ela.
- O que a prpria Natureza faz: deixar que peream. Ne; sentido os ndios so 
mais sbios do que ns - replicou Lebla
A doutora Omayra Torres, que ouvira atentamente a cony sa, no conseguiu deixar 
4 dar a sua opinio.
- Com todo o respeito, professor, no me parece que os dios sejam to ferozes 
como o senhor os descreve, pelo contri para eles a guerra  antes de mais 
cerimonial:  um rito de demo: trao de coragem. Pintam o corpo, preparam as 
suas armas, canta
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
danam e partem para uma incurso ao shabono de outra tribo. Ameaam-se e do 
uns aos outros algumas bordoadas, mas raras vezes h mais de um ou dois mortos. 
Na nossa civilizao  ao contrrio: no h cerimnia, s h massacre - disse.
- Vou oferecer-lhe um exemplar do meu livro, menina. Qualquer cientista srio 
lhe dir que Ludovic Leblanc  uma autoridade neste tema... - interrompeu-a o 
professor.
- No sou to sbia como o senhor - disse a doutora Torres, sorrindo. - Sou 
apenas uma mdica rural que trabalhou mais de dez anos por estes lados.
- Acredite em mim, minha cara doutora. Esses ndios so a prova de que o homem 
no  mais do que um macaco assassino - replicou Leblanc.
- E a mulher? - interrompeu Kate Cold.
- Lamento dizer-lhe que as mulheres no contam para nada
nas sociedades primitivas. So apenas despojos de guerra.
A doutora Torres e Kate Cold trocaram um olhar e sorriram
ambas, divertidas.


A parte inicial da viagem pelo rio Negro acabou por ser sobretudo um exerccio 
de pacincia. Avanavam a passo de tartaruga e mal o Sol se punha tinham de 
parar, para evitar chocar com os troncos arrastados pela corrente. O calor era 
intenso, mas ao anoitecer refrescava e, para dormir, era preciso tapar-se com 
uma manta. s vezes, onde o rio era limpo e calmo, aproveitavam para pescar ou 
nadar um pouco. Nos dois primeiros dias cruzaram-se com embarcaes de diversos 
tipos, desde lanchas a motor e casas flutuantes at simples canoas talhadas em 
troncos de rvores, mas depois ficaram ss na imensido daquela paisagem. Aquele 
era um planeta de gua: a vida decorria navegando lentamente, ao ritmo do rio, 
das mars, das chuvas, das inundaes. gua, gua por toda a parte. Havia 
centenas de famlias que nasciam e morriam nas
suas embarcaes, sem terem passado uma noite em terra firme. C tras viviam em 
casas sobre estacas nas margens do rio. O transpo fazia-se pelo rio e a nica 
forma de enviar ou receber mensagE era por rdio. O rapaz americano achava 
incrvel que se pude viver sem telefone. Uma estao de Manaus transmitia 
mensagE pessoais sem interrupo, pondo as pessoas a par das notcias, c seus 
negcios e das suas famlias. Rio acima o dinheiro circuh pouco, havia uma 
economia de troca, trocavam peixe por ac ou gasolina por galinhas, ou servios 
por uma caixa de cerveja
Em ambas as margens do rio a selva erguia-se ameaado As ordens do capito eram 
claras: no se afastar por motivo algo porque no interior do bosque se perde o 
sentido de orientai Sabia-se de estrangeiros que, estando a poucos metros do 
rio, nham morrido desesperados sem o encontrar. Ao amanhecer vi; golfinhos 
rosados saltando a meio da gua e centenas de pssa cruzando os ares. Tambm 
viram manatins, grandes mamfe aquticos, cujas fmeas deram origem  lenda das 
sereias.  no apareciam entre o matagal pontos vermelhos: eram os olhos ( 
jacars espiando na escurido. Um caboclo ensinou Alex a calou o tamanho do 
animal pela distncia entre os olhos. Quando se t tava de um exemplar pequeno, o 
caboclo encadeava-o com u lanterna, depois saltava para a gua e agarrava-o, 
prendendoas mandbulas com uma mo e a cauda com a outra. Se a sepa o entre os 
olhos fosse considervel, evitava-o como  peste
O tempo decorria lentamente, as horas arrastavam-se eteri e, no entanto, Alex 
no se aborrecia. Sentava-se na proa do b a observar a Natureza, a ler e a tocar 
a flauta do av. A selva pa cia animar-se e responder ao som do instrumento; at 
os rudo. tripulantes e passageiros do barco se calavam para o ouvir. Es eram as 
nicas ocasies em que Kate Cold lhe prestava aten A escritora era de poucas 
palavras, passava o dia a ler ou a esc ver nos seus cadernos e em geral 
ignorava-o ou tratava-o com qualquer outro membro da expedio. Era intil 
recorrer a ela p
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
lhe colocar um problema de mera sobrevivncia, como a comida, a sade ou a 
segurana, por exemplo. Ela olhava-o de cima abaixo com evidente desdm e 
respondia-lhe que existem dois tipos de problemas: os que se resolviam por si 
ss e os que no tinham soluo, de forma que no a incomodasse com palermices. 
Felizmente a sua mo tinha sarado rapidamente, seno ela teria sido capaz de 
resolver o assunto sugerindo que a amputassem. Era uma mulher de medidas 
extremas. Emprestara-lhe mapas e livros sobre o Amazonas, para que ele prprio 
tratasse de procurar as informaes que lhe interessavam. Se Alex lhe comentava 
as suas leituras sobre os ndios ou lhe falava das suas teorias sobre a Besta, 
ela replicava sem levantar os olhos da pgina que tinha  frente: nunca percas 
uma boa ocasio de calares a boca, Alexander.
Tudo naquela viagem era to diferente do mundo em que o rapaz se criara que se 
sentia como um visitante de outra galxia. J no dispunha das comodidades que 
antes utilizava sem pensar, como uma cama, banho, gua corrente, electricidade. 
Dedicou-se a tirar fotografias com a mquina fotogrfica da av para levar 
provas, no regresso  Califrnia. Os seus amigos jamais acreditariam que tivera 
nas mos um jacar com quase um metro de comprimento!
O seu problema mais grave era alimentar-se. Fora sempre esquisito para comer e 
agora serviam-lhe coisas que nem sequer sabia como se chamavam. A nica coisa a 
bordo que conseguia identificar era feijo em lata, carne seca salgada e caf, 
nada que lhe apetecesse. Os tripulantes caaram a tiro alguns macacos e nessa 
noite assaram-nos, quando o barco atracou na margem. Mas tinham um aspecto to 
humano que ficou doente s de os ver: pareciam crianas queimadas. Na manh 
seguinte, pescaram uma pirarucu, um peixe enorme cuja carne era deliciosa para 
todos menos para ele, porque se recusou a prov-la. Aos trs anos tinha decidido 
que no gostava de peixe. A me, cansada de batalhar para o obrigar a comer, 
resignara-se desde essa altura a servir-lhe os alimentos de que
ele gostava. No eram muitos. Essa limitao mantinha-o esfome do durante a 
viagem. Dispunha apenas de bananas, de uma lata leite condensado e de vrios 
pacotes de bolachas. A av no pai cia importar-se com a sua fome_ e os outros 
tambm no. Ningu lhe deu importncia.
Vrias vezes por dia caa uma chuva breve e torrencial. Te de se habituar  
humidade permanente, ao facto de a roupa nun secar completamente. Ao pr do Sol, 
atacavam nuvens de m< quitos. Os estrangeiros defendiam-se empapando-se em 
insecticic sobretudo Ludovic Leblanc, que no perdia a oportunidade de re tar o 
rol de doenas transmitidas por insectos, do tifo  malr Tinha amarrado um 
grosso vu em volta do seu chapu austral no para proteger a cara e passava uma 
boa parte do dia refugia sob um mosquiteiro, que fez pendurar na popa do barco. 
Os cab cios, pelo contrrio, pareciam imunes s picadas.


No terceiro dia, durante uma manh radiante, a embarca parou porque havia um 
problema com o motor. Enquanto o cal to tentava consertar a avaria, os 
restantes ficaram sob o tolde descansar. Estava demasiado calor para se mexerem, 
mas Alex c cidiu que era o stio perfeito para se refrescar. Saltou para a gi 
que parecia baixa e calma como um prato de sopa e afundou. como uma pedra.
- S um tonto comprova a profundidade com os ps comentou a av quando ele veio 
 superficie, deitando gua ; pelas orelhas.
O rapaz afastou-se do barco a nadar - tinham-lhe dito que jacars preferiam-as 
margens - e flutuou de costas na gua moi durante muito tempo, cm'os braos e 
as pernas abertas, olhar para o cu e pensando nos astronautas, que conheciam a 
sua ima sido. Sentiu-se to seguro que, quando alguma coisa passou lozmente e 
lhe roou a mo, demorou um pouco a reagir. Sem fa
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE]
ideia do tipo de perigo que o espreitava - talvez os jacars, no fim de contas, 
no se limitassem apenas  margem - comeou a nadar com todas as suas foras de 
volta ao barco, mas deteve-o em seco a voz da av gritando-lhe que no se 
mexesse. Obedeceu-lhe por hbito, apesar de o seu instinto o advertir do 
contrrio. Manteve-se a flutuar o mais imvel possvel e nessa altura viu ao seu 
lado um peixe enorme. Julgou que era um tubaro e o corao parou-lhe, mas o 
peixe deu uma pequena volta e regressou curioso, colocando-se to perto que 
conseguiu ver o seu sorriso. Desta vez o corao deu-lhe um salto e teve de se 
conter para no gritar de alegria. Estava a nadar com um golfinho!
Os vinte minutos seguintes, brincando com ele como fazia com o seu co Poncho, 
foram os mais felizes da sua vida. O magnfico animal circulava  sua volta a 
grande velocidade, saltava-lhe por cima, detinha-se a poucos centmetros da sua 
cara, observando-o com uma expresso simptica. s vezes passava to perto que 
conseguia tocar-lhe na pele, que no era macia como tinha imaginado, mas spera. 
Alex desejava que aquele momento nunca acabasse, estava disposto a ficar para 
sempre no rio, mas de repente o golfinho deu uma rabanada de despedida e 
desapareceu.
- Viste, av? Ningum vai acreditar nisto! - gritou, de volta ao barco, to 
excitado que mal conseguia falar.
-Aqui esto as provas - disse ela a sorrir, apontando para a mquina 
fotogrfica. Os fotgrafos da expedio, Bruce e Gonzlez, tambm tinham captado 
a cena.


 medida que se internavam pelo rio Negro, a vegetao tornava-se mais 
voluptuosa, o ar mais espesso e aromtico, o tempo mais lento e as distncias 
mais incalculveis. Avanavam como num sonho por um territrio alucinante. De 
vez em quando a embarcao ia-se esvaziando, os passageiros, com os seus 
embrulhos e com os seus animais, desciam junto das cabanas ou pequenas
vilrias da margem. Os rdios de bordo j no recebiam as me sagens pessoais de 
Manaus nem atroavam com os ritmos popul res, os homens calavam-se enquanto a 
Natureza vibrava com ura orquestra de pssaros e de macacos. S o rudo do motor 
denu ciava a presena humana na imensa solido da selva. Por fim, qua do 
chegaram a Santa Maria de Ia Lluvia, s restava a tripula o grupo da 
International Geographic, a doutora Omayra Torres dois soldados. E os dois 
jovens mrmones, atacados por algur bactriaa intestinal. Apesar dos 
antibiticos administrados pela m dica, iam to doentes que mal conseguiam abrir 
os olhos e co fundiam frequentemente a selva ardente com as suas montante 
nevadas do Utah.
- Santa Maria de Ia Lluvia  o ltimo enclave da civiliza - disse o capito do 
barco, quando apareceu a vilria num cot velo do rio.
- Daqui para a frente  territrio mgico, Alexander - d: se Kate Cold ao neto.
- Ainda existem ndios que no tiveram qualquer contas com a civilizao? - 
perguntou ele.
- Calcula-se que existam uns dois ou trs mil, mas na rea dade ningum sabe com 
certeza - respondeu a doutora Oma3 Torres.
Santa Maria de Ia Lluvia erguia-se como um erro human meio de uma natureza 
opressiva, que ameaava engoli-la a qu quer momento. Consistia numa vintena de 
casas, num telheiro q fazia as vezes de hotel, noutro mais pequeno onde 
funcionava i hospital mantido por duas freiras, em dois pequenos armazns, nui 
igreja catlica e num quartel do exrcito. Os soldados controlav, a fronteira e 
o trf 6entre a Venezuela e o Brasil. De acordo c< a lei tambm deviam pfoteger 
os indgenas dos abusos dos co nos e aventureiros, mas na prtica no o faziam. 
Os forasteiros ii ocupando a regio sem que ningum os impedisse, empurrara os 
ndios cada vez mais para zonas inexpugnveis ou matando

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
impunemente. No cais de Santa Maria de Ia Liuvia, tinham  sua espera um homem 
alto, com um perfil afiado de pssaro, feies viris e expresso aberta, com a 
pele curtida pela intemprie e um cabelo escuro amarrado num rabo-de-cavalo.
- Bem-vindos. Sou Csar Santos e esta  a minha filha Nadia - apresentou-se.
Alex calculou que a rapariga teria a idade da sua irm Andrea, uns doze ou treze 
anos. Tinha o cabelo crespo e despenteado, desbotado pelo sol, os olhos e a pele 
cor de mel, vestia cales curtos, camisola de manga curta e umas sandlias de 
plstico. Usava vrias tiras coloridas amarradas aos pulsos, uma flor amarela na 
orelha e uma longa pena verde atravessada no lbulo da outra. Alex pensou que, 
se Andrea visse aqueles enfeites, copi-los-ia imediatamente, e que se Nicole, a 
sua irm mais nova, visse o macaquinho preto que a rapariga levava ao ombro, 
morreria de inveja.


Enquanto a doutora Torres, ajudada por duas freiras que foram receb-la, levava 
os missionrios mrmones para o minsculo hospital, Csar Santos dirigiu o 
desembarque dos numerosos pacotes da expedio. Desculpou-se por no ter ido 
esper-los a Manaus, como tinham combinado. Explicou que a sua avioneta tinha 
sobrevoado todo o Amazonas, mas era muito antiga e nas ltimas semanas estavam a 
cair-lhe peas do motor. Uma vez que estivera prestes a despenhar-se, decidiu 
encomendar outro motor, que devia chegar por esses dias e, com um sorriso, 
acrescentou que no podia deixar rf a sua filha Nadia. Depois levou-os ao 
hotel, que acabou por ser uma construo de madeira sobre estacas na margem do 
rio, semelhante s restantes casinhotas desconjuntadas da aldeia. Caixas de 
cerveja amontoavam-se por todo o lado e sobre o balco alinhavam-se garrafas de 
bebidas alcolicas. Durante a viagem, Alex tinha reparado que, apesar do calor, 
os homens bebiam litros e litros de lcool a toda a hora. Aquele edificio 
primitivo serviria
de base de operaes, alojamento, restaurante e bar para os vi tantes. A Kate 
Cold e ao professor Ludovic Leblanc destinaram u cubculos separados do resto 
por lenis pendurados em cordas. restantes dormiriam em redes protegidas por 
mosquiteiros.
Santa Maria de Ia Lluvia era uma vilria sonolenta e to rem ta que dificilmente 
aparecia nos mapas. Alguns colonos criava umas vacas com cornos muito compridos; 
os restantes explorava o ouro do fundo do rio ou a madeira e a borracha dos 
bosques. I guns, mais afoitos, partiam sozinhos para a selva  procura 
diamantes. Mas a maioria vegetava  espera de que alguma opc tunidade casse 
milagrosamente do cu. Essas eram as actividad visveis. As secretas consistiam 
no trfico de pssaros exticc drogas e armas. Grupos de soldados, com as suas 
espingardas ombro e as camisas empapadas de suor, jogavam s cartas ou fun vam 
sentados  sombra. A escassa populao languidescia, me atordoada pelo calor e 
pelo tdio. Alex viu vrios indivduos se cabelo nem dentes, quase cegos, com 
erupes na pele, gestic lando ou falando sozinhos. Eram mineiros a quem o 
mercrio tin transtornado e que morriam aos poucos. Mergulhavam no fun, do rio 
para aspirarem, com grandes tubos, a areia saturada de ou em p. Alguns morriam 
afogados; outros morriam porque os se competidores lhes cortavm os tubos de 
oxignio; os restantes mc riam lentamente, envenenados pelo mercrio que usavam 
pa separar a areia do ouro.
As crianas da aldeia, pelo contrrio, brincavam felizes lama, acompanhadas por 
alguns macacos domsticos e ces E canzelados. Havia vrios ndios, uns cobertos 
com camisolas manga curta ou cales, outros to despidos como as crianas. l 
comeo, Alex, pertrbado, po se atrevia a olhar para os seios c mulheres, mas 
rapidanfent os olhos se habituaram e, passal cinco minutos, deixaram de lhe 
chamar a ateno. Aqueles ndi estavam h vrios anos em contacto com a 
civilizao e tinham p dido muitas das suas tradies e costumes, como explicou 
C
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ISABEL ALLENDE

Santos. A filha do guia, Nadia, falava com eles na sua lngua e em resposta eles 
tratavam-na como se ela fosse da prpria tribo.
Se aqueles eram os ferozes indgenas descritos por Leblanc, no pareciam muito 
impressionantes: eram pequenos, os homens mediam menos de um metro e meio e as 
crianas pareciam miniaturas humanas. Pela primeira vez na sua vida, Alex 
sentiu-se alto. Tinham a pele cor de bronze e mas do rosto altas; os homens 
usavam o cabelo cortado em redondo como um prato  altura das orelhas, o que 
acentuava o seu aspecto asitico. Descendiam de habitantes do Norte da China, 
que tinham chegado atravs do Alasca, h dez ou vinte mil anos. Salvaram-se da 
escravido durante a conquista, no sculo xvi, porque permaneceram isolados. Os 
soldados espanhis e portugueses no conseguiram vencer os pntanos, os 
mosquitos, a vegetao, os enormes rios e cataratas da regio amaznica.
Uma vez instalados no hotel, Csar Santos tratou de organizar o equipamento da 
expedio e planear o resto da viagem com a escritora Kate Cold e com os 
fotgrafos, porque o professor Leblanc decidiu descansar at o clima refrescar 
um pouco. No suportava bem o calor. Entretanto, Nadia, a filha do guia, 
convidou Alex a percorrer os arredores.
Depois do pr do Sol no se aventurem fora dos limites da aldeia,  perigoso - 
advertiu Csar Santos.


Seguindo os conselhos de Leblanc, que falava como um perito dos perigos da 
selva, Alex meteu as calas dentro das meias e das botas, para evitar que as 
vorazes sanguessugas lhe chupassem o sangue. Nadia, que andava quase descala, 
riu-se.
- Depressa te habituars aos bichos e ao calor - disse-lhe. Falava um ingls 
muito bom porque a me era canadiana.
- A minha me foi embora h trs anos - esclareceu a menina.
- Porqu?
56
- No conseguiu habituar-se a isto, tinha pouca sade e pis rou quando a Besta 
comeou a rondar. Sentia o seu cheiro, n< conseguia ficar sozinha, gritava... 
Por fim a doutora Torres levo, -a num helicptero. Agora est no Canad - disse 
Nadia.
- O teu pai no foi com ela?
- E o que faria o meu pai no Canad?
- E por que no te levou com ela? - insistiu Alex, que nu. ca ouvira falar de 
uma me que abandonasse os seus filhos.
- Porque est num manicmio. Alm disso no quero sep; rar-me do meu pai.
- No tens medo da Besta?
- Toda a gente tem medo. Mas, se vier, Borob avisa-me tempo - replicou a 
menina, acariciando o macaquinho preto, qi nunca se separava dela.
Nadia levou o seu novo amigo a visitar a aldeia, o que demore apenas meia hora, 
pois no havia muito que ver. Subitamente d sencadeou-se uma tempestade de 
relmpagos, que cruzavam o c em todas as direces, e comeou a chover a 
cntaros. Era un chuva quente como sopa, que transformou as estreitas ruelas nu 
lodaal fumegante. As pessoas, no geral, procuravam abrigo d baixo de algum 
tecto, mas as crianas e os ndios continuavam co: as suas actividades, 
conipletamente indiferentes ao aguaceir Alex compreendeu que a sua av teve 
razo ao sugerir-lhe qi substitusse as suas calas de ganga por roupa leve de 
algodo, ma fresca e fcil de secar. Para fugir  chuva, os dois jovens meterar 
-se na igreja onde encontraram um homem alto e corpulento, co umas costas 
enormes de lenhador e o cabelo branco, que Nad apresentou como sendo o padre 
Valdomero. Carecia por compl to da solenidade qu se espera de um sacerdote: 
estava de cal, curtos, com o tronco nu,'empoleirado numa escada a pintar as p 
redes com cal. Tinha no cho uma garrafa de rum.
- O padre Valdomero vive aqui desde antes da invaso d formigas - disse Nadia, 
apresentando-os.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI ISABEL ALLENDE

- Cheguei quando esta povoao foi fundada, h quase quarenta anos, e estava 
aqui quando chegaram as formigas. Tivemos de abandonar tudo e fugir rio abaixo. 
Chegaram como uma enorme mancha escura, avanando implacveis, destruindo tudo  
sua passagem - contou o sacerdote.
- O que aconteceu nessa altura? - perguntou Alex, que no conseguia imaginar uma 
povoao vtima de insectos.
-Atemos fogo s casas antes de fugirmos. O incndio desviou as formigas e 
alguns meses mais tarde pudemos regressar. Nenhuma das casas que aqui vs tem 
mais de quinze anos - explicou.
O sacerdote tinha uma estranha mascote, um co anfibio que, conforme disse, era 
nativo do Amazonas, mas a sua espcie estava quase extinta. Passava uma boa 
parte da sua vida no rio e podia permanecer vrios minutos com a cabea dentro 
de um balde de gua. Recebeu os visitantes a uma distncia prudente, 
desconfiado. O seu latido era como um trinado de pssaros e parecia estar a 
cantar.
- O padre Valdomero foi raptado pelos ndios. O que eu no daria para ter essa 
sorte! - exclamou Nadia, extasiada.
- No me raptaram, menina. Perdi-me na selva e eles salvaram-me a vida. Vivi com 
eles vrios meses. So gente boa e livre, para eles a liberdade  mais 
importante que a prpria vida, no podem viver sem ela. Um ndio preso  um 
ndio morto. Metem-se para dentro, deixam de comer e de respirar e morrem - 
contou o padre Valdomero.
-Algumas verses dizem que so pacficos e outras que so completamente 
selvagens e violentos - disse Alex.
- Os homens mais perigosos que vi por estes lados no so ndios, mas 
traficantes de armas, drogas e diamantes, seringueiros, garimpeiros, soldados e 
madeireiros, que infectam e exploram esta regio - rebateu o sacerdote, 
acrescentando que os ndios eram primitivos no que respeita ao aspecto material, 
mas muito
58
avanados no plano mental, e que estavam ligados  natureza, t como um filho  
sua me.
- Fale-nos da Besta.  verdade que a viu com os seus pra prios olhos, Padre? - 
perguntou Nadia.
- Julgo t-la visto, mas era de noite e os meus olhos j n< so os mesmos de 
antes - respondeu o padre Valdomero, mete] do um longo gole de rum pela garganta 
abaixo.
- Quando foi isso? - perguntou Alex, pensando que a a) agradeceria aquela 
informao.
- H alguns anos...
- O que viu, exactamente?
- J contei muitas vezes: um gigante com mais de trs meta de altura, que se 
deslocava muito lentamente e exalava um cheia horrvel. Fiquei paralisado de 
terror.
- Ela no o atacou, Padre?
- No. Disse alguma coisa, depois deu meia volta e desap receu no bosque.
- Disse alguma coisa? Suponho que quer dizer que emit rudos, grunhidos, no  
verdade? - insistiu Alex.
- No, filho. A criatura falou, claramente. No entendi ur nica palavra, mas 
era sem dvida uma linguagem articulada. De maiei... Quando acordei po tinha a 
certeza do que tinha acont cido, mas tinha esse odor penetrante colado  roupa, 
ao cabe]  pele. Foi assim que soube que no tinha sonhado.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEP
41

CAPTULO 5
O xam
A tempestade passou to subitamente como tinha comeado a noite surgiu clara. 
Alex e Nadia regressaram ao hotel, onde c membros da expedio estavam reunidos 
em volta de Csar Sai tos e da doutora Omayra Torres estudando o mapa da regio 
e di cutindo os preparativos da viagem. O professor Leblanc, um pouc mais 
reposto da fadiga, estava com eles. Pintara-se com repelen da cabea aos ps e 
contratara um ndio chamado Karakawe pa: o abanar com uma folha de bananeira. 
Leblanc exigiu que a exp dio se pusesse em marcha para o Alto Orenoco no dia 
seguint porque ele no podia perder tempo naquela aldeia insignificant Dispunha 
apenas de trs semanas para apanhar a estranha criab ra da selva, disse.
- Em vrios anos ningum o conseguiu, professor... - reto quiu Csar Santos.
- Ter de aparecer depressa, porque eu tenho de dar uma sr de conferncias na 
Europa - replicou ele.
- Espero que a Besta entenda as suas razes - disse o gui mas o professor no 
deu mostras de ter percebido a sua ironia.
Kate Cold tinha contado ao neto que a Amaznia era um lug perigoso para os 
antroplogs, que costumavam perder o juzo. I: ventavam teorias contraditrias 
e lutavam entre eles aos tiros e navalhada. Outros tiranizavam as tribos e 
acabavam julgando deuses. Um deles, enlouquecido, teve de ser levado, amarrado, 
i regresso ao seu pas.

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEP
- Suponho que tambm estar ao corrente de que eu tambm fao parte da 
expedio, professor Leblanc - disse a doutora Omayra Torres, a quem o 
antroplogo olhava de esguelha a todo o instante, impressionado com a sua beleza 
opulenta.
- Nada me daria maior prazer, menina, mas...
- Doutora Torres - interrompeu-o a mdica.
- Pode chamar-me Moiss - arriscou Leblanc, galanteador.
- Chame-me doutora Torres - replicou ela, secamente.
- No poderei lev-la, minha cara doutora. H espao apenas para quem foi 
contratado pela International Geographic. O oramento  generoso, mas no 
ilimitado - replicou Leblanc.
- Ento os senhores tambm no podero ir, professor. Perteno ao Servio 
Nacional de Sade. Estou aqui para proteger os ndios. Nenhum forasteiro pode 
entrar em contacto com eles sem as necessrias medidas de preveno. Eles so 
muito vulnerveis s doenas, sobretudo s dos brancos - disse a mdica.
- Uma constipao comum  mortal para eles. Uma tribo inteira morreu de uma 
infeco respiratria h trs anos, quando uns jornalistas vieram filmar um 
documentrio. Um deles tinha tosse, deu um trago do seu cigarro a um ndio e 
contagiou dessa forma toda a tribo - acrescentou Csar Santos.
Nesse momento chegaram o capito Ariosto, chefe do quartel, e Mauro Carias, o 
empresrio mais rico dos arredores. Num sussurro, Nadia explicou a Alex que 
Carias era muito poderoso, tinha negcios com presidentes e generais de vrios 
pases sul-americanos. Acrescentou que no tinha o corao no corpo, mas que o 
levava numa pasta, e apontou para a malinha de cabedal que Carias tinha na mo. 
Por outro lado, Ludovic Leblanc estava bastante impressionado com Mauro Carias, 
porque a expedio se realizara graas aos contactos internacionais daquele 
homem. Foi ele quem despertou o interesse da revista International Geographic 
para a lenda da Besta.
- Essa criatura estranha mantm atemorizadas as gentes sin ples do Alto Orenoco. 
Ningum quer internar-se no tringulo onc se supe que habita - disse Carias.
- Julgo que essa zona nunca foi explorada - disse Kate Cole
- Com efeito.,
- Suponho que deve ser muito rica em minerais e pedras pra ciosas - acrescentou 
a escritora.
-A riqueza do Amazonas est sobretudo na terra e nas made ras - respondeu ele.
- E nas plantas - interveio a doutora Omayra Torres. - N conhecemos nem dez por 
cento das substncias medicinais qi aqui'existem.  medida que os xamanes e 
curandeiros indgena desaparecem, perdemos para sempre esses conhecimentos.
- Imagino que a Besta tambm interfere com os seus nego cios por esses lados, 
senhor Carias, tal como interferem as tribo - continuou Kate Cold que, quando se 
interessava por um assue to, no largava a presa.
- A Besta  um problema para todos. At os soldados a r~ ceiam - admitiu Mauro 
Carias.
- Se a Besta existe, encontr-la-ei. Ainda est por nascer homem e muito menos o 
animal que possa troar de Ludovic L, blanc - replicou o professor, que 
costumava referir-se a si prpr na terceira pessoa.
- Conte com os meus soldados, professor. Ao contrrio c que afirma o meu bom 
amigo Carias, so homens valentes - of receu o capito Ariosto.
- Conte tambm com os meus recursos, caro professor L blanc. Disponho de lanchas 
a motor e de um bom equipamento c rdio - acrescento`Mauro Carias.
E conte comigo para'os problemas de sade ou para os ac dentes que possam surgir 
- acrescentou suavemente a douto Omayra Torres, como se no se lembrasse da 
recusa de Leblanc e inclu-la na expedio.
62

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGED
- Tal como lhe disse, menina...
- Doutora - corrigiu-o ela novamente.
- Tal como lhe disse, o oramento desta expedio  limitado, no podemos levar 
turistas - disse Leblanc, enftico.
- No sou turista. A expedio no pode continuar sem um mdico autorizado e sem 
as vacinas necessrias.
- A doutora tem razo. O capito Ariosto p-lo- ao corrente da lei - interveio 
Csar Santos, que conhecia a mdica e, evidentemente, se sentia atrado por ela.
- Hum... Bom...  verdade que... - balbuciou o militar olhando, confuso, para 
Mauro Carias.
- No haver problemas em incluir Omayra. Eu mesmo financiarei os seus gastos 
disse o empresrio, sorrindo, e pondo um brao em redor dos ombros da jovem 
mdica.
Obrigada, Mauro, mas no ser necessrio. Os meus gastos sero custeados pelo 
Governo- disse ela, afastando-se sem brusquido.
Bem. Nesse caso no h mais nada para conversar. Espero que encontremos a Besta, 
caso contrrio esta expedio ser intil - comentou Timothy Bruce, o fotgrafo.
- Confie em mim, jovem. Tenho experincia neste tipo de animais e eu mesmo 
desenhei umas armadilhas infalveis. Pode ver os modelos das minhas armadilhas 
no meu tratado sobre o abominvel homem dos Himalaias - esclareceu o professor 
com uma careta de satisfao, pedindo a Karakawe que o abanasse com mais brios.
- Conseguiu apanh-lo? - perguntou Alex, com fingida inocncia, pois conhecia de 
sobra a resposta.
- No existe, jovem. Essa suposta criatura dos Himalaias  uma patranha. Talvez 
esta famosa Besta tambm o seja.
H gente que a viu - alegou Nadia.
Gente ignorante, sem dvida, mida - determinou o professor.
- O padre Valdomero no  um ignorante - insistiu Na&
- Quem  esse?
- Um missionrio catlico, que foi raptado pelos selvager e desde essa altura 
enlouqueceu - interveio o capito Ariost Falava ingls com uma forte pronncia 
venezuelana e como mat tinha sempre um cigarro entre os dentes, o que se 
entendia n era muito.
- No foi raptado e tambm no est louco! - exclama Nadia.
- Acalma-te, linda - disse Mauro Carias, sorrindo e acar ciando o cabelo de 
Nadia que, imediatamente, se ps fora do se alcance.
- Na realidade o padre Valdomero  um sbio. Fala vrios idic mas dos ndios, 
conhece a flora e a fauna do Amazonas melhor d que ningum. Conserta fracturas 
sseas, tira dentes e nalgum ocasies operou cataratas dos olhos com um bisturi 
que ele mesm fabricou - acrescentou Csar Santos.
- Sim, mas no teve muito xito a combater os vcios em Sai ta Maria de Ia 
Lluvia ou a cristianizar os ndios. Como podem ve andam todos nus - troou Mauro 
Carias.
- Duvido de que os ndios precisem de ser cristianizados - rebateu-o Csar 
Santos.
Explicou que eram muito espirituais, acreditando que tudo tini alma: as rvores, 
os animais, os rios, as nuvens. Para eles o espr to e a matria no estavam 
separados. No entendiam o simplism da religio dos forasteiros, diziam que era 
a mesma histria repa tida, quando eles, pelo contrrio, tinham muitas histrias 
de deI ses, demnios, espritos do cu e da terra. O padre Valdomero tini 
desistido de explicai-lhes que Cristo morrera na cruz para salvar humanidade do 
pecado, porcjue a ideia de sacrifrcio deixava os I dios atnitos. No conheciam 
a culpa. Tambm no compreendias a necessidade de usar roupa nesse clima ou de 
acumular bens, no podiam levar nada para o outro mundo quando morriam.
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0

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAC
-  uma pena estarem condenados a desaparecer. So o sonho de qualquer 
antroplogo, no  verdade, professor Leblanc? perguntou Mauro Carias, trocista.
- Com efeito. Felizmente consegui escrever sobre eles antes de sucumbirem diante 
do progresso. Graas a Ludovic Leblanc figuraro na histria - replicou o 
professor, completamente impermevel ao sarcasmo do outro.
Nessa tarde, o jantar consistiu em bocados de tapir assado, feijo e tortilhas 
de mandioca, nada que Alex tenha querido provar, apesar de estar com uma fome de 
lobo.
Depois do jantar, enquanto a av bebia vodka e fumava o seu cachimbo na 
companhia dos homens do grupo, Alex foi com Nadia at ao molhe. A Lua brilhava 
como um candeeiro amarelo no cu. Rodeava-os o rudo da selva, como uma msica 
de fundo: gritos de pssaros, guinchos de macacos, coaxar de sapos e cantar de 
grilos. Milhares de pirilampos passavam fugazes ao lado deles, roando-lhes a 
cara. Nadia agarrou num com a mo e meteu-o nos caracis do seu cabelo, onde 
ficou a brilhar como uma luzinha. A rapariga estava sentada no molhe com os ps 
na gua escura do rio. Alex interrogou-a sobre as piranhas, que tinha visto 
dissecadas nas lojas para turistas em Manaus, como tubares em miniatura: mediam 
um palmo, tinham umas mandbulas formidveis e dentes afiados como facas.
- As piranhas so muito teis, limpam a gua de cadveres e de lixo. O meu pai 
diz que s atacam se sentirem o cheiro de sangue ou se estiverem esfomeadas - 
explicou ela.
Contou-lhe como uma vez tinha visto um jacar, ferido por um jaguar, que se 
arrastou at  gua. As piranhas introduziram-se pela ferida e devoraram-no por 
dentro numa questo de minutos, deixando a pele intacta.
Nesse momento a rapariga ficou alerta e fez-lhe um gesto com a mo para que 
ficasse em silncio. Borob, o macaquinho, comeou
aos saltos, guinchando bastante agitado, mas Nadia acalmou-o r instante 
sussurrando-lhe alguma coisa ao ouvido. Alex ficou c a impresso de que o animal 
entendia perfeitamente as palavra! sua dona. S conseguia ver as sombras da 
vegetao e o espe negro da gua, mas era evidente que alguma coisa tinha cham a 
ateno de Nadia, porque esta se levantara. Ao longe ouviasom apagado de algum, 
na aldeia, dedilhando uma viola. Se 1 tasse a cabea, podia ver algumas luzes 
das casas atrs de si, ma: estavam sozinhos.
Nadia lanou um grito longo e agudo, que aos ouvidos do ra soou semelhante ao da 
coruja e, instantes depois, outro grito si lar respondeu da outra margem. Ela 
repetiu a chamada duas ve e de ambas as vezes teve a mesma resposta. Ento 
agarrou Alex um brao e fez-lhe um sinal para que a seguisse. O rapaz recor+ a 
advertncia de Csar Santos, de permanecer dentro dos limite; aldeia depois do 
entardecer, bem como as histrias que ouvira vboras, feras, bandidos e bbados 
armados. E o melhor era nem f sar nos ndios ferozes descritos por Leblanc ou na 
Besta... Mas quis parecer um cobarde aos olhos da rapariga e seguiu-a sem di uma 
palavra, empunhando o seu canivete suo aberto.


Deixaram para trs os ltimos casinhotos da aldeia e co nuaram em frente com 
cuidado, sem outra luz alm da lua. A sc era menos densa do que Alex julgava. A 
vegetao era densa margens do rio, mas depois tornava-se mais rala e era poss: 
avanar sem grande dificuldade. No foram muito longe ante,, chamamento da 
coruja se repetir. Estavam numa clareira do t que, onde a Lua podia ver-se 
brilhando no firmamento. Nadia pa e esperou imvel. At Borob estava quieto, 
como se soube


o que esperavam: De repente Alex deu um salto, surpreendi


a menos de trs metros d distncia materializou-se uma fi sada da noite, 
sbita e sigilosa, como um fantasma. O rapaz gueu a navalha disposto a defender-
se, mas a atitude serem Nadia deteve o seu gesto no ar.
66

ISABEL ALLENDE

- Aa - murmurou a rapariga em voz baixa.
- Aa, aia... - replicou uma voz que a Alex no lhe pareceu humana porque soava 
como um sopro de vento.
A figura aproximou-se um passo e ficou muito perto de Nadia. Nessa altura os 
olhos de Alex j se tinham habituado um pouco  penumbra e conseguiu ver  luz 
da lua um homem incrivelmente velho. Parecia ter vivido sculos, apesar da sua 
postura erecta e dos seus movimentos geis. Era muito pequeno, Alex calculou que 
media menos do que a sua irm Nicole, que tinha apenas nove anos. Usava um 
pequeno saiote de fibra vegetal e uma dzia de colares de conchas, sementes e 
dentes de javali cobrindo-lhe o peito. Apele, enrugada como a de um elefante 
milenar, caa em pregas sobre o seu frgil esqueleto. Levava uma lana curta, um 
basto de onde pendiam uma srie de saquinhos de pele e um cilindro de quartzo 
que soava como um chocalho de beb. Nadia levou a mo ao cabelo, soltou o 
pirilampo e ofereceu-lho. O ancio aceitou-o, colocando-o entre os seus colares. 
Ela ps-se de ccoras e fez sinal a Alex para que fizesse o mesmo, como sinal de 
respeito. A seguir o ndio agachou-se tambm e desta forma ficaram os trs da 
mesma altura.
Borob deu um salto e empoleirou-se nos ombros do velho, puxando-lhe as orelhas. 
A dona afastou-o com uma palmada e o ancio ps-se a rir com vontade. AAlex 
pareceu-lhe que no tinha um nico dente na boca, mas como no havia muita luz, 
no podia ter a certeza. O ndio e Nadia embrenharam-se numa longa conversa de 
gestos e sons numa lngua cujas palavras soavam doces, como brisa, gua e 
pssaros. Calculou que falavam dele, porque apontavam para si. Num determinado 
momento o homem ps-se de p e agitou a sua curta lana bastante aborrecido, mas 
ela acalmou-o com longas explicaes. Por fim, o velho tirou um amuleto do 
pescoo, um pedao de osso talhado, e levou-o aos lbios, soprando-o. O som era 
o mesmo canto de coruja ouvido antes, que Alex reconheceu porque essas aves 
abundavam nas proximidades da sua casa no Norte da Califrnia. O singular ancio 
pendurou o
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amuleto em volta do pescoo de Nadia, colocou as mos nos sei ombros em jeito de 
despedida e desapareceu rapidamente da me ma forma silenciosa como chegara. O 
rapaz podia jurar que no vira retroceder, simplesmente esfumara-se.
- Aquele era Walimai - disse-lhe Nadia ao ouvido.
- Walimai? - perguntou ele, impressionado por aquele e tranho encontro.
- Chht! No digas em voz alta! Nunca deves pronunciar nome verdadeiro de um 
ndio na sua presena,  tabu. Ainda menu nomear os mortos, isso  um tabu ainda 
mais forte, um insulto te rvel - explicou Nadia.
- Quem ?
-  um xam, um feiticeiro muito poderoso. Fala atravs c sonhos e vises. Pode 
viajar ao mundo dos espritos quando que  o nico que conhece o caminho para o 
El Dorado.
- El Dorado? A cidade de ouro inventada pelos conquistad res? Essa  uma lenda 
absurda! - replicou Alex.
- Walimai esteve a muitas vezes com a sua mulher. Ana sempre com ela - refutou 
a rapariga.
- A ela no a vi admitiu Alex.
-  um esprito. Nem todos conseguem v-la.
- Tu viste-a?
- Sim.  jovem e muito bonita.
- O que te deu o feiticeiro? Do que falaram os dois? - pe guntou Alex.
- Deu-me um talism. Com isto estarei sempre segura, ni gum, nem as pessoas, 
nem os animais, nem os fantasmas poder, fazer-me mal. Tambm serve para o 
chamar, basta soprar e vii At agora eu no pdia cham-lo, tinha de esperar que 
ele apar cesse. Walimai diz que dou"precisar dele porque h muito perig o 
Rahakanariwa, o temvel esprito do pssaro canibal, anda  sc ta. Quando 
aparece h mortes e destruio, mas eu estarei protegi pelo talism.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEP

ISABEL ALLENDE
- s uma menina bastante estranha... - suspirou Alex, sem acreditar em metade 
das coisas que ela lhe dizia.
- Walimai diz que os estrangeiros no devem ir  procura da Besta. Diz que 
vrios morrero. Mas tu e eu devemos ir, porque fomos chamados, porque temos a 
alma branca.
- Quem nos chama?
- No sei, mas se Walimai o diz,  verdade.
- A srio que acreditas nessas coisas, Nadia? Acreditas em feiticeiros, em 
pssaros canibais, no El Dorado, em mulheres invisveis, na Besta?
Sem responder, a rapariga deu meia volta e ps-se a andar a caminho da aldeia e 
ele seguiu-a de perto, para no se perder.
CAPTULO 6
O plano
Nessa noite, Alexander Cold dormiu sobressaltado. Sentia ao sabor da intemprie, 
como se as frgeis paredes que o sepa vam da selva se tivessem dissolvido e 
estivesse exposto a tos os perigos daquele mundo desconhecido. O hotel, 
construdo c tbuas sobre estacas, com tecto de zinco e sem vidros nas ja Ias, 
servia apenas para se protegerem da chuva. Ao rudo extel de sapos e outros 
animais juntava-se os roncos dos seus com nheiros de quarto. A sua rede voltou-
se algumas vezes, atirand de bruos para o cho, antes de se lembrar da forma 
correcta d usar, colocando-se na diagonal para manter o equilbrio. No e: va 
calor, mas ele estava a suar. Permaneceu acordado na escuri4 durante muito 
tempo, debaixo do seu mosquiteiro embebido insecticida, pensando na Besta, em 
tarntulas, escorpies, serp tes e outros perigos que espreitavam na escurido. 
Reviu a estra] cena a que assistira entre o ndio e Nadia. O xam tinha profeti 
do que vrios membros da expedio morreriam.
Alex achou incrvel que, em poucos dias, a sua vida tive levado uma volta to 
espectacular, que de repente se encontra num lugar fantstico onde, tal como 
anunciara a sua av, os e; ritos passeavam entre os vivos. A realidade 
distorcera-se, j sabia em que acreditar' Sentiu uma saudade enorme da sua ca: 
da sua famlia, at do seu co Poncho. Estava muito s e mi longe de tudo o que 
conhecia. Se ao menos conseguisse saber cc estava a sua me...! Mas telefonar 
dessa aldeia para um hosr
70

ISABEL ALLENDE

do Texas era como tentar comunicar-se com o planeta Marte. Kate no era grande 
companhia ou consolo. Como av deixava muito a desejar, nem sequer se dava ao 
trabalho de responder s suas perguntas, porque era de opinio que a nica coisa 
que aprendemos  o que averiguamos por ns prprios. Defendia que a experincia 
 o que se obtm precisamente depois de precisarmos dela.
Estava s voltas na rede, sem conseguir dormir, quando lhe pareceu ouvir um 
murmrio de vozes. Podia ser s o barulho da selva, mas decidiu investigar. 
Descalo e em roupa interior, aproximou-se silenciosamente da rede onde Nadia 
dormia juntamente com o pai, na outra extremidade da sala comum. Ps uma mo na 
boca da rapariga e murmurou o nome dela ao ouvido, tentando no acordar os 
outros. Ela abriu os olhos, assustada, mas ao reconhec-lo acalmou-se e desceu 
da rede veloz como um gato, fazendo um gesto peremptrio a Borob para ficar 
quieto. O macaquinho obedeceu-lhe imediatamente, enrolando-se na rede, e Alex 
comparou-o com o seu co Poncho, a quem nunca conseguira fazer compreender a 
ordem mais simples. Saram silenciosamente, deslizando ao longo da parede do 
hotel at  varanda, onde Alex tinha ouvido as vozes. Esconderam-se numa esquina 
da porta, comprimindo-se contra a parede e, da, vislumbraram o capito Ariosto 
e Mauro Carias sentados  volta de uma mesinha, fumando, bebendo e falando em 
voz baixa. Os seus rostos eram perfeitamente visveis  luz dos cigarros e de 
uma espiral de insecticida que ardia em cima da mesa. Alex felicitou-se por ter 
chamado Nadia, porque os homens falavam em espanhol.
- J sabes o que deves fazer, Ariosto - disse Caras. - No ser fcil.
- Se fosse fcil, no precisaria de ti e tambm no teria de pagar-te, homem - 
fez notar Mauro Carias.
- No me agradam os fotgrafos, podem meter-nos numa embrulhada. E, quanto  
escritora, deixa-me dizer-te que essa velha me parece muito astuta - disse o 
capito.
72
- O antroplogo, a escritora e os fotgrafos so indispen< veis para o nosso 
plano. Sairo daqui contando exactamente a h tria que nos convm, isso 
eliminar qualquer suspeita contra ni Assim evitamos que o Congresso mande uma 
comisso para i vestigar qs factos, como aconteceu anteriormente. Desta vez l 
ver um grupo da International Geographic como testemunha replicou Carias.
- No percebo por que razo o Governo protege esse puni do de selvagens. Ocupam 
milhares de quilmetros quadrados q deveriam repartir-se entre os colonos, assim 
chegaria o progre, a este inferno - comentou o capito.
- Tudo a seu tempo, Ariosto. Nesse territrio h esmeralc e diamantes. Antes de 
virem os colonos cortar rvores e criar 1 cas, tu e eu seremos ricos. No quero 
aventureiros por estes Ia( ainda.
- Ento no os haver. Para isso existe o exrcito, amigo rias, para fazer valer 
a lei. Acaso no  necessrio proteger os dios? - disse o capito Ariosto, e os 
dois riram-se com vonta
- Tenho tudo planeado, uma pessoa da minha confiana com a expedio.
- Quem?
- De momento prefiro no divulgar o seu nome. A Besta pretexto para o tonto do 
Leblanc e os jornalistas irem exactami te onde queremos e cobrirem a notcia. 
Eles contactaro os ndi  inevitvel. No podem internar-se no tringulo do 
Alto Orem  procura da Besta sem darem de caras com os ndios - referi 
empresrio.
- O teu plano parece-me bastante complicado. Tenho ge bastante discreta, jdemos 
fazer o trabalho sem que ningum inteire - garantiu o capito Ariosto, levando o 
copo aos lbi
- No, homem! J no te expliquei que devemos ter paci cia? - replicou Carias.
- Explica-me novamente o plano - exigiu Ariosto.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE]
- No te preocupes, do plano encarrego-me eu. Em menos de trs meses teremos 
desocupado a zona.
Nesse instante Alex sentiu alguma coisa no p e afogou um grito: uma serpente 
deslizava sobre a sua pele nua. Nadia levou um dedo aos lbios, dando-lhe a 
entender que no se movesse. Carias e Ariosto puseram-se de p, alertados, e 
ambos puxaram simultaneamente das suas armas. O capito acendeu a lanterna e 
varreu os arredores, passando com o feixe de luz a poucos centmetros do stio 
onde os jovens se escondiam. Era tanto o terror de Alex que, de boa vontade, 
teria enfrentado as duas pistolas desde que isso lhe permitisse livrar-se da 
serpente, que agora se enrolava no tornozelo. Mas a mo de Nadia agarrava-o por 
um brao e compreendeu que no podia arriscar tambm a vida dela.
- Quem anda a? - murmurou o capito, sem levantar a voz para no atrair aqueles 
que dormiam no interior do hotel.
Silncio.
- Vamos embora, Ariosto - ordenou Caras.
O militar voltou a varrer o stio com a sua lanterna, depois ambos retrocederam 
at s escadas que davam para a rua, sempre com as armas na mo. Passaram um ou 
dois minutos antes de os jovens sentirem que podiam mexer-se sem chamar a 
ateno. Nessa altura a cobra j envolvia a barriga da perna, a sua cabea 
estava  altura do joelho e o suor corria a rodos pelo corpo do rapaz. Nadia 
tirou a camisola, envolveu a sua mo direita e, com muito cuidado, agarrou na 
serpente perto da cabea. De imediato, ele sentiu que o rptil o apertava mais, 
agitando furiosamente a cauda, mas a rapariga agarrava-o com firmeza, separando-
o depois sem brusquido da perna do seu novo amigo, at o ter pendurado na mo. 
Girou o brao como as ps de um moinho, adquirindo impulso e depois atirou a 
serpente por cima da balaustrada do alpendre, para a escurido.
Depois voltou a vestir a camisola, tranquilamente.
- Era venenosa? - perguntou o trmulo rapaz, assim que conseguiu recuperar a 
voz.
- Sim, acho que era uma surucucu, mas no era muito gra de. Tinha a boca pequena 
e no podia abrir muito as mandbula S podia morder-te num dedo, no na perna - 
replicou Nadia. D pois dedicou-se a traduzir-lhe a conversa entre Carias e 
Ariosto.
- Qual ser o plano desses malvados? O que poderemos f zer? - perguntou Nadia.
- No sei. A nica coisa que me ocorre  contar  minha av mas no sei se 
acreditaria em mim. Diz que sou paranico e qi vejo inimigos e perigos em toda a 
parte - respondeu o rapaz.
- Por agora podemos apenas esperar e vigiar, Alex... - sug riu ela.
Os jovens regressaram s suas redes. Alex adormeceu imec atamente, extenuado, e 
acordou ao amanhecer com os guinchos e surdecedores dos macacos. A sua fome era 
to voraz que, de b, vontade, teria comido as panquecas do seu pai, mas no 
havia nas para levar  boca e teve de esperar mais duas horas at os seus cor 
panheiros de viagem estarem prontos para tomar o pequeno moo. Ofereceram-lhe 
caf preto, cerveja morna e os restos fri do tapir da noite anterior. Recusou 
tudo, enojado. Nunca tinha vis um tapir, mas imaginava ;que seria assim uma 
espcie de rataza gigante. Teria uma surpresa alguns dias mais tarde ao comprou 
que se tratava de um animal de mais de cem quilos, parecido cc o porco, cuja 
carne era muito apreciada. Agarrou numa banana, m era amarga e deixou-lhe a 
lngua spera, depois soube que as t nanas daquela espcie tinham de ser 
cozinhadas. Nadia, que tin sado muito cedo para se lavar no rio com outras 
raparigas, regrf sou com uma flor fresca na orelha e a mesma pena verde na out 
trazendo Borob garrado ao pescoo e meio anans na mo. Al tinha lido que a 
nica fruta segura nos climas tropicais  a que n prprios descascamos, mas 
decidiu que o risco de contrair tifo f prefervel  desnutrio. Devorou o 
anans que ela lhe oferec agradecido.
74

ISABEL ALLENDE
Csar Santos, o guia, apareceu momentos depois, to bem lavado como a sua filha, 
convidando os restantes membros da expedio a dar um mergulho no rio. Todos o 
seguiram, menos o professor Leblanc, que mandou Karakawe buscar vrios baldes de 
gua para tomar banho na varanda, porque a ideia de nadar na companhia de uma 
jamanta no o atraa. Algumas eram do tamanho de um tapete grande e as suas 
caudas poderosas no s cortavam como serras, como tambm injectavam veneno. 
Alex considerou que depois da experincia com a serpente na noite anterior, no 
iria retroceder diante do risco de se lhe deparar um peixe, por pior fama que 
tivesse. Atirou-se de cabea para a gua.
- Se uma jamanta te atacar, quer dizer que estas guas no so para ti - foi o 
nico comentrio da sua av, que foi com as outras mulheres tomar banho noutro 
lado.
-As jamantas so tmidas e vivem no leito do rio. Regra geral fogem quando 
sentem movimento na gua, mas de qualquer forma convm andar arrastando os ps, 
para no as pisar - instruiu-o Csar Santos.
O banho estava delicioso e deixou-o fresco e limpo.
Antes de partirem,. os membros da expedio foram convir dos a ir ao acampamento 
de Mauro Carias. A doutora Omayra Torr desculpou-se, disse que tinha de enviar 
os jovens mrmones regresso a Manaus num helicptero do exrcito, porque tinham 
p rado 0 acampamento compunha-se de vrios reboques, trazic de helicptero e 
colocados em crculo numa clareira do bosgi a uma milha de Santa Maria de Ia 
Lluvia. As suas instalaes er; luxuosas comparadas com os casinhotos de tectos 
de zinco da deia. Dispunha de um gerador de electricidade, antena de rdi 
painis de energia solar.
Carias tinha recintos semelhantes em vrios pontos estrat cos do Amazonas para 
controlar os seus mltiplos negcios, de, a explorao de madeira at s minas 
de ouro, mas vivia longe d Diziam que em Caracas,'Rio de Janeiro e Miami possua 
mans principescas e em cada uma delas mantinha uma mulher. Des cava-se no seu 
jet e na sua avioneta, usava tambm os veculos exrcito, que alguns generais 
amigos punham  sua disposio. l Santa Maria de Ia Lluvia no havia aeroporto 
onde pudesse atei o seu jet, de forma que utilizava a sua avioneta bimotor que, 
co parada com o aviozinho de Csar Santos, um decrpito pssaro lata oxidado, 
parecia impressionante. O acampamento estar rod do de arame electrificado e 
protegido por guardas chamou a at co de Kate Cold.
- O que poder ter este homem aqui que requeira tanta vi lncia? - comentou com 
o neto.
CAPTULO 7
O jaguar negro
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
Mauro Carias era dos poucos aventureiros que tinham enriquecido no Amazonas. 
Milhares e milhares de garimpeiros internavam-se, a p ou de canoa, pela selva e 
pelos rios procurando minas de ouro ou jazidas de diamantes, abrindo caminho na 
vegetao  fora de machete, sendo comidos pelas formigas, sanguessugas e 
mosquitos. Muitos morriam de malria, outros de balzios, outros de fome e de 
solido. Os seus corpos apodreciam em campas annimas ou eram comidos pelos 
animais.
Diziam que Carias tinha comeado a sua fortuna com galinhas: soltava-as na selva 
e depois abria-lhes o bucho  facada para apanhar as pepitas de ouro que as 
infelizes engoliam. Mas isso, tal como muitas outras histrias sobre o passado 
desse homem, devia ser um exagero, porque na realidade o ouro no crescia no 
cho do Amazonas como milho. De qualquer forma, Carias nunca teve de arriscar a 
sade como os miserveis garimpeiros, porque tinha boas ligaes, olho para o 
negcio e sabia mandar e fazer-se respeitar. O que no conseguia a bem, obtinha-
o pela fora. Nas suas costas, muitos diziam  boca pequena que era um 
criminoso, mas ningum se atrevia a diz-lo na cara. No se conseguia provar que 
tinha sangue nas mos. A sua aparncia nada tinha de ameaador ou suspeito, era 
um homem simptico, bem-posto, bronzeado, com as mos arranjadas e os dentes 
branqussimos, vestido com boa roupa desportiva. Falava com uma voz melodiosa e 
olhava para as pessoas directamente nos olhos, como se, em cada frase, quisesse 
provar a sua franqueza.
O empresrio recebeu os membros da expedio da International Geographic num dos 
reboques transformado em sala, com todas as comodidades que no existiam na 
aldeia. Estava acompanhado por duas mulheres jovens e atraentes, que serviam as 
bebidas e acendiam os cigarros, mas no diziam uma palavra. Alex pensou que no 
falavam ingls. Comparou-as com Morgana, a rapariga que lhe roubara a mochila em 
Nova Iorque, porque tinham a mesma atitude insolente. Corou ao lembrar-se de 
Morgana e
tornou a perguntar a si prprio como pde ser to inocente e d xar-se enganar 
daquela maneira. Elas eram as nicas mulheres sveis no acampamento, os outros 
eram homens armados at dentes. O anfitrio ofereceu-lhes um almoo delicioso de 
queij carnes frias, mariscos, frutas, gelados e outros luxos trazidos Caracas. 
Pela primeira vez desde que sara do seu pas, o ral americano pde comer  
vontade.
- Pareces conhecer muito bem esta regio, Santos. H que to tempo vives aqui? - 
perguntou Mauro Caras ao guia.
- Vivi aqui toda a vida. No conseguiria viver noutro h - replicou este.
- Disseram-me que a tua mulher adoeceu aqui. Lamento m to... No me admira, 
muito poucos estrangeiros sobrevivem ne isolamento e neste clima. E esta mida, 
no vai  escola? - e rias estendeu a mo para tocar em Nadia, mas Borob 
mostrouos dentes.
- No preciso de ir  escola. Sei ler e escrever - disse Na( enftica.
- E isso  suficiente, linda - disse Caras sorrindo.
- Nadia tambm conhece a Natureza, fala ingls, espante portugus e vrias 
lnguas dos ndios - acrescentou o pai.
- O que  isso que trazes ao pescoo, linda? - perguni Carias com uma entoao 
carinhosa.
- O meu nome  Nadia - disse ela.
- Mostra-me o teu colar, Nadia - pediu o empresrio, s rindo e mostrando os seus 
dentes perfeitos.
-  mgico, no o posso tirar.
- Queres vend-lo? Compro-o - troou Mauro Caras.
- No! - gritou ela,,afastando-se.
Csar Santos interrompeu para se desculpar pelos modos ai cos da sua filha. 
Achava estranho aquele homem to importa perder o seu tempo a brincar com uma 
mida. Antes ningum re rava em Nadia mas, nos ltimos meses, a sua filha 
comeav
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
chamar a ateno e isso no lhe agradava nada. Mauro Caras comentou que se a 
rapariga vivera sempre no Amazonas, no estava preparada para a sociedade. Que 
futuro a esperaria? Parecia bastante esperta e com uma boa educao poderia ir 
longe, disse. Ofereceu-se mesmo para a levar com ele para a cidade, onde poderia 
frequentar uma escola e transformar-se numa menina, como era devido.
- No posso separar-me da minha filha mas agradeo-lhe, de qualquer forma - 
replicou Santos.
- Pensa bem, homem. Eu seria uma espcie de padrinho... - acrescentou o 
empresrio.
- Tambm sei falar com os animais - interrompeu-o Nadia. Uma gargalhada geral 
recebeu as palavras de Nadia. Os nicos que no se riram foram o pai, Alex e 
Kate Cold.
- Se sabes falar com os animais, talvez possas servir-me de intrprete com uma 
das minhas mascotes. Venham comigo - convidou o empresrio num tom de voz suave.


Seguiram Mauro Carias at um ptio formado pelos reboques colocados em crculo, 
em cujo centro estava uma jaula improvisada feita de paus e arame de galinheiro. 
L dentro passeava um grande felino com a atitude enlouquecida das feras em 
cativeiro. Era um jaguar negro, um dos mais belos exemplares vistos por aqueles 
lados, com o plo lustroso e os olhos hipnticos cor de topzio. Ao v-lo, 
Borob lanou um guincho agudo, saltou do ombro de Nadia e fugiu a toda a 
velocidade, seguido pela garota, que chamava por ele em vo. Alex admirou-se, 
porque, at essa altura, nunca vira o macaco separar-se voluntariamente da sua 
dona. Os fotgrafos focaram de imediato as suas lentes na direco da fera e 
Kate Cold tirou tambm do seu saco a sua pequena mquina fotogrfica automtica. 
O professor Leblanc manteve-se a uma distncia prudente.
- Os jaguares negros so os animais mais temveis da An rica do Sul. No recuam 
perante nada, so valentes - disse Cari.


- Se o admira, por que no o liberta? Esse pobre gato esta; melhor morto que 
preso - ripostou Csar Santos.


- Solt-lo? De maneira nenhuma, homem! Tenho um pegr no zoolgico na minha casa 
do Rio de Janeiro. Estou  espera q chegue uma jaula apropriada para o enviar 
para l.


Alex aproximara-se como se estivesse em transe, fascina pela viso daquele 
felino enorme. A av gritou-lhe uma advi tncia que ele no ouviu e avanou; at 
tocar com ambas as m no arame que o separava do animal. O jaguar parou, lanou 
L grunhido formidvel e fixou depois o seu olhar amarelo em Ale Estava imvel, 
com os msculos tensos, o plo cor de azevic palpitante. O rapaz tirou os 
culos, que usava desde os sete ano; deixou-os cair ao cho. Estavam to perto 
que conseguiu distingi cada uma das manchinhas douradas na pupila da fera, 
enquanto olhos de ambos entabulavam um dilogo silencioso. Tudo desal receu: 
estava sozinho diante do animal numa vasta plancie ouro, rodeado por torres 
negras altssimas, sob um cu bran onde flutuavam seis luas transparentes, como 
medusas. Viu que felino abria as fauces, onde brilhavam os seus grandes dentes 
p~ lados e, com uma voz humana, mas que parecia provir do fun de uma caverna, 
pronunciava o seu nome: Alexander. E ele re pondia com a sua prpria voz, mas 
que tambm soava caverno; Jaguar. O animal e o rapaz repetiram trs vezes essas 
palavras, A: xander, Jaguar, Alexander, Jaguar, Alexander, Jaguar. E entc areia 
da plancie tornou-se fosforescente, o cu tornou-se negro as seis luas 
comearam a girar nas suas rbitas e a deslocar-se cor lentos cometas.
.	R
Entretanto Mauro Cfiras tinha dado uma ordem e um dos se empregados trouxe um 
macaco arrastando-o por uma corda. Ao o jaguar, o macaco teve uma reaco 
semelhante  de Borob, c meou a guinchar, a saltar e a dar palmadas, mas sem 
consegi
80

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEM
libertar-se. Carias agarrou-o pelo pescoo e antes que algum conseguisse 
adivinhar as suas intenes, abriu a jaula com um nico movimento preciso e 
atirou o aterrorizado animalzinho l para dentro.
Os fotgrafos, apanhados de surpresa, tiveram de fazer um esforo para se 
lembrarem de que tinham uma mquina fotogrfica nas mos. Leblanc seguia 
fascinado cada um dos movimentos do infeliz smio, que trepava pelo arame 
procurando uma sada, e da fera, que o seguia com os olhos, encolhendo-se, 
preparando o salto. Sem pensar no que fazia, Alex desatou a correr, pisando os 
culos que ainda estavam no cho e reduzindo-os a fanicos. Atirou-se para a 
porta da jaula disposto a resgatar os dois animais, o macaco de uma morte certa 
e o jaguar da sua priso. Ao ver o neto abrir a fechadura, Kate correu tambm, 
mas antes de o apanhar, dois dos empregados de Carias j o tinham agarrado pelos 
braos dominando-lhe a resistncia. Aconteceu tudo em simultneo e to 
rapidamente que mais tarde Alex no conseguiu recordar a sequncia dos factos. 
De uma patada, o jaguar fez o macaco cair e, de uma dentada das suas temveis 
mandbulas, despedaou-o. O sangue esguichou em todas as direces. Na mesma 
altura, Csar Santos tirou a pistola do cinto e disparou contra a fera um tiro 
certeiro na testa. Alex sentiu o impacto como se a bala lhe tivesse acertado 
entre os olhos e teria cado de costas se os guardas de Carias no o prendessem 
pelos braos, praticamente no ar.
- O que fizeste, desgraado! - gritou o empresrio, puxando tambm da sua arma e 
voltando-se para Csar Santos.
Os guardas soltaram Alex, que perdeu o equilbrio e caiu ao cho, para enfrentar 
o guia, mas no se atreveram a pr-lhe as mos em cima porque este ainda 
empunhava a pistola fumegante.
- Pu-lo em liberdade - replicou Csar Santos com uma tranquilidade espantosa.
Mauro Carias fez um esforo para se controlar. Compreendeu que no podia bater-
se a tiro com ele diante dos jornalistas e de Leblanc.
- Calma! - ordenou Mauro Carias aos guardas.
- Matou-o! Matou-o! - repetia Leblanc, vermelho de exc tao. A morte do macaco 
e depois a do felino tinham-no posto hi trico e agia como um brio.
- No se preocupe, professor Leblanc, posso conseguir c animais que, quiser. 
Desculpem, mas receio que este tenha sido ui espectculo pouco apropriado a 
coraes fracos - disse Cara
Kate Cold ajudou o neto a levantar-se, agarrou depois em Cs Santos por um brao 
e levou-o at  sada, sem dar tempo a que situao se tornasse mais violenta. O 
guia deixou-se levar pela e~ critora e saram, seguidos por Alex. L fora 
encontraram Nad com o aterrorizado Borob enrolado  cintura.
Alex tentou explicar a Nadia o que tinha acontecido entre e e o jaguar, antes de 
Mauro Caras ter introduzido o macaco r jaula, mas tudo se confundia no seu 
esprito. Tinha sido uma e~ perincia to real, que o rapaz podia jurar que, por 
alguns mine tos, estivera noutro mundo, num mundo de areias brilhantes e se luas 
girando no firmamento, um mundo onde o jaguar e ele se fui diram numa s voz. 
Embora lhe faltassem as palavras para conta  amiga o que tinha sentido, ela 
pareceu compreend-lo sem n, cessidade de ouvir os pormenores.
- O jaguar reconheceu-te, porque  o teu animal totmico - disse. - Todos temos 
o esprito de um animal, que nos acomp nha.  como a nossa alma. Nem todos 
encontram o seu animal, os grandes guerreiros e os xamanes, mas tu descobriste-o 
sem procurares. O teu nome  Jaguar - disse Nadia.
- Jaguar?
-Alexander  Q nome que te deram os teus pais. Jaguar  o b nome verdadeiro, mas 
para o 'usares tens de ter a natureza do jagiL
- E como  essa natureza? Cruel e sanguinria? - pergu tou Alex, pensando nas 
fauces da fera despedaando o macaco i jaula de Caras.
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
- Os animais no so cruis como as pessoas. Matam apenas para se defenderem ou 
quando tm fome.
- Tu tambm tens um animal totmico, Nadia?
- Sim, mas ainda no me foi revelado. Encontrar o seu animal  menos importante 
para uma mulher, porque ns recebemos a nossa fora da terra. Ns somos a 
Natureza - disse ela.
- Como sabes tudo isso? - perguntou Alex, que j duvidava menos das palavras da 
sua nova amiga.
- Walimai ensinou-me.
- O xam  teu amigo?
- Sim, Jaguar, mas eu no disse a ningum que falo com Walimai, nem sequer ao 
meu pai.
- Porqu?
- Porque Walimai prefere a solido. A nica companhia que suporta  a do 
esprito da sua mulher. S raramente aparece nalgum shabono para curar uma 
doena ou participar numa cerimnia dos mortos, mas nunca aparece aos nahab.
- Na ha b?
- Forasteiros.
- Tu s forasteira, Nadia.
- Walimai diz que eu no perteno a lado nenhum, que no
sou ndia nem estrangeira, nem mulher nem esprito. - Nesse caso, o que s? - 
perguntou Jaguar. - Eu sou, apenas - replicou ela.


Csar Santos explicou aos membros da expedio que subiriam o rio em lanchas a 
motor, internando-se nas terras indgenas at s cataratas do Alto Orenoco. A 
montariam o acampamento e, sendo possvel, desbastariam uma franja do bosque 
para improvisar uma pista de aterragem. Ele voltaria a Santa Maria de Ia Lluvia 
para buscar a sua avioneta, que serviria de ligao rpida com a aldeia. Disse 
que nessa altura o novo motor j teria chegado e seria
simplesmente uma questo de instal-lo. Com o aviozinho p deriam ir  
inexpugnvel zona das montanhas onde, segundo testemunho de alguns ndios e 
aventureiros, a mitolgica Be,,,; poderia ter a sua guarida.
- Como consegue, uma criatura gigantesca como aquel subir e descer por um 
terreno que supostamente ns no consegl mos escalar? - perguntou Kate Cold.
- J averiguaremos - replicou Csar Santos.
- Como se deslocam os ndios por ali sem uma avioneta? - insistiu ela.
- Conhecem o terreno. Os ndios conseguem trepar palme ras altssimas com 
troncos cobertos de espinhos. Tambm cons guem escalar as paredes de rocha das 
cataratas, que so lisas con espelhos - disse o guia.
Passaram uma boa parte da manh carregando as lancha O professor Leblanc levava 
mais volumes que os fotgrafos, i cluindo uma proviso de gua engarrafada, que 
usava at para barbear, porque temia as guas infectadas de mercrio. Foi in 
Csar Santos repetir-lhe que acampariam contra a corrente, lon] das minas de 
ouro. Por sugesto do guia, Leblanc tinha contrat do Karakawe para seu 
assistente pessoal, o ndio que o abana na noite anterior, para que o servisse 
durante o resto da travessi Explicou que sofria das costas e no podia carregar 
o menor pes
Desde o comeo dessa aventura, Alexander teve a respons bilidade de cuidar das 
coisas da av. Esse era um aspecto do s~ trabalho, pelo qual ela lhe dava uma 
remunerao mnima, qi seria paga no regresso, desde que a desempenhasse bem. 
Todos dias, Kate Cold apgntava no seu caderno as horas de trabalho c neto e 
fazia-o assinar a pgina, mantendo assim as contas certl Num momento de 
sinceridade, ele contara-lhe como tinha partis tudo o que havia no quarto antes 
de comear a viagem. Ela n achou grave porque era de opinio de que se precisa 
de mui pouco neste mundo, mas ofereceu-lhe um salrio para o caso ~
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
ele pensar repor o que destrura. A av viajava com trs mudas de roupa de 
algodo, vodka, tabaco, champ, sabonete, repelente de insectos, mosquiteiro, 
cobertor, papel e uma caixa de lpis, tudo dentro de um saco de lona. Levava 
tambm uma mquina fotogrfica automtica, das mais ordinrias, que tinha 
provocado gargalhadas desdenhosas aos fotgrafos profissionais Timothy Bruce e 
Joel Gonzlez. Kate deixou-os rir-se sem fazer comentrios. Alex levava ainda 
menos roupa que a av, mais um mapa e dois livros. Ao cinto, pendurara o 
canivete suo, a flauta e uma bssola. Ao ver o instrumento, Csar Santos 
explicou-lhe que no lhe serviria de nada na selva, onde no se podia avanar em 
linha recta.
- Esquece-te da bssola, rapaz. O melhor  seguires-me sem nunca me perderes de 
vista - aconselhou.
Mas a Alex agradava-lhe a ideia de poder localizar o Norte onde quer que 
estivesse. O relgio, por outro lado, no lhe serviria de nada, porque o tempo 
no Amazonas no era como no resto do planeta, no se media em horas, mas no 
amanhecer, nas mars, estaes e chuvas.
Os cinco soldados disponibilizados pelo capito Ariosto, e Ma
tuwe, o guia ndio contratado por Csar Santos, iam bem armados.
Matuwe e Karakawe tinham adoptado esses nomes para se enten
derem com os forasteiros. S os seus familiares e amigos ntimos
podiam cham-los pelos seus nomes verdadeiros. Ambos tinham
deixado as suas tribos muito jovens, para se educarem nas escolas
dos missionrios, onde foram cristianizados, mas mantinham-se em
contacto com os ndios. Ningum conseguia orientar-se na regio
melhor que Matuwe, que nunca tinha recorrido a um mapa para
saber onde estava. Karakawe era considerado homem de cidade,
porque viajava com frequncia para Manaus e Caracas e porque
tinha, como tanta gente da cidade, um temperamento desconfiado.
Csar Santos levava o indispensvel para montar o acampa
mento: tendas, comida, utenslios de cozinha, luzes e rdio a bate
ria, ferramentas, redes para fabricar armadilhas, machetes, facas e
algumas bugigangas de vidro e plstico para trocar ofertas com ~ ndios.  
ltima hora apareceu a filha com o seu macaquinho pre pendurado  anca, o 
amuleto de Walimai e um casaco de algodo pescoo como nica bagagem, dizendo 
que estava pronta para er barcar. Tinha avisado o pai de que no pensava ficar 
em Santa Mar de Ia Lluvia com as freiras do hospital, como das outras vezes, pc 
que Mauro Carias andava por ali e ela no gostava da forma con a olhava e 
tentava tocar. Tinha medo do homem que levava o cor o numa bolsa. O 
professor Leblanc enfureceu-se. Anteriorme te, j colocara severas objeces  
presena do neto de Kate Col mas como era impossvel mand-lo de volta para os 
Estados Ur dos, teve de o tolerar. Agora, no entanto, no estava disposto a pe 
mitir que, por motivo algum, a filha do guia viesse tambm.
- Isto no  um jardim infantil,  uma expedio cientfii de alto risco. Os 
olhos do mundo esto postos em Ludovic Leblai - alegou, furioso.
Como ningum lhe deu importncia, recusou-se a embarca Sem ele no podiam 
partir. S o enorme prestgio do seu nome se via de garantia perante a 
International Geographic, disse. Csar Sa tos procurou convenc-lo de que a sua 
filha andava sempre co ele e no incomodaria nada. Pelo contrrio, poderia ser 
uma gra de ajuda porque falava vrios dialectos ndios. Leblanc mantev -se 
inflexvel. Meia hora mais tarde o calor passava dos trinta e oi graus, todas as 
superfcies transpiravam humidade e o estado de e prito dos expedicionrios 
estava to em brasa como o clima. Nes altura Kate Cold interveio.
- A mim tambm me doem as costas, professor. Preciso um assistente pessoal. 
Contratei Nadia Santos para carregar os me cadernos e para me' ibanar com uma 
folha de bananeira - dis~
Todos soltaram uma gargalhada. A rapariga subiu digname te para a lancha e 
sentou-se ao p da escritora. O macaco instalouna sua saia e, da, mostrava a 
lngua e fazia traquinices ao profe sor Leblanc, que tambm embarcara, vermelho 
de indignao.
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CAPTULO 8
A expedio


O grupo viu-se novamente navegando rio acima. Desta vez iai treze adultos e duas 
crianas em duas lanchas a motor, ambas pe tencentes a Mauro Caras, que as 
pusera  disposio de Leblan
Alex esperou pela oportunidade de poder contar  av, em pi vado, o estranho 
dilogo entre Mauro Caras e o capito Ariost~ que Nadia lhe tinha traduzido. 
Kate ouviu com ateno e no de mostras de incredulidade, como o neto receara. 
Pareceu, pelo coi trrio, bastante interessada.
- No gosto de Carias. Qual ser o seu plano para extermin, os ndios? - 
perguntou.
- No sei.
- A nica coisa que podemos fazer por agora  esperar e v giar - concluiu a 
escritoa.
- Nadia disse o mesmo.
- Essa menina devia ser minha neta, Alexander.
A viagem pelo rio era semelhante  que tinham feito anterio mente, de Manaus a 
Santa Mara de Ia Lluvia, embora a paisage tivesse mudado. Nessa altura o rapaz 
decidira fazer como Nadia em vez de lutar contra os mosquitos empapando-se em 
insecticid deixava que o atacassem, vencendo a tentao de coar-se. Tirc tambm 
as botas quando verificou que estavam sempre molhada e que as sanguessugas o 
mordiam da mesma forma, quer as tives! caladas, quer no. Da primeira vez no 
se apercebeu at a sua w lhe apontar para os ps: tinha as meias ensanguentadas. 
Tirou-as
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
ISABEL ALLENDE

viu aqueles bichos asquerosos agarrados  sua pele, inchados de sangue.
- No di porque injectam um anestsico antes de chuparem o sangue - explicou 
Csar Santos.
Depois ensinou-o a tirar as sanguessugas queimando-as com um cigarro, para 
evitar que os dentes ficassem presos  pele, com o risco de provocarem uma 
infeco. Esse mtodo era um pouco complicado para Alex, que no fumava, mas um 
pouco de tabaco quente do cachimbo da av surtiu o mesmo efeito. Era mais fcil 
livrar-se delas do que viver preocupado em evit-las.
Desde o incio, Alex teve a impresso de que havia uma tenso palpvel entre os 
adultos da expedio: ningum confiava em ningum. Tambm no conseguia livrar-
se da sensao de estar a ser espiado, de que havia milhares de olhos observando 
todos os movimentos das lanchas. Olhava, a todo o instante, por cima do ombro, 
mas ningum os seguia pelo rio.
Os cinco soldados eram caboclos nascidos na regio. Matuwe, o guia contratado 
por Csar Santos, era indgena e servir-lhes-ia de intrprete com as tribos. O 
outro ndio puro era Karakawe, o assistente de Leblanc. De acordo com a doutora 
Omayra Torres, Karakawe no se comportava como os outros ndios e possivelmente 
nunca poderia voltar a viver com a sua tribo.
Entre os ndios tudo se partilhava e as nicas posses eram as poucas armas ou 
primitivas ferramentas que cada um pudesse transportar consigo. Cada tribo tinha 
um shabono, uma grande cabana comum de forma circular, telhada com palha e 
aberta para um ptio interior. Viviam todos juntos, partilhando desde a comida 
at  educao das crianas. No entanto, o contacto com os estrangeiros estava a 
acabar com as tribos: no os contagiavam s com doenas do corpo, mas tambm com 
outras da alma. Assim que os ndios experimentavam um machete, uma faca ou 
qualquer outro artefacto metlico, as suas vidas mudavam para sempre. Com um 
nico machete podiam multiplicar mil vezes a produo nas suas
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pequenas hortas, onde cultivavam mandioca e milho. Com ui faca, qualquer 
guerreiro se sentia um deus. Os ndios sentiam pe ao a mesma obsesso que os 
forasteiros sentiam pelo ouro. Kai kawe tinha superado a etapa do machete e 
estava na das armas fogo: no se separava da sua antiquada pistola. Algum como 
e que pensava mais em si prprio do que na comunidade, no tin lugar na tribo. O 
individualismo era considerado uma forma demncia, tal como ser possudo pelo 
demnio.
Karakawe era um homem tosco e lacnico, respondia por rr nosslabos quando 
algum lhe fazia uma pergunta impossvel evitar. No se dava bem com os 
estrangeiros, com os caboclos com os ndios. Servia Ludovic Leblanc de m 
vontade e nos sc olhos brilhava o dio quando tinha de se dirigir ao antroplol 
No comia juntamente com os restantes, no bebia uma gota lcool e separava-se 
do grupo quando acampavam  noite. Nac e Alex surpreenderam-no uma vez 
revistando a bagagem da dc tora Omayra Torres.
- Tarntula - disse em jeito de explicao.
Alexander e Nadia dispuseram-se a vigi-lo.


 medida que avanavam, a navegao tornava-se cada mais dificil porque o rio 
costumava estreitar-se, precipitando-se i rpidos que ameaavam virar as 
lanchas. Noutras partes a gua 1 recia estagnada e flutuavam cadveres de 
animais, troncos pod e ramos que impediam o avano. Tinham de desligar os motore 
continuar a remo, usando varas de bambu para afastar os detrit Algumas vezes 
eram grandes jacars que, vistos de cima, se cc fundiam com troncos. Csar 
Santos explicou que quando a g estava baixa apareciam os jaguares e quando 
estava alta, as serp( tes. Viram um casal de tartarugas gigantes e uma enguia de 
me e meio de comprimento que, segundo Csar Santos, atacava cc uma forte 
descarga elctrica. A vegetao era densa e exalava I

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ISABEL ALLENDE
cheiro a matria orgnica em decomposio, mas s vezes, ao anoitecer, abriam 
umas grandes flores enredadas nas rvores e, nessa altura, o ar enchia-se de um 
aroma doce a baunilha e a mel. Garas brancas observavam-nos imveis na erva 
alta que subia do rio e por todo o lado havia borboletas de cores brilhantes.
Csar Santos costumava parar os botes perto de rvores cujos ramos se inclinavam 
sobre a gua e bastava estender a mo para apanhar os seus frutos. Alex nunca os 
tinha visto e no queria prov-los, mas os outros saboreavam-nos com prazer. 
Numa ocasio o guia desviou a embarcao para apanhar uma planta que, conforme 
disse, era um cicatrizante estupendo. A doutora Omayra Torres estava de acordo e 
recomendou ao rapaz americano que esfregasse a cicatriz da mo com o suco da 
planta, embora na realidade no fosse necessrio, porque tinha sarado bem. Via-
se-lhe apenas uma linha avermelhada, que no o incomodava.
Kate Cold contou que muitos homens procuraram naquela regio a mtica cidade de 
El Dorado onde, segundo a lenda, as ruas eram pavimentadas de ouro e as crianas 
brincavam com pedras preciosas. Muitos aventureiros internaram-se na selva e 
subiram o Amazonas e o rio Orenoco, sem chegarem ao corao desse territrio 
encantado, onde o mundo continuava inocente, como no despertar da vida humana no 
planeta. Morreram ou retrocederam, derrotados pelos ndios, pelos mosquitos, 
pelas feras, pelas doenas tropicais, pelo clima e pelas dificuldades do 
terreno.
Estavam j em territrio venezuelano, mas ali as fronteiras no significavam 
nada, era tudo o mesmo paraso pr-histrico. Ao contrrio do rio Negro, as 
guas desses rios eram solitrias. No se cruzaram com outras embarcaes, no 
viram canoas, nem casas sobre estacas, nem um nico ser humano. A flora e a 
fauna, por outro lado, eram maravilhosas, os fotgrafos estavam felicssimos, 
nunca tinham tido tantas espcies de rvores, plantas, flores, insectos, aves e 
animais ao alcance das suas lentes. Viram papagaios verdes e vermelhos, 
flamingos elegantes, tucanos com o bico to
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grande e pesado que mal o conseguiam suportar com os seus cr nios frgeis, 
centenas de canrios e de periquitos. Muitos deste pssaros estavam ameaados de 
extino, porque os traficantes o caavam sem piedade para os venderem de 
contrabando noutro pases. Os macacos de diversos grupos, quase humanos nas sua 
expresses e brincadeiras, pareciam saud-los das rvores. Havi veados, ursos-
formigueiros, esquilos e outros pequenos mamfe ros. Vrios papagaios 
esplndidos - ou araras, como os chama vam tambm - seguiram-nos durante longos 
trechos. Essas ave multicores voavam com uma enorme graciosidade por cima das 
lar chas, como se sentissem curiosidade pelas estranhas criaturas qu a 
viajavam. Leblanc disparou sobre elas com a sua pistola, ma Csar Santos 
conseguiu dar-lhe uma pancada seca no brao, des viando o tiro. O som assustou o 
macaco e os outros pssaros, o c encheu-se de asas, mas pouco depois os 
papagaios regressaram, im passveis.
- No se comem, professor, a carne  amarga. No h raz para os matar - disse 
Csar Santos, censurando o professor.
- Gosto das penas - disse Leblanc, aborrecido pela interfe rncia do guia.
- Compre-as em Manaus - disse secamente Csar Santo,,
- As araras podem ser domesticadas. A minha me tem um na nossa casa da Boa 
Vista. Acompanha-a para toda a parte, voan do sempre dois metros acima da cabea 
dela. Quando a minha m vai ao mercado, a arara segue o autocarro at ela 
descer, espera -a numa rvore enquanto ela faz as compras e depois volta cor 
ela, como um cozinho fraldiqueiro - contou a doutora Omay ra Torres.
Alex verificou unia vez mais que a msica da sua flauta alvo roava os macacos e 
'os pssaros. Borob parecia particularment atrado pela flauta. Quando ele 
tocava, o macaquinho ficava im vel, ouvindo, com uma expresso solene e 
curiosa. s vezes salta va-lhe para cima e puxava pelo instrumento, pedindo 
msica. Ale:
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE!
satisfazia-o, encantado por poder contar com uma audincia interessada, depois 
de ter brigado durante anos com as irms para o deixarem praticar flauta em paz. 
Os membros da expedio sentiam-se confortados com a msica, que os acompanhava 
 medida que a paisagem se tomava mais hostil e misteriosa. O rapaz tocava sem 
esforo, as notas fluam sozinhas, como se aquele delicado instrumento tivesse 
memria e recordasse a mestria impecvel do seu anterior proprietrio, o clebre 
Joseph Cold.
A sensao de serem seguidos apoderara-se de todos. Sem o confessarem, porque o 
que no se nomeia  como se no existisse, vigiavam a Natureza. O professor 
Leblanc passava o dia com os binculos na mo examinando as margens do rio. A 
tenso tornara-o ainda mais desagradvel. Os nicos que no se tinham deixado 
contagiar pelo nervosismo colectivo eram Kate Cold e o ingls Timothy Bruce. 
Tinham trabalhado juntos em muitas ocasies, tinham percorrido meio mundo  
conta das suas reportagens, tinham estado em vrias guerras e revolues, 
trepado montanhas e descido ao fundo do mar, de modo que poucas coisas lhes 
tiravam o sono. Alm disso, faziam gala da sua indiferena.
- No achas que nos esto a vigiar, Kate? - perguntou-lhe o neto.
- Sim.
- E no te assusta?
- H vrias maneiras de superar o medo, Alexander. Nenhuma funciona - replicou 
ela.
Mal acabara de pronunciar estas palavras, um dos soldados que viajava na 
embarcao caiu aos seus ps sem um grito. Kate Cold inclinou-se sobre ele, 
inicialmente sem compreender o que tinha acontecido, at ver uma espcie de 
espinha comprida cravada no peito do homem. Comprovou que tinha morrido 
instantaneamente: a espinha tinha passado sem dificuldade entre as costelas e 
atravessara-lhe o corao. Alex e Kate alertaram os restantes tripulantes,
que no se tinham apercebido da ocorrncia, to silencioso fora ataque. Um 
instante depois, meia dzia de armas de fogo foram de carregadas contra a mata. 
Quando se dissipou o fragor, a plvora o estampido dos pssaros que cobriram o 
cu, viram que nada ma se movera na selva. Quem quer que tenha lanado o dardo 
morta manteve-se agachado, imvel e silencioso. Com um puxo, Cs; Santos 
arrancou-o do cadver e viram que media aproximadamel te um p de comprimento e 
que era to firme e flexvel como o a
O guia deu ordem para continuarem a toda a velocidade, po que nessa parte o rio 
era estreito e as embarcaes eram um ah fcil para as flechas dos atacantes. S 
duas horas mais tarde se d, tiveram, quando considerou que estavam a salvo. 
Apenas nessa a tura puderam examinar o dardo, decorado com estranhas marca de 
pintura vermelha e preta, que ningum conseguiu decifrar. KK rakawe e Matuwe 
garantiram que nunca as tinham visto, que n pertenciam s suas tribos ou a 
qualquer outra tribo conhecid; mas garantiram tambm que todos os ndios da 
regio usavam z. rabatanas. A doutora Omayra Torres explicou que, se o dardo n 
tivesse acertado no corao com aquela preciso espantosa, tere matado o homem 
de qualquer maneira em poucos minutos, embc ra de forma mais dolorosa, porque a 
ponta estava impregnada c curare, um veneno mortal; utilizado pelos ndios para 
caar e pai a guerra, e para o qual no se conhecia antdoto.
- Isto  inadmissvel! Essa flecha podia ter-me acertado! - protestou Leblanc.
-  verdade - admitiu Csar Santos.
- A culpa disto  sua! - acrescentou o professor.
'Culpa minha? - repetiu Csar Santos, confuso pelo ruir inusitado do assunto:
- Voc  o guia!  responsvel pela nossa segurana, para is: lhe pagamos!
- No estamos propriamente numa viagem de turismo, pr, fessor - replicou Csar 
Santos.
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- Daremos meia volta e regressaremos de imediato. Apercebe-se da perda que seria 
para o mundo cientfico se acontecesse alguma coisa a Ludovic Leblanc? - 
exclamou o professor.
Assombrados, os membros da expedio mantiveram-se calados. Ningum soube o que 
dizer, at Kate Cold intervir.
- Contrataram-me para escrever um artigo sobre a Besta e penso faz-lo, com 
flechas envenenadas ou sem elas, professor. Se deseja regressar, pode faz-lo a 
p ou a nado, como preferir. Ns continuaremos de acordo com o planeado - disse.
- Velha insolente! Como se atreve a... - ainda conseguiu guinchar o professor.
- No me falte ao respeito, homenzinho - interrompeu-o calmamente a escritora, 
agarrando-o firmemente pela camisa e paralisando-o com a expresso das suas 
temveis pupilas azuis.
Alex pensou que o antroplogo daria uma bofetada  av e avanou disposto a 
intercept-la, mas no foi necessrio. O olhar de Kate Cold teve o poder de 
acalmar os nimos do irritvel Leblanc, como por magia.
- O que faremos com o corpo deste pobre homem? - perguntou a mdica, apontando 
para o cadver.
- No podemos lev-lo, Omayra. Neste clima bem sabes que a decomposio  muito 
rpida. Suponho que devemos lan-lo ao rio... - sugeriu Csar Santos.
- O seu esprito zangar-se-ia e perseguir-nos-ia para nos matar - interveio 
Matuwe, o guia ndio, aterrado.
- Ento faremos como os ndios quando tm de adiar uma cremao: deixamo-lo 
exposto para que os pssaros e os animais aproveitem os seus restos - decidiu 
Csar Santos.
- No haver uma cerimnia, como deve ser? - insistiu Matuwe.
- No temos tempo. Um funeral apropriado demoraria vrios dias. Alm disso, este 
homem era cristo - explicou Csar Santos.
Finalmente acordaram em embrulh-lo numa lona e em col< c-lo sobre uma pequena 
plataforma de cascas que instalaram r copa de uma rvore. Kate Cold, que no era 
uma mulher religic sa, mas tinha boa memria e recordava as oraes da sua 
infn improvisou um breve rito cristo. Timothy Bruce e Joel Gonzle filmaram e 
fotografaram o corpo e o funeral, como prova do qu acontecera. Csar Santos 
entalhou cruzes nas rvores da margem marcou o stio o melhor que pde no mapa, 
a fim de o reconhec( rem quando voltassem mais tarde para recolher os ossos, que 
serial entregues  famlia do defunto em Santa Maria de Ia Lluvia.


A partir desse momento, a viagem foi de mal a pior. A vege tao tomou-se mais 
densa e a luz do sol s chegava at eles quar do navegavam no centro do rio. Iam 
to apertados e incmodos qu no conseguiam dormir nas embarcaes. Apesar do 
perigo que re presentavam os ndios e os animais selvagens, era necessrio acari 
par na margem. Csar Santos distribua os alimentos, organizava e grupos de caa 
e pesca, e distribua, entre os homens, os turnos d guarda durante a noite. 
Excluiu o professor Leblanc, porque era evi dente que, ao menor rudo, os seus 
nervos cederiam. Kate Cold a doutora Omayra Torres exigiram participar na 
vigilncia por lhe parecer um insulto exclurem-nas por serem mulheres. Nessa al 
tora, os dois jovens insistiram tambm em serem aceites, em part porque queriam 
vigiar Karakawe. Tinham-no visto deitar mo cheias de balas nos bolsos e rondar 
o equipamento de rdio, cor o qual de vez em quando Csar Santos conseguia 
comunicar cor grande dificuldade, para indicar a sua posio no mapa ao opera 
dor de Santa Maria.de'la Lluvia. A cpula vegetal da selva funcic nava como um 
guarda-chuva, impedindo a passagem das onda radiofnicas.
- O que ser pior, os ndios ou a Besta? - perguntou Alex n brincadeira a 
Ludovic Leblanc.
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- Os ndios, jovem. So canibais, no comem apenas os seus inimigos, tambm 
comem os mortos da sua prpria tribo - replicou, enftico, o professor.
-  verdade? Nunca tinha ouvido isso - comentou a doutora Omayra Torres com 
ironia
- Leia o meu livro, menina.
- Doutora - corrigiu-o ela pela milsima vez.
- Estes ndios matam para arranjarem mulheres - garantiu Leblanc.
- Talvez por isso o senhor matasse, professor, mas no os ndios, porque no 
lhes faltam mulheres. Pelo contrrio, sobram-lhes - replicou a mdica.
- Comprovei com os meus prprios olhos: assaltam outros shabonos para roubarem 
as raparigas.
- Que eu saiba, no podem obrigar as raparigas a ficar com eles contra a sua 
vontade. Se quiserem, podem partir. Quando h guerra entre dois shabonos  
porque um deles utilizou magia para causar dano ao outro, por vingana. s vezes 
so tambm guerras cerimoniais, onde h bordoada, mas sem inteno de matar 
ningum - interrompeu Csar Santos.
- Engana-se, Santos. Veja o documentrio de Ludovic Leblanc e entender a minha 
teoria - garantiu Leblanc.
- Entendo  que o senhor distribuiu machetes e facas num shabono e prometeu aos 
ndios que lhes daria mais presentes se actuassem para as cmaras de acordo com 
as suas instrues... - sugeriu o guia.
- Isso  uma calnia! Segundo a minha teoria...
- Outros antroplogos e jornalistas tambm vieram ao Amazonas com as suas ideias 
preconcebidas sobre os ndios. Houve um que filmou um documentrio em que os 
rapazes se vestiam de mulher, se pintavam e usavam desodorizante - acrescentou 
Csar Santos.
-Ah! Esse colega sempre teve ideias um pouco estranhas... - admitiu o professor.
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O guia ensinou Alex e Nadia a carregarem e a usarem as p tolas. A rapariga no 
demonstrou grande habilidade ou interes parecia incapaz de acertar no alvo a 
trs passos de distncia. Al, pelo contrrio, estava fascinado. O peso da 
pistola na mo da, -lhe uma sensao de poder invencvel. Pela primeira vez co 
preendia a obsesso de tanta gente pelas armas.
- Os meus pais no toleram armas de fogo. Se me vissem cc isto, creio que 
desmaiariam - comentou.
- No te vero - garantiu a av, enquanto lhe tirava uma tografia.
Alex agachou-se e fingiu disparar, como fazia quando brins va em criana.
- A tcnica segura para errar o tiro  apontar e disparar apri sadamente - disse 
Kate Cold. - Se nos atacarem, ser isso exi tamente o que fars, Alexander, mas 
no te preocupes, porq ningum estar a ver-te. O mais provvel nessa altura  
j estarm todos mortos.
- No achas que eu consiga defender-te, no  verdade?
- No. Mas prefiro morrer assassinada pelos ndios no An zonas, que de velhice 
em Nova Iorque - replicou a av.
- s nica, Kate! - disse o rapaz a sorrir.
- Somos todos nicos, Alexander - cortou ela.


No terceiro dia de navegao avistaram uma famlia de ve dos numa pequena 
clareira da margem. Os animais, habituado; segurana do bosque, no pareceram 
perturbados pela presen dos barcos. Csar Santos mandou parar e matou um deles 
con sua espingarda, enquanto os restantes fugiam espavoridos. Nes noite, os 
expedicionrids jantariam muito bem, a carne de vea, era bastante apreciada, 
apesar da sua textura fibrosa e seria ur festa aps tantos dias com a mesma 
dieta de peixe. Matuwe lev va um veneno que os ndios da sua tribo deitavam no 
rio. Quan~
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ISABEL ALLENDE

o veneno caa  gua, os peixes ficavam paralisados e era possvel trespass-los 
facilmente com uma lana ou com uma flecha amarrada a uma liana. O veneno no 
deixava rasto na carne do peixe nem na gua e os restantes peixes recuperavam 
passado pouco tempo.
Estavam num stio aprazvel onde o rio formava uma peque
na lagoa, perfeito para pararem por algumas horas, comerem e recuperarem as 
foras. Csar Santos avisou-os de que tivessem cuidado porque a gua era turva e 
tinham sido vistos jacars umas horas antes, mas estavam todos acalorados e 
sedentos. Com os varapaus, os guardas revolveram a gua e, como no viram 
vestgios de jacars, decidiram todos banhar-se, menos o professor Ludovic 
Leblanc, que no se metia no rio por motivo algum. Borob, o macaco, era inimigo 
do banho, mas Nadia obrigava-o a molhar-se de vez em quando para livr-lo das 
pulgas. Montado na cabea da dona, o animalzinho lanava exclamaes do mais 
puro terror cada vez que uma gota o salpicava. Os membros da expedio 
chapinharam durante algum tempo, enquanto Csar Santos e dois dos seus homens 
esquartejavam o veado e acendiam o fogo para o assado.
Alex viu a av tirar as calas e a camisa para nadar em roupa interior, sem 
demonstraes de pudor, apesar de, ao molhar-se, parecer quase nua. Evitou olh-
la, mas rapidamente compreendeu que ali, no meio da Natureza e to longe do 
mundo conhecido, a vergonha do corpo no tinha cabimento. Criara-se num estreito 
contacto com a sua me e com as suas irms e na escola habituara-se  companhia 
do sexo oposto, mas nos ltimos tempos, tudo o que dizia respeito ao sexo 
feminino o atraa como um mistrio remoto e proibido. Conhecia a causa: as suas 
hormonas, que andavam num alvoroo e no o deixavam raciocinar em paz. A 
adolescncia era uma embrulhada, o pior que podia haver, decidiu. Deveriam 
inventar um aparelho com raios laser, onde uma pessoa se metesse durante um 
minuto e, pufl, sasse convertido num adulto. Tinha um furaco dentro de si, s 
vezes andava eufrico, rei do mundo, disposto
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a lutar desarmado com um leo; outras vezes era simplesmente 1 girino. No 
entanto, desde que esta viagem comeara, nunca m se tinha lembrado das hormonas, 
e tambm no tivera tempo p~ perguntar a si prprio se valeria a pena continuar 
a viver, uma c vida que anteriormente o assaltava pelo menos uma vez por d Agora 
comparava o corpo da av - rijo, cheio de ns, com a ppp fendida - com as suaves 
curvas douradas da doutora Omayra T res, que usava um discreto fato de banho 
preto, e com a gracio dade ainda infantil de Nadia. Observou como o corpo mudava 
r vrias idades e concluiu que as trs mulheres, cada uma  sua n neira, eram 
igualmente belas. A ideia f-lo corar. Jamais teria pe sado, h duas semanas 
atrs, que poderia considerar a sua prp av atraente. Estariam as hormonas a 
fritar-lhe o crebro?
Um alarido arrepiante afastou Alex de to importantes ref xes. O grito provinha 
de Joel Gonzlez, um dos fotgrafos, q se debatia desesperadamente na lama da 
margem. Ao princp ningum percebeu o que estava a acontecer, viam apenas os b 
os do homem agitando-se no ar e a cabea afundando-se e v~ tando a emergir. 
Alex, que fazia parte da equipa de natao da s escola, foi o primeiro a chegar 
ali com duas ou trs braadas. aproximar-se, viu, totalmente horrorizado, uma 
cobra grossa cor uma inchada mangueira de bombeiro envolvendo o corpo do foi 
grafo. Alex agarrou Gonzlez por um brao e tentou arrast-lo p, terra firme, 
mas o peso do homem e do rptil eram demasiado p~ ele. Com ambas as mos tentou 
separar o animal, puxando cc todas as foras, mas os anis do rptil apertaram 
ainda mais a s vtima. Lembrou-se da arrepiante experincia da surucucu que, 
algumas noites, se tinha enrolado na perna. Isto era mil vezes pis O fotgrafo 
j no ~e debatia nem gritava, estava inconsciente.
- Pap! Pap! Uma anaconda! - chamou Nadia, juntand -se aos gritos de Alex.
Por essa altura, Kate Cold, Timothy Bruce e os dois soldad j se tinham 
aproximado e entre todos lutavam com a forte cob
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
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para a desprender do corpo do infeliz Gonzlez. O alvoroo moveu a lama do fundo 
da lagoa, tornando a gua escura e espessa como chocolate. Na confuso no se 
conseguia ver o que se estava a passar, cada um puxava e gritava instrues sem 
qualquer resultado. O esforo parecia intil at ter aparecido Csar Santos com 
a faca com que estava esquartejando o veado. O guia no se atreveu a us-la s 
cegas com receio de ferir Joel Gonzlez ou qualquer um dos outros que lutavam 
com o rptil. Teve de esperar o momento em que a cabea da anaconda surgiu por 
instantes da lama para a decapitar com um corte certeiro. A gua encheu-se de 
sangue, tornando-se cor de ferrugem. Precisaram de mais cinco minutos para 
libertar o fotgrafo, porque os anis constritores continuavam a oprimi-lo por 
reflexo.
Arrastaram Joel Gonzlez at  margem, onde este ficou estendido como morto. O 
professor Leblanc ficara to nervoso que, de um local seguro, disparava tiros 
para o ar, contribuindo para aumentar a confuso e o transtorno geral, at Kate 
Cold lhe tirar a pistola e o obrigar a calar-se. Enquanto os outros lutavam na 
gua com a anaconda, a doutora Omayra Torres tinha subido  lancha para ir 
buscar a sua maleta e estava agora de joelhos ao p do homem inconsciente, com 
uma seringa na mo. Agia em silncio e com calma, como se o ataque de uma 
anaconda fosse um acontecimento perfeitamente normal na sua vida. Injectou 
adrenalina a Gonzlez e, assim que teve a certeza de que este respirava, comeou 
a examin-lo.
- Tem vrias costelas partidas e est em estado de choque - disse. - Esperemos 
que no tenha os pulmes perfurados por um osso ou o pescoo fracturado.  
preciso imobiliz-lo.
- Como o faremos? - perguntou Csar Santos.
- Os ndios usam casca de rvore, barro e lianas - disse Nadia, ainda a tremer 
pelo que acabara de presenciar.
- Muito bem, Nadia - aprovou a mdica.
O guia comunicou as instrues necessrias e depressa a mdica, ajudada por Kate 
e Nadia, tinha envolvido o ferido, das ancas
ao pescoo, em trapos empapados em barro fresco; por cima ti posto longas tiras 
de cortia e depois amarrara-o. Ao secar o ba aquele envoltrio primitivo teria 
o mesmo efeito de um mode colete ortopdico. Joel Gonzlez, atordoado e dorido, 
no peitava ainda do que lhe acontecera, mas j tinha recupera conscincia e 
conseguia articular algumas palavras.


- Temos de levar Joel imediatamente para Santa Maria d Lluvia. De l podero 
transport-lo no avio de Mauro Carias 1 um hospital - decidiu a mdica.
- Isso  um inconveniente terrvel! Temos apenas dois barc No podemos mandar um 
de volta - refutou o professor Lebli
- Como? Ontem o senhor queria dispor de um barco f fugir e agora no quer enviar 
um com o meu amigo ferido? -1 guntou Timothy Bruce fazendo um esforo para 
manter a cal]
- Sem a devida ateno, Joel pode morrer - explicou a i dica.
- No exagere, minha boa senhora. O estado desse horn no  grave, est apenas 
assustado. Com um pouco de desca recuperar em pouco dias - disse Leblanc.
-  muita considerao da sua parte, professor - resm gou Timothy Bruce, 
fechando os punhos.
- Basta, senhores! Amanh tomaremos uma deciso. J demasiado tarde para navegar, 
rapidamente escurecer. Temo acampar aqui - decidiu Csar Santos.
A doutora Omayra Torres ordenou que fizessem uma foge ra perto do ferido para o 
manter seco e quente durante a noite, i era sempre fria. Para o ajudar a 
suportar as dores, aplicoua morfina e, para prevenir infeces, comeou a 
administrar-lhe tibiticos. Misturou algumas colheres de gua e um pouco de numa 
garrafa de gua e pediu a Timothy Bruce para adminisi o lquido ao amigo, com 
uma colherzinha, evitando desta for
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a desidratao, uma vez que, evidentemente, no poderia comer nada slido nos 
prximos dias. O fotgrafo ingls, que raras vezes mudava a sua expresso de 
cavalo ablico, estava francamente preocupado e obedeceu s ordens com uma 
solicitude de me. At o mal-humorado professor Leblanc teve de admitir para si 
prprio que a presena da mdica era indispensvel numa aventura como aquela.
Entretanto, trs dos soldados e Karakawe tinham arrastado o corpo da anaconda 
para a margem. Ao medi-la, viram que tinha quase seis metros de comprimento. O 
professor Leblanc insistiu em ser fotografado com a anaconda enrolada em redor 
do corpo de modo que no se visse que lhe faltava a cabea. Depois os soldados 
arrancaram a pele do rptil, que pregaram num tronco para secar. Desta forma 
poderiam aumentar o comprimento em cerca de vinte por cento e os turistas 
pagariam um bom preo por ela. No entanto, no precisariam de a levar at  
cidade, porque o professor Leblanc se disps a compr-la ali mesmo, assim que 
ficou com a certeza de que no lha ofereceriam. Kate Cold, trocista, cochichou 
ao ouvido do neto que certamente dentro de algumas semanas, o antroplogo 
exibiria a anaconda como um trofu nas suas conferncias, contando como a tinha 
caado com as suas prprias mos. Assim ganhara fama de heri entre os 
estudantes de antropologia do mundo inteiro, fascinados com a ideia de que os 
homicidas tinham o dobro das mulheres e trs vezes mais filhos que os homens 
pacficos. A teoria de Leblanc sobre a vantagem do macho dominante, capaz de 
cometer qualquer brutalidade para transmitir os seus genes, atraa muito estes 
entediados estudantes condenados a viverem domesticados em plena civilizao.
Os soldados procuraram na lagoa a cabea da anaconda, mas no conseguiram 
encontr-la. Tinha-se afundado na lama do fundo ou fora arrastada pela corrente. 
No se atreveram a escavar demasiado, porque se dizia que estes rpteis andam 
sempre aos pares e nenhum deles estava disposto a deparar com outro exemplar 
como
aquele. A doutora Omayra Torres explicou que, quer os ndios q os caboclos, 
atribuam s serpentes poderes curativos e proftic Dissecavam-nas, moam-nas e 
usavam o p para tratar a tuber lose, a calvcie e doenas dos ossos e tambm 
como ajuda para terpretar sonhos. A cabea de uma daquele tamanho seria basta 
apreciada, garantiu, era uma pena ter-se perdido.
Os homens cortaram a carne do rptil, salgaram-na e tratai de ass-la em paus. 
Alex, que at essa altura se recusara a pro pirarucu, urso-formigueiro, tucano, 
macaco ou tapir, sentiu u curiosidade repentina em saber como seria a carne 
daquela err me serpente de gua. Teve em considerao, sobretudo, o qua isso 
aumentaria o seu prestgio junto de Cecilia Burns e dos s amigos da Califrnia 
guando soubessem que tinha jantado anac da a meio da selva amaznica. Posou 
diante da pele da serpei com um pedao de carne na mo, exigindo que a av 
deixasse testemunho fotogrfico. O animal, bastante carbonizado poro nenhum dos 
expedicionrios era bom cozinheiro, acabou por a textura do atum e um vago sabor 
a frango. Comparado cor veado, era desenxabido, mas Alex concluiu que, de qualq 
forma, era prefervel s panquecas elsticas preparadas pelo 1 A lembrana 
sbita da sua famlia atingiu-o como uma bofeta Ficou com o bocado de naconda 
espetado no pauzinho, olhai para a noite.
- O que vs? - perguntou-lhe Nadia num sussurro.
- Vejo a minha me - respondeu o garoto e um soluo es pou-se-lhe dos lbios.
- Como est?
- Doente, muito doente - respondeu ele.
- A tua est coente do corpo, a minha est doente da ali
- Consegues v-l? - inquiriu Alex.
- s vezes - respondeu ela.
- Esta  a primeira vez que consigo ver algum desta mar ra - explicou Alex. - 
Tive uma sensao muito estranha, co
104

ISABEL ALLENDE
se visse a minha me com toda a clareza num ecr, sem conseguir	CAPTULO 9
tocar-lhe ou falar-lhe.
-  tudo uma questo de prtica, Jaguar. Pode aprender-se a ver com o corao. 
Os xamanes como Walimai tambm conseguem tocar e falar de longe, com o corao - 
disse Nadia.
O povo da neblina


Nessa noite penduraram as redes entre as rvores e Csar SS tos distribuiu os 
turnos, de duas horas cada, para fazer guarda e m ter a fogueira acesa. Depois 
da morte do homem vtima da flec e do acidente de Joel Gonzlez, restavam dez 
adultos e os dois vens, porque Leblanc no contava, para cobrir as oito horas de 
curido. Ludovic Leblanc considerava-se chefe da expedio como tal tinha de 
manter-se fresco. Sem uma boa noite de sc no se sentiria lcido para tomar 
decises, argumentou. Os restar alegraram-se, porque na verdade nenhum deles 
queria ficar de gu da com um homem que se punha nervoso ao ver um esquilo. O 1 
meiro turno, que normalmente era o mais fcil, porque as pess~ ainda estavam 
alerta e no fazia muito frio, foi atribudo  dou ra Omayra Torres, a um 
caboclo e a Timothy Bruce, que no se c, formava com o que acontecera ao seu 
colega. Bruce e Gonz tinham trabalhado juntos durante vrios anos e estimavam-
se co irmos. O segundo turno calhava a outro soldado, a Alex e a K Cold; o 
terceiro a Matuwe, Csar Santos e a Nadia. O turno do ar nhecer foi entregue a 
dois soldados e a Karakawe.
Foi muito dificil para todos conciliar o sono, porque aos midos do infeliz Joel 
Gonzlez somava-se um cheiro estranhe persistente, que parecia impregnar o 
bosque. Tinham ouvido fa da fetidez que, conforme se dizia, era caracterstica 
da Besta. C Santos explicou que provavelmente estavam a acampar perto uma 
famlia de iraras, uma espcie de doninha de rosto muito de
106

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
mas com um cheiro semelhante ao dos zorrilhos. Aquela explicao no 
tranquilizou ningum.
- Estou enjoado e com nuseas - comentou Alex, plido. - Se o cheiro no te 
matar, fortalecer-te- - disse Kate, que era a nica impassvel perante o fedor.
 terrvel!
- Digamos que  diferente. Os sentidos so subjectivos, Alexander. O que a ti te 
repugna, para outro pode ser atractivo. Talvez a Besta exale este odor como um 
canto de amor, para chamar o seu par - disse a av a sorrir.
- Puah! Cheira a cadver de ratazana misturado com urina de elefante, comida 
podre e...
- Ou seja, cheira como as tuas meias - cortou a av.
Persistia nos expedicionrios a sensao de estarem a ser observados, da mata, 
por centenas de olhos. Sentiam-se expostos, iluminados como estavam pela 
claridade trmula da fogueira e por dois candeeiros a petrleo. A primeira parte 
da noite decorreu sem grandes sobressaltos, at ao turno de Alex, Kate e um dos 
soldados. O rapaz passou a primeira hora olhando para a noite e para o reflexo 
da gua, guardando o sono dos outros. Pensava como tinha mudado em poucos dias. 
Agora conseguia passar muito tempo imvel e em silncio, entretido com os seus 
prprios pensamentos, sem necessidade dos seus jogos de vdeo, da sua bicicleta 
ou da televiso, como antigamente. Descobriu que podia transferir-se para esse 
lugar ntimo de quietude e de silncio que tinha de atingir quando escalava 
montanhas. A primeira lio de montanhismo recebida do seu pai fora que, 
enquanto estivesse tenso, ansioso ou apressado, dispersava metade da sua fora. 
Para vencer a montanha era preciso calma. Podia aplicar essa lio quando 
escalava, mas at esse momento de pouco lhe tinha servido noutros aspectos da 
sua vida. Apercebeu-se de que tinha muitas coisas em que pensar, mas a imagem 
mais recorrente era sempre a da me. Se ela morresse... Parava sempre a. Tinha 
decidido no admitir
essa possibilidade, porque era como atrair a desgraa. Em vez c so, concentrava-
se em enviar-lhe energia positiva. Era a sua for de a ajudar.
De repente, um rudo interrompeu os seus pensamentos. Ou com toda a clareza 
passos de gigante esmagando os arbustos p ximos. Sentiu um espasmo no peito, 
como se estivesse a afog -se. Pela primeira vez desde que perdera os culos no 
acampame de Mauro Carias, sentiu falta deles porque a sua vista era mu pior de 
noite. Segurando a pistola com ambas as mos para dos nar o tremor, tal como 
vira fazer nos filmes, esperou sem sabe que fazer. Quando se apercebeu de que a 
vegetao se movia mu perto, como se houvesse um contingente de inimigos 
entrinch rados, lanou um grito enorme e terrvel, que soou como uma si ne de 
naufrgio e acordou toda a gente. Num instante, a av este ao seu lado 
empunhando a espingarda. Os dois encontraram frente a frente com a cabeorra de 
um animal que inicialmente r conseguiram identificar. Era um porco selvagem, um 
enorme vali. No se mexeram, paralisados pela surpresa e isso salvou porque o 
animal, tal como Alex, tambm no via bem na esci do. Felizmente a brisa 
soprava na direco contrria, de modo c no conseguia cheir-los. Csar Santos 
foi o primeiro a deslizar c cautela da sua rede e a avaliar a situao, apesar 
da pssima vi bilidade.
- Que ningum se mexa... ordenou quase num sussur para no atrair o javali.
pA sua carne era muito saborosa e teria dado para festejar c rante vrios dias, 
mas no havia luz para disparar e ningum atreveu a empunhar um machete e 
arremeter contra um animal 1 erigoso. O porco passeou tranquilamente entre as 
redes, farej as provises que pendiam de cordis para as proteger de ratazar e 
formigas e acabou por meter o nariz na tenda do professor I dovic Leblanc que, 
com o susto, esteve prestes a sofrer um enf te. No houve outro remdio seno 
esperar que o incmodo visitai
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I

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
se fartasse de percorrer o acampamento e se fosse embora, passando to perto de 
Alex que, se este estendesse a mo, teria podido tocar nos seus plos eriados. 
Depois de se dissipar a tenso e conseguirem gracejar, o rapaz sentiu-se um 
histrico por ter gritado daquela maneira, mas Csar Santos garantiu-lhe que 
tinha feito o mais correcto. O guia repetiu as suas instrues em caso de 
alerta: agachar-se e gritar primeiro, e s depois disparar. Ainda no tinha 
acabado de falar quando soou um tiro: era Ludovic Leblanc disparando para o ar 
dez minutos depois de o perigo ter passado. Definitivamente, o professor era 
rpido no gatilho, como disse Kate Cold.
No terceiro turno, quando a noite estava mais fria e escura, a vigilncia era da 
responsabilidade de Csar Santos, Nadia e um dos soldados. O guia hesitou em 
acordar a filha, que dormia profundamente, abraada a Borob, mas calculou que 
ela no lhe perdoaria se deixasse de o fazer. A garota afugentou o sono com dois 
goles de caf preto bem aucarado e agasalhou-se o melhor que pde com algumas 
camisolas, o seu colete e o casaco do pai. Alex s conseguira dormir duas horas 
e estava bastante cansado, mas quando avistou Nadia,  luz tnue da fogueira, 
preparando-se para o seu turno de guarda, levantou-se tambm, disposto a 
acompanh-la.
- Eu estou segura, no te preocupes. Tenho o talism que me protege - sussurrou 
ela para o tranquilizar.
- Volta para a tua rede - ordenou-lhe Csar Santos. - Precisamos todos de 
dormir, para isso se estabeleceram turnos.
Alex obedeceu de m vontade, decidido a manter-se acordado, mas passados poucos 
minutos o sono venceu-o. No conseguiu calcular quanto tempo tinha dormido, mas 
deve ter sido mais de duas horas porque, quando acordou, sobressaltado pelo 
rudo  sua volta, o turno de Nadia tinha acabado h muito tempo. Mal comeara a 
clarear, a bruma era leitosa e o frio intenso, mas j estavam todos de p. 
Flutuava no ar um cheiro to denso que podia cortar-se  faca.
- O que aconteceu? - perguntou, escorregando para fora da rede, ainda aturdido 
de sono.
- Que ningum saia do acampamento por motivo nenhu: Deitem mais paus para a 
fogueira! - ordenou Csar Santos, q amarrara um leno na cara e estava com a 
espingarda numa me uma lanterna na outra, examinando a trmula nvoa cinzenta q 
invadia o bosque ao nascer da aurora.


Kate, Nadia e Alex apressaram-se a alimentar a fogueira c( mais lenha, 
aumentando um pouco a claridade. Karakawe der, alarme: um dos caboclos que 
vigiava com ele tinha desapareci( Csar Santos disparou duas vezes para o ar, 
chamando-o, mas cot no obteve resposta decidiu ir com Timothy Bruce e dois 
soldac percorrer os arredores, deixando os restantes armados de pisto em redor 
da fogueira. Foram todos obrigados a seguir o exemplo guia e a amordaar-se com 
lenos para conseguirem respirar.
Passaram alguns minutos que pareceram eternos, sem que n gum pronunciasse uma 
palavra. A essa hora, normalmente, os n cacos comeavam a acordar nas copas das 
rvores e os seus grit que soavam como latidos de ces, anunciavam o dia. No 
entan nessa madrugada reinava um silncio arrepiante. Os animais e os pssaros 
tinham fugido. De repente ouviu-se um tiro, segui da voz de Csar Santos e logo 
depois das exclamaes dos outi homens. Um minuto mais tarde chegou Timothy 
Bruce sem f go: tinham encontrado o caboclo.
O homem estava deitado de bruos entre uns fetos. A cabes no entanto, estava de 
frente, como se uma mo poderosa a tive se rodado noventa graus na direco das 
costas, partindo-lhe ossos do pescoo. Tinha os olhos abertos e uma expresso de 
soluto terror deformava-lhe o rosto. Ao volt-lo, viram que o trc co e o ventre 
tinham sido despedaados por cortes profunde Havia centenas de insectos 
estranhos, de carrapatos e de pegl nos escaravelhos sobre o corpo. A doutora 
Omayra Torres tons mou a evidncia: estava morto. Timothy Bruce foi a correr 
bus(
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
a mquina fotogrfica para terem uma prova do que acontecera, enquanto Csar 
Santos recolhia alguns dos insectos e os colocava num saquinho de plstico para 
os levar ao padre Valdomero em Santa Maria de Ia Lluvia, que entendia de 
entomologia e coleccionava espcies da regio. Nesse stio, a fetidez era mais 
intensa e foi preciso recorrerem a toda a sua fora de vontade para no 
desatarem a correr dali para fora.
Csar Santos deu instrues a um dos soldados para que fosse guardar Joel 
Gonzlez, que tinha ficado sozinho no acampamento, e a Karakawe e a outro 
soldado para que batessem os arredores. Matuwe, o guia ndio, observava o 
cadver profundamente transtornado. Empalidecera como se estivesse na presena 
de um fantasma. Nadia abraou-se ao pai e escondeu a cara no peito dele para no 
ver o sinistro espectculo.
-A Besta! - exclamou Matuwe.
- Que Besta, homem! Isto foi feito pelos ndios! - refutou o professor Leblanc, 
plido da comoo, com um leno impregnado em gua-de-colnia numa mo trmula e 
uma pistola na outra.
Nesse instante, Leblanc retrocedeu, tropeou e caiu sentado na lama. Blasfemou e 
quis levantar-se, mas cada movimento fazia-o escorregar ainda mais, afundando-o 
numa matria escura, mole e com grumos. Pelo cheiro pavoroso que exalava, 
descobriram que no era lama, mas um charco enorme de excremento: o clebre 
antroplogo ficou literalmente coberto de coc dos ps  cabea. Csar Santos e 
Timothy Bruce estenderam-lhe um ramo para o encontrar e ajudar a sair. Depois 
acompanharam-no ao rio, mantendo uma distncia prudente, para evitar toc-lo. 
Leblanc no teve outro remdio seno ficar de molho durante um bom bocado, 
tiritando de humilhao, de frio, de medo e de raiva. Karakawe, seu ajudante 
pessoal, recusou-se terminantemente a ensabo-lo ou a lavar-lhe a roupa e, 
apesar das circunstncias trgicas, os outros tiveram de se conter para no 
desatarem s gargalhadas de puro nervosismo. Pela mente de todos passava o mesmo 
pensamento:
o ser que produziu aquelas fezes devia ser do tamanho de um e fante.
- Tenho quase a certeza de que a criatura que fez isto ti uma dieta mista: 
vegetais, frutas e um pouco de carne crua - d se a mdica, que tinha amarrado um 
leno  volta do nariz e boca, enquanto analisava um pouco daquela matria  
lupa.
Entretanto, Kate Cold estava de gatas examinando o cho vegetao, imitada pelo 
neto.
- Olha, av, h ramos partidos e nalguns lugares os arbusi esto esmagados, como 
se tivessem sido pisados por patas ene mes. Encontrei tambm uns plos pretos e 
duros... - indicoi rapaz.
- Podem ser do javali - disse Kate.
- Tambm h muitos insectos, os mesmos que estavam sol o cadver. Nunca os tinha 
visto antes.


Assim que o dia clareou, Csar Santos e Karakawe trataram pendurar numa rvore, 
o mais alto que puderam, o corpo do in liz soldado envolto numa rede. O 
professor, de tal maneira nen so que desenvolveu um tique no olho direito e um 
tremor r joelhos, disps-se a tomar uma deciso. Disse que todos eles e~ riam 
grave risco de morte e que ele, Ludovic Leblanc, como r~ ponsvel pelo grupo, 
devia dar as ordens. O assassinato do prime soldado confirmava a sua teoria de 
que os ndios eram naturalmei assassinos, dissimulados e traioeiros. A morte do 
segundo, em 1 estranhas circunstncias, podia atribuir-se tambm aos ndios, n 
admitiu que a Besta no podia ser posta de parte. O melhor se colocar as suas 
armadilhas, a ver se, com sorte, a criatura que pi curavam caa l dentro antes 
de voltar a matar algum. Seguidamei deviam regressar a Santa Maria de Ia 
Lluvia, onde poderiam cc seguir helicpteros. Os restantes concluram que alguma 
coisa o 1 menzinho aprendera com o mergulho no charco de excremento.
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ISABEL ALLENDE
- O capito Ariosto no se atrever a recusar ajuda a Ludovic Leblanc - disse o 
professor.  medida que se internavam em territrio desconhecido e a Besta dava 
sinais de vida, acentuara-se a tendncia do antroplogo para se referir a si 
prprio na terceira pessoa. Vrios membros do grupo manifestaram-se de acordo. 
Kate Cold, no entanto, manifestou-se decidida a seguir em frente e exigiu que 
Timothy Bruce ficasse com ela, uma vez que de nada serviria encontrar aquela 
criatura se no tivessem fotografias que o provassem. O professor sugeriu que se 
separassem e os que assim o desejassem regressassem  aldeia numa das lanchas. 
Os soldados e Matuwe, o guia ndio, queriam ir embora o mais rapidamente 
possvel. Estavam aterrorizados. A doutora Omayra Torres, pelo contrrio, disse 
que tinha chegado at ali com a inteno de vacinar ndios, que talvez no 
tivesse outra oportunidade de o fazer num futuro prximo e que no pensava 
recuar perante o primeiro inconveniente.
- s uma mulher muito corajosa, Omayra - comentou Csar Santos, admirado. - Eu 
fico. Sou o guia, no posso deix-los aqui - acrescentou.
Alex e Nadia trocaram um olhar de cumplicidade: tinham reparado como Csar 
Santos seguia a mdica com os olhos e no perdia uma oportunidade de estar perto 
dela. Ambos tinham pressentido, antes que ela o dissesse, que se ela ficasse ele 
tambm o faria.
- E os outros, como regressaro sem voc? - quis saber Leblanc, bastante 
inquieto.
- Karakawe pode lev-los - disse Csar Santos.
- Eu fico - recusou-se este, lacnico como sempre.
- Eu tambm, no pretendo deixar a minha av sozinha -
disse Alex.
- Eu no preciso de ti e no quero andar com fedelhos, Alexander - grunhiu a 
av, mas todos puderam ver o brilho de orgulho nos seus olhos de ave de rapina, 
diante da deciso do seu neto.
- Eu vou trazer reforos - disse Leblanc.
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- O senhor no est encarregado desta expedio, professc - perguntou Kate Cold 
friamente.
- Sou mais til l do que c... - balbuciou o antroplog
- Faa o que quiser, mas se decidir ir embora, eu encare gar-me-ei de publicar 
isso na International Geographic para to a gente ficar a saber como  corajoso o 
professor Leblanc - ame ou-o ela.
Por fim acordaram que um dos soldados e Matuwe levaria Joel Gonzlez de regresso 
a Santa Maria de Ia Lluvia. A viagc seria mais curta, porque iam a favor da 
corrente. Os restantes, i cluindo Ludovic Leblanc, que no se atreveu a desafiar 
Kate Co] ficariam onde estavam at chegarem reforos. A meio da man estava tudo 
pronto, os expedicionrios despediram-se e a lane com o ferido empreendeu o 
regresso.


Passaram o resto desse dia e boa parte do seguinte instalan uma armadilha para a 
Besta de acordo com as instrues do pi fessor Leblanc. Era de uma simplicidade 
infantil: um grande bui co no cho, coberto por uma rede dissimulada com folhas 
e ramo Calculava-se que, ao pis-la, o corpo cairia no buraco, arrastan consigo 
a rede. No fundo do poo havia um alarme a pilhas, q soaria imediatamente para 
alertar a expedio. O plano consis em aproximar-se, antes que a criatura 
conseguisse libertar-se da re e sair do buraco, e disparar-lhe vrias cpsulas 
de um poderoso anf tsico capaz de adormecer um rinoceronte.
O mais rduo foi cavar um buraco suficientemente profun para conter uma criatura 
da altura da Besta. Todos se revezaram cc a p, menos Nadia  Leblanc, a 
primeira porque se opunha a m tratar um animal e o segundo porque estava com 
dores nas costa O terreno acabou por ser bastante diferente do que o professor 
in ginava quando concebera a sua armadilha comodamente insta: do numa secretria 
da sua casa, a milhares de milhas de distnc
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
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ISABEL ALLENDE
Havia uma crosta fininha de hmus, mais abaixo um emaranhado duro de razes, 
depois argila escorregadia como sabo e,  medida que cavavam, o poo ia-se 
enchendo de uma gua avermelhada onde nadava toda a espcie de animaizinhos. 
Acabaram por desistir, vencidos pelos obstculos. Alex sugeriu que utilizassem 
as redes pendurando-as nas rvores mediante um sistema de cordas, colocando em 
baixo um isco. Quando a presa se aproximasse para se apoderar do engodo, soava o 
alarme e a rede caia-lhe imediatamente em cima. Todos, menos Leblanc, 
consideraram que, teoricamente, poderia funcionar, mas estavam demasiado 
cansados para experimentar e decidiram adiar o projecto at  manh seguinte.
- Espero que a tua ideia no funcione, Jaguar - disse Nadia. - A Besta  
perigosa - replicou o rapaz.
- O que faro com ela, caso a apanhem? Matam-na? Cortam
-na aos bocadinhos para a estudarem? Metem-na numa jaula pelo
resto dos seus dias?
- Que solues tens tu, Nadia?
- Falar com ela e perguntar-lhe o que quer.
- Que ideia genial! Poderamos convid-la para um ch... - troou ele.
- Todos os animais comunicam - garantiu Nadia.
- Isso  o que diz a minha irm Nicole, mas ela tem nove anos. - Vejo que aos 
nove, sabe mais do que tu aos quinze - repli
cou Nadia.
Estavam num lugar muito bonito. A densa e emaranhada vegetao da margem 
tornava-se menos espessa para o interior, onde o bosque atingia uma grande 
majestade. Os troncos das rvores, altos e rectilneos, eram pilares de uma 
magnfica catedral verde. Orqudeas e outras flores apareciam suspensas dos 
ramos e fetos brilhantes cobriam o cho. A fauna era to variada que nunca havia 
silncio. Do amanhecer at muito depois de a noite cair ouvia-se o canto dos 
tucanos e dos papagaios; ao anoitecer comeava a
116
barulheira de sapos e macacos uivadores. No entanto, aquele ja dim do den 
escondia muitos perigos: as distncias eram enorme a solido absoluta e sem 
conhecer o terreno era impossvel algu orientar-se. Segundo Leblanc - e com 
isso Csar Santos esta de acordo - a nica maneira de se deslocarem nessa regio 
e com a ajuda dos ndios. Tinham de atra-los. A doutora Omay Torres era a mais 
interessada em faz-lo, porque devia cumprir sua misso de os vacinar e de 
estabelecer um sistema de conta lo de sade, conforme explicou.
- No acredito que os ndios estendam voluntariamente i braos para os picares, 
Omayra. Nunca viram uma agulha nas su; vidas - disse Csar Santos, a sorrir. 
Entre ambos havia uma co rente de simpatia e nessa altura j se tratavam com 
familiaridad
- Dir-lhes-emos que  uma magia muito poderosa dos tirai cos - disse ela, 
piscando-lhe um olho.
- O que  totalmente verdico - aprovou Csar Santos.
Segundo o guia, havia vrias tribos nos arredores que cert mente tinham tido 
algum contacto, embora breve, com o mune exterior. Da sua avioneta avistara 
alguns shabonos, mas como m - havia onde aterrar por aqueles lados, ele 
limitara-se a marc-l( no seu mapa. As palhotas comunitrias que tinha visto 
eram ba tante mais pequenas, o que significava que cada tribo se compi nha de 
muito poucas. famlias. Conforme garantia o professe Leblanc, que se afirmava 
especialista na matria, o nmero mn mo de habitantes por shabono era de cerca 
de cinquenta pessos - menos no poderiam defender-se de ataques inimigos - e 
rar; vezes ultrapassava as duzentas e cinquenta. Csar Santos suspe tava tambm 
da existncia de tribos isoladas, que nunca tinham sic vistas, como esperava a 
doutora Torres e a nica forma de chega at elas seria pelo ar. Deveriam subir  
selva da regio planltic a essa zona encantada das cataratas, onde os 
forasteiros nunca pi deram chegar antes da inveno dos avies e dos 
helicpteros.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE]
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
Com o objectivo de atrair os ndios, o guia amarrou uma corda entre duas rvores 
e pendurou nela algumas ofertas: colares de contas, roupas coloridas, espelhos e 
bugigangas de plstico. Reservou os machetes, facas e utenslios de ao para 
mais tarde, quando comeassem as verdadeiras negociaes e a troca de presentes.
Nessa tarde, Csar Santos tentou comunicar por rdio com o capito Ariosto e com 
Mauro Carias em Santa Maria de Ia LIuvia, mas o aparelho no funcionava. O 
professor Leblanc passeava-se pelo acampamento, furioso perante essa nova 
contrariedade, enquanto os restantes se revezavam tentando em vo enviar ou 
receber uma mensagem. Nadia levou Alex  parte para contar-lhe que, na noite 
anterior, antes de o soldado ser assassinado durante o turno de Karakawe, ela 
vira o ndio mexendo no rdio. Disse que tinha ido deitar-se quando terminou o 
seu turno de vigilncia, mas que no conseguira adormecer de imediato e, da sua 
rede, pde ver Karakawe perto do aparelho.
- Viste-o bem, Nadia?
- No porque estava escuro, mas as nicas pessoas que estavam de p nesse turno 
eram os dois soldados e ele.
- Tenho quase a certeza de que no era nenhum dos soldados - replicou ela. - 
Acho que Karakawe  a pessoa a que se referia Mauro Carias. Talvez parte do 
plano seja no podermos pedir socorro em caso de necessidade.
- Temos de avisar o teu pai - decidiu Alex.
Csar Santos no recebeu a notcia com muito interesse, limitando-se a avisar 
que, antes de acusarem algum, tinham de estar bem certos. Havia muitas razes 
para que um equipamento de rdio to antiquado como aquele pudesse falhar. Alm 
disso, que razes teria Karakawe para o estragar? A ele tambm no lhe convinha 
estar incomunicvel. Tranquilizou-os dizendo que, dentro de trs ou quatro dias, 
chegariam reforos.
- No estamos perdidos, estamos apenas isolados	concluiu.
- E a Besta, pap? - perguntou Nadia, inquieta.
- No sabemos se existe, filha. Quanto aos ndios, pelo cor trrio, podemos ter 
a certeza. Mais cedo ou mais tarde aproximar -se-o e esperemos que o faam com 
um esprito pacfico. Em tod o caso, estamos bem armados.
- O soldado que morreu tinha uma espingarda, mas no lh serviu de nada - refutou 
Alex.
- Distraiu-se. De agora em diante teremos de ser muito mai cuidadosos. 
Infelizmente somos s seis adultos para montar guard,
- Eu conto como um adulto - garantiu Alex.
- Est bem, mas Nadia no. Ela poder apenas acompanhai -me no meu turno - 
decidiu Csar Santos.


Nesse dia, Nadia descobriu perto do acampamento um urucue ro, arrancou vrios 
dos seus frutos, que pareciam amndoas pelt das, abriu-os e extraiu umas 
pequenas sementes vermelhas d interior. Ao apert-las entre os dedos, misturadas 
com um pouc de saliva, formou uma pasta vermelha com a consistncia do s, 
bonete, a mesma que os ndios utilizavam, juntamente com outra tinturas 
vegetais, para decorarem o corpo. Nadia e Alex pintara] traos, crculos e 
pontos na cara, depois amarraram penas e seme] tes aos braos. Ao v-los, 
Timothy Bruce e Kate Cold insistiram e] fotograf-los e Omayra Torres em pentear 
o cabelo frisado da g, rota e decor-lo com minsculas orqudeas. Csar Santos, 
no ei tanto, no os aplaudiu: a viso da filha decorada como uma donzel indgena 
pareceu ench-lo de tristeza.
Quando a claridade diminuiu, calcularam que nalgum stio Sol se preparava para 
descer no horizonte, dando lugar  noite. Sc a cpula das rvores raras vezes 
aparecia, o seu brilho era difusa filtrado pela renda verde da Natureza. S s 
vezes, onde algulr rvore cara, se via claramente o olho azul do cu. A essa 
hora sombras da vegetao comeavam a envolv-los como um cerc
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
e, em menos de uma hora, o bosque ficaria negro e pesado. Nadia pediu a Alex que 
tocasse um pouco de flauta para os distrair e durante algum tempo a msica, 
delicada e cristalina, invadiu a selva. Borob, o macaquinho, seguia a melodia, 
abanando a cabea ao compasso das notas. Csar Santos e a doutora Omayra Torres, 
de ccoras junto da fogueira, assavam alguns peixes para o jantar. Kate Cold, 
Timothy Bruce e um dos soldados dedicavam-se a prender as tendas e a proteger as 
provises dos macacos e das formigas. Karakawe e o outro soldado, armados e 
alerta, vigiavam. O professor Leblanc ditava as ideias que lhe passavam pela 
cabea para um gravador porttil, sempre  mo, prevendo a ocorrncia de 
qualquer pensamento transcendente que a humanidade no podia perder. Isso 
acontecia com uma frequncia tal, que os jovens, fartos, esperavam pela 
oportunidade de poder roubar-lhe as pilhas. Cerca de quinze minutos aps o 
incio do concerto de flauta, a ateno de Borob mudou subitamente de alvo. O 
macaco comeou aos saltos, puxando pela roupa da sua dona, inquieto. 
Inicialmente, Nadia quis ignor-lo mas o animal no a deixou em paz at ela se 
levantar. Depois de espreitar na direco da mata, ela chamou Alex com um gesto, 
levando-o para longe do crculo de luz da fogueira, sem chamar a ateno dos 
outros.
- Chhht! - disse, levando um dedo aos lbios.
Ainda havia alguma claridade diurna, mas j quase no se distinguiam as cores, o 
mundo aparecia em tons de cinzento e preto. Alex sentira-se constantemente 
observado desde que sara de Santa Maria de Ia Lluvia, mas precisamente nessa 
tarde a impresso de ser espiado tinha desaparecido. Invadia-o uma sensao de 
calma e de segurana que no sentia h muitos dias. Tambm se esfumara o cheiro 
penetrante que acompanhou o assassinato do soldado na noite anterior. Os dois 
jovens e Borob internaram-se alguns metros na vegetao e aguardaram ali, com 
mais curiosidade que inquietao. Sem o terem dito, calculavam que, se houvesse 
ndios nos arredores com inteno de os magoar, j o teriam feito, porque
os membros da expedio, bem iluminados pela fogueira do acaro pamento, estavam 
expostos s suas flechas e dardos envenenados
Esperaram imveis, sentindo-se afundar numa nvoa de algo do, como se, ao cair 
da noite, se perdessem as dimenses habi tuais da realidade. Ento, pouco a 
pouco, Alex comeou a ver, un por um, os seres que os rodeavam. Estavam nus, com 
riscas e man chas pintadas, com penas e tiras de couro amarradas aos braos 
silenciosos, leves, imveis. Apesar de estar perto deles, era difici v-los. 
Camuflavam-se to perfeitamente com a Natureza que pa reciam invisveis, como 
tnues fantasmas. Quando conseguiu dis tingui-los, Alex calculou que havia pelo 
menos uns vinte, todo homens, com as suas armas primitivas na mo.
- Aa - sussurrou Nadia baixinho.
Ningum respondeu, mas um movimento quase imperceptve entre a folhagem indicou 
que os ndios se aproximavam. Na penum bra e sem culos, Alex no tinha a 
certeza do que via, mas o se, corao disparou numa correria louca e sentiu o 
sangue latejar de senfreado nas fontes. Envolveu-o a mesma sensao alucinante d 
estar a viver um sonho como o que teve na presena do jaguar nega no acampamento 
de Mauro Carias. Havia uma tenso similar, comm se os acontecimentos decorressem 
numa esfera de vidro que, a qual quer instante, poderia quebrar-se em 
estilhaos. O perigo estava n~ ar, tal como estivera com o jaguar, mas o rapaz 
no teve medo. No se achou ameaado por aqueles seres transparentes que 
flutuavam entre as rvores. A ideia de puxar do seu canivete ou de chamar pe 
dindo socorro nem lhe ocorreu. Em vez disso, passou-lhe pela ca bea, como um 
relmpago, uma cena que vira h alguns anos num filme: o encontro de um menino 
com um extraterrestre. A situao que vivia nesse momento era semelhante. 
Pensou, maravilhado, qu no trocaria essa experincia por nada do mundo.
- Aa - repetiu Nadia.
- Aa - murmurou ele tambm.
No houve resposta.
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Os jovens esperaram, sem soltarem as mos, imveis como esttuas, com Borob 
tambm imvel, expectante, como se soubesse que participava num momento nico. 
Passaram minutos interminveis e a noite deixou-se cair com grande rapidez, 
cobrindo-os por completo. Finalmente aperceberam-se de que estavam sozinhos: os 
ndios tinham-se esfumado com a mesma ligeireza com que tinham surgido do nada.
- Quem eram? - perguntou Alex quando voltaram ao acampamento.
- Deve ser o povo da neblina, os invisveis, os habitantes mais remotos e 
misteriosos do Amazonas. Sabe-se que existem, mas de facto nunca ningum falou 
com eles.
- O que querem de ns? - perguntou Alex.
- Ver como somos, talvez... - sugeriu ela. - Eu tambm quero o mesmo - disse 
ele.
- No contemos a ningum que os vimos, Jaguar...
 estranho no nos terem atacado e tambm no se terem
aproximado atrados pelos presentes que o teu pai pendurou -
comentou o rapaz.
- Achas que foram eles que mataram o soldado da lancha? - perguntou Nadia.
- No sei, mas se so os mesmos, por que no nos atacaram hoje?
Nessa noite Alex fez o seu turno de guarda sem receio, juntamente com a av, 
porque no sentiu o odor da Besta e os ndios no o preocupavam. Depois do 
estranho encontro com eles, estava convencido de que algumas pistolas serviriam 
de muito pouco, caso eles quisessem atac-los. Como apontar para aqueles seres 
quase invisveis? Os ndios dissolviam-se como sombras na noite, eram fantasmas 
mudos que podiam cair-lhes em cima e assassin-los numa questo de instantes sem 
que eles chegassem sequer a aperceber-se. No fundo, apesar de tudo, ele tinha a 
certeza de que as intenes do povo da neblina no eram essas.
O dia seguinte decorreu de uma forma lenta e aborrecida, cor tanta chuva que no 
conseguiam que a roupa secasse antes d molha seguinte. Nessa mesma noite 
desapareceram, durante o se turno, os dois soldados e depressa viram que a 
lancha tambm j l no estava. Os homens, que desde a morte dos seus companhe: 
ros estavam aterrorizados, fugiram pelo rio. Estiveram prestes amotinar-se 
quando no lhes permitiram regressar a Santa Marl de Ia Lluvia com a primeira 
lancha. Ningum lhes pagava para ai riscarem a vida, disseram. Csar Santos 
respondeu-lhes que ju: tamente para isso lhes pagavam, por acaso no eram 
soldados A deciso de fugir poderia custar-lhes muito caro, mas preferiras 
enfrentar um tribunal marcial a morrer nas mos dos ndios ou d Besta. Para os 
restantes expedicionrios, aquela lancha representa va a nica possibilidade de 
regressarem  civilizao. Sem ela e sei rdio, estavam definitivamente 
isolados.
- Os ndios sabem que estamos aqui. No podemos ficar! - exclamou o professor 
Leblanc.
-Aonde pretende ir, professor? Se sairmos daqui, quando c helicpteros chegarem 
no nos encontraro. Do ar s se v um mancha verde, nunca mais dariam connosco 
- explicou Cs, Santos.
- No podemos seguir o leito do rio e tentar regressar a Sai ta Maria de Ia 
Lluvia pelos nossos prprios meios? - sugeriu Kal Cold.
CAPTULO 10
Raptados
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
-  impossvel faz-lo a p. H demasiados obstculos e desvios - replicou o 
guia.
- Isto  culpa sua, Cold! Deveramos ter regressado todos a Santa Maria de Ia 
Lluvia, tal como eu propus - argumentou o professor.
- Muito bem, a culpa  minha. O que vai fazer a esse respeito? - perguntou a 
escritora.
- Denunci-la-ei! Arruinarei a sua carreira!
- Talvez seja eu a arruinar a sua, professor - replicou ela sem se alterar.
Csar Santos interrompeu-os dizendo que em vez de discutirem, deviam unir foras 
e avaliar a situao: os ndios desconfiavam e no tinham demonstrado interesse 
pelas ofertas, limitavam-se a observ-los, mas no os tinham atacado.
- Parece-lhe pouco o que fizeram quele pobre soldado? - perguntou Leblanc, 
sarcstico.
- No creio que tenham sido os ndios, no  essa a sua maneira de lutar. Se 
tivermos sorte, esta pode ser uma tribo pacfica - replicou o guia.
- Mas, se no tivermos sorte, comer-nos-o - grunhiu o antroplogo.
- Seria perfeito, professor. Assim o senhor poderia provar a sua teoria sobre a 
ferocidade dos ndios - disse Kate.
- Bom, basta de tontices.  preciso tomar uma deciso. Ficamos ou partimos... - 
cortou o fotgrafo Timothy Bruce.
- Passaram-se quase trs dias desde a partida da primeira lancha. Como ia a 
favor da corrente e Matuwe conhece o caminho, j devem estar em Santa Maria de 
Ia Lluvia. Amanh ou, o mais tardar, dentro de dois dias, chegaro os 
helicpteros do capito Ariosto. Voaro de dia, de modo que manteremos uma 
fogueira sempre acesa, para que vejam o fumo. A situao  dificil, como disse, 
mas no  grave, h muita gente que sabe onde estamos, viro buscar-nos - 
garantiu Csar Santos.
Nadia estava tranquila, abraada ao seu macaquinho, como no compreendesse a 
magnitude do que estava a acontecer-lhe Alex, por outro lado, concluiu que nunca 
estivera em tanto perigi nem sequer quando ficou dependurado em El Capitn, uma 
roei escarpada que s os mais experientes se atreviam a escalar. Se n estivesse 
amarrado por uma corda  cintura do pai, teria morrida
Csar Santos tinha avisado os expedicionrios contra diverso insectos e animais 
da selva, desde tarntulas at serpentes, m, esqueceu-se de mencionar as 
formigas. Alex tinha renunciado usar as suas botas, no apenas por estarem 
sempre hmidas e che rando mal, mas porque lhe apertavam os ps. Calculava que 
tinhas encolhido com a chuva. Apesar de, nos primeiros dias, no tirar, 
sandlias que lhe deu Csar Santos, os ps encheram-se-lhe de cro tas e calos.
- Este no  lugar para ps delicados - foi o nico comei trio da av quando 
lhe mostrou as feridas sangrentas dos ps.
A sua indiferena tornou-se inquietao quando o neto foi pica do por uma 
formiga de fogo. O rapaz no conseguiu evitar ui grito: sentiu que lhe queimavam 
o tornozelo com um cigarro. A fo miga deixou-lhe uma pequena marca branca que, 
poucos minute depois, se tornou vermelha e inchada como uma cereja. A dor subi 
em labaredas pela perna e no conseguiu dar mais um passo. A doi tora Omayra 
Torres avisou-o de que o efeito do veneno durar algumas horas e era preciso 
suport-lo tendo por nico alvio con pressas de gua quente.
- Espero que no sejas alrgico, porque nesse caso as coi sequncias sero mais 
graves - observou a mdica.
Alex no era alrgico mas de qualquer forma a picada arru nou-lhe uma boa parte 
do dia.  tarde, mal conseguiu apoiar o I e dar alguns passos, Nadia contou-lhe 
que, enquanto os outros e tavam pendentes dos seus afazeres, ela tinha visto 
Karakawe roa dando as caixas das vacinas. Quando o ndio se apercebeu de qi
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ela o tinha descoberto, agarrou-a por um brao com uma brutalidade tal que lhe 
deixou os dedos marcados na pele e avisou-a de que no dissesse uma palavra a 
esse respeito ou pagaria caro. Tinha a certeza de que aquele homem cumpriria as 
suas ameaas, mas Alex achou que no podiam calar-se, tinham de avisar a mdica. 
Nadia, que estava to encantada com a mdica como o pai e comeava a acalentar o 
sonho de a ver convertida em sua madrasta, queria contar-lhe tambm o dilogo 
entre Mauro Caras e o capito Ariosto, que tinham ouvido em Santa Maria de Ia 
Lluvia. Continuava convencida de que Karakawe era a pessoa designada para 
cumprir os planos sinistros de Caras.
- No diremos ainda nada disso - exigiu-lhe Alex.
Esperaram pelo momento adequado, quando Karakawe se afastou para ir ao rio 
pescar e colocaram a situao a Omayra Torres. Ela ouviu-os com muita ateno, 
revelando, pela primeira vez desde que a conheciam, uma grande inquietao. 
Mesmo nos momentos mais dramticos daquela aventura, aquela mulher encantadora 
no perdera a calma. Tinha os nervos de ao de um samurai. Desta vez tambm no 
se alterou, mas quis ficar a par dos pormenores. Ao saber que Karakawe tinha 
aberto as caixas, mas no tinha violado os selos dos frascos, respirou aliviada.
- Estas vacinas so a nica esperana de vida para os ndios. Temos de cuidar 
delas como de um tesouro - disse.
-Alei e eu temos estado a vigiar Karakawe, achamos que ele estragou o rdio, mas 
o meu pai diz que no podemos acus-lo sem provas - disse Nadia.
- No preocupemos o teu pai com estas suspeitas, Nadia, ele j tem problemas que 
lhe cheguem. Entre ns, podemos neutralizar Karakawe. No lhe tirem os olhos de 
cima, malta - pediu-lhes Omayra Torres e eles prometeram-lhe.
O dia decorreu sem novidades. Csar Santos continuou empenhado em fazer 
funcionar o radiotransmissor, mas sem resultados. Timothy Bruce tinha um rdio 
que lhes servira para ouvir notcias
de Manaus durante a primeira parte da viagem, mas a onda no ch gava to longe. 
Aborreciam-se, porque assim que conseguiam un ave e dois peixes para o dia, no 
havia mais nada que fazer. E intil caar ou pescar mais porque a carne enchia-
se de formigo ou decompunha-se numa questo de horas. Finalmente Alex coi seguiu 
compreender a mentalidade dos ndios, que nada acumule vam. Fizeram turnos para 
manter a fogueira acesa, como sinal, r caso de estarem  procura deles, embora 
Csar Santos achasse qi era ainda muito cedo para isso. Timothy Bruce foi buscar 
um veil baralho de cartas e jogaram pquer, blackjack e gin rummy at luz 
comear a desaparecer. No tornaram a sentir o cheiro pen trante da Besta.


Nadia, Kate Cold e a mdica foram at ao rio lavar-se e faz as suas 
necessidades. Tinham combinado que ningum devia aves turar-se sozinho fora do 
acampamento. Para as actividades mais  timas, as trs mulheres iam juntas, para 
o restante, faziam turro de pares. Csar Santos arranjava-se de maneira a ficar 
sempre co Omayra Torres, o que aborrecia bastante Timothy Bruce, porgi o ingls 
tambm se sentia cativado pela mdica. Apesar de Ka Cold lhe ter dito que 
guardasse o filme para a Besta e para os i dios, ele fotografara-a tanto 
durante a viagem que ela recusara co; tinuar a posar. A escritora e Karakawe 
eram os nicos que n pareciam impressionados pela jovem mulher. Kate resmungou 
qI j estava muito velha para reparar numa cara bonita, comentr que a Alex soou 
como uma demonstrao de cimes, indigna algum to esperto como a sua av. O 
professor Leblanc, que  podia competir em "superioridade com Csar Santos ou em 
juve: tude com Timothy Bruce, tentava impressionar a mulher com o pe; da sua 
celebridade e no perdia uma ocasio de ler-lhe em voz al pargrafos do seu 
livro, onde descrevia em pormenor os periga arrepiantes que enfrentara entre os 
ndios. Ela tinha dificuldade e
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
imaginar o timorato Leblanc vestido apenas com uma tanga, combatendo ombro a 
ombro com ndios e feras, caando com flechas e sobrevivendo sem ajuda, no meio 
de toda a espcie de catstrofes naturais, segundo dizia. De qualquer forma, a 
rivalidade entre os homens do grupo pelas atenes de Omayra Torres tinha criado 
uma certa tenso, que aumentava  medida que passavam as horas na espera 
angustiante dos helicpteros.
Alex olhou para o tornozelo. Ainda lhe doa e estava um pouco inchado, mas a 
dura cereja avermelhada onde a formiga o picara tinha diminudo. As compressas 
de gua quente tinham dado bons resultados. Para se distrair, agarrou na flauta 
e comeou a tocar o concerto preferido da sua me, uma msica doce e romntica 
de um compositor europeu morto h mais de um sculo, mas que parecia de acordo 
com a selva circundante. O av, Joseph Cold, tinha razo: a msica  uma 
linguagem universal. s primeiras notas, Borob apareceu aos saltos e sentou-se 
aos seus ps com a seriedade de um crtico e passado alguns instantes chegou 
Nadia com a mdica e Kate Cold. A rapariga esperou que os outros estivessem 
ocupados preparando o acampamento para a noite e fez sinais a Alex para que este 
a seguisse dissimuladamente.
- Esto aqui outra vez, Jaguar - murmurou ao ouvido dele.
- Os ndios...?
- Sim, o povo da neblina. Acho que vieram por causa da msica. No faas barulho 
e segue-me.
Internaram-se alguns metros na mata e, tal como tinham feito anteriormente, 
esperaram imveis. Por muito que Alex aguasse a vista, no distinguia ningum 
entre as rvores: os ndios dissolviam-se no ambiente que os rodeava. De repente 
sentiu mos que o agarravam com firmeza pelos braos e, ao voltar-se, viu que 
ele e Nadia estavam cercados. Os ndios no se mantiveram a alguma distncia, 
como na vez anterior. Agora, Alex podia sentir o cheiro adocicado dos seus 
corpos. Reparou de novo que eram de baixa estatura e magros, mas pde comprovar 
tambm que eram muito
fortes e que havia alguma ferocidade na sua atitude. Teria raz; Leblanc quando 
garantia que eram violentos e cruis?
- Ala experimentou saudar.
Uma mo tapou-lhe a boca e, antes de dar conta do que est va a acontecer, 
sentiu-se levantado no ar pelos tornozelos e pel axilas. Comeou a contorcer-se 
e a espernear, mas as mos no soltaram. Sentiu que lhe batiam na cabea, no 
soube se com, punhos se com uma pedra, mas percebeu que valia mais deixar levar 
ou acabariam por aturdi-lo ou mat-lo. Pensou em Nadia se ela estaria tambm a 
ser arrastada  fora. Pareceu-lhe ouvir, longe a voz da av a cham-lo, 
enquanto os ndios o levavam, inte nando-se na escurido como espritos da 
noite.
Alexander Cold sentia pontadas ardentes no tornozelo onde formiga de fogo o 
picara, preso agora pela mo de um dos quati ndios que o levavam pelo ar. Os 
seus captores iam a correr e, a ca( passo, o corpo do rapaz balanava 
brutalmente. A dor nos ombro era como se estivessem a desconjunt-lo. Tinham-lhe 
tirado a c, misola de manga curta amarrando-a  cabea, cegando-o e afogai do-
lhe a voz. Mal conseguia respirar e o crnio latejava-lhe n stio onde lhe 
tinham batido, mas reconfortou-o no ter perdido conhecimento. Isso significava 
que os guerreiros no lhe tinhas batido com fora e no pretendiam mat-lo. Pelo 
menos de mc mento... Pareceu-lhe que tinham andado durante muito tempo ai 
finalmente pararem e o deixarem cair como um saco de batata; O alvio nos seus 
msculos e ossos foi quase imediato, embora tornozelo lhe ardesse terrivelmente. 
No se atreveu a tirar a cami sola que lhe cobria a'cabea para no provocar os 
seus agressores mas como passado algum tempo de espera no acontecia nada, op 
tou por arranc-la. Ningum o deteve. Quando os seus olhos se ha bituaram  
suave claridade da lua, deu por si a meio do bosque jogado sobre o colcho de 
hmus que cobria o cho.  sua volta
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de jantar sem reparar na sujidade e sem perguntar de que era feita. Os seus 
melindres a respeito da comida tinham passado  histria. A seguir os guerreiros 
puseram a circular uma bexiga de animal com um sumo viscoso de cheiro acre e 
sabor a vinagre, enquanto salmodiavam um canto para desafiar os fantasmas que 
causam pesadelos  noite. No ofereceram a beberagem a Nadia, mas tiveram a 
amabilidade de partilh-la com Alex, a quem o cheiro no tentava e menos ainda a 
ideia de partilhar o mesmo recipiente com os outros. Lembrava-se da histria 
contada por Csar Santos de uma tribo inteira contagiada pelo trago do cigarro 
de um jornalista. A ltima coisa que queria era transmitir os seus germes 
queles ndios, cujo sistema imunitrio no lhes resistiria, mas Nadia avisou-o 
que no aceitar seria considerado um insulto. Informou-o de que era masato, uma 
bebida fermentada feita com mandioca mastigada e saliva, que s os homens 
bebiam. Alex julgou que ia vomitar com a explicao, mas no se atreveu a 
recus-la.
Com a pancada na cabea e o masato, o rapaz passou sem dificuldade para o 
planeta das areias de ouro e das seis luas no cu fosforescente, que tinha visto 
no acampamento de Mauro Carias. Estava to confuso e intoxicado que no teria 
conseguido dar um passo, mas felizmente no teve de o fazer, porque os 
guerreiros tambm sentiam a influncia da bebida e depressa jaziam roncando pelo 
cho. Alex calculou que no continuariam a marcha at haver alguma luz e 
consolou-se com a vaga esperana de que a av o encontrasse ao amanhecer. 
Enroscado no cho, sem se lembrar dos fantasmas dos pesadelos, das formigas de 
fogo, das tarntulas ou das serpentes, entregou-se ao sono. Tambm no se 
alarmou quando o tremendo cheiro da Besta invadiu o ar.


Os nicos que estavam sbrios e acordados quando a Besta apareceu eram Nadia e 
Borob. O macaco imobilizou-se por completo, como que convertido em pedra e ela 
conseguiu vislumbrar
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uma figura gigantesca  luz da lua antes que o cheiro a fizesse p
der os sentidos. Mais tarde contaria ao seu amigo o mesmo c
dissera o padre Valdomero: era uma criatura com forma huma
erecta, de uns trs metros de altura, com braos poderosos terr
nados em garras curvas como cimitarras e uma cabea pequei
desproporcionada para o tamanho do corpo. A Nadia pareceu-1
que se deslocava com extrema lentido, mas querendo-o, a Bei teria podido 
estrip-los a todos. A fetidez que emanava - ou t vez o terror absoluto que 
provocava nas suas vtimas - paralisa como uma droga. Antes de desmaiar ela quis 
gritar ou fugir, m no conseguiu mover nem um msculo. Num claro de consci cia 
viu o corpo do soldado aberto de cima a baixo como uma i e pde imaginar o 
horror do homem, a sua impotncia e a sua mc te pavorosa.
Alex acordou confuso, tentando lembrar-se do que tinha ace tecido, com o corpo 
trmulo pela estranha bebida da noite anteri e pela fetidez, que ainda flutuava 
no ar. Viu Nadia com Borob ag salhado no seu regao, sentada com as pernas 
cruzadas e o olh perdido no nada. O rapaz gatinhou at ela contendo com muita 
di: culdade os sobressaltos das suas tripas.
- Eu vi-a, Jaguar - disse Nadia com uma voz longnqu como se estivesse em 
transe.
- Viste o qu?
- A Besta. Esteve aqui.  enorme, um gigante...
Alex foi atrs de um feto esvaziar o estmago, sentindo-se d pois mais aliviado, 
apesar do fedor do ar lhe devolver as nusea Ao regressar, os guerreiros estavam 
prontos para empreender marcha.  luz do amanhecer pde v-los bem pela primeira 
ve O seu aspecto temvel correspondia exactamente s descries c Leblanc: 
estavam nus, com o corpo pintado de vermelho, preto verde, com braceletes de 
penas e o cabelo cortado redondo, cot a parte superior do crnio rapada, como 
uma tonsura de padre. LE vavam arcos e flechas amarrados s costas e uma pequena 
cabas
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
13

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
coberta com um bocado de pele que, conforme disse Nadia, continha o mortal 
curare para flechas e dardos. Vrios deles levavam grossos paus e todos 
ostentavam cicatrizes na cabea, que equivaliam a orgulhosas condecoraes de 
guerra: a coragem e a fora mediam-se pelas marcas das bordoadas suportadas.
Alex teve de sacudir Nadia para a espevitar, porque o terror de ter visto a 
Besta na noite anterior a tinha deixado apalermada. A rapariga conseguiu 
explicar o que tinha visto e os guerreiros ouviram-na com ateno, mas no deram 
mostras de surpresa, tal como no fizeram comentrios sobre o cheiro.
O grupo ps-se em marcha de imediato, trotando em fila atrs do chefe, a quem 
Nadia decidiu chamar Mokarita, uma vez que no podia perguntar-lhe o seu nome 
verdadeiro. A avaliar pelo estado da sua pele, dos seus dentes e dos seus ps 
disformes, Mokarita era muito mais velho do que Alex sups quando o viu na 
penumbra, mas tinha a mesma agilidade e resistncia dos outros guerreiros. Um 
dos homens jovens distinguia-se entre os restantes, era mais alto e corpulento 
e, contrariamente aos outros, estava completamente pintado de preto, exceptuando 
uma espcie de viseira vermelha em redor dos olhos e da testa. Caminhava sempre 
ao lado do chefe, como se fosse o seu lugar-tenente, e referia-se a si prprio 
como Tahama; Nadia e Alexander souberam depois que esse era o seu ttulo 
honorifico por ser o melhor caador da tribo.
Embora a paisagem parecesse imutvel e no houvesse pontos de referncia, os 
ndios sabiam exactamente para onde se dirigiam. No se voltaram para trs uma 
nica vez a ver se os jovens estrangeiros os seguiam: sabiam que no tinham 
outro remdio seno faz-lo, porque de outra forma se perderiam. s vezes, Nadia 
e Alex pareciam estar sozinhos, porque o povo da neblina desaparecia na 
vegetao, mas essa impresso no durava muito. Assim como se esfumavam, os 
ndios reapareciam em qualquer momento, como se estivessem a exercitar-se na 
arte de se tornarem invisveis. Alex chegou  concluso de que esse talento para
desaparecer no podia ser atribudo apenas s pinturas com que camuflavam, era 
sobretudo uma atitude mental. Como o faria Imaginou como devia ser til nesta 
vida o truque da invisibili de e props-se aprend-lo. Nos dias seguintes 
compreendeu no se tratava de ilusionismo mas de um talento que se alcan com 
muita prtica e concentrao, como tocar flauta.
O andamento rpido no se alterou durante vrias horas. se detinham de vez em 
quando nos regatos para beber gua. A tinha fome, mas estava agradecido por, 
pelo menos, o tornos onde a formiga o picara j no lhe doer. Csar Santos 
contaraque os ndios comem quando podem - nem sempre todos os c - e que o 
organismo deles estava habituado a armazenar enerl Ele, pelo contrrio, tivera 
sempre o frigorfico de casa cheio de mentos, pelo menos enquanto a me esteve 
saudvel e, se algu vez tinha de saltar uma refeio, ficava cansado. No pde 
dei de sorrir perante a mudana completa dos seus hbitos. Entre oul coisas, no 
lavava os dentes ou mudava de roupa h alguns d: Decidiu ignorar o vazio no 
estmago, matar a fome com indi rena. Numa ou duas ocasies deu uma olhadela  
sua bssol descobriu que marchavam para nordeste. Viria algum resgat-l Como 
poderia deixar-lhes sinais pelo caminho? V-los-iam de helicptero? No se 
sentia optimista, na verdade a situao de era desesperada. Admirou-se por Nadia 
no dar sinais de fadi mas a sua amiga parecia completamente entregue  
aventura.
Quatro ou cinco horas mais tarde - impossvel medir o te po naquele stio - 
chegaram a um rio claro e profundo. Seguir pela margem algumas milhas e, de 
repente, diante dos olhos ma vilhados de Alex surgiu uma montanha muito alta e 
uma catar magnfica que caa com um clamor de guerra, formando em ba: uma imensa 
nuvem de espuma e gua pulverizada.
-  o rio que desce do cu - disse Tahama.
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CAPTULO 11
A aldeia invisvel


Mokarita, o chefe das penas amarelas, autorizou o grupo a c cansar um pouco 
antes de empreender a subida da montanha. Ti um rosto de madeira, com a pele 
rugosa como casca de rvore, si no e bondoso.
- Eu no consigo subir - disse Nadia, ao ver a rocha ne~ lisa e hmida.
Era a primeira vez que Alex a via derrotada diante de um c tculo e sentiu 
simpatia por ela porque ele tambm estava as, tado, embora tivesse trepado 
montanhas e rochas durante anos c o pai. John Cold era um dos alpinistas mais 
experientes e auda dos Estados Unidos, tinha participado em expedies clebres 
a gares quase inacessveis, tinha sido mesmo chamado algumas ve para ajudar no 
resgate de pessoas acidentadas nos picos mais a: da ustria e do Chile. Sabia 
que no possua a habilidade nei coragem do seu pai, muito menos a sua 
experincia. Tambm nu tinha visto uma rocha to escarpada como a que tinha 
agora 1 frente. Escalar pela parte de trs da catarata, sem cordas e sem da, era 
praticamente impossvel.
Nadia aproximou-se de Mokarita e tentou explicar-lhe atra de sinais e das 
palavras que partilhavam, que ela no era capa2 subir. O chefe pareceu ter 
ficado bastante aborrecido, dava gri brandia as suas armas e gesticulava. Os 
outros ndios imitaramrodeando Nadia ameaadoramente. Alex colocou-se ao p da 
am e procurou acalmar os guerreiros com gestos, mas a nica coisa

ISABEL ALLENDE
conseguiu foi que Tahama agarrasse em Nadia pelo cabelo e comeasse a pux-lo, 
arrastando-a na direco da catarata, enquanto Borob dava palmadas e guinchava. 
Num arroubo de inspirao ou de desespero - o rapaz tirou a flauta do cinto e 
comeou a tocar. No mesmo instante os ndios pararam, hipnotizados. Tahama 
soltou Nadia e todos rodearam Alex.
Uma vez apaziguados,um pouco os nimos, Alex convenceu Nadia de que podia ajud-
la a subir com uma corda. Repetiu-lhe o que tantas vezes ouvira o seu pai dizer: 
antes de vencer a montanha  preciso aprender a usar o medo.
- Tenho pnico das alturas, Jaguar. Do-me vertigens. Cada vez que entro na 
avioneta do meu pai, adoeo... - gemeu Nadia.
- O meu pai diz que o medo  bom;  o sistema de alarme do corpo, avisa-nos do 
perigo. Mas s vezes o perigo  inevitvel e nessa altura  preciso dominar o 
medo.
- No consigo!
- Nadia, ouve-me - disse Alex agarrando-a pelos braos e obrigando-a a olh-lo 
nos olhos. - Respira fundo, acalma-te. Ensinar-te-ei a usar o medo. Confia em ti 
prpria e em mim. Ajudar-te-ei a subir, f-lo-emos juntos, prometo-te.
Como nica resposta, Nadia ps-se a chorar com a cabea no ombro de Alex. O 
rapaz no sabia o que fazer, nunca estivera to prximo de uma rapariga. Nas 
suas fantasias tinha abraado milhares de vezes Cecilia Burns, o amor da sua 
vida, mas na prtica teria desatado a fugir se ela o tivesse tocado. Cecilia 
Burns estava to longe que era como se no existisse: nem conseguia recordar-se 
da cara dela. Os seus braos rodearam Nadia num gesto automtico. Sentiu que o 
corao batia no peito como bfalos  desfilada, mas teve a lucidez suficiente 
para se aperceber do absurdo da situao. Estava a meio da selva, rodeado de 
estranhos guerreiros pintalgados, com uma pobre rapariga aterrada nos braos e 
em que estava a pensar? No amor! Conseguiu reagir, afastando Nadia para 
enfrent-la com determinao.
138
- Deixa de chorar e diz a estes senhores que precisamos uma corda - ordenou-lhe, 
apontando para os ndios. - E lemb -te de que tens a proteco do talism.
- Walimai disse que me protegeria dos homens, animai fantasmas, mas no 
mencionou o perigo de cair e partir a nuca explicou Nadia.
- Como diz a minha av, temos de morrer de alguma co - consolou-a o amigo, 
tentando sorrir. E acrescentou: - No disseste que era preciso ver com o 
corao? Esta  uma boa op tunidade para o fazer.
Nadia l se arranjou para comunicar aos ndios a petio rapaz. Quando 
finalmente entenderam, vrios deles puseram-se aco e muito depressa fizeram 
uma corda de lianas entrana Quando viram que Alex amarrava uma extremidade da 
corda  c tura da rapariga e enrolava o resto em volta do seu prprio pei deram 
mostras de grande curiosidade. No conseguiam percel por que razo os 
forasteiros faziam uma coisa to absurda: se 1 deles escorregasse, arrastaria o 
outro.


O grupo aproximou-se da catarata, que caa livremente de u altura de mais de 
cinquenta metros e se esmagava c em baixo nu impressionante nuvem de gua, 
coroada por um arco-ris mag fico. Centenas de pssaros pretos atravessavam a 
cascata em tos as direces. Os ndios saudaram o rio que descia do cu esgrimir 
as suas armas e dando gritos: j estavam muito perto do seu p: Ao subirem at s 
terras altas sentiam-se a salvo de qualquer rigo. Trs deles afastaram-se na 
direco do bosque demorar algum tempo e regressando depois com umas bolas que, 
ao ser inspeccionadas pelos jovens, acabaram por revelar serem cc postas por uma 
resina branca, espessa e muito pegajosa. Imitar os outros, esfregaram as palmas 
das mos e dos ps com esta pa; Em contacto com o solo, o hmus colava-se  
resina, criando u
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
sola nica. Os primeiros passos foram dificeis, mas mal se meteram sob o 
chuveiro da catarata, compreenderam a sua utilidade: era como levar botas e 
luvas de borracha adesiva.
Contornaram a lagoa que se formava em baixo e depressa chegaram, empapados,  
cascata, uma cortina slida de gua, separada da montanha por vrios metros. O 
rugido da gua era tal que tornava impossvel qualquer comunicao e tambm no 
podiam faz-lo por sinais, uma vez que a visibilidade era quase nula, o vapor de 
gua convertia o ar em espuma branca. Tinham a impresso de avanar s 
apalpadelas a meio de uma nuvem. Por ordem de Nadia, Borob tinha-se colado ao 
corpo de Alex como um grande penso peludo e quente, enquanto ela avanava atrs 
porque ia presa por uma corda, caso contrrio teria retrocedido. Os guerreiros 
conheciam bem o terreno e prosseguiam lentamente, mas sem vacilar, calculando 
onde punham cada p. Os jovens seguiram-nos o mais perto possvel, porque 
bastava separarem-se alguns passos para os perder de vista por completo. Alex 
calculou que o nome dessa tribo -povo da neblina - provinha da densa bruma que 
se formava com a queda-d'gua.
Essa e outras cataratas do Alto Orenoco tinham derrotado sempre os forasteiros, 
mas os ndios tinham-nas convertido em suas aliadas. Sabiam exactamente onde 
pisar, havia entalhes naturais ou talhados por eles que certamente teriam sido 
usados durante centenas de anos. Esses cortes na montanha formavam uma escada 
atrs da cascata, que subia at ao cimo. Sem saber da sua existncia e conhecer 
a sua localizao exacta, era impossvel subir por aquelas paredes lisas, 
molhadas e escorregadias, com a presena atroadora da cascata nas costas. Um 
tropeo e a queda acabava em morte certa a meio do fragor da espuma.
Antes de se verem isolados pelo rudo, Alex conseguiu instruir Nadia a no olhar 
para baixo, devendo concentrar-se a copiar os seus movimentos, aferrando-se onde 
ele o fazia, tal como ele imitava Tahama, que ia  sua frente. Tambm lhe 
explicou que a
primeira parte era mais dificil por causa da nvoa resultante bater da gua 
contra o cho, mas  medida que subissem ce mente seria menos escorregadio e 
conseguiriam ver melhor. Na no ficou muito animada, porque o seu maior problema 
no e visibilidade mas as vertigens. Tentou ignorar a altura e o rug 
ensurdecedor da cascata, pensando que a resina nas mos e nos a ajudava a colar-
se s rochas molhadas. A corda que a liga,, Alex dava-lhe alguma segurana, 
embora fosse fcil calcular 1 um passo em falso de qualquer um deles lanaria 
ambos par vazio. Tentou seguir as instrues de Alex: concentrar-se no r ximo 
movimento, no local exacto onde devia colocar o p ou a ir, um de cada vez, sem 
pressa e sem perder o ritmo. Mal conseg equilibrar-se, movia-se com cuidado 
procurando uma fenda uma salincia superior, tacteando seguidamente com um p 
at com outra e poder assim impelir o corpo alguns centmetros n para cima. As 
fissuras na montanha eram suficientemente prof das para se apoiarem, o perigo 
maior consistia em separar o cor tinha de se deslocar colada  rocha. Num 
claro, lembrou-se de rob: se ela ia to aterrada, como estaria o infeliz 
macaco pen rado em Alex.
 medida que subiam, a visibilidade aumentava, mas a c tncia entre a catarata e 
a montanha reduzia-se. Os jovens senti a gua cada vez mais perto das suas 
costas. Precisamente qual Alex e Nadia perguntavam a si prprios como fariam 
para coi nuar a subida pela parte superior da catarata, os entalhes na roa 
desviaram-se para a direita. O rapaz tacteou com os dedos e enc Irou uma 
superficie plana. Ento sentiu que o agarravam por pulso e o puxavam para cima. 
Atirou-se com todas as suas fora aterrou numa gruta da montanha, onde j 
estavam reunidos os gu reiros. Puxando pela corda iou Nadia, que caiu de bruos 
em ci dele, apatetada pelo esforo e pelo terror. O infeliz Borob nem mexeu, 
estava colado como uma lapa s suas costas e petrifica de terror. Diante da 
entrada da gruta caa uma cortina compacta
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
gua, que os pssaros pretos atravessavam dispostos a defender os seus ninhos 
dos invasores. Alex admirou-se com a coragem incrvel dos primeiros ndios que, 
talvez na pr-histria, se aventuraram atrs da cascata, encontraram algumas 
fendas e talharam outras, descobriram a gruta e abriram o caminho aos seus 
descendentes.
A gruta, comprida e estreita, no permitia que se pusessem de p, tinham de 
gatinhar ou de se arrastar. A claridade do sol filtrava-se branca e leitosa 
atravs da cascata, mas mal iluminava a entrada e no interior estava mais 
escuro. Alex, apertando Nadia e Borob contra o peito, viu Tahama chegar ao seu 
lado, gesticulando e apontando para a queda-d'gua. No conseguia ouvi-lo, mas 
compreendeu que algum tinha escorregado ou ficado para trs. Tahama mostrava-
lhe a corda e ele acabou por compreender que este pretendia us-la para descer  
procura do ausente. O ndio era mais pesado do que ele e, por muito gil que 
fosse, no tinha experincia no resgate de alta montanha. Ele tambm no era 
nenhum especialista, mas pelo menos acompanhara o pai algumas vezes em misses 
arriscadas, sabia usar uma corda e lera muito a esse respeito. Escalar era a sua 
paixo, comparvel apenas ao seu amor pela flauta. Fez sinais aos ndios de que 
desceria at onde as lianas permitissem. Desamarrou Nadia e indicou a Tahama e 
aos outros que o descessem pelo precipcio.
A descida, suspenso por uma frgil corda no abismo, com um mar de gua rugindo  
sua volta, pareceu a Alex pior que a subida. Via muito pouco e nem sequer sabia 
quem tinha escorregado e onde procur-lo. A manobra era de uma temeridade 
praticamente intil, uma vez que quem quer que tivesse pisado em falso durante a 
subida j estaria pulverizado l em baixo. O que faria John Cold nestas 
circunstncias? John Cold pensaria primeiro na vtima, depois em si prprio. 
John Cold no se daria por vencido sem tentar todos os recursos possveis. 
Enquanto o faziam deslizar, fez um esforo para ver para l do seu nariz e 
respirar, mas mal conseguia
abrir os olhos e sentia os pulmes cheios de gua. Balanava vazio para que a 
corda de lianas no cedesse.
De sbito um dos seus ps bateu numa coisa mole e, um ii tante mais tarde, 
apalpava com os dedos a forma de um hom, que pendia aparentemente do nada. Com 
um sobressalto de ang tia, compreendeu que era o chefe Mokarita. Reconheceu-o pi 
chapu de penas amarelas, que ainda permanecia firme na sua bea, apesar de o 
infeliz ancio estar agarrado como uma rs a u; raiz grossa que emergia da 
montanha e que, milagrosamente, df vera a sua queda. Alex no tinha onde 
segurar-se e receava q apoiando-se na raiz, esta se partisse precipitando 
Mokarita no at mo. Calculou que s teria uma oportunidade de agarr-lo e que m 
valia faz-lo com preciso, ou o homem, empapado como esta escorregar-lhe-ia por 
entre os dedos como um peixe.
Alexandre deu um impulso, baloiando-se quase s cegas e roscou-se com pernas e 
braos  figura prostrada. Na gruta os gu reiros sentiram o puxo e o peso na 
corda e comearam a iar c~ cuidado, muito lentamente, para evitar que o 
contacto com a roc rompesse as lianas e o baloio atirasse Alex e Mokarita 
contra rochas. O jovem nem soube quanto tempo demorou a operao,
1
vez alguns minutos apenas, mas pareceram-lhe horas. Por fim s~ tiu-se agarrado 
por vrias mos que o iaram para a gruta. Os nd tiveram de for-lo a soltar 
Mokarita porque o tinha abraado ci a determinao de uma piranha.
O chefe endireitou as penas e esboou um sorriso fraco. Fios sangue saam-lhe do 
nariz e da boca, mas o resto parecia intac Os ndios mostraram-se bastante 
impressionados com o resgat passavam a corda de mo em mo com admirao, mas a 
nenhi deles ocorreu atribuir o salvamento do chefe ao jovem forastei Em vez 
disso, felicitavam Tahama por ter tido aquela ideia. Es~ tado e dorido, Alex 
sentiu a falta de um agradecimento, mas Nadia o ignorou. Acocorada com Borob a 
um canto, nem se c
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE'
conta do herosmo do amigo, porque tentava ainda recuperar da subida  montanha.
O resto da viagem foi mais fcil, porque o tnel se abria a alguma distncia da 
gua, num stio onde era possvel subir com menos riscos. Servindo-se da corda, 
os ndios iaram Mokarita, porque as pernas lhe fraquejavam, e Nadia, porque lhe 
fraquejava o nimo, mas por fim encontraram-se todos no cume.
- No te disse que o talism tambm servia para perigos de altura? - troou 
Alex.
-  verdade - admitiu Nadia, convencida.
Diante deles apareceu o Olho do Mundo, designao que o povo da neblina dava ao 
seu pas. Era um paraso' de montanhas e cascatas magnficas, um bosque infinito 
povoado por animais, pssaros e borboletas, com um clima benigno e sem as nuvens 
de mosquitos que atormentavam as terras baixas. Ao longe erguiam-se estranhas 
formaes como cilindros altssimos de granito preto e terra vermelha. Prostrado 
no cho sem conseguir mexer-se, Mokarita apontou-os com reverncia:
- So tepuis, as residncias dos deuses - disse, com um fio de voz. Alex 
reconheceu-os imediatamente: aquelas mesetas impressionantes eram idnticas s 
torres magnficas que tinha visto quando enfrentou o jaguar negro no acampamento 
de Mauro Carias.
- So as montanhas mais antigas e misteriosas da terra - disse.
- Como sabes? J as tinhas visto antes? - perguntou Nadia.
- Vi-as num sonho - respondeu Alex.
O chefe ndio no dava mostras de dor, tal como correspondia a um guerreiro da 
sua categoria, mas restavam-lhe muito poucas foras, de vez em quando fechava os 
olhos e parecia desmaiado. Alex no sabia se teria ossos partidos ou inmeras 
contuses internas, mas era evidente que no conseguia levantar-se. Valendo-se 
de Nadia como intrprete, conseguiu que os ndios improvisassem uma
padiola com dois paus compridos, algumas lianas atravessadas e w pedao de uma 
casca de rvore por cima. Os guerreiros, perplexo diante da debilidade do ancio 
que conduzira a tribo por vrias di cadas, seguiram as instrues de Alex sem 
discutir, Dois deles s~ guraram nas extremidades da maca e assim continuaram a 
marcl durante uma meia hora pela margem do rio, guiados por Taham at Mokarita 
pedir que parassem para descansar um pouco.
A subida pelas ladeiras da catarata tinha durado vrias hon e agora estavam 
todos esgotados e esfomeados. Tahama e outro dois homens internaram-se no bosque 
e regressaram passado poi co tempo com alguns pssaros, um tatu e um macaco, que 
tinha caado com as suas flechas. O macaco, ainda vivo mas paralisas pelo 
curare, foi despachado com uma pedrada na cabea, peran o horror de Borob, que 
correu a refugiar-se debaixo da camiso de Nadia. Fizeram fogo esfregando uma 
pedra na outra - coisa qi Alex tentara inutilmente quando era escuteiro - e 
assaram as pr sas enfiadas em paus. O caador no provava a carne da sua vtim 
era m educao e trazia m sorte, tinha de esperar que outro ca dor lhe 
oferecesse da sua. Tahama tinha caado tudo menos o tat de modo que o jantar 
demorou algum tempo, enquanto cumpria o rigoroso protocolo da troca de comida. 
Quando finalmente tea sua poro na mo, Alex devorou-a sem reparar nas penas e 
ni plos ainda presos  carne e achou-a deliciosa.
Ainda faltavam algumas horas para o pr do Sol e no piam to, onde a cpula 
vegetal era menos densa, a luz do dia durava ma que no vale. Depois de longas 
consultas com Tahama e Mokaril o grupo ps-se novamente em marcha.


Tapirawa-teri, a aldeia do povo da neblina apareceu de repe te a meio do bosque, 
como se tivesse a mesma capacidade dos se habitantes para se tornar visvel ou 
invisvel  sua vontade. Esta protegida por um grupo de castanheiros gigantes, 
as rvores m,
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1

ISABEL ALLENDE
altas da selva, com alguns dos seus troncos medindo mais de dez metros de 
circunferncia. As suas cpulas cobriam a aldeia como um imenso guarda-chuva. 
Tapirawa-teri era diferente do tpico shabono, o que confirmou a suspeita de 
Alex de que o povo da neblina no era como os outros ndios e certamente tinha 
muito pouco contacto com outras tribos do Amazonas. A aldeia no era formada por 
uma nica cabana circular com um ptio ao centro, onde vivia toda a tribo, mas 
por pequenas casas, feitas de barro, pedras, paus e palha, cobertas de ramos e 
de arbustos, de modo que se confundiam perfeitamente com a Natureza. Podia-se 
estar a poucos metros de distncia sem fazer ideia de que ali existiam 
construes humanas. Alex compreendeu que se era to dificil distinguir a aldeia 
mesmo estando no meio dela, seria impossvel v-la do ar; ao passo que o grande 
tecto circular e o ptio livre de vegetao de um shabono seria sem dvida 
visvel. Essa devia ser a razo pela qual o povo da neblina tinha conseguido 
manter-se completamente isolado. A sua esperana de ser resgatado pelos 
helicpteros do exrcito ou pela avioneta de Csar Santos esfumou-se.
A aldeia era to irreal como os ndios. Tal como as cabanas eram invisveis, 
tudo o resto parecia tambm difuso ou transparente. Ali os objectos, tal como as 
pessoas, perdiam os seus contornos precisos e existiam no plano da iluso. 
Surgindo do ar, como fantasmas, as mulheres e as crianas apareceram para 
receber os guerreiros. Eram de baixa estatura, de pele mais clara que os ndios 
do vale, com olhos cor de mbar. Deslocavam-se com uma leveza extraordinria, 
flutuando, quase sem consistncia material. Como nica vestimenta tinham 
desenhos pintados no corpo e algumas penas ou flores amarradas nos braos ou 
enfiadas nas orelhas. Assustados com o aspecto dos forasteiros, as crianas mais 
pequenas puseram-se a chorar e as mulheres mantiveram-se  distncia, receosas, 
apesar da presena dos seus homens armados.
- Tira a tua roupa, Jaguar - disse Nadia, despindo os seus cales, a sua 
camisola de manga curta e at a sua roupa interior.
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Alex imitou-a sem sequer pensar no que fazia. A ideia de des pir-se em pblico 
t-lo-ia horrorizado h algumas semanas, ma naquele stio era natural. Andar 
vestido parecia indecente quand, todos os outros estavam nus. Tambm no lhe 
pareceu estranho ve o corpo da sua amiga, embora antigamente tivesse corado se 
qual quer uma das suas irms aparecesse sem roupa  sua frente. Ime diatamente, 
as mulheres e as crianas perderam o medo e foram-s aproximando pouco a pouco. 
Nunca tinham visto pessoas de aspe! to to singular, sobretudo o rapaz 
americano, to branco nalguma partes. Alex sentiu que examinavam com especial 
curiosidade a di ferena de cor entre o que habitualmente estava coberto pelo se 
fato de banho e o resto do corpo, bronzeado pelo sol. Esfregava -no com os dedos 
para ver se era pintura e riam-se s gargalhada!
Os guerreiros colocaram no cho a maca de Mokarita, que fc imediatamente rodeada 
pelos habitantes da aldeia. Comunicava) entre si com sussurros e num tom 
meldico, imitando os sons d bosque, da chuva, da gua sobre as pedras dos rios, 
tal como Wal mai. Maravilhado, Alex apercebeu-se de que conseguia compreer d-
los bastante bem, desde que no se esforasse por isso: tinha d ouvir com o 
corao. Segundo Nadia, que tinha uma facilidad espantosa para as lnguas, as 
palavras no so muito importante quando se entende as intenes.
Iyomi, a mulher de Mokarita, ainda mais idosa do que el aproximou-se. Os outros 
deram-lhe passagem com respeito e e ajoelhou-se junto do marido, sem uma 
lgrima, murmurando paL vras de consolo na sua orelha, enquanto as restantes 
mulheris faziam uma roda  sua volta, srias e em silncio, apoiando o cas com a 
sua proximidade, mas sem interferir.
Rapidamente a noite caiu e o ar ficou mais frio. Normalmen num shabono havia 
sempre sob o grande tecto comum um colar c fogueiras acesas para cozinhar e dar 
calor, mas em Tapirawa-teri fogo estava dissimulado, como tudo o resto. As 
pequenas fogue ras acendiam-se s de noite e dentro das cabanas, sobre um altar 
I
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
V

ISABEL ALLENDE
pedra, para no chamar a ateno dos possveis inimigos ou dos
maus espritos. O fumo saa pelas ranhuras do tecto, dispersando
-se no ar. No princpio, Alex teve a impresso de que as casas es
tavam espalhadas ao acaso por entre as rvores, mas depressa
compreendeu que estavam colocadas de uma forma vagamente cir
cular, como um shabono, e ligadas entre si por tneis ou tectos de
ramos, dando unidade  aldeia. Os seus habitantes podiam deslo
car-se atravs dessa rede de veredas ocultas, protegidos em caso
de ataque e abrigados da chuva e do sol.
Os ndios agrupavam-se por famlias, mas os rapazes adolescentes e os homens 
solteiros viviam separados numa casa comum, onde havia redes penduradas em paus 
e esteiras pelo cho. Ali instalaram Alex, enquanto Nadia foi levada para a casa 
de Mokarita. O chefe ndio casara-se na puberdade com lyomi, sua companheira de 
toda a vida, mas tinha mais duas mulheres e um grande nmero de filhos e netos. 
No contabilizava a descendncia, porque na realidade tambm no importava quem 
eram os pais: as crianas criavam-se todas juntas, protegidas e cuidadas pelos 
membros da aldeia.
Nadia descobriu que entre o povo da neblina era comum ter vrias mulheres ou 
vrios maridos. Ningum ficava s. Se um homem morria, os seus filhos e a sua 
mulher eram imediatamente adoptados por outro que pudesse proteg-los e 
aliment-los. Era esse o caso de Tahama, que devia ser um bom caador, porque 
tinha a responsabilidade de vrias mulheres e de uma dzia de midos. Por sua 
vez uma me, cujo marido fosse um mau caador, podia arranjar outros maridos que 
a ajudassem a alimentar os filhos. Os pais costumavam prometer em casamento as 
suas filhas quando nasciam, mas nenhuma rapariga era obrigada a casar-se ou a 
permanecer junto de um homem contra sua vontade. O abuso de mulheres e de 
crianas era tabu e quem o violasse perdia a sua famlia e ficava condenado a 
dormir sozinho, porque tambm no era aceite na cabana dos solteiros. O nico 
castigo entre o povo da neblina era o isolamento: o que mais receavam era serem 
excludos
148
da comunidade. Quanto ao resto, a noo de prmio e castigo n existia entre 
eles, as crianas aprendiam imitando os adultos po: que, se no o fizessem, 
estavam destinados a perecer. Tinham aprender a caar, plantar e colher, a 
respeitar a Natureza e os outro a ajudar e a manter o seu lugar na aldeia. Cada 
qual aprendia segui do o seu prprio ritmo e de acordo com a sua capacidade.
s vezes no nasciam meninas em nmero suficiente nuir gerao. Nessa altura, os 
homens partiam em longas expedies procura de mulheres. Por outro lado, as 
raparigas da aldeia podia] encontrar marido nas raras ocasies em que visitavam 
outras r( gies. Tambm se misturavam adoptando famlias de outras tribo 
abandonadas depois de uma batalha, porque um grupo muito p queno no conseguia 
sobreviver na selva. De vez em quando ei preciso declarar guerra a outro 
shabono, dessa forma os guerre ros fortaleciam-se e trocavam de pares. Era muito 
triste quando c jovens se despediam para ir viver noutra tribo, porque muito ran 
mente voltavam a ver a sua famlia. O povo da neblina guardas zelosamente o 
segredo da sua aldeia, para se defender de ataqu( e dos costumes dos 
forasteiros. Viviam da mesma forma h milha res de anos e no desejavam mudar.
No interior das cabanas havia muito pouco: redes, cabaa machados de pedra, 
facas de dentes ou garras, vrios animais d( msticos que pertenciam  
comunidade, entrando e saindo  si vontade. No dormitrio dos solteiros 
guardavam-se os arcos, fb chas, zarabatanas e dardos. No havia nada suprfluo, 
nem objectc de arte, apenas o essencial para a estrita sobrevivncia. O reste a 
Natureza proporcionava. Alexander Cold no viu um nico of jecto de metal que 
revelasse contacto com o mundo exterior e r~ cordou como o povo da neblina no 
tinha tocado nos present( pendurados por Csar Santos para atra-los. Nisso 
tambm se d ferenciavam das outras tribos da regio, que sucumbiam uma a un  
cobia pelo ao e por outros bens dos forasteiros.
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
14

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN:
Quando desceu a temperatura, Alex vestiu a sua roupa, mas continuava a tiritar. 
 noite, viu que os seus companheiros de casa dormiam dois a dois nas redes ou 
amontoados no cho para infundirem calor, mas ele vinha de uma cultura onde o 
contacto fisico entre homens no era tolerado. Os homens s se tocam em impulsos 
de violncia ou nos desportos mais rudes. Deitou-se sozinho num canto sentindo-
se insignificante, menos que uma pulga. Aquele pequeno agrupamento humano numa 
minscula aldeia da selva era invisvel na imensido do espao sideral. O seu 
tempo de vida era menos que uma fraco de segundo no infinito. Ou talvez nem 
sequer existissem. Talvez os seres humanos, os planetas e o resto da Criao no 
passassem de sonhos, de iluses. Sorriu com humildade lembrando-se de que apenas 
h alguns dias ele ainda se achava o centro do universo. Tinha frio e fome, 
calculou que essa seria uma longa noite, mas em menos de cinco minutos estava a 
dormir como se o tivessem anestesiado.
Acordou aninhado no cho sobre uma esteira de palha, comprimido entre dois 
robustos guerreiros que roncavam e sopravam na sua orelha tal como o seu co 
Poncho costumava fazer. Libertou-se com dificuldade dos braos dos ndios e 
levantou-se discretamente, mas no foi muito longe porque, atravessada  entrada 
estava uma cobra gorda com mais de dois metros de comprimento. Ficou 
petrificado, sem se atrever a dar um passo, apesar de o rptil no dar sinais de 
vida: estava morto ou adormecido. Depressa os ndios sacudiram o sono e 
comearam as suas actividades com a maior tranquilidade, passando por cima da 
cobra sem lhe prestar ateno. Era uma boa constritor domesticada, cuja misso 
consistia em eliminar ratazanas, morcegos, escorpies e aterrorizar as serpentes 
venenosas. Entre o povo da neblina havia muitas mascotes: macacos que se criavam 
com as crianas, cezinhos que as mulheres amamentavam tal como aos filhos, 
tucanos, papagaios, iguanas e at um decrpito jaguar amarelo, inofensivo, coxo 
de uma pata. As boas, bem alimentadas e regra geral letrgicas,
prestavam-se s brincadeiras das crianas. Alex pensou como sua irm Nicole se 
sentiria feliz no meio daquela extica fauna amestrada.
Uma boa parte do dia passou-se na preparao da festa come morativa do regresso 
dos guerreiros e da visita das duas alma brancas, como chamaram a Nadia e a 
Alex. Todos participaram menos um homem, que permaneceu sentado na extremidade 
da al deia, separado dos restantes. O ndio cumpria o ritual de purifica o - 
unokaim - obrigatrio quando se matou outro se humano. Alex ficou a saber que o 
unokaim consistia num jejue total, silncio e imobilidade durante vrios dias, 
dessa forma o es prito do morto, que sara pelas narinas do cadver para se 
cola ao esterno do assassino, descolar-se-ia pouco a pouco. Se o homi cida 
consumisse qualquer alimento, o fantasma da sua vtima en gordava e o seu peso 
acabava por esmag-lo. Diante do guerreir imvel em unokaim estava uma longa 
zarabatana de bambu de corada com estranhos smbolos, idnticos aos do dardo 
envenena do que atravessou o corao de um dos soldados da expedi durante a 
viagem pelo rio.
Alguns homens foram caar e pescar, conduzidos por Taham, enquanto vrias 
mulheres foram apanhar milho e bananas s p( querias hortas dissimuladas no 
bosque e outras se ocuparam a mo( mandioca. As crianas mais pequenas juntavam 
formigas e outrc insectos para cozinhar; os mais velhos recolhiam nozes e 
frutas, oi tros subiam com uma agilidade incrvel a uma das rvores para tira 
mel de um favo, nica fonte de acar na selva. Desde que cons( guiam pr-se de 
p, os rapazes aprendiam a trepar, eram capaz( de correr sobre os ramos mais 
altos de uma rvore sem perderei o equilbrio. S de os ver suspensos quela 
altura, como macaco Nadia sentia vertigens.
Entregaram a Alex um cabaz, ensinaram-no a amarr-lo  cabe a e disseram-lhe 
que se juntasse aos outros jovens da sua idad
150
1`

ISABEL ALLENDE
Andaram durante algum tempo internando-se no bosque, atravessaram o rio 
segurando-se a varas e a lianas, e chegaram ao p de umas palmeiras esbeltas 
cujos troncos estavam cobertos de espinhos afiados. Sob as copas, a mais de 
quinze metros de altura, brilhavam cachos de um fruto amarelo parecido com o 
pssego. Os jovens amarraram uns paus para fazer duas cruzes firmes, rodearam o 
tronco com uma e puseram a outra mais acima. Um deles trepou  primeira, 
empurrou a outra para cima, subiu a essa, esticou a mo para subir a cruz que 
estava em baixo e, dessa forma, foi subindo com a agilidade de um trapezista at 
ao cimo. Alex j tinha ouvido falar desta faanha, mas at a ter visto no 
percebia como era possvel subir sem se ferir nos espinhos. De cima, o ndio 
atirou os frutos, que os outros apanharam com os cabazes. Mais tarde as mulheres 
da aldeia moeram-nos, misturados com bananas, para fazer uma sopa, bastante 
apreciada pelo povo da neblina.
Apesar de estarem todos atarefados com os preparativos, havia um ambiente calmo 
e festivo. Ningum se apressava e houve tempo para se banharem alegremente no 
rio durante horas. Enquanto chapinhava com outros jovens, Alexander Cold pensou 
que nunca o mundo lhe parecera to belo e que nunca voltaria a ser to livre. 
Depois do longo banho, as raparigas de Tapirawa-teri prepararam pinturas 
vegetais de cores diferentes e decoraram todos os membros da tribo, incluindo os 
bebs, com intrincados desenhos. Entretanto, os homens mais idosos moam e 
misturavam folhas e cascas de diversas rvores para fazer o yopo, o p mgico 
das ceri
mnias.
A festa comeou  tarde e durou toda a noite. Os ndios, pin tados dos ps  
cabea, cantaram, danaram e comeram at s fartarem. Era uma falta de educao 
um convidado recusar o ofe recimento de comida ou de bebida, de modo que Alex e 
Nadia imitando os outros, encheram a barriga at sentirem vmitos, o qu era 
considerado uma demonstrao de boas maneiras. As criana corriam com grandes 
borboletas e escaravelhos fosforescente amarrados com longos cabelos. As 
mulheres, enfeitadas com pin lampos, orqudeas, penas nas orelhas e pauzinhos 
atravessados no lbios, comearam a festa dividindo-se em dois grupos, que se de 
frontavam cantando em competio amistosa. Depois convidara) os homens a danar 
inspiradas nos movimentos dos animais quar do acasalavam na estao das chuvas. 
Por fim os homens brilharas sozinhos, primeiro girando numa roda imitando 
macacos, jaguar( e jacars e fazendo depois uma demonstrao de fora e destre2 
brandindo as suas armas e dando saltos aparatosos. Nadia e Ale j sentiam a 
cabea  roda, estavam enjoados com o espectculi com o rufar dos tambores, com 
os cnticos, os gritos, com os ru dos da selva  sua volta.
Mokarita tinha sido colocado no centro da aldeia, onde reci bia os cumprimentos 
cerimoniosos de todos. Embora bebesse pi quenos sorvos de masato, no conseguiu 
provar a comida. Outi ancio, com reputao de curandeiro, apareceu diante dele 
cober com uma crosta de lama seca e uma resina onde lhe tinham cola(
CAPTULO 12
Ritual de iniciao
152
1:

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN!
uma penugem branca, o que lhe dava o aspecto de um estranho pssaro recm-
nascido. O curandeiro esteve muito tempo dando saltos e fazendo um grande 
alarido para aterrorizar os demnios que tinham entrado no corpo do chefe. 
Depois chupou-lhe vrias partes do ventre e do peito, fazendo a mmica de 
aspirar os maus humores e de os cuspir para longe. Alm disso, esfregou o 
moribundo com uma pasta de paranary, uma planta utilizada no Amazonas para curar 
feridas. No entanto, as feridas de Mokarita no eram visveis e o remdio no 
surtiu qualquer efeito. Alex calculou que a queda tinha rebentado algum rgo 
interno do chefe, talvez o figado, pois  medida que as horas passavam o ancio 
ia ficando cada vez mais fraco, enquanto um fio de sangue lhe saa pela 
comissura dos lbios.
Ao amanhecer, Mokarita chamou Nadia e Alex e, com as poucas foras que lhe 
restavam, explicou-lhes que eles eram os nicos forasteiros que tinham pisado 
Tapirawa-teri desde a fundao da aldeia.
- As almas do povo da neblina e dos nossos antepassados habitam aqui. Os nahab 
falam com mentiras e no conhecem a justia, podem sujar as nossas almas - 
disse.
Tinham sido convidados, acrescentou, por instrues do grande xam, que os 
avisara de que Nadia estava destinada a ajud-los. No sabia que papel 
desempenharia Alex nos acontecimentos que viriam, mas como companheiro da 
menina, tambm era bem-vindo a Tapirawa-teri. Alexander e Nadia perceberam que 
se referia a Walimai e  sua profecia sobre o Rahakanariwa.
- Que forma adopta o Rahakanariwa? - perguntou Alex.
- Muitas formas.  um pssaro chupa-sangue. No  humano, age como um demente, 
nunca se sabe o que far, est sempre sedento de sangue, aborrece-se e castiga - 
explicou Mokarita.
- Viram uns pssaros grandes? - perguntou Alex.
- Vimos os pssaros que fazem rudo e vento, mas eles no nos viram. Sabemos que 
no so o Rahakanariwa, embora se assemelhem bastante, esses so os pssaros dos 
nahab. S voam de
dia, nunca de noite, por isso temos cuidado quando acendemos fo gueiras, para 
que o pssaro no veja o fumo. Por isso vivemos es condidos. Por isso somos o 
povo invisvel - replicou Mokarita
- Os nahab acabaro por vir mais cedo ou mais tarde,  ine vitvel. O que far o 
povo da neblina nessa altura?
- O meu tempo no Olho do Mundo est a terminar. O chef que vier depois de mim 
ter de decidir - replicou Mokarita debit
mente.
Mokarita morreu ao amanhecer. Um coro de lamentos agito Tapirawa-teri durante 
horas: ningum conseguia lembrar-se d tempo anterior a este chefe, que conduzira 
a tribo durante muiti dcadas. A coroa de penas amarelas, smbolo da sua 
autoridade, fc colocada sobre um poste at o seu sucessor ser designado. EntrE 
tanto, o povo da neblina despojou-se dos seus adornos e cobriu de lama, carvo e 
cinza, em sinal de luto. Reinava uma grane inquietao, porque achavam que a 
morte raras vezes surge p, razes naturais, a causa , no geral, um inimigo que 
utilizou mag para causar dano. A forma de apaziguar o esprito do morto  encoi 
trar o inimigo e elimin-lo, de outra forma o fantasma permane~ no mundo 
infernizando os vivos. Se o inimigo fosse de outra tI bo, isso podia lev-los a 
uma batalha, mas se fosse da mesma aldei podia ser morto simbolicamente 
recorrendo a uma cerimn apropriada. Os guerreiros, que tinham passado a noite 
bebendo m sato, estavam bastante excitados com a ideia de vencer o inimit 
causador da morte de Mokarita. Descobri-lo e derrot-lo era ur questo de honra. 
Nenhum deles aspirava substitu-lo, porque en1 eles no existiam hierarquias, 
ningum era mais importante q qualquer outro, o chefe tinha apenas mais 
obrigaes. Mokar no era respeitado pela sua posio de chefia, mas por ser mui 
velho, isso significava mais experincia e conhecimento. Os h
mens, embriagados e exacerbados, podiam tornar-se violentos
um momento para o outro.
154
I

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGENS
- Creio que chegou o momento de chamar Walimai - sussurrou Nadia a Alex.
Retirou-se para um extremo da aldeia, tirou o amuleto do pes
coo e comeou a sopr-lo. O pio agudo da coruja que o osso ta
lhado emitia, pareceu estranho naquele stio. Nadia pensava que
bastava usar o talism para ver aparecer Walimai por artes de magia,
mas por mais que soprasse, o xam no aparecia.
Nas horas seguintes, a tenso na aldeia foi aumentando. Um
dos guerreiros agrediu Tahama e este devolveu o gesto com uma
bordoada na cabea, que deixou o outro estirado no cho a sangrar. Tiveram de 
intervir vrios homens para separar e acalmar os exaltados. Finalmente decidiram 
resolver o conflito recorrendo ao yopo, um p verde que, tal como o masato, s 
os homens usavam. Distriburam-se de dois em dois, cada par com uma grande cana 
oca e talhada na ponta, atravs da qual sopravam o p uns aos outros 
directamente no nariz. O yopo chegava-lhes ao crebro com a fora de uma 
martelada e o homem caa para trs gritando de dor, comeando depois a vomitar, 
a dar saltos, a grunhir e a ter vises, enquanto uma mucosidade verde lhe saa 
pelas narinas e pela boca. No era um espectculo muito agradvel, mas usavam-no 
para se transportarem ao mundo dos espritos. Alguns homens converteram-se em 
demnios, outros assumiram a alma de diversos animais, outros profetizaram o 
futuro, mas a nenhum apareceu o fantasma de Mokarita para designar o seu 
sucessor.
Alex e Nadia desconfiavam que aquele pandemnio ia acabar em violncia e 
preferiram manter-se afastados e mudos, esperando que ningum se lembrasse 
deles. No tiveram sorte porque, de repente, um dos guerreiros teve a viso de 
que o inimigo de Mokarita, o causador do seu falecimento, era o rapaz 
estrangeiro. Num instante, os restantes juntaram-se para castigar o suposto 
assassino do chefe e, arvorando garrotes, foram atrs de Alex. Este no era o 
momento de pensar na flauta como meio para acalmar os nimos. O rapaz ps-se a 
correr como uma gazela. As suas nicas
vantagens eram o desespero, que lhe dava asas, e o facto de os seus 
perseguidores no estarem nas melhores condies. Os ndios, intoxicados, 
tropeavam, empurravam-se e, na confuso, batiam uns nos outros, enquanto as 
mulheres e as crianas corriam em volta deles, animando-os. Alex julgou que 
tinha chegado a sua hora e a imagem da sua me passou-lhe como um relmpago pelo 
esprito, enquanto corria pelo bosque sem parar.
O rapaz americano no podia competir em velocidade e des treza com aqueles 
guerreiros indgenas, mas estes estavam droga dos e foram caindo pelo caminho, 
um por um. Finalmente conseguir refugiar-se debaixo de uma rvore, espreitando, 
extenuado. Quan do pensava estar a salvo, viu-se rodeado e, antes de conseguir 
co mear novamente a correr, as mulheres da tribo caram-lhe en cima. Riam-se, 
como se t-lo apanhado fosse apenas uma grande partida, mas agarraram-no com 
firmeza e, apesar das suas palma das e pontaps, arrastaram-no entre todas de 
volta a Tapirawa-teri onde o amarraram a uma rvore. Mais de uma rapariga lhe 
veie fazer ccegas e outras meteram-lhe pedaos de fruta na boca mas apesar 
dessas atenes, deixaram as cordas bem apertadas. Po essa altura, o efeito do 
yopo comeava a ceder e, pouco a pouco, o homens iam abandonando as suas vises 
para regressarem, esgo tados,  realidade. Decorreriam vrias horas at 
recuperarem a lu cidez e as foras.
Alex, dorido por ter sido arrastado pelo cho, e humilhado pel troa das 
mulheres, lembrou-se das histrias arrepiantes do profes sor Ludovic Leblanc. Se 
a sua teoria estivesse correcta, com-lc -iam. E o que aconteceria a Nadia? 
Sentia-se responsvel por eh Pensou que nos filmes e nos romances esse seria o 
momento ei que os helicpteros vm resgat-los e olhou para o cu sem espe rana 
porque, na vida real, os helicpteros nunca chegam a temp<
Entretanto Nadia fora-se aproximando da rvore sem que nii
gum a detivesse, porque nenhum dos guerreiros podia imagin,
que uma mida se atrevesse a desafi-los. Alex e Nadia tinhas
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11

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGENS
vestido a sua roupa ao cair o frio da primeira noite e, como o povo
da neblina se habituara a v-los vestidos, no viram necessidade
em despi-la. Alex estava com o cinto de onde pendia a sua flauta, a sua bssola 
e o seu canivete, que Nadia usou para o libertar. Nos filmes tambm basta um 
movimento para cortar uma corda, mas ela teve de serrar, por um bom bocado, as 
tiras de couro que o prendiam ao poste, enquanto ele suava de impacincia. As 
crianas e algumas mulheres da tribo aproximaram-se para ver o que ela fazia, 
assombradas com o seu atrevimento, mas ela agiu com tal segurana, brandindo o 
canivete diante dos narizes dos curiosos, que ningum interveio e, passados dez 
minutos, Alex estava livre. Os dois amigos comearam a retroceder 
disfaradamente, sem se atreverem a desatar a correr para no atrair a ateno 
dos guerreiros. Esse era o momento em que a arte da invisibilidade lhes
teria servido de muito.
Os jovens forasteiros no conseguiram ir muito longe porque Walimai fez a sua 
entrada na aldeia. O velho feiticeiro apareceu com a sua coleco de saquinhos 
pendurados no basto, a sua pequena lana e o cilindro de quartzo que soava como 
uma cascavel. Continha pedrinhas recolhidas no stio onde cara um raio, era o 
smbolo dos curandeiros e xamanes e representava o poder do Sol Pai. Vinha 
acompanhado por uma rapariga nova, com o cabelo como um manto negro at  
cintura, as sobrancelhas depiladas, colares de contas e uns pauzinhos polidos 
atravessados nas faces e no nariz. Era muito bonita e parecia alegre. Embora no 
dissesse uma palavra, estava sempre a sorrir. Alex compreendeu que era a mulher-
anjo do xam e alegrou-se por agora conseguir v-la, isso significava que alguma 
coisa se abrira no seu entendimento ou na sua intuio. Tal como Nadia lhe tinha 
ensinado: era preciso ver com o corao. Ela contara-lhe que Walimai, h 
muitos anos, ainda um jovem, fora obrigado a matar a rapariga, ferindo-a com a 
sua
faca envenenada, para a livrar da escravido. No fora um crime mas um favor que 
lhe fizera. De qualquer forma a alma dela colou-se-lhe ao peito e Walimai fugiu 
para a selva mais profunda, levando com ele a alma da jovem para onde ningum 
conseguisse encontr-la. A cumpriu os ritos de purificao obrigatrios, o 
jejum e imobilidade. No entanto, durante a viagem, ele e a mulher tinham -se 
apaixonado e, uma vez terminado o rito do unokaim, o esprito dela no quis 
despedir-se e preferiu ficar neste mundo junto do ho mem que amava. Isso 
acontecera h quase um sculo e, desde esse altura, acompanhava sempre Walimai, 
esperando o momento en que ele pudesse voar com ela convertido tambm em 
esprito.
A presena de Walimai aliviou a tenso em Tapirawa-teri e o mesmos guerreiros 
que pouco antes estavam dispostos a massacra Alex, tratavam-no agora com 
amabilidade. A tribo respeitava e temi o grande xam porque possua a habilidade 
sobrenatural de intel pretar signos. Todos sonhavam e tinham vises, mas s os 
eleito: como Walimai, viajavam ao mundo dos espritos superiores, ond aprendiam 
o significado das vises e podiam conduzir os outros' mudar o rumo dos desastres 
naturais.
O ancio anunciou que o rapaz tinha a alma do jaguar negro animal sagrado, e 
viera de muito longe para ajudar o povo da nebl na. Explicou que estes eram 
tempos muito estranhos, tempos ei que a fronteira entre o mundo de c e o mundo 
de l era difusa tempos em que o Rahakanariwa podia devor-los a todos. Reco 
dou-lhes a existncia dos nahab, que a maior parte deles s conhec pelas 
histrias que lhes contavam os seus irmos de outras tribo
das terras baixas. Os guerreiros de Tapirawa-teri tinham espia(
durante dias a expedio da International Geographic, mas nenhu
deles compreendia as aces ou os costumes daqueles estranhe
forasteiros. Walimai, que vira muito no seu sculo de vida, conto
-lhes o que sabia.
- Os nahab esto como mortos, a alma fugiu-lhes do pei
- disse. - Os nahab no sabem nada de nada, no consegue
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ISABEL ALLENDE
cravar um peixe com uma lana, nem acertar um macaco com um dardo, nem trepar a 
uma rvore. No andam vestidos de ar e luz, como ns, usando em vez disso roupas 
hediondas. No se lavam no rio, no conhecem as regras da decncia ou da 
cortesia, no partilham a sua casa, a sua comida, os seus filhos ou as suas 
mulheres. Tm os ossos moles e mesmo uma pequena paulada pode partir-lhes o 
crnio. Matam animais e no os comem, deixam-nos para l a apodrecer. Por onde 
passam deixam um rasto de lixo e veneno, mesmo na gua. Os nahab so to loucos 
que pretendem levar consigo as pedras do cho, a areia dos rios e as rvores do 
bosque. Alguns querem a terra. Dizemos-lhes que a selva no se pode carregar s 
costas como um tapir morto, mas no nos ouvem. Falam-nos dos seus deuses e no 
querem saber dos nossos. So insaciveis como o jacar. Estas coisas terrveis 
vi eu com os meus prprios olhos, ouvi com os meus prprios ouvidos e toquei com 
as minhas prprias mos.
- Jamais permitiremos que esses demnios cheguem at ao Olho do Mundo, mat-los-
emos com os nossos dardos e flechas quando subirem pela catarata, tal como 
fizemos com todos os forasteiros que o tentaram anteriormente, desde o tempo dos 
avs dos nossos avs - anunciou Tahama.
- Mas viro de qualquer forma. Os nahab tm pssaros de rudo e vento, conseguem 
voar por cima das montanhas. Viro porque querem as pedras, as rvores e a terra 
- interrompeu Alex.
-  verdade - admitiu Walimai.
- Os nahab tambm podem matar com doenas. Muitas tribos morreram assim, mas o 
povo da neblina pode salvar-se - disse Nadia.
Esta menina cor de mel sabe o que diz, devemos ouvi-la. O Rahakanariwa pode 
adoptar a forma de doenas mortais - garantiu Walimai.
- Ela  mais poderosa que o Rahakanariwa? - perguntou Tahama incrdulo.
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- Eu no, mas h outra mulher que  muito poderosa. El tem vacinas que podem 
evitar as epidemias - disse a rapariga
Nadia e Alex passaram a hora seguinte tentando convencer c ndios de que nem 
todos os nahab eram demnios nefastos, havi alguns que eram amigos, como a 
doutora Omayra Torres. s lim taes da linguagem juntavam-se as diferenas 
culturais. Com explicar-lhes em que consistia uma vacina? Eles prprios no 
entendiam muito bem, de modo que optaram por dizer que era um magia muito forte.
- A nica salvao  aquela mulher vir vacinar todo o pov da neblina - 
argumentou Nadia. - Dessa forma, mesmo qu venham os nahab ou o Rahakanariwa 
sedentos de sangue, n podero causar-vos mal com doenas.
- Podem ameaar-nos de outras maneiras. Nessa altura iremc para a guerra - 
afirmou Tahama.
- A guerra contra os nahab no  boa ideia... - aventuro Nadia.
- O prximo chefe ter de decidir - concluiu Tahama.


Walimai encarregou-se de dirigir os ritos funerrios de Moka rita de acordo com 
as mais antigas tradies. Apesar do perigo d serem vistos do ar, os ndios 
acenderam uma grande fogueira par cremar o corpo e durante horas os restos 
mortais do chefe consu miram-se, enquanto os habitantes da aldeia lamentavam a 
sua pai tida. Walimai preparou uma poo mgica, a poderosa ayahuascG para 
ajudar os homens da tribo a ver o fundo dos seus coraes. O jovens forasteiros 
foram convidados porque deviam cumprir um misso herica mais importante que as 
suas prprias vidas, par a qual no necessitavam apenas da ajuda dos deuses, 
devendo tam bm conhecer as suas prprias foras. Eles no se atreveram a re 
cusar, apesar de o sabor daquela poo ser asqueroso e terem d fazer um esforo 
enorme para a engolir e manter no estmago. S
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEI
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
sentiram os seus efeitos muito mais tarde, quando subitamente o cho se desfez 
sob os seus ps e o cu se encheu de figuras geomtricas e de cores brilhantes, 
os seus corpos comearam a girar e a dissolver-se e o pnico os invadiu at  
ltima fibra. Justamente quando achavam ter atingido a morte, sentiram-se 
projectados a uma velocidade aterradora atravs de inmeras cmaras de luz e de 
repente as portas do reino dos deuses totmicos abriram-se, exigindo-lhes que 
entrassem.
Alex sentiu que as suas extremidades se alongavam e que um calor ardente o 
invadia por dentro. Olhou para as mos e viu que eram duas patas terminadas em 
garras afiadas. Abriu a boca para gritar e um rugido terrvel brotou-lhe do 
ventre. Viu-se transformado num felino grande, negro e lustroso: o magnfico 
jaguar macho que tinha visto no acampamento de Mauro Carias. O animal no estava 
nele, nem ele estava no animal, em vez disso os dois fundiam-se num nico ser; 
eram ambos, simultaneamente, o rapaz e a fera. Alex deu alguns passos esticando-
se, experimentando os seus msculos, e compreendeu que possua a ligeireza, a 
velocidade e a fora do jaguar. Correu com grandes saltos de gato pelo bosque, 
possudo por uma energia sobrenatural. De um salto trepou para o ramo de uma 
rvore e da observou a paisagem com os seus olhos de ouro, balanando 
lentamente a sua cauda negra no ar. Soube que era poderoso, temido, solitrio, 
invencvel, o rei da selva sul-americana. No havia outro animal to feroz como 
ele.
Nadia elevou-se nos cus e, por alguns instantes, perdeu o medo das alturas, que 
sempre a tinha oprimido. As suas poderosas asas de guia-fmea quase no se 
mexiam: o ar frio suportava-a e bastava o mais leve movimento para mudar o rumo 
ou a velocidade da viagem. Voava a uma grande altura, tranquila, indiferente, 
desinteressada, observando sem curiosidade a terra l em baixo. De cima via a 
selva e os cumes planos dos tepuis, muitos deles cobertos de nuvens como se 
estivessem coroados de espuma; via tambm a tnue coluna de fumo da fogueira 
onde ardiam
os restos mortais do chefe Mokarita. Suspensa no vento, a gl era to invencvel 
como o jaguar o era em terra: nada podia ati gi-la. A menina-pssaro deu vrias 
voltas olmpicas sobrevoan o Olho do Mundo, examinando de cima a vida dos 
ndios. As pen da sua cabea eriaram-se como centenas de antenas, captandc 
calor do sol, a vastido do vento, a dramtica emoo da altu] Soube que era a 
protectora desses ndios, a me-guia do povo neblina. Voou sobre a aldeia de 
Tapirawa-teri e a sombra das su asas magnficas cobriu como um manto os telhados 
quase invi~ veis das pequenas cabanas escondidas no bosque. Por fim, o gra de 
pssaro dirigiu-se para o cume de um tepui, para a montan mais alta onde, no seu 
ninho, exposto a todos os ventos, brilhava trs ovos de cristal.
Na manh do dia seguinte, quando os jovens regressaram mundo dos animais 
totmicos, cada qual contou a sua experinc
- O que significam esses trs ovos? - perguntou Alex.
- No sei, mas so muito importantes. Aqueles ovos no s meus, Jaguar, mas tenho 
de consegui-los para salvar o povo neblina.
- No entendo. O que tm esses ovos que ver com os ndia
- Acho que tm muito que ver... - replicou Nadia, to cc fusa como ele.
Quando as brasas da pira funerria arrefeceram, lyomi, a m lher de Mokarita, 
separou os ossos calcinados, moeu-os com ur pedra at os transformar num p fino 
e misturou-os com gua banana para fazer uma sopa. A cabaa com esse lquido 
cinzer passou de mo em mo e todos, at as crianas, beberam um go Depois 
enterraram a cabaa e o nome do chefe foi esquecido, pa que mais ningum 
voltasse a pronunci-lo. A memria do home: bem como as partculas da sua 
coragem e da sua sabedoria q tinham ficado nas cinzas, passaram para os seus 
descendente,, amigos. Dessa forma, uma parte de si permaneceria para semi entre 
os vivos. Deram tambm a beber, a Nadia e a Alex, a sopa
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
ossos, como uma forma de baptismo: agora pertenciam  tribo. Ao lev-la aos 
lbios, o rapaz lembrou-se do que tinha lido sobre uma doena causada por comer 
o crebro dos antepassados. Fechou os olhos e bebeu com respeito.
Uma vez concluda a cerimnia do funeral, Walimai intimou a tribo a eleger o 
novo chefe. De acordo com a tradio, s os homens podiam aspirar a essa 
posio, mas Walimai explicou que desta vez deviam escolher com grande prudncia 
porque viviam tempos muito estranhos que exigiam um chefe capaz de compreender 
os mistrios de outros mundos, de comunicar com os deuses e de manter o 
Rahakanariwa  distncia. Disse que eram tempos de seis luas no firmamento, 
tempos em que os deuses se tinham visto obrigados a abandonar a sua morada.  
meno dos deuses, os ndios levaram as mos  cabea e comearam a balanar-se 
para a frente e para trs, salmodiando alguma coisa que, aos ouvidos de Nadia e 
Alex, soava como uma orao.
- Todos em Tapirawa-teri, at as crianas, devem participar na eleio do novo 
chefe - instruiu Walimai.
A tribo esteve o dia inteiro propondo candidatos e negociando. Ao entardecer, 
Nadia e Alex adormeceram, esgotados, esfomeados e aborrecidos. O rapaz americano 
tentara em vo explicar a forma de escolher atravs do voto, como numa 
democracia, mas os ndios no sabiam contar e o conceito da votao pareceu-lhe 
to incompreensvel como o das vacinas. Eles elegiam por vises.
Os jovens foram acordados por Walimai, j a noite ia alta, com a notcia de que 
a viso mais forte tinha sido Iyomi, de modo que a viva de Mokarita era agora o 
chefe em Tapirawa-teri. Era a primeira vez, desde que conseguiam recordar-se, 
que uma mulher ocupava esse cargo.


A primeira ordem que a velha lyomi deu assim que colocou o chapu de penas 
amarelas, usado tantos anos pelo marido, foi
que preparassem comida. A ordem foi acatada de imediato, porq o povo da neblina 
estava h dois dias sem comer nada excepto u gole de sopa de ossos. Tahama e 
outros caadores partiram com suas armas para a selva e algumas horas mais tarde 
regressara com um urso-formigueiro e um veado, que esquartejaram e ass ram nas 
brasas. Entretanto as mulheres tinham feito po de ma dioca e cozido de banana. 
Quando todos os estmagos ficara saciados, lyomi convidou o seu povo a sentar-se 
num crculo promulgou o seu segundo edicto.
- Vou nomear outros chefes. Um chefe para a guerra e para caa: Tahama. Um chefe 
para aplacar o Rahakanariwa: a menii cor de mel chamada guia. Um chefe para 
negociar com os nahc e com os seus pssaros de rudo e vento: o forasteiro 
chama< Jaguar. Um chefe para visitar os deuses: Walimai. Um chefe pa os chefes: 
Iyomi.
Dessa forma, a sbia mulher distribuiu o poder e organizou povo da neblina para 
enfrentar os tempos terrveis que se avizinh vam. E, assim, Nadia e Alex viram-
se investidos de uma respons bilidade para a qual nenhum dos dois se sentia 
capacitado.
lyomi deu a sua terceira ordem ali mesmo. Disse que a m nina guia devia manter 
a sua alma branca para enfrentar Rahakanariwa, nica forma de evitar ser 
devorada pelo pssa canibal, mas que o jovem forasteiro, Jaguar, deveria 
converter em homem e receber as suas armas de guerreiro. Qualquer var antes de 
empunhar as suas armas ou pensar em casar-se, devia mo rer como menino e nascer 
como homem. No havia tempo para cerimnia tradicional, que durava trs dias e 
inclua normalmen todos os rapazes da tribo que tinham atingido a puberdade. No 
ca; do Jaguar deveriam improvisar uma coisa mais rpida, disse Iy~ mi, porque o 
jovem acompanharia a guia na viagem  montani dos deuses. O povo da neblina 
estava em perigo, s esses do forasteiros poderiam trazer a salvao e eram 
obrigados a part rapidamente.
164
1E

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
Walimai e Tahama foram encarregados de organizar o ritual de iniciao de Alex, 
no qual s participavam homens adultos. Mais tarde, o rapaz contou a Nadia que, 
se tivesse sabido em que consistiria a cerimnia, talvez a experincia tivesse 
sido menos aterradora. Sob a direco de Iyomi, as mulheres raparam-lhe o 
cocuruto com uma pedra afiada, mtodo bastante doloroso, porque tinha um corte 
que ainda no cicatrizara, da pancada que lhe tinham dado ao rapt-lo. Ao passar 
a pedra de barbear a ferida abriu, mas aplicaram-lhe um pouco de lama e, passado 
pouco tempo, deixou de sangrar. Depois as mulheres pintaram-no de preto dos ps 
 cabea com uma pasta de cera e carvo. A seguir teve de se despedir da sua 
amiga e de Iyomi, porque as mulheres no podiam estar presentes durante a 
cerimnia e foram passar o dia no bosque com as crianas. S regressariam  
aldeia  noite, quando os guerreiros o tivessem levado para a prova da sua 
iniciao.
Tahama e os seus homens desenterraram do lodo do rio os instrumentos musicais 
sagrados, que s usavam nas cerimnias viris. Eram uns tubos grossos de um metro 
e meio de comprimento que, ao serem soprados, produziam um som rouco e pesado, 
como mugidos de touro. As mulheres e os rapazes que ainda no tinham sido 
iniciados no podiam v-los, sob pena da magia os fazer adoecer e morrer. 
Aqueles instrumentos representavam o poder masculino da tribo, a relao entre 
os pais e os filhos vares. Sem aquelas trompetas, todo o poder estaria nas 
mulheres, que possuam a faculdade divina de ter filhos ou fazer gente, como 
diziam.
O ritual comeou de manh e teria de durar todo o dia e toda a noite. Deram-lhe 
de comer umas amoras amargas e deixaram-no enroscado no cho, em posio fetal. 
Depois, dirigidos por Walimai, pintados e decorados com os atributos dos 
demnios, distriburam-se  volta dele num crculo apertado, batendo na terra 
com os ps e fumando cigarros de folhas. Entre as amoras amargas, o susto e o 
fumo, Alex depressa se sentiu bastante doente.
Durante muito tempo os guerreiros danaram e salmodiaram cnticos em volta dele, 
soprando as pesadas trompetas sagradas,
cujas extremidades tocavam no cho. O som ecoava no cre confuso do rapaz. 
Durante horas ouviu os cantos repetindo a 1 tria do Sol Pai, que estava para l 
do Sol quotidiano que ilumin o cu, e que era um fogo invisvel de onde provinha 
a Cria Ouviu a histria da gota de sangue que se desprendeu da Lua p dar origem 
ao primeiro homem. Entoaram canes sobre o Ria Leite, que continha todas as 
sementes da vida, mas tambm pu faco e morte; que esse rio conduzia ao reino 
onde os xamar como Walimai, se encontravam com os espritos e com outros se 
sobrenaturais para receberem sabedoria e poder de curar. Disser que tudo o que 
existe  sonhado pela Terra Me, que cada es Ia sonha os seus habitantes e tudo 
o que acontece no univers uma iluso, apenas sonhos dentro de outros sonhos. No 
meio seu aturdimento, Alexander Cold sentiu que aquelas palavra; referiam a 
conceitos que ele prprio pressentira, e deixou en de raciocinar abandonando-se 
 estranha experincia de pere com o corao.


Passaram as horas e o rapaz foi perdendo o sentido do tem do espao, da sua 
prpria realidade, afundando-se num estadc terror e profunda fadiga. A 
determinada altura sentiu que o lev tavam e o obrigavam a marchar. S ento se 
apercebeu de que cc a noite. Dirigiram-se em procisso at ao rio, tocando os 
seus i trumentos e brandindo as suas armas. A mergulharam-no vi vezes na gua, 
at julgar que ia morrer afogado. Esfregaram com folhas abrasivas para soltar a 
pintura negra e depois cole ram-lhe pimenta sobre a pele ardente. A meio de uma 
grite ensurdecedora, bateram-lhe com varinhas nas pernas, nos bra no peito e no 
ventre, mas sem inteno de lhe fazer mal. Ames ram-no com as suas lanas, 
tocando-o s vezes com as pontas, r sem o ferirem. Tentavam assust-lo por todos 
os meios poss` e conseguiram-no, porque o rapaz americano no entendia o
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
estava a acontecer e receava que a qualquer momento os seus atacantes 
exagerassem e o assassinassem a srio. Tentava defender-se das palmadas e 
empurres dos guerreiros de Tapirawa-teri, mas o instinto indicou-lhe que no 
devia tentar fugir, porque seria intil, no havia para onde ir naquele 
territrio desconhecido e hostil. Foi uma deciso acertada, porque se o fizesse 
teria parecido um cobarde, o defeito mais imperdovel de um guerreiro.
Quando Alex estava prestes a perder o controlo e a ficar histrico, lembrou-se 
de repente do seu animal totmico. No teve de fazer nenhum esforo 
extraordinrio para entrar no corpo do jaguar negro, a transformao ocorreu com 
rapidez e facilidade: o rugido que lhe saiu da garganta foi o mesmo de antes, as 
sapatadas das suas garras j as conhecia, o salto sobre as cabeas dos seus 
inimigos foi um acto natural. Os ndios festejaram a chegada do jaguar com uma 
algaraviada ensurdecedora e seguidamente conduziram-no numa procisso solene at 
 rvore sagrada, onde Tahama esperava para a prova final.
Amanhecia na selva. As formigas de fogo estavam presas num tubo ou manga de 
palha entranada, como as que se usavam para espremer o cido prssico da 
mandioca, que Tahama segurava com duas varinhas, para evitar o contacto com os 
insectos. Alex, esgotado depois daquela longa e aterradora noite, demorou um 
pouco a perceber o que esperavam dele. Ento aspirou profundamente, enchendo os 
pulmes de ar frio, convocou em sua ajuda a coragem do seu pai, alpinista, e a 
resistncia da sua me, que nunca se dava por vencida e a fora do seu animal 
totmico, introduzindo seguidamente no tubo o seu brao esquerdo, at ao 
cotovelo.
As formigas de fogo passearam pela sua pele durante alguns segundos antes de o 
picarem. Quando o fizeram, sentiu que o queimavam com cido at ao osso. A dor 
pavorosa aturdiu-o por alguns instantes, mas recorrendo a uma tremenda fora de 
vontade no retirou o brao da manga. Lembrou-se das palavras de Nadia quando 
tentava ensin-lo a conviver com os mosquitos: no te defendas,
ignora-os. Era impossvel ignorar as formigas de fogo, mas dei de alguns minutos 
de total desespero, durante os quais esteve pi tes a desatar a correr para se 
lanar ao rio, apercebeu-se de que possvel controlar o impulso da fuga, deter o 
clamor do peito, aF -se ao sofrimento sem lhe opor resistncia, permitindo que 
esi penetrasse at  ltima fibra do seu ser e da sua conscincia. E, r sa 
altura, a dor da queimadura trespassou-o como uma espE saiu-lhe pelas costas e, 
milagrosamente, conseguiu suport-la. A nunca poderia explicar a impresso de 
poder que o invadiu dur te esse suplcio. Sentiu-s to forte e invencvel como 
o estie na forma do jaguar negro, ao beber a poo mgica de Walin Essa foi a 
sua recompensa por ter sobrevivido  prova. Soube 9 na verdade, a sua infncia 
tinha ficado para trs e que, a partir c sa noite, podia valer-se sozinho.
- Bem-vindo entre os homens - disse Tahama, retirand manga do brao de Alex.
Os guerreiros conduziram o jovem semi-inconsciente de gresso  aldeia.
168

CAPTULO 13
A montanha sagrada


Banhado em transpirao, dorido e ardendo em febre, A xander Cold, Jaguar, 
percorreu o longo corredor verde, passo umbral de alumnio e viu a sua me. Lisa 
Cold estava recline numa poltrona, apoiada em almofadas, coberta por um lenol, 
ni quarto onde a luz era branca, como a claridade da lua. Tinha gorro de l azul 
na sua cabea calva e auscultadores nos ouvid estava muito plida e consumida, 
com sombras escuras em vc dos olhos. Tinha uma sonda fina ligada a uma veia sob 
a cla cula, por onde pingava um lquido amarelo de um saco de plsti Cada gota 
penetrava como o fogo das formigas directamente p o corao da sua me.
A milhares de milhas de distncia, num hospital do Texas, L Cold fazia a sua 
quimioterapia. Tentava no pensar na droga q como um veneno, lhe entrava nas 
veias para combater o vens pior da sua doena. Para se distrair, concentrava-se 
em cada n do concerto de flauta que estava a ouvir, o mesmo que tantas ve; ouviu 
o seu filho ensaiar. No mesmo momento em que Alex, di rante, sonhava com ela em 
plena selva, Lisa Cold viu o seu fi com toda a nitidez. Viu-o de p  porta do 
seu quarto, mais alt mais corpulento, mais maduro e mais bonito do que se lembra 
Lisa chamara-o tanto com o pensamento, que no estranhou v chegar. No 
perguntou a si prpria como nem por que vinha. Ah donou-se simplesmente  
felicidade de o ter ao seu lado. Alex der... Alexander... murmurou. Estendeu as 
mos e ele avanou

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
toc-la, ajoelhou-se junto da poltrona e colocou a cabea sobre os seus joelhos. 
Enquanto Lisa Cold repetia o nome do seu filho e lhe acariciava a nuca, ouviu 
pelos auscultadores, entre as notas difanas da flauta, a voz dele pedindo-lhe 
que lutasse, que no se rendesse  morte, dizendo-lhe uma e outra vez amo-te 
mam.
O encontro de Alexander Cold com a me pode ter durado um instante ou vrias 
horas, nenhum dos dois o soube com certeza. Quando, por fim, se despediram, os 
dois regressaram ao mundo material fortalecidos. Pouco depois John Cold entrou 
no quarto da mulher e admirou-se ao v-la sorrindo e com as faces coradas.
- Como te sentes, Lisa? - perguntou, solcito.
- Contente, John, porque Alex veio ver-me - respondeu ela.
- Lisa, o que dizes... ! Alexander est no Amazonas com a minha me, no te 
lembras? - murmurou o marido, aterrado com o efeito que os medicamentos podiam 
ter na mulher.
- Claro que me lembro, mas isso no impede que tenha estado aqui h momentos.
- No pode ser... - rebateu-a o marido.
- Cresceu, parece mais alto e forte, mas tem o brao esquerdo muito inchado... - 
contou ela, fechando os olhos para descansar.
No centro do continente sul-americano, no Olho do Mundo, Alexander Cold acordou 
do seu estado febril. Demorou alguns minutos a reconhecer a rapariga dourada que 
se inclinava ao seu lado para lhe dar gua.
- J s um homem, Jaguar - disse Nadia, sorrindo aliviada ao v-lo de volta ao 
mundo dos vivos.


Walimai preparou e aplicou sobre o brao de Alex uma pasta de plantas medicinais 
que fez ceder, em poucas horas, a febre e o inchao. O xam explicou-lhe que, 
tal como na selva h venenos que matam sem deixar rasto, existem milhares e 
milhares de
remdios naturais. O rapaz descreveu-lhe a doena da sua m perguntou-lhe se 
conhecia alguma planta capaz de alivi-la.
- H uma planta sagrada, que deve misturar-se com a l da sade - replicou o 
xam.
- Posso arranjar essa planta e essa gua?
- Pode ser que sim e pode ser que no.  preciso passar muitos trabalhos.
- Farei tudo o que for necessrio! - exclamou Alex.
No dia seguinte o jovem estava magoado e em cada picada formiga ostentava uma 
borbulha vermelha, mas estava em p e e apetite. Quando contou a sua experincia 
a Nadia, ela disse-lhe c as meninas da tribo no passavam por uma cerimnia de 
inicia porque no precisavam dela. As mulheres sabem quando deix para trs a 
infncia porque o corpo lhes sangra, avisando-as de forma.
Aquele era um dos dias em que Tahama e os seus com] nheiros no tinham tido 
sorte com a caa e a tribo s dispunha milho e de alguns peixes. Alex decidiu 
que se anteriormente fi capaz de comer anaconda assada, podia bem provar aquele 
pei embora estivesse cheio de escamas e de espinhas. Surpreendi descobriu que 
gostava bastante. E pensar que me privei deste pr delicioso por mais de quinze 
anos! - exclamou ao segundo bo do. Nadia aconselhou-o a comer bastante, porque 
no dia segui: partiriam com Walimai numa viagem ao mundo dos espritos, or 
talvez no houvesse alimento para o corpo.
- Walimai diz que iremos  montanha sagrada, onde vivi os deuses - disse Nadia.
- O que faremos a?
- Procuraremos os trs ovos de cristal que apareceram na i nha viso. Walimai 
acha que os ovos salvaro o povo da nebli,
A viagem comeou ao amanhecer, mal surgiu o primeiro rr de luz no firmamento. 
Walimai ia  frente, acompanhado pela bela mulher-anjo, que s vezes ia de mo 
dada com o xam e
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
vezes voava como uma borboleta por cima da sua cabea, sempre silenciosa e 
sorridente. Alexander Cold ostentava orgulhoso um arco e flechas, as novas armas 
entregues por Tahama no fim do ritual de iniciao. Nadia levava uma cabaa com 
sopa de banana e uns bolos de mandioca, que Iyomi lhes tinha dado para o 
caminho. O feiticeiro no precisava de provises, porque na sua idade comia-se 
muito pouco, segundo disse. No parecia humano: alimentava-se com goles de gua 
e algumas nozes que chupava demoradamente com as suas gengivas desdentadas, mal 
dormia e tinha foras de sobra para continuar a andar quando os jovens j caam 
de cansao.
Puseram-se a andar pelos bosques do planalto na direco do mais alto dos 
tepuis, uma torre preta e brilhante, como uma escultura de obsidiana. Alex 
consultou a sua bssola e viu que se dirigiam sempre para leste. No existia uma 
vereda visvel, mas Walimai internava-se na vegetao com uma segurana 
espantosa, orientando-se entre as rvores, vales, colinas, rios e cascatas como 
se levasse um mapa na mo.  medida que avanavam, a Natureza mudava. Walimai 
apontou para a paisagem dizendo que esse era o reino da Me das guas e na 
verdade havia uma profuso incrvel de cataratas e quedas-d'gua. At ali os 
garimpeiros ainda no tinham chegado,  procura de ouro e pedras preciosas, mas 
era tudo uma questo de tempo. Os mineiros trabalhavam em grupos de quatro ou 
cinco e eram demasiado pobres para disporem de transporte areo. Deslocavam-se a 
p num terreno cheio de obstculos ou de canoa pelos rios. No entanto, havia 
homens como Mauro Carias, que sabiam das imensas riquezas da zona e dispunham de 
recursos modernos. A nica coisa que os impedia de explorar as minas com jorros 
de gua  presso capazes de pulverizar o bosque e transformar a paisagem num 
lodaal, eram as novas leis de proteco ao meio ambiente e aos indgenas. As 
primeiras eram constantemente violadas, mas j no era to fcil fazer o mesmo 
com as segundas, porque os olhos do mundo estavam postos nesses ndios do 
Amazonas, ltimos sobreviventes da Idade da Pedra.
J no podiam extermin-los  bala e a fogo, como tinham feito h muito poucos 
anos, sem provocar uma reaco internacion
Alex avaliou uma vez mais a importncia das vacinas da dc tora Omayra Torres e 
da reportagem da sua av para a Internatioi Geographic, que alertaria outros 
pases para a situao dos ndia O que significavam os trs ovos de cristal que 
Nadia vira no s sonho? Por que razo tinham de fazer aquela viagem com o xam 
Parecia-lhe mais til tentar reunir-se  expedio, recuperar as cinas e a sua 
av publicar o artigo. Ele tinha sido designado F Iyomi como chefe para 
negociar com os nahab e com os seus ppP saros de rudo e vento, mas em vez de 
cumprir a sua tarefa, esta a afastar-se cada vez mais da civilizao. No havia 
qualquer l; ca no que estavam a fazer, pensou com um suspiro. Diante d~ 
erguiam-se os misteriosos e solitrios tepuis como construes outro planeta.


Os trs viajantes caminharam de sol a sol, a bom ritmo, par, do para refrescar 
os ps e beber gua nos rios. Alex tentou ca c um tucano que descansava num ramo 
a poucos metros, mas a s flecha no acertou o alvo. Depois apontou para um 
macaco que] tava to perto que podia ver a sua dentadura amarela, e tambi no 
conseguiu ca-lo. O macaco devolveu-lhe o gesto com n caquices, que lhe 
pareceram francamente sarcsticas. Pensou coi lhe serviam de pouco as suas novas 
armas de guerreiro. Se os se companheiros dependessem dele para se alimentarem, 
morreria de fome. Walimai mostrou algumas nozes, que eram saborosas, e frutos de 
uma rvore que o rapaz no conseguiu apanhar.
Os ndios tinham os dedos dos ps muito separados, fortes e f xveis, conseguiam 
subir com uma agilidade incrvel por paus lis Aqueles ps, embora calosos como 
pele de crocodilo, eram ta bm muito sensveis: chegavam a utiliz-los para 
tecer canastas cordas. Na aldeia, os midos comeavam a tentar trepar assim c
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l

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
se punham de p. Alexander, pelo contrrio, com toda a sua experincia em 
escalar montanhas, no foi capaz de se empoleirar na rvore para apanhar a 
fruta. Walimai, Nadia e Borob choravam de tanto rir com os seus esforos 
falhados e nenhum deles demonstrou um pingo de simpatia quando aterrou sentado, 
numa queda de uma altura considervel, magoando as ndegas e o orgulho. Sentia-
se pesado e desajeitado como um paquiderme.
Ao entardecer, depois de muitas horas de marcha, Walimai disse-lhes que podiam 
descansar. Meteu-se no rio com a gua at aos joelhos, imvel e silencioso, at 
os peixes se esquecerem da sua presena e comearem a rond-lo. Quando teve uma 
presa ao alcance da sua arma, trespassou-a com a sua pequena lana e entregou a 
Nadia um bonito peixe prateado, ainda agitando a cauda.
- Como  que o faz to facilmente? - quis saber Alex, humilhado pelos seus 
fracassos anteriores.
- Pede licena ao peixe, explica-lhe que tem de o matar por necessidade; depois 
agradece-lhe por oferecer a sua vida para ns vivermos - esclareceu-lhe a 
rapariga.
Alexander pensou que no incio da viagem ter-se-ia rido da ideia, mas agora 
ouvia com ateno o que lhe contava a amiga.
- O peixe entende porque antes comeu outros. Agora  a sua vez de ser comido. As 
coisas so assim - acrescentou ela.
O xam preparou uma pequena fogueira para assar o jantar, que lhes devolveu as 
foras, mas ele s bebeu gua. Os jovens dormiram enroscados entre as grossas 
razes de uma rvore para se defenderem do frio, porque no houve tempo para 
preparar redes com cascas de rvores, como tinham visto na aldeia; estavam 
cansados e tinham de seguir viagem muito cedo. Cada vez que um deles se mexia, o 
outro fazia por ficar o mais junto possvel, de modo a infundirem calor um ao 
outro durante a noite. Entretanto o velho Walimai, de ccoras e imvel, passou 
as horas observando o firmamento, enquanto ao seu lado a sua mulher-anjo velava 
como uma fada transparente, vestida apenas com os seus cabelos
negros. Quando os jovens acordaram, o ndio estava exactamer na mesma posio em 
que o tinham visto na noite anterior, invl nervel ao frio e . fadiga. Alex 
perguntou a si prprio h quar tempo viveria, onde ia buscar a sua energia e a 
sua sade de fE ro. O ancio explicou que tinha visto nascer muitas crianas q 
depois se converteram em avs, que tambm tinha visto more esses avs e nascer 
os seus netos. Quantos anos? Encolheu ombros: no se importava ou no sabia. 
Disse que era o men: Beiro dos deuses, costumava ir ao mundo dos imortais onde n 
existiam as doenas que matam os homens. Alex lembrou-se lenda do El Dorado, que 
no continha apenas riquezas fabulos mas tambm a fonte da eterna juventude.
- A minha me est muito doente... - murmurou Alex, c movido com a lembrana. A 
experincia de se ter transporta mentalmente ao hospital do Texas para estar com 
ela tinha sido t real, que no conseguia esquecer-se dos pormenores, desde o chi 
ro a medicamentos que havia no quarto, at s pernas magras Lisa Cold sob o 
lenol, onde ele tinha apoiado a cabea.
- Todos morremos - disse o xam.
- Sim, mas ela  jovem.
- Uns partem jovens, outros velhos. Eu j vivi demasiac gostaria que os meus 
ossos descansassem na memria de outl - disse Walimai.


Ao meio-dia do dia seguinte chegaram  base do mais a tepui do Olho do Mundo, um 
gigante cujo cume desaparecia nui coroa espessa de nuvens brancas. Walimai 
explicou que o cui nunca se via e que ningum, nem sequer o poderoso Rahakar 
riwa tinha visitado esse stio sem ser convidado pelos deus Acrescentou que h 
muitos milhares de anos, desde o comeo vida, quando os seres humanos foram 
criados com o calor do'. Pai, o sangue da Lua e o barro da Terra Me, j o povo 
da nebh
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEM
conhecia a existncia da morada dos deuses na montanha. Em cada gerao havia 
uma pessoa, sempre um xam que passara por muitos trabalhos de expiao, que era 
designada para visitar o tepui e servir de mensageiro. Esse papel coubera-lhe a 
ele, tinha estado ali muitas vezes, tinha vivido com os deuses e conhecia os 
seus costumes. Estava preocupado, contou-lhes, porque ainda no tinha treinado o 
seu sucessor. Se ele morresse, quem seria o mensageiro? Em cada uma das suas 
viagens espirituais procurara-o, mas nenhuma viso viera em seu auxlio. No 
podia ser treinada qualquer pessoa, devia ser algum nascido com alma de xam, 
algum que tivesse o poder de curar, de dar conselhos e de interpretar os 
sonhos. Essa pessoa demonstrava o seu talento desde muito nova; tinha de ser 
bastante disciplinada para vencer as tentaes e controlar o seu corpo: um bom 
xam carecia de desejos e necessidades. Isto foi, em resumo, o que os jovens 
perceberam do longo discurso do feiticeiro, que falava em crculos, repetindo, 
como se recitasse um poema interminvel. Pareceu-lhes claro, no entanto, que 
mais ningum para alm dele era autorizado a cruzar o umbral do mundo dos 
deuses, embora em raras ocasies extraordinrias outros ndios tenham tambm 
entrado. Esta seria a primeira vez que se admitiam visitantes forasteiros desde 
o incio dos tempos.
- Como  o recinto dos deuses? - perguntou Alex.
- Maior que o maior dos shabonos, brilhante e amarelo como o sol.
- O El Dorado! Ser essa lendria cidade de ouro que os conquistadores 
procuraram? - perguntou o rapaz ansiosamente.
- Pode ser e pode no ser - respondeu Walimai, que carecia de referncias para 
saber o que era uma cidade, reconhecer o ouro ou imaginar os conquistadores.
- Como so os deuses? So como a criatura que ns denominamos a Besta?
- Podem ser e podem no ser.
- Por que nos trouxe at aqui?
- Por causa das vises. O povo da neblina pode ser salvo pc uma guia e por um 
jaguar, por isso vocs foram convidados visitar a morada secreta dos deuses.
- Seremos dignos dessa confiana. Nunca revelaremos a ei trada... - prometeu 
Alex.
- No conseguiriam. Se sarem vivos, esquec-la-o - rep! cou o ndio com 
simplicidade.
Se sair vivo... Alexander nunca colocara a hiptese de morri jovem. No fundo 
considerava a morte uma coisa bastante des: gradvel que acontecia aos outros. 
Apesar dos perigos que enfrei tara nas ltimas semanas, nunca duvidou de que 
voltaria a reunircom com a sua famlia. Preparava mesmo as palavras a que 
recorrer para contar as suas aventuras, embora tivesse poucas esperana de ser 
levado a srio. Qual dos seus amigos conseguiria imagin que ele estava entre 
seres da Idade da Pedra e que poderia mesn encontrar o El Dorado?
Ao p do tepui, apercebeu-se de que a vida estava cheia de su presas. Antes no 
acreditava no destino, parecia-lhe um concei fatalista, achava que cada um  
livre de fazer da sua vida o qi lhe apetecer e ele estava decidido a fazer algo 
muito bom da su triunfar e ser feliz. Agora tudo isso lhe parecia absurdo. J n 
podia confiar apenas na razo, tinha entrado no territrio incei dos sonhos, da 
intuio e da magia. O destino existia e s vez era preciso lanar-se  aventura 
e desembaraar-se improvisam de qualquer maneira, tal como o fizera quando a av 
o empurre para a gua aos quatro anos e teve de aprender a nadar. No ha' outro 
remdio seno mergulhar nos mistrios que o rodeavas Uma vez mais teve 
conscincia dos riscos. Estava sozinho a me da regio mais remota do planeta, 
onde as leis conhecidas no aplicavam. Tinha de admiti-lo: a sua av fizera-lhe 
um enorr favor ao arranc-lo da segurana da Califrnia e atir-lo para e: mundo 
estranho. No fora apenas Tahama -e as suas formigas
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ISABEL ALLENDE
fogo que o tinham iniciado como adulto. A indescritvel Kate Cold tambm o 
fizera.
Walimai deixou os seus dois companheiros de viagem descansando junto de um 
regato, com instrues de o esperarem, e partiu sozinho. Naquela zona do 
planalto a vegetao era menos densa e o sol do meio-dia caa como chumbo sobre, 
as suas cabeas. Nadia e Alex atiraram-se  gua, aterrorizando as enguias 
elctricas e as tartarugas que repousavam no fundo, enquanto Borob caava 
moscas e coava as pulgas na margem. O rapaz sentiu-se completamente  vontade 
com aquela rapariga, divertia-se e confiava nela porque, naquele ambiente, era 
muito mais sbia do que ele. Parecia-lhe estranho sentir tanta admirao por 
algum da idade da sua irm. s vezes caa na tentao de a comparar com Cecilia 
Burns, mas no havia por onde comear a faz-lo: eram totalmente diferentes.
Cecilia Burns ficaria to perdida na selva como Nadia Santos numa cidade. 
Cecilia desenvolvera-se cedo e, aos quinze anos, j era uma jovem mulher. Ele 
no era o seu nico apaixonado, todos os rapazes da escola tinham as mesmas 
fantasias. Nadia, pelo contrrio, ainda era comprida e estreita como um junco, 
sem formas femininas, s osso e pele bronzeada, um ser andrgino com cheiro a 
bosque. Apesar do seu aspecto infantil, inspirava respeito: possua aprumo e 
dignidade. Talvez por no ter irms ou amigas da sua idade, agia como um adulto; 
era sria, silenciosa, concentrada, no tinha a atitude maadora das outras 
raparigas que tanto aborrecia Alex. Detestava quando as raparigas cochichavam e 
riam entre si, sentia-se inseguro, pensava que troavam dele.
- No estamos sempre a falar de ti, Alexander Cold, h outros temas mais 
interessantes - dissera-lhe uma vez Cecilia Burns diante da turma toda. Achou 
que Nadia nunca o humilharia dessa forma.
rv ;
O velho xam regressou algumas horas mais tarde, fresco sereno como sempre, com 
dois paus untados com uma resina s melhante  que tinham utilizado os ndios 
para subir pelos lado da cascata. Anunciou que tinha encontrado a entrada da 
mont nha dos deuses e, depois de esconder o arco e as flechas, que ni poderiam 
usar, convidou-os a segui-lo.
Aos ps do tepui a vegetao consistia em fetos enormes, qi cresciam emaranhados 
como estopa. Tinham de avanar com mui cuidado e lentamente, separando as folhas 
e abrindo caminho co dificuldade. Assim que se meteram sob essas plantas 
gigantes, o ci desapareceu, afundaram-se num universo vegetal, o tempo parou a 
realidade perdeu as suas formas conhecidas. Entraram num d dalo de folhas 
palpitantes, de orvalho perfumado a almscar, de i sectos fluorescentes e de 
flores suculentas que pingavam um m azul e espesso. O ar tornou-se pesado como 
hlito de fera, havia u zumbido constante, as pedras ardiam como brasas e a 
terra era c de sangue. Alexander agarrou-se com uma mo ao ombro de Wa. mai e 
prendeu Nadia com a outra, consciente de que separandoalguns centmetros os 
fetos engoli-los-iam e nunca mais voltaria a encontrar-se. Borob ia aferrado ao 
corpo da dona, silencioso atento. Tinham de afastar dos olhos as delicadas teias 
de aram bordadas de mosquitos e de gotas de orvalho, que se estendia como renda 
entre as folhas. Mal conseguiam ver os ps, de moo que deixaram de querer saber 
o que seria aquela matria averm lhada, viscosa e quente onde se afundavam at 
aos tornozelos.
O rapaz no conseguia imaginar o que levava o xam a r conhecer o caminho, 
talvez o guiasse a sua mulher-anjo; s vez tinha a certeza de que andavam s 
voltas no mesmo stio, se avanar um nico passo. No havia pontos de 
referncia, apen a vegetao voraz envolvendo-os no seu abrao reluzente. Qu 
consultar a sua bssola, mas a agulha agitava-se enlouqueci acentuando a 
impresso de andarem aos crculos. De repente Wa mai parou, afastou um feto que 
em nada se diferenciava dos outr
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN:
e viram-se diante de uma abertura na encosta do monte, como uma toca de raposas.
O feiticeiro entrou gatinhando e eles seguiram-no. Era uma passagem estreita de 
uns trs ou quatro metros de comprimento, que se abria numa gruta espaosa, 
iluminada apenas por um raio de luz proveniente do exterior, onde puderam pr-se 
de p. Walimai tratou de esfregar duas pedras para fazer lume com pacincia, 
enquanto Alex pensava que nunca mais sairia da sua casa sem fsforos. Por fim a 
fasca das pedras acendeu uma palha, que Walimai usou para acender a resina de 
uma das tochas.
 luz vacilante viram erguer-se uma nuvem escura e compacta de milhares e 
milhares de morcegos. Estavam numa caverna de rocha, rodeados de gua que 
pingava pelas paredes e cobria o cho como uma lagoa escura. Vrios tneis 
naturais saam em diferentes direces, uns mais largos que outros, formando um 
intrincado labirinto subterrneo. Sem hesitar, o ndio dirigiu-se para um dos 
corredores, com os jovens pisando-lhe os calcanhares.
Alex lembrou-se da histria do fio de Ariadne que, de acordo com a mitologia 
grega, permitiu a Teseu regressar das profundezas do labirinto, depois de matar 
o feroz Minotauro. Ele no tinha um rolo de cordel para assinalar o caminho e 
perguntou a si prprio como sairiam dali no caso de Walimai no poder. Como a 
agulha da bssola vibrava sem rumo, deduziu que se encontravam num campo 
magntico. Quis deixar marcas nas paredes com a navalha, mas a rocha era dura 
como granito e seriam precisas horas para fazer um corte. Avanavam de um tnel 
para outro, sempre a subir pelo interior do tepui, com a tocha improvisada como 
nica defesa contra as trevas absolutas que os rodeavam. Nas entranhas da terra 
no reinava um silncio sepulcral, como teria imaginado; em vez disso ouvia-se o 
esvoaar dos morcegos, guinchos das ratazanas, corridas de pequenos animais, o 
gotejar da gua e um batimento rtmico e surdo, o bater de um corao, como se 
estivessem dentro de um organismo vivo, de um enorme animal em repouso.
Ningum falou, mas s vezes Borob lanava um grito assustado e nessa altura o 
eco do labirinto devolvia-lhes o som multiplicado O rapaz perguntava a si 
prprio que tipo de criaturas albergarian aquelas profundezas, talvez serpentes 
ou escorpies venenosos mas decidiu no pensar em nenhuma dessas possibilidades 
e ma n ter a cabea fria, como parecia fazer Nadia, que caminhava atr de 
Walimai, muda e confiante.


Pouco a pouco avistaram o fim do longo corredor. Viram um tnue claridade verde 
e, ao espreitarem, viram-se numa grande ca verna cuja beleza era quase 
impossvel de descrever. Por algum lad entrava luz, em quantidade suficiente 
para iluminar um vasto es pao, to grande como uma igreja, onde se erguiam 
maravilhosa formaes rochosas e minerais, como esculturas. O labirinto qu 
tinham deixado para trs era de pedra escura, mas agora estavar numa sala 
circular, iluminada, sob uma abbada de catedral, rc deados de cristais e pedras 
preciosas. Alex sabia muito pouco soba minerais, mas pde reconhecer opalas, 
topzios, gatas, pedao de quartzo e alabastro, jade e turmalina. Viu cristais 
como dia mantes, outros leitosos, uns que pareciam iluminados por dentro outros 
com veios verdes, vermelhos e roxos, como se estivesse) incrustados de 
esmeraldas, rubis e ametistas. Estalactites trana parentes pendiam do tecto como 
punhais de gelo, pingando gu calcria. Cheirava a humidade e, 
surpreendentemente, a flore A mistura era um aroma ranoso, intenso e 
penetrante, um pouc nauseabundo, mistura de perfume e tumba. O ar era frio e 
paro cia ranger, como acontece no Inverno depois de nevar.
De repente viram que alguma coisa se mexia na outra poni da gruta e um instante 
depois soltou-se de uma rocha de crist azul algo que parecia um pssaro 
estranho, uma espcie de rpt
alado. O animal esticou as asas, preparando-se para voar e, nes;
altura, Alex viu-o nitidamente: era semelhante aos desenhos qt
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN:
vira dos drages lendrios, s que do tamanho de um pelicano grande e muito 
bonito. Os terrveis drages das lendas europeias, que guardavam sempre um 
tesouro ou uma donzela prisioneira, eram definitivamente repelentes. Aquele que 
tinha diante dos olhos, no entanto, era como os drages que tinha visto nas 
festas do bairro chins em So Francisco: s alegria e vitalidade. De qualquer 
forma, abriu o canivete suo disposto a defender-se, mas Walimai tranquilizou-o 
com um gesto.
A mulher-esprito do xam, leve como uma liblula, atravessou a gruta a voar e 
foi pousar entre as asas do animal, cavalgando-o. Borob guinchou aterrado e 
mostrou os dentes, mas Nadia f-lo calar, apalermada diante do drago. Quando 
conseguiu recompor-se o suficiente comeou a chamar na linguagem das aves e dos 
rpteis 'na esperana de o atrair, mas o fabuloso animal examinou os visitantes 
de longe com as suas pupilas arroxeadas e ignorou o chamamento de Nadia. Depois 
levantou voo, elegante e leve, para dar uma volta olmpica pela abbada da 
gruta, com a mulher de Walimai nas costas, como se quisesse mostrar simplesmente 
a beleza das suas linhas e das suas escamas fosforescentes. Por fim, regressou e 
foi pousar sobre a rocha de cristal azul, dobrou as asas e esperou com a atitude 
impassvel de um gato.
O esprito da mulher voltou para junto do marido e ficou a, flutuando, suspensa 
no ar. Alex pensou como poderia descrever o que os seus olhos viam agora; teria 
dado qualquer coisa para ter a mquina fotogrfica da sua av de modo a provar 
que aquele lugar e aqueles seres existiam de facto, e que ele no tinha 
naufragado na tempestade das suas prprias alucinaes.


Com alguma pena, deixaram a caverna encantada e o drago alado, sem saber se 
alguma vez voltariam a v-los. Alex ainda procurava encontrar explicaes 
racionais para o que acontecia, mas Nadia, pelo contrrio, aceitava o 
maravilhoso sem fazer perguntas.
O rapaz calculou que aqueles tepuis, to isolados do resto do pla neta, eram os 
ltimos enclaves da Era Paleoltica, onde se tinhan preservado intactas a flora 
e a fauna de h milhares e milhares dE anos. Possivelmente encontrava-se numa 
espcie de ilha Galpa gos, onde as espcies mais antigas tinham escapado s 
mutaes ou  extino. Aquele drago devia ser apenas um pssaro desco nhecido. 
Nos contos folclricos e na mitologia de lugares muit< diversos apareciam estes 
seres. Havia-os na China, onde eran smbolo de boa sorte, tal como em 
Inglaterra, onde serviam parr provar a coragem dos cavaleiros como So Jorge. 
Possivelmente concluiu, foram' animais que conviveram com os primeiros sere 
humanos do planeta, e que a superstio popular recordava comi rpteis 
gigantescos que deitavam fogo pelas ventas. O drago d; gruta no emanava 
labaredas, mas um perfume penetrante de cor tes. No entanto no lhe ocorria 
nenhuma explicao para a mulhe de Walimai, aquela fada de aspecto humano que os 
acompanhav naquela estranha viagem. Bom, talvez encontrasse alguma mai tarde...
Seguiram Walimai por novos tneis, enquanto a luz da toch se ia tomando cada vez 
mais fraca. Passaram por outras grutas, ma nenhuma to espectacular como a 
primeira e viram outras estra nhas criaturas: aves de plumagem vermelha com 
quatro asas, qu uivavam como ces, e uns gatos brancos de olhos cegos, que esti 
veram prestes a atac-los, mas que retrocederam quando Nadia o acalmou na lngua 
dos felins. Ao passarem por uma gruta inun dada tiveram de andar com a gua 
pelo pescoo, levando Borob, encarrapitado na cabea da sua dona e viram uns 
peixes dourado com asas, que nadavam entre as suas pernas e de repente se punhar 
a voar, desaparecendo na escurido dos tneis.
Noutra gruta, que emanava uma densa nvoa prpura, com a de certos crepsculos, 
cresciam flores inexplicveis sobre roch viva. Walimai roou uma delas com a sua 
lana e imediatament saram por entre as ptalas carnudos tentculos, que se 
estenderas
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
procurando a sua presa. Numa curva de um dos tneis viram,  luz alaranjada e 
vacilante da tocha, um nicho na parede, onde havia uma espcie de criana 
petrificada em resina, como aqueles insectos que ficam agarrados num pedao de 
mbar. Alex imaginou que aquela criatura tinha permanecido no seu tmulo 
hermtico desde os alvores da humanidade e que continuaria intacta no mesmo 
stio dentro de milhares e milhares de anos. Como teria ali chegado? Como tinha 
morrido?
Finalmente o grupo chegou  ltima passagem daquele imenso labirinto. Chegaram a 
um espao aberto, onde um jorro de luz branca os cegou por um instante. Viram 
ento que estavam numa espcie de varanda, uma salincia na rocha debruada 
sobre o interior de uma montanha oca, como a cratera de um vulco. O labirinto 
que tinham percorrido penetrava nas profundezas do tepui, unindo o exterior com 
o mundo fabuloso encerrado no seu interior. Compreenderam que tinham subido 
muitos metros pelos tneis. Para cima estendiam-se as encostas verticais do 
monte, cobertas de vegetao, desaparecendo entre as nuvens. No se via o cu, 
s um tecto espesso e branco como algodo, por onde se filtrava a luz do sol 
criando um estranho fenmeno ptico: seis luas transparentes flutuavam num 
firmamento de leite. Eram as luas que Alex tinha visto nas suas vises. No ar 
voavam pssaros nunca vistos, alguns translcidos e leves como medusas, outros 
pesados como negros condores, alguns como o drago que tinham visto na gruta.
Vrios metros mais abaixo havia um grande vale redondo que, da altura em que se 
encontravam, parecia como que um jardim verde-azulado envolto em vapor. 
Cascatas, fios de gua e riachos deslizavam pelas encostas alimentando as lagoas 
do vale, to simtricas e perfeitas, que no pareciam naturais. E ao centro, 
cintilante como uma coroa, erguia-se o orgulhoso El Dorado. Nadia
e Alex sufocaram uma exclamao, cegos pelo brilho incrvel d cidade de ouro, a 
morada dos deuses.
Walimai deu-lhes tempo para recuperarem da surpresa e depoi mostrou-lhes as 
escadas talhadas na montanha, que desciam sei penteando desde a salincia onde 
estavam at ao vale.  medid que desciam, aperceberam-se de que a flora era to 
extraordinri como a fauna que tinham avistado; as plantas, flores e arbustos da 
encostas eram nicos. Ao descer aumentava o calor e a humidade a vegetao 
tornava-se mais densa e exuberante, as rvores ma: altas e frondosas, as flores 
mais perfumadas, os frutos mais suei lentos. A impresso, embora de grande 
beleza, no era aprazve mas vagamente ameaadora, como uma misteriosa paisagem 
c Vnus. A Natureza latejava, ofegava, crescia diante dos olhos, e preitava. 
Viram moscas amarelas e transparentes como topzio escaravelhos azuis com 
cornos, grandes caracis to coloridos qI: de longe pareciam flores, exticos 
lagartos riscados, roedores coi afiados caninos curvos, esquilos sem plo 
saltando como gnom( nus entre os ramos.
Ao chegarem ao vale e ao aproximarem-se do El Dorado, viajantes perceberam que 
no era uma cidade e que tambm no e: de ouro. Tratava-se de uma srie de 
formaes geomtricas nati rais, como os cristais que tinham visto nas grutas. A 
cor doura( provinha da mica, um mineral sem valor, e da pirite, chamada aprn 
priadamente ouro dos tontos. Alex esboou um sorriso, pensam que se os 
conquistadores e outros tantos aventureiros tivessem co: seguido vencer os 
enormes obstculos do caminho para chegare ao El Dorado, teriam sado mais 
pobres do que chegaram.
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CAPTULO 14
As bestas


Minutos depois Alex e Nadia viram a Besta. Estava a meio quar teiro de 
distncia, dirigindo-se para a cidade. Parecia um gigan tesco homem-macaco, com 
mais de trs metros de altura, erguida em duas patas, com braos potentes que 
pendiam at ao cho e um cabecinha com um rosto melanclico, demasiado pequena 
para tamanho do corpo. Estava coberto por um plo hirsuto como aram e tinha trs 
longas garras afiadas como facas curvas em cada m( Movia-se com uma lentido 
to espantosa, que era como se no s movesse de todo. Nadia reconheceu 
imediatamente a Besta, por que j antes a tinha visto. Paralisados de terror e 
de surpresa, perma neceram imveis estudando a criatura. Recordava-lhes um anima 
conhecido, mas a sua memria no conseguia localiz-lo.
- Parece uma preguia - acabou por dizer Nadia num sus surro.
E ento Alex lembrou-se de que tinha visto no zoolgico d So Francisco um 
animal parecido com um macaco ou com ui urso, que vivia nas rvores ,e se movia 
com a mesma lentido d Besta, da a origem do seu nome, preguia ou preguioso. 
Era ur ser indefeso, porque lhe faltava velocidade para atacar, fugir o 
proteger-se, mas tinha poucos predadores: a sua pele grossa e a su carne azeda 
no era prato apetecvel nem para o mais esfomead dos carnvoros.
- E o cheiro? A Besta que eu vi tinha um cheiro pavoros - disse Nadia sem 
levantar a voz.
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN'
- Esta no  hedionda, pelo menos no conseguimos cheir-la daqui... - comentou 
Alex - Deve ter uma glndula, como os zorrilhos, e expele o cheiro quando quer, 
para se defender ou imobilizar a sua presa.
Os sussurros dos jovens chegaram aos ouvidos da Besta, que se voltou muito 
devagar para ver do que se tratava. Alex e Nadia retrocederam, mas Walimai 
avanou pausadamente, seguido a um passo de distncia pela sua mulher-esprito, 
como se imitasse a assombrosa apatia da criatura. O xam era um homem pequeno, 
chegava  altura da anca da Besta, que se erguia como uma torre diante do 
ancio. Ele e a sua mulher caram de joelhos no cho, prostrados diante daquele 
ser extraordinrio e nessa altura os jovens ouviram nitidamente uma voz profunda 
e cavernosa que pronunciava algumas palavras na lngua do povo da neblina.
- Fala como um ser humano! - murmurou Alex, convencido de que estava a sonhar.
- O padre Valdomero tinha razo, Jaguar.
- Isso significa que possui inteligncia humana. Achas que consegues comunicar 
com ela?
- Se Walimai consegue, eu tambm, mas no me atrevo a aproximar-me - sussurrou 
Nadia.
Esperaram durante muito tempo, porque as palavras saam da boca da criatura uma 
a uma, com o mesmo vagar com que se movia.
- Est a perguntar quem somos - traduziu Nadia.
- Isso eu entendi. Entendo quase tudo... - murmurou Alex avanando um passo. 
Walimai deteve-o com um gesto.
O dilogo entre o xam e a Besta continuou com a mesma angustiante parcimnia, 
sem que ningum se mexesse, enquanto a luz ia mudando no cu branco, tornando-se 
cor de laranja. Os jovens calcularam que fora desta cratera o Sol devia estar a 
iniciar a sua descida no horizonte. Por fim, Walimai levantou-se e regressou 
para junto deles.
- Haver um conselho dos deuses - anunciou.
- Como? H mais destas criaturas? Quantas h? - pergun tou Alex, mas Walimai no 
pode esclarecer as suas dvidas, porqu no sabia contar.
O feiticeiro guiou-os contornando o vale pelo interior do tepb at uma pequena 
caverna natural na rocha, onde se instalaram o me lhor possvel. Depois saiu  
procura de comida. Regressou com al gumas frutas muito aromticas, que nenhum 
dos jovens vira ante: mas estavam to esfomeados que as devoraram sem fazer 
pergur tas. A noite caiu de sbito e viram-se rodeados pela escurido mai 
profunda. A cidade de ouro falso, que antes brilhava ofuscando-o: desapareceu 
nas sombras. Walimai no tentou acender a sua segarr da tocha, que guardava 
certamente para o regresso pelo labirinto, no havia luz em parte alguma. Alex 
calculou que aquelas criati. ras, embora humanas na sua linguagem e talvez em 
certos core portamentos, eram mais primitivas do que os homens das caverna, pois 
ainda no tinham descoberto o fogo. Comparados com as Be: tas, os ndios eram 
bastante sofisticados. Por que razo o povo a neblina as considerava deuses, se 
era bem mais evoludo?
O calor e a humidade no tinham diminudo, porque eman, vam da prpria montanha, 
como se na realidade estivessem na cri tera desactivada de um vulco. A ideia de 
estarem sobre uma fir crosta de terra e rocha, enquanto l em baixo ardiam as 
chamm do inferno, no era tranquilizadora, mas Alex calculou que se vulco tinha 
estado inactivo durante milhares de anos, conforn provava a vegetao luxuriante 
do seu interior, seria um grane azar explodir justamente na noite em que ele 
estava de visita. ~ horas seguintes decorreram muito lentamente. Os jovens mal 
coi seguiram dormir naquele lugar desconhecido. Lembravam-se mui bem do aspecto 
do soldado morto. A Besta deve ter usado as sus garras enormes para o estripar 
daquela maneira horrenda. Por qi no fugiu o homem, ou disparou a sua arma? A 
enorme lentidi da criatura ter-lhe-ia dado tempo de sobra. A explicao s pod 
estar na fetidez paralisante que emanava. No havia proteci
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possvel quando as criaturas decidiam usar as suas glndulas odorficas contra 
eles. No bastava tapar o nariz, o fedor penetrava por cada poro do corpo, 
apoderando-se do crebro e da vontade. Era um veneno to mortal como o curare.
- So humanos ou animais? - perguntou Alex, mas Walimai tambm no conseguiu 
responder porque para ele no havia diferena.
- De onde vm?
- Sempre c estiveram, so deuses.
Alex calculou que o interior do tepui era um arquivo ecolgico onde sobreviviam 
espcies desaparecidas no resto da Terra. Disse a Nadia que com certeza se 
tratava de antepassados das preguias que eles conheciam.
- No parecem humanos, guia. No vimos casas, ferramentas ou armas, nada que 
sugira uma sociedade - acrescentou.
- Mas falam como pessoas, Jaguar - disse ela.
- Devem ser animais com o metabolismo muito lento, com certeza vivem centenas de 
anos. Se tm memria, nessa longa vida podem aprender muitas coisas, at a 
falar, no achas? - aventurou Alex.
- Falam a lngua do povo da neblina. Quem a inventou? Os ndios ensinaram-na s 
Bestas? Ou as Bestas ensinaram-na aos ndios?
- De qualquer forma, ocorre-me que os ndios e as preguias tiveram, durante 
sculos, uma relao simbitica -- disse Alex.
- O qu? perguntou ela, que nunca tinha ouvido aquela palavra.
- Quer dizer, tm necessidade uns dos outros para sobreviver.
- Porqu?
- No sei, mas vou averiguar. Uma vez li que os deuses precisam da humanidade 
tanto quanto a humanidade precisa dos seus deuses - disse Alex.
- O Conselho das Bestas ser certamente muito demorado aborrecido.  melhor 
tentarmos descansar um pouco agora, ds, forma estaremos frescos pela manh - 
sugeriu Nadia, preparai do-se para dormir. Teve de se libertar de Borob e de o 
obrigar deitar-se mais longe, porque no suportava o calor. O macaco ei como uma 
extenso do seu ser, estavam ambos to habituados a contacto dos seus corpos que 
uma separao, por pequena que fo se, era sentida pelos dois como uma premonio 
de morte.
Com o amanhecer, a vida despertou na cidade de ouro e ih minou-se o vale dos 
deuses em todos os tons de vermelho, laran e rosa. As Bestas, no entanto, 
demoraram muitas horas a desperta do sono e a sair, uma por uma, dos seus covis, 
entre as forma de rocha e cristal. Alex e Nadia contaram onze criaturas, tn 
machos e oito fmeas, umas mais altas que outras, mas todas adu tas. No viram 
exemplares jovens daquela espcie singular perguntaram a si prprios como se 
reproduziriam. Walimai dis, que raras vezes nascia um deles, nos anos que vivera 
isso nunc tinha acontecido e acrescentou que tambm no os tinha vist morrer, 
embora tivesse conhecimento de uma gruta no labirint onde jaziam os seus 
esqueletos. Alex concluiu que isso refora' a sua teoria de que viviam sculos e 
calculou que aqueles mam feros pr-histricos deviam ter uma ou duas crias 
durante a sia vida, pelo que assistir ao nascimento de uma devia ser um acontf 
cimento muito raro. Ao observar as criaturas de perto, compreende que dada a sua 
limitao de movimentos, no podiam caar e dE viam ser vegetarianas. As garras 
terrveis que possuam no tinhas sido feitas para matar mas para trepar. Assim 
se explicava qu pudessem descer e subir pelo caminho vertical que eles tinham 
esc, lado na catarata. As preguias utilizavam as mesmas incise salincias e 
gretas na rocha, de que os ndios se serviam para esci lar. Quantas delas 
haveria l fora? S uma ou vrias? Como gostari de levar de volta provas do que 
via!
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Muitas horas depois comeou o conselho. As Bestas reuniram-se em semicrculo no 
centro da cidade de ouro e Walimai e os jovens colocaram-se em frente. Pareciam 
minsculos entre aqueles gigantes. Tiveram a impresso de que os corpos daquelas 
criaturas vibravam e de que os seus contornos eram difusos, depois perceberam 
que o seu plo centenrio albergava povoaes inteiras de insectos de diversos 
tipos, alguns dos quais voavam  volta deles como moscas em redor da fruta. O 
vapor de ar criava a iluso de que uma nuvem envolvia as Bestas. Estavam a 
poucos metros delas, a uma distncia suficiente para as verem em pormenor, mas 
tambm para fugirem em caso de necessidade, embora ambos soubessem que se 
qualquer um daqueles onze gigantes decidisse expelir o seu odor, no haveria 
poder no mundo capaz de os salvar. Walimai agia com grande solenidade e 
reverncia, mas no parecia assustado.
- Estes so guia e Jaguar, forasteiros amigos do povo da neblina. Vm receber 
instrues - disse o ancio.
Um silncio eterno acolheu esta introduo, como se as palavras demorassem muito 
tempo a chegar aos crebros daqueles seres. Depois Walimai recitou um longo 
poema dando notcias da tribo, desde os ltimos nascimentos at  morte do chefe 
Mokarita, incluindo as vises em que aparecia o Rahakanariwa, a visita s terras 
baixas, a chegada dos forasteiros e a eleio de Iyomi como chefe dos chefes. 
Teve incio um dilogo lentssimo entre o feiticeiro e as criaturas, que Nadia e 
Alex entenderam sem dificuldade, porque tinham tempo para pensar e para trocarem 
impresses depois de cada palavra. Dessa forma ficaram a saber que, durante 
sculos e sculos, o povo da neblina conhecera a localizao da cidade de ouro e 
tinha guardado zelosamente o segredo, protegendo os deuses do mundo exterior, 
enquanto por sua vez esses seres extraordinrios guardavam cada palavra da 
histria da tribo. Houve momentos de grandes cataclismos, nos quais a bolha 
ecolgica do tepui sofreu grandes perturbaes e a vegetao no foi suficiente
para satisfazer as necessidades das espcies que habitavam no interior. Nessas 
pocas, os ndios traziam sacrificios: milho, l tatas, mandioca, frutas, 
nozes. Colocavam as suas oferendas I proximidades do tepui, sem entrarem no 
labirinto secreto, e env vam o mensageiro avisar os deuses. As ofertas incluam 
ovos, pei: e animais caados pelos ndios que, com o decorrer do tempo, mu ram a 
dieta vegetariana das Bestas.
Alexander Cold pensou que, se aquelas antigas criaturas lenta inteligncia 
tivessem necessidade do divino, os seus deu seriam certamente os ndios 
invisveis de Tapirawa-teri, os nii seres humanos que conheciam. Para elas, os 
ndios eram mgic deslocavam-se rapidamente, podiam reproduzir-se com facili~ 
de, possuam armas e ferramentas, eram donos do fogo e do va universo exterior, 
eram todo-poderosos. Mas as gigantescas p guias ainda no tinham atingido a 
etapa de evoluo na qual contempla a prpria morte, no precisando por isso de 
deuses. suas vidas extensssimas decorriam no plano puramente mater
A memria das Bestas continha toda a informao que mensageiros dos homens lhes 
tinham entregue: eram arquivos vos. Os ndios no conheciam a escrita, mas a sua 
histria no perdia, porque as preguias no esqueciam nada. Interrogando com 
pacincia e tempo, poder-se-ia obter delas o passado da tr desde os seus 
primrdios, h vinte mil anos. Os xamanes co: Walimai visitavam-nas para as 
manterem informadas atravs c poemas picos que recitavam com a histria passada 
e recente tribo. Os mensageiros morriam e eram substitudos por outros, r cada 
palavra daqueles poemas ficava armazenada no crebro, Bestas.
S por duas vezes a tribo entrara no interior do tepui, desd incio da histria. 
E em ambas as ocasies fizera-o para fugir um inimigo poderoso. A primeira vez 
fora h quatrocentos an quando o povo da neblina teve de se esconder durante 
vrias ser nas de um agrupamento de soldados espanhis que conseguir
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE.
chegar at ao Olho do Mundo. Quando os guerreiros viram que os estrangeiros 
matavam de longe com uns paus de fumo e rudo, sem qualquer esforo, 
compreenderam que as suas armas eram inteis contra as deles. Ento desarmaram 
as suas cabanas, enterraram os seus escassos pertences, cobriram os restos da 
aldeia com terra e ramos, apagaram as suas marcas e retiraram-se com as mulheres 
e as crianas para o tepui sagrado. A foram amparados pelos deuses at os 
estrangeiros morrerem um por um. Os soldados procuravam o El Dorado, estavam 
cegos de cobia e acabaram por se assassinar uns aos outros. Os que ficaram 
foram exterminados pelas Bestas e pelos guerreiros indgenas. S um saiu vivo 
dali e de alguma forma conseguiu voltar a juntar-se aos seus compatriotas. 
Passou o resto da sua vida louco, amarrado a um poste num manicmio de Navarra, 
discursando sobre gigantes mitolgicos e sobre uma cidade de ouro puro. A lenda 
perdurou nas pginas dos cronistas do Imprio Espanhol, alimentando a fantasia 
de aventureiros at aos dias de hoje. A segunda vez tinha sido h trs anos, 
quando os grandes pssaros de rudo e vento dos nahab aterraram no Olho do 
Mundo. Novamente o povo da neblina se escondeu at os estrangeiros partirem, 
desiludidos, por no terem encontrado as minas que procuravam. No entanto, os 
ndios, advertidos pelas vises de Walimi, preparavam-se para o seu regresso. 
Desta vez no passariam quatrocentos anos antes dos nahab se aventurarem de novo 
no planalto, porque agora podiam voar. Ento as Bestas decidiram sair para os 
matar, sem suspeitarem de que havia milhes e milhes deles. Habituados ao 
nmero reduzido da sua espcie, julgavam poder exterminar os inimigos um a um.
Alex e Nadia ouviram as Bestas contar a sua histria e foram tirando muitas 
concluses.
- Por isso no houve ndios mortos, s forasteiros - referiu Alex, maravilhado.
- E o padre Valdomero? - lembrou-lhe Nadia.
- O padre Valdomero viveu com os ndios. Com certeza a Besta identificou o 
cheiro e por isso no o atacou.
- E eu? Tambm no me atacou naquela noite... - acre centou ela.
- Ns amos com os ndios. Se a Besta nos tivesse visto qua do estvamos com a 
expedio, teramos morrido como o soldad
- Se compreendi correctamente, as Bestas saram para put os forasteiros - 
concluiu Nadia.
- Exactamente. Mas obtiveram o resultado contrrio. Pod ver o que aconteceu: 
atraram a ateno sobre os ndios e sobre Olho do Mundo. Eu no estaria aqui se 
a minha av no tives sido contratada por uma revista para descobrir a Besta - 
dis Alex.


Caiu a tarde e depois a noite sem que os participantes do co selho chegassem a 
acordo. Alex perguntou quantos deuses tinha sado da montanha e Walimai disse 
dois, o que no era um dai fivel, podia ser igualmente meia dzia. O rapaz 
conseguiu exp car s Bestas que a nica esperana de salvao para elas era pe 
manecer dentro do tepui e para os ndios era estabelecer contac com a 
civilizao de uma forma controlada. O contacto era ine` tvel, disse, mais cedo 
ou mais tarde os helicpteros aterrariam n vamente no Olho do Mundo e dessa vez 
os nahab viriam pa ficar. Havia nahab que queriam destruir o povo da neblina e 
ap derar-se do Olho do Mundo. Foi muito dificil esclarecer este ponl porque nem 
as Bestas nem Walimai compreendiam como podia, gum apropriar-se da terra. Alex 
disse que havia outros nahab q desejavam salvar os ndios e que certamente 
fariam qualquer coi para preservar tambm os deuses, porque eram os ltimos da s 
espcie no planeta. Recordou ao xam que fora nomeado chefe p Iyomi para 
negociar com os nahab e pediu licena e ajuda pa cumprir a sua misso.
- No acreditamos que os nahab sejam mais poderosos q os deuses - disse Walimai.
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1
ISABEL ALLENDE
l fora, algumas to perfumadas que mal se conseguia respirar na sua 
proximidade. A chuva caiu durante muito tempo, quente e densa como um duche, 
empapando tudo, correndo como um rio entre as fendas de cristal, com um som 
persistente de tambores. Quando, finalmente, cessou, o ar refrescou subitamente 
e os jovens estafados acabaram por se entregar ao sono no cho duro do El 
Dorado, com a sensao de terem a barriga cheia de flores perfumadas.
A beberagem preparada por Walimai teve a virtude mgica de conduzi-los ao reino 
dos mitos e do sonho colectivo, onde todos, deuses e humanos, podiam partilhar 
as mesmas vises. Assim se pouparam muitas explicaes. Sonharam que o 
Rahakanariwa estava preso numa caixa de madeira selada, desesperado, tentando 
libertar-se com o seu bico assombroso e com as suas garras terrveis, enquanto 
deuses e humanos, amarrados s rvores, aguardavam a sua sorte. Sonharam com os 
nahab, matando-se uns aos outros, todos com os rostos cobertos por mscaras. 
Viram o pssaro canibal destruir a caixa e sair disposto a devorar tudo no seu 
caminho, mas nessa altura uma guia branca e um jaguar negro saam-lhe pela 
frente, desafiando-o para uma luta mortal. No era visvel a soluo desse 
duelo, como acontece com frequncia nos sonhos. Alexander Cold reconheceu o 
Rahakanariwa, porque j o vira anteriormente num pesadelo em que aparecia como 
um abutre, partindo uma vidraa da sua casa e levando a sua me nas suas garras 
monstruosas.
De manh, ao acordarem, no tiveram de contar o que tinham visto, porque todos 
tinham estado presentes no mesmo sonho, at o pequeno Borob. Quando o conselho 
dos deuses se reuniu para continuar as deliberaes, no foi necessrio passar 
horas repetindo as mesmas ideias, como acontecera no dia anterior. Sabiam o que 
tinham de fazer, cada um estava ciente do seu papel nos acontecimentos que 
viriam.
- Jaguar e guia combatero com o Rahakanariwa. Se vencerem, qual ser a sua 
recompensa? - conseguiu articular uma das preguias, depois de longas 
hesitaes.
200
- Os trs ovos do ninho - disse Nadia sem vacilar.
- E a gua da sade - acrescentou Alex, pensando na n
Apavorado, Walimai revelou-lhes que tinham violado a noi elementar de 
reciprocidade: no se pode receber sem dar. Era natural. Tinham-se atrevido a 
pedir algo aos deuses sem ofer< nada em troca. A pergunta da Besta tinha sido 
meramente form a resposta correcta teria sido dizer que no desejavam qualquer 
compensa, que o faziam como um acto de reverncia para con deuses e de compaixo 
para com os humanos. Vencer o Rahaka riwa era uma possibilidade remota, em caso 
algum um element( troca. Com efeito, as Bestas pareciam perplexas e incomoda com 
as peties dos forasteiros. Algumas delas puseram-se lei mente de p, 
ameaadoras, grunhindo e levantando os braos, gi sos como ramos de carvalhos. 
Walimai atirou-se de bruos dia do conselho, balbuciando explicaes e 
desculpas, mas no cor guiu aplacar os nimos. Receando que alguma das Bestas 
decii se fulmin-los com o seu odor corporal. Alex recorreu  nica t de 
salvao de que se lembrou: a flauta do seu av.
- Tenho uma oferenda para os deuses - disse a tremer.
As notas doces do instrumento irromperam hesitantes n( quente do tepui. As 
Bestas, apanhadas de surpresa, demorai alguns minutos a reagir e quando o 
fizeram j Alex tinha levai do voo e se entregava ao prazer de criar msica. A 
sua flauta par( ter adquirido os poderes sobrenaturais de Walimai. As notas n 
tiplicavam-se no estranho teatro da cidade de ouro, ressalta' transformadas em 
interminveis harpejos, faziam vibrar as or( deas entre as altas formaes de 
cristal. Nunca o rapaz tocara ass nunca se sentira to poderoso: conseguia 
amansar as feras coi magia da sua flauta. Parecia estar ligado a um potente 
sintetiza< que acompanhava a melodia com toda uma orquestra de cor( instrumentos 
de sopro e de percusso. As Bestas, imveis inic mente, comearam a oscilar como 
grandes rvores agitadas p vento. As suas patas milenares bateram no cho e o 
buraco f
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG

ISABEL ALLENDE
do tepui ecoou como um grande sino. Ento Nadia, num impulso, saltou para o 
centro do semicrculo do conselho, enquanto Borob, como se compreendesse que 
esse era um instante crucial, permaneceu quieto aos ps de Alx.
Nadia comeou a danar com a energia da terra, que atravessava os seus finos 
ossos como uma luz. Nunca tinha visto um ballet, mas tinha armazenado os ritmos 
que ouvira muitas vezes: o samba do Brasil, a salsa e o joropo da Venezuela, a 
msica americana que lhe chegava pelo rdio. Tinha visto pretos, mulatos, 
caboclos e brancos danando at carem extenuados durante o Carnaval de Manaus; 
ndios danando solenes durante as suas cerimnias. Sem saber o que fazia, por 
puro instinto, improvisou a sua oferenda para os deuses. Voava. O seu corpo 
movia-se sozinho, em transe, sem qualquer conscincia ou premeditao da sua 
parte. Oscilava como as mais esbeltas palmeiras, elevava-se como a espuma das 
cataratas, rodava como o vento. Nadia imitava o voo das araras, a corrida dos 
jaguares, o nadar dos golfinhos, o zumbido dos insectos e a ondulao das 
serpentes.
Durante milhares e milhares de anos tinha existido vida no cilindro oco do 
tepui, mas at quele momento jamais se tinha ouvido msica, nem sequer o rufar 
de um tambor. Nas duas vezes que o povo da neblina se acolheu  proteco da 
cidade lendria, f-lo de maneira a no irritar os deuses, em completo silncio, 
fazendo uso do seu talento para se tornar invisvel. As Bestas no suspeitavam 
da habilidade humana para criar msica e tambm nunca tinham visto um corpo 
mover-se com a ligeireza, a paixo, a velocidade e a graa com que Nadia 
danava. Na verdade, aqueles seres pesados nunca tinham recebido uma oferenda 
to grandiosa. Os seus crebros lentos recolheram cada uma das notas e 
movimentos e guardaram-nos para os sculos futuros. A oferta daqueles dois 
visitantes ficaria com eles, como parte da sua lenda.
A troco da msica e da dana que tinham recebido, as Bes concederam aos jovens o 
que estes lhes pediam. Disseram-11 que ela tinha de subir ao topo do tepui, aos 
cumes mais altos, or estava o ninho com os trs ovos prodigiosos da sua viso. 
Ele, 1 outro lado, tinha de descer s profundezas da terra, onde se encc trava a 
gua da sade.
- Podemos ir juntos, primeiro ao cume do tepui e depois fundo da cratera? - 
perguntou Alex, pensando que as tarefas riam mais fceis se as partilhassem.
As preguias negaram, balanando lentamente a cabea e 'V limai explicou que 
qualquer viagem ao reino dos espritos  u: viagem solitria. Acrescentou que s 
dispunham do dia segui: para cada um deles cumprir a sua misso porque, ao 
anoitecer, & falta, ele tinha de regressar ao mundo exterior. Esse era o seu ac 
do com os deuses. Se eles no estivessem de regresso, ficariam p sos no tepui 
sagrado, porque jamais encontrariam por si prpr a sada do labirinto.
Os jovens gastaram o resto do dia percorrendo o El Dora e contando um ao outro 
as suas curtas vidas. Ambos desejav saber do outro o mais possvel, antes de se 
separarem. Para Na era dificil imaginar o seu amigo na Califrnia com a famlia; 
n ca tinha visto um computador nem tinha ido  escola nem sabi que  um Inverno. 
Por outro lado, o rapaz americano sentia in' ja da existncia livre e silenciosa 
da amiga, em contacto estre
CAPTULO 15
Os ovos de cristal
202

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
com a Natureza. Nadia Santos possua um bom senso e uma sabedoria que lhe 
pareciam inatingveis.
Nadia e Alexander deliciaram-se com as magnficas formaes de mica e de outros 
minerais da cidade, com a flora inverosmil que brotava por toda a parte, com os 
estranhos animais e insectos que aquele lugar albergava. Aperceberam-se de que 
os drages, como o da caverna, que s vezes cruzavam o ar, eram mansos como 
papagaios amestrados. Chamaram um deles, que aterrou graciosamente aos seus ps 
e deixou que o tocassem. A pele dele era suave e fria, como a de um peixe, tinha 
o olhar de um falco e o hlito perfumado das flores. Tomaram banho nas lagoas 
quentes e fartaram-se de fruta, mas s da que Walimai permitia. Havia frutos e 
cogumelos mortais, outros induziam vises de pesadelo ou destruam a vontade, 
outros apagavam a memria para sempre, conforme lhes explicou o xam. Durante os 
seus passeios encontravam aqui e ali as Bestas, que passavam, indolentes, a 
maior parte da sua existncia. Assim que consumiam as folhas e frutos 
necessrios  sua alimentao, passavam o resto do dia contemplando a trrida 
paisagem circundante e o tampo de nuvens que fechava a boca do tepui.
-= Pensam que o cu  branco e do tamanho daquele crculo - comentou Nadia e 
Alex respondeu que eles tambm tinham uma viso parcial do cu, que os 
astronautas sabiam que no era azul, mas infinitamente profundo e escuro. Nessa 
noite deitaram-se tarde e cansados. Dormiram lado a lado, sem se tocarem, porque 
estava muito calor, mas partilhando o mesmo sonho, como tinham aprendido a fazer 
com os frutos mgicos de Walimai.
Ao amanhecer do dia seguinte o velho xam entregou a Alexander Cold uma cabaa 
vazia e a Nadia Santos uma cabaa com gua e uma cesta, que ela amarrou s 
costas. Avisou-os que, uma vez iniciada a viagem, em direco s alturas ou s 
profundezas, no haveria marcha-atrs. Teriam de vencer os obstculos ou perecer 
na tentativa, porque regressar com as mos vazias era impossvel.
- Tm a certeza de que  isto que querem fazer? - pergl tou o xam.
- Eu, sim - disse Nadia decididamente.
No fazia ideia para que serviam os ovos nem por que ti de ir busc-los, mas no 
duvidou da sua viso. Deviam ser mu valiosos ou muito mgicos. Por eles estava 
disposta a vencer o medo mais enraizado: a vertigem das alturas.
- Eu tambm - acrescentou Alex, pensando que iria at prprio inferno desde que 
isso salvasse a sua me.
- Pode ser que voltem e pode ser que no voltem - desj diu-se o feiticeiro, 
indiferente, porque para ele a fronteira entr vida e a morte era apenas uma 
linha de fumo que a mais leve t sa podia apagar.
Nadia soltou Borob da sua cintura e explicou-lhe que no 1 deria lev-lo com 
ela. O macaco aferrou-se a uma perna de Walir gemendo e ameaando com o punho, 
mas no tentou desobedec -lhe. Os dois amigos abraaram-se com fora, 
atemorizados e ~ movidos. Depois, cada um partiu na direco indicada por 
Wali>r.
Nadia Santos subiu pela mesma escada talhada na rocha 1 onde tinha descido com 
Walimai e Alex, do labirinto at  base tepui. A subida at essa varanda no foi 
dificil, apesar de ser b~ tante ngreme, no ter corrimo onde agarrar-se e os 
degraus ser estreitos, irregulares e gastos. Lutando contra a vertigem, deu ul 
olhadela rpida para baixo e viu a paisagem extraordinria e vei azulada do 
vale, envolta numa bruma tnue, com a magnfica dade de ouro ao centro. Depois 
olhou para cima e os seus olhos p deram-se nas nuvens. A boca do tepui parecia 
mais estreita do  a sua base. Como subiria pelas encostas inclinadas? 
Precisaria patas de escaravelho. Que altura teria na realidade o tepui, que p te 
era tapada pelas nuvens? Onde estaria exactamente o ninho? I cidiu no pensar 
nos problemas mas nas solues: enfrentaria obstculos um por um,  medida que 
se apresentassem. Se tinha 1 dido subir pela cascata, tambm podia fazer isto, 
pensou, embc estivesse sozinha e j no amarrada ao Jaguar por uma corda.
204

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
Ao chegar  varanda percebeu que a escadaria acabava ali. Dali para a frente 
tinha de subir agarrando-se ao que pudesse. Endireitou o cesto nas costas, 
fechou os olhos e procurou a calma no seu ntimo. Jaguar tinha-lhe explicado que 
a, no centro do seu ser, se concentrava a energia vital e a sua coragem. 
Respirou com toda a sua vontade, para que o ar limpo lhe enchesse o peito e lhe 
percorresse os caminhos do corpo, at chegar s pontas dos dedos dos ps e das 
mos. Repetiu a mesma respirao profunda trs vezes e, sempre com os olhos 
fechados, visualizou a guia, seu animal totmico. Imaginou que os seus braos 
se estendiam, se alongavam, se transformavam em asas cobertas de penas, que as 
suas pernas se transformavam em patas terminadas em garras como ganchos, que na 
sua cara crescia um bico feroz e que os seus olhos se separavam at ficarem nos 
lados da cabea. Sentiu que o seu cabelo, suave e encaracolado, se transformava 
em penas duras coladas ao crnio, que ela conseguia eriar  vontade, penas que 
continham os conhecimentos das guias: eram antenas para captar o que estava no 
ar, mesmo o que era invisvel. O seu corpo perdeu a flexibilidade e adquiriu, em 
vez disso, uma leveza to grande, que podia soltar-se da terra e flutuar com as 
estrelas. Sentiu um poder imenso, toda a fora da guia no sangue. Sentiu que 
essa fora chegava at  ltima fibra do seu corpo e da sua conscincia. Sou a 
guia, disse em voz alta, abrindo depois os olhos.
Nadia agarrou-se a uma pequena fenda na rocha sobre a sua cabea e colocou o p 
noutra que estava  altura da sua cintura. Iou o corpo e parou at se 
equilibrar. Levantou outra mo e tacteou mais acima, at se agarrar a uma raiz 
enquanto com o p contrrio tacteava at descobrir uma greta. Repetiu o 
movimento com a outra mo, procurando alguma salincia e quando a encontrou 
subiu um pouco mais. A vegetao que crescia nas encostas ajudava-a, havia 
razes, arbustos e lianas. Tambm viu arranhes profundos nas pedras e nalguns 
troncos; achou que eram marcas de garras. As Bestas deviam ter subido tambm  
procura de alimento, ou ento no
conheciam o mapa do labirinto e, cada vez que entravam ou sa do tepui, tinham 
de subir at o cume e descer pelo outro lado. C culou que isso devia demorar 
dias, talvez semanas, dada a enor lentido daquelas preguias gigantescas.
Uma parte do seu crebro, ainda activo, compreendeu qu buraco do tepui no era 
um cone invertido, conforme imagina sujeita ao efeito ptico quando o via de 
baixo, antes se alargava geiramente. A boca da cratera era, na realidade, mais 
larga qu base. No precisaria de patas de escaravelho, no fim de contas, aa nas 
concentrao e coragem. Assim, escalou metro a metro, dura horas, coam uma 
enorme determinao e uma destreza recm quirida. Essa destreza provinha do mais 
recndito e misteric lugar, um lugar calmo no seu corao, onde se encontravam 
os i bres atributos do seu animal totmico. Ela era a guia, o pssaro c voava 
mais alto, a rainha do cu, aquela que faz o seu ninho or s os anjos chegam.


A guia-menina continuou a subir passo a passo. O ar que e hmido do vale 
inferior transformou-se numa brisa fresca, c a impeliu para cima. Parou com 
frequncia, bastante cansada, tando contra a tentao de olhar para baixo ou de 
calcular a d tncia at o cimo, concentrada apenas no prximo movimen Uma sede 
terrvel abrasava-a; sentia a boca cheia de areia, com i sabor amargo, mas no 
podia soltar-se para tirar das costas a baa de gua que Walimai lhe tinha dado. 
Beberei quando che~ l acima, murmurava, pensando na gua fria e limpa banhandi 
por dentro. Se ao menos chovesse, pensou, mas nem uma gota c das nuvens. Quando 
achava que no conseguiria dar nem mais i passo, sentia o talism mgico de 
Walimai pendurado ao pescc e isso dava-lhe coragem. Era a sua proteco. Tinha-a 
ajudado a su as rochas pretas e lisas da cascata, tornara-a amiga dos ndios, p 
tegera-a das Bestas; enquanto o tivesse estaria a salvo.
206

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
Muito depois, a cabea dela alcanou as primeiras nuvens, densas como merengue e 
nessa altura envolveu-a uma brancura de leite. Continuou a subir s apalpadelas, 
agarrando-se s rochas e  vegetao, cada vez mais escassa  medida que subia. 
No tinha conscincia de que lhe sangravam as mos, os joelhos e os ps, s 
pensava no mgico poder que a sustinha, at que, de repente, uma das suas mos 
apalpou uma fenda larga. Rapidamente conseguiu iar todo o corpo e viu-se no 
cume do tepui, sempre oculto pela acumulao de nuvens. Uma potente exclamao 
de triunfo, um alarido ancestral e selvagem como o grito tremendo de cem guias 
em unssono, brotou do peito de Nadia Santos e foi esmagar-se contra as rochas 
de outros cumes, ecoando e ampliando-se, at se perder no horizonte.
A rapariga esperou imvel nas alturas, at o seu grito se perder nas ltimas 
fendas da grande meseta. Ento, o tambor que sentia no peito acalmou-se e 
conseguiu respirar fundo. Assim que se sentiu firme sobre as rochas, deitou a 
mo  cabaa de gua e bebeu todo o seu contedo. Nunca desejara tanto uma 
coisa. O lquido fresco entrou-lhe pela garganta, limpando a areia e o amargo da 
boca, humedecendo-lhe a lngua e os lbios ressequidos, penetrando em todo o seu 
corpo como um blsamo prodigioso, capaz de curar a angstia e de apagar a dor. 
Compreendeu que a felicidade consiste em atingir aquilo por que espermos 
durante muito tempo.
A altura e o esforo brutal para chegar at ali e para superar os seus terrores 
actuaram como uma droga mais poderosa que a dos ndios em Tapirawa-teri ou que a 
poo dos sonhos colectivos de Walimai. Voltou a sentir que voava, que j no 
tinha o corpo da guia, que se libertara de tudo o que era material. Agora era 
apenas esprito. Estava suspensa num espao glorioso. O mundo ficara muito 
longe, l em baixo, no plano das iluses. Flutuou a por um tempo incalculvel e 
de repente viu um buraco no cu radiante. Sem hesitar lanou-se como uma flecha 
atravs dessa abertura e entrou num espao vazio e escuro, como o firmamento 
infinito
numa noite sem Lua. Esse era o espao absoluto de tudo o que e divino, e da 
morte, o espao onde o prprio esprito se disso]` Ela era o vazio, sem desejos 
nem lembranas. No havia nade recear. Permaneceu a, fora do tempo.
Mas no cume do tepui, pouco a pouco, o corpo de Nadia ci mava-a, reclamava-a. O 
oxignio devolveu-lhe ao esprito o senti da realidade material, a gua deu-lhe 
a energia necessria para mover. Por fim, o esprito de Nadia fez a viagem 
inversa, volto] atravessar como uma flecha a abertura no vazio, chegou  abi da 
gloriosa onde flutuou alguns instantes naquela brancura imen e dali passou  
forma de guia. Teve de resistir  tentao de vc para sempre suspensa pelo 
vento e, com um ltimo esforo, rega sar ao seu corpo de menina. Viu-se sentada 
no cume do mundo olhou  sua volta.
Estava no ponto mais alto de uma meseta, rodeada pelo va: silncio das nuvens. 
Embora no conseguisse ver a altura ou a e tenso do local onde se encontrava, 
calculou que o buraco no ce tro do tepui era pequeno, em comparao com a 
imensido montanha que o rodeava. O terreno parecia quebrado em feno profundas, 
em parte rochoso e em parte coberto por uma vege o espessa. Calculou que 
passaria muito tempo antes de os pp saros de ao dos nahab explorarem aquele 
stio, porque E absurdo tentar aterrar ali, mesmo com um helicptero, e era qu' 
impossvel uma pessoa tentar deslocar-se na rugosidade daqui superficie. Sentiu-
se desfalecer, porque poderia procurar o nin pelo resto dos seus dias sem 
conseguir encontr-lo naquelas fE das, mas depois lembrou-se de que Walimai lhe 
dissera exac mente por onde deveria subir. Descansou um momento e ps novamente 
em marcha, subindo e descendo de rocha em roo, impelida por uma fora 
desconhecida, por uma espcie de cer za instintiva.
No precisou de ir muito longe. A pouca distncia, numa fi da formada por 
grandes rochas, estava o ninho e, no seu cent
208

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEr
viu os trs ovos de cristal. Etam mais pequenos e mais brilhantes que os da sua 
viso, maravilhosos.
Com muito cuidado, para no escorregar numa daquelas profundas fissuras, onde 
teria partido todos os ossos, Nadia Santos arrastou-se at ao ninho. Os seus 
dedos fecharam-se sobre a reluzente perfeio do cristal, mas o seu brao no 
conseguiu desloc-lo. Admirada, agarrou noutro ovo. No conseguiu ergu-lo e ao 
terceiro tambm no. Era impossvel que aqueles objectos, do tamanho de um ovo 
de tucano, pesassem daquela maneira. O que se passava? Examinou-os, empurrando-
os de todos os lados, at se certificar de que no estavam colados nem 
aparafusados, pelo contrrio, pareciam pousar quase flutuando no fofo colcho de 
pauzinhos e penas. A rapariga sentou-se numa das rochas sem entender o que se 
passava, sem poder acreditar que toda aquela aventura, todo aquele esforo para 
chegar at ali tivessem sido inteis. Tivera uma fora sobre-humana para 
conseguir subir como uma lagartixa pelas paredes internas do tepui e agora, 
finalmente no cume, as foras faltavam-lhe e no conseguia deslocar nem um 
milmetro o tesouro que tinha ido buscar.
Por longos minutos Nadia Santos hesitou, transtornada, sem conseguir descobrir a 
soluo daquele enigma. De repente lembrou-se de que aqueles ovos pertenciam a 
algum. Talvez as Bestas os tivessem posto ali, mas tambm podiam ser de alguma 
criatura fabulosa, uma ave ou um rptil, como os drages. Nesse caso a me 
poderia aparecer a qualquer instante e, vendo uma intrusa perto do ninho, 
lanar-se ao ataque com uma fria justificada. No podia continuar ali, decidiu, 
mas tambm no pensava renunciar aos ovos. Walimai tinha dito que no podia 
regressar de mos vazias... Que mais lhe dissera o xam? Que tinha de voltar 
antes do anoitecer. E ento lembrou-se do que o feiticeiro lhe ensinara no dia 
anterior: a lei da reciprocidade. Por cada coisa que levamos, devemos deixar 
outra em troca.
Olhou para si prpria, desconsolada. No tinha nada para da Levava vestidas 
apenas uma camisola de manga curta, umas ca as curtas e uma cesta amarrada s 
costas. Ao examinar o se corpo apercebeu-se pela primeira vez dos arranhes, 
ndoas n~ gras e feridas abertas que as rochas lhe tinham provocado, ao sub a 
montanha. O seu sangue, onde se concentrava a energia vital qi lhe permitira 
chegar at a, era talvez a sua nica posse valios Aproximou-se, esticando o 
corpo dorido para que o sangue pingas; sobre o ninho. Algumas manchinhas 
vermelhas salpicaram as pene macias. Ao inclinar-se sentiu o talism contra o 
peito e compr endeu imediatamente que esse era o preo que tinha de pagar pele 
ovos. Hesitou durante longos minutos. Entreg-lo significava r nunciar aos 
poderes mgicos de proteco que ela atribua ao os: entalhado, oferta do xam. 
Nunca teria nada to mgico con aquele amuleto, era muito mais importante para 
ela que os ova cuja utilidade nem conseguia imaginar. No, no podia desfaze -se 
disso, decidiu.
Nadia fechou os olhos, esgotada, enquanto o sol que se filtr va pelas nuvens ia 
mudando de cor. Por instantes regressou sonho alucinante da ayahuasca, que teve 
no funeral de Mokarite voltou a ser a guia voando num cu branco, suspensa pelo 
vens leve e poderosa. De cima, viu os ovos brilhando no ninho, tal con na outra 
viso, e teve a mesma certeza que tivera nessa altura: aqu les ovos eram a 
salvao do povo da neblina. Finalmente, abriu olhos com um suspiro, tirou o 
talism do pescoo e colocou-o i ninho. A seguir esticou a mo e tocou num dos 
ovos, que imedi tamente cedeu, permitindo-lhe levant-lo sem esforo. Os outr 
foram igualmente fceis de tirar. Colocou os trs com cuidado sua cesta e 
disps-se a descer por onde tinha subido. A luz do S ainda se filtrava atravs 
das nuvens. Calculou que a descida de\ ser mais rpida e que chegaria l abaixo 
antes do anoitecer, cor lhe recomendara Walimai.
210
2

CAPTULO 16
A gua da sade


Enquanto Nadia Santos subia ao cume do tepui, Alexand, Cold descia por uma 
passagem estreita em direco ao ventre c Terra, a um mundo fechado, quente, 
escuro e palpitante, como n< seus piores pesadelos. Se ao menos tivesse uma 
lanterna... Tini de avanar s apalpadelas, gatinhando s vezes e arrastando-se 
oi tras, numa completa escurido. Os seus olhos no se habituavar porque as 
trevas eram totais. Estendia uma mo apalpando a roc] para calcular a direco e 
a largura do tnel, depois deslocava corpo, serpenteando para o interior, 
centmetro a centmetro.  m dida que avanava, o tnel parecia estreitar-se e 
pensou que n, conseguiria dar a volta para sair. O pouco ar que havia era sufi 
cante e ftido, como se estivesse enterrado numa tumba. Ali c nada lhe serviam 
os atributos do jaguar negro; precisava de outi animal totmico, do gnero da 
toupeira, da ratazana ou do verm
Parou muitas vezes com inteno de retroceder antes que fos demasiado tarde, mas 
de todas as vezes continuou em frente imp lido pela lembrana da me. Em cada 
minuto decorrido aument va a presso que sentia no peito e o terror tornava-se 
cada vez ma insondvel. Voltou a ouvir o batimento surdo de um corao, que, 
tinha ouvido no labirinto com Walimai. A sua mente, enlouquec da, baralhava os 
inmeros perigos que o espreitavam. O pior de toda era ficar sepultado vivo nas 
entranhas daquela montanha. Que cor primento teria aquela passagem? Chegaria ao 
fim ou cairia vens do pelo caminho? 0 oxignio seria suficiente ou morreria 
asfixiada

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
A determinada altura, Alexander caiu estendido de bruos, esgotado, gemendo. 
Tinha os msculos tensos, o sangue latejando-lhe nas fontes, dorido cada nervo 
do seu corpo. No conseguia raciocinar, sentia que a cabea ia explodir-lhe por 
falta de ar. Nunca tivera tanto medo, nem sequer durante a longa noite da sua 
iniciao entre os ndios. Tentou lembrar-se das emoes que o agitavam quando 
estava suspenso por uma corda no El Capitn, mas no era comparvel. Nessa 
altura estava no cume de uma montanha, agora estava no seu interior. L estava 
com o pai, aqui estava absolutamente s. Abandonou-se ao desespero, tremendo, 
extenuado. Por um tempo eterno, as trevas penetraram-lhe na mente e perdeu o 
rumo, chamando a morte sem voz, derrotado. E ento, quando o seu esprito se 
afastava na escurido, a voz do pai abriu caminho por entre as brumas do seu 
crebro e chegou-lhe, primeiro como um sussurro quase imperceptvel, depois com 
mais clareza. O que lhe dissera o seu pai tantas vezes, quando o ensinava a 
escalar montanhas? Quieto, Alexander, procura no centro de ti prprio, onde est 
a tua fora. Respira. Ao inspirar enches-te de energia, ao exalar libertas-te da 
tenso. No penses, obedece ao teu instinto. Fora o que ele prprio aconselhara 
a Nadia, quando subiram ao Olho do Mundo. Como pudera esquec-lo?
Concentrou-se em respirar: inspirar energia, sem pensar na falta de oxignio, 
exalar o seu terror, descontrair, rejeitar os pensamentos negativos que o 
paralisavam. Consigo faz-lo, consigo faz-lo... repetiu. Pouco a pouco, 
regressou ao seu corpo. Visualizou os dedos dos ps e comeou a relax-los um 
por um, depois as pernas, os joelhos, as ancas, as costas, os braos at s 
pontas dos dedos, a nuca, os maxilares, as plpebras. J conseguia respirar 
melhor, deixou de soluar. Localizou o centro de si prprio, um lugar vermelho e 
vibrante  altura do umbigo. Ouviu os batimentos do seu corao. Sentiu um 
formigueiro na pele, depois um calor pelas veias, finalmente a fora regressou-
lhe ao corpo, aos sentidos e  mente.
Alexander Cold lanou uma exclamao de alvio. O som d, morou um pouco a bater 
contra alguma coisa e a regressar aos seu ouvidos. Apercebeu-se de que era assim 
que funcionava o sons dos morcegos, permitindo-lhes deslocar-se na escurido. 
Repeti a exclamao, esperou que esta voltasse indicando-lhe a distr cia e a 
direco. Dessa forma conseguiu ouvir com o corao> tal como Nadia lhe dissera 
tantas vezes. Tinha descoberto a form de avanar nas trevas.


O resto da viagem pelo tnel decorreu num estado de sem -inconscincia, na qual 
o seu corpo se deslocava sozinho, como s conhecesse o caminho. De vez em quando, 
Alex ligava-se por mc mentos com o seu pensamento lgico e como um relmpago 
dedi zia que esse ar carregado de gases desconhecidos devia afectar-li o 
crebro. Mais tarde pensaria que vivera um sonho.
Quando parecia que a passagem estreita nunca mais acabav, o rapaz ouviu um rumor 
de gua, como um rio, e uma baforac de ar quente chegou aos seus esgotados 
pulmes. Isso renovos -lhe as foras. Atirou-se para a frente e numa curva do 
subterre neo percebeu que os seus olhos comeavam a distinguir alguir coisa 
naquele negrume. Uma claridade, inicialmente bastam tnue, foi surgindo pouco a 
pouco. Continuou a arrastar-se, esp~ ranado, e viu que a luz e o ar aumentavam. 
Depressa se encoi trou numa gruta que devia estar ligada ao exterior de algun 
forma, porque estava ligeiramente iluminada. Um cheiro estrani chegou-lhe ao 
nariz, persistente, um pouco nauseabundo, a vin, gre e flores podres. A gruta 
tinha as mesmas formaes de br lhantes minerais que vira no labirinto. As 
facetas lavradas daquele estruturas funcionavam como espelhos, reflectindo e 
multiplicai do a luz escassa que ali entrava. Viu-se na margem de uma pequei 
lagoa, alimentada por um riacho de guas brancas, semelhante leite magro. Vindo 
da tumba onde estivera, essa lagoa e esse r
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGEN
brancos pareceram-lhe a coisa mais bela que vira na sua vida. Seria essa a fonte 
da eterna juventude? O cheiro enjoava-o, pensou que devia ser um gs que se 
libertava das profundezas, talvez um gs txico que lhe embotava o crebro.
Uma voz sussurrante e acariciadora chamou a sua ateno. Surpreendido, 
apercebeu-se de alguma coisa na outra margem da pequena lagoa, a poucos metros 
de distncia e, quando conseguiu adaptar as suas pupilas  pouca luz da gruta, 
distinguiu uma figura humana. No conseguia v-la muito bem, mas a forma e a voz 
eram as de uma rapariga. Impossvel, disse, as sereias no existem, estou a 
enlouquecer,  o gs, o cheiro; mas a rapariga parecia real, o seu cabelo longo 
agitava-se, a sua pele irradiava luz, os seus gestos eram humanos, a sua voz 
sedutora. Quis atirar-se  gua branca para beber at se saciar e para lavar a 
terra que o cobria, bem como o sangue das feridas que tinha nos cotovelos e nos 
joelhos. A tentao de se aproximar da bela criatura que o chamava e de se 
abandonar ao prazer era insuportvel. Ia faz-lo quando reparou que a apario 
era igual a Cecilia Burns, com o seu cabelo castanho, os seus olhos azuis, os 
seus gestos lnguidos. Uma parte ainda consciente do seu crebro avisou-o de que 
aquela sereia era uma criao do seu esprito, tal como o eram aquelas medusas 
do mar, gelatinosas e transparentes, que flutuavam no ar plido da caverna. 
Recordou o que tinha ouvido da mitologia dos ndios, as histrias que Walimai 
tinha contado sobre as origens do universo, onde figurava um Rio de Leite que 
continha todas as sementes da vida, mas tambm putrefaco e morte. No, essa 
no era a gua milagrosa que devolveria a sade da sua me, concluiu. Era uma 
partida da sua mente para o distrair da sua misso. No havia tempo a perder, 
cada minuto era precioso. Tapou o nariz com a camisola, lutando contra o cheiro 
penetrante que o aturdia. Viu que ao longo da margem onde estava se estendia uma 
passagem estreita, que desaparecia seguindo o curso do riacho, e fugiu por ali.
Alexander Cold seguiu a vereda, deixando para trs a lagoa, a prodigiosa 
apario da rapariga. Surpreendeu-o que a claridade tnue continuasse. Pelo 
menos no precisava de se arrastar e de i s apalpadelas. O aroma foi ficando 
mais tnue, at desaparece completamente. Avanou o mais depressa que pde, 
agachado, ter, tando no bater com a cabea no tecto e mantendo o equilbrio ni 
parapeito estreito, pensando que se casse ao rio que corria en baixo, talvez 
fosse arrastado. Lamentou no ter tido tempo para ave riguar o que era aquele 
lquido branco parecido com leite e chei ro a tempero de saladas. A longa vereda 
estava coberta de musgo escorregadio onde fervilhavam milhares de criaturas 
minsculas larvas, insectos, vermes e grandes sapos azulados, com a pele trans 
parente permitindo ver os rgos internos a palpitar. As suas ln guas 
compridas, de serpente, tentavam atingi-lo nas pernas. Ale: sentia a falta das 
suas botas, porque tinha de os pontapear descal o e os seus corpos moles e 
frios como gelatina provocavam-lh, um asco incontrolvel. Duzentos metros  
frente a camada de lodo e os sapos desapareceram e a vereda tornou-se mais 
larga. Alivia do, pde dar uma vista de olhos em volta, reparando pela primeir, 
vez que as paredes estavam salpicadas de cores muito bonitas. A~ examin-las de 
perto, compreendeu que eram pedras preciosas veios de metais nobres. Abriu o 
canivete suo e escavou a rocha verificando que as pedras se soltavam com uma 
certa facilidade O que seriam? Reconheceu algumas cores, como o verde intensa 
das esmeraldas e o vermelho puro dos rubis. Estava rodeado por un tesouro 
fabuloso: este era o verdadeiro El Dorado, cobiado duran te sculos por 
aventureiros.
Bastava escavar as paredes com o canivete para colher uma for tuna. Se enchesse 
a cabaa que Walimai lhe dera com aquelas pe dras preciosas, regressaria  
Califrnia convertido em milionria poderia pagar os melhores tratamentos para a 
doena da sua me comprar uma casa nova para os pais, pagar a educao das sua 
irms. E para ele? Compraria um carro de corrida para matar d
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inveja os seus amigos e deixar Cecilia Bums de boca aberta. Estas jias eram a 
soluo da sua vida: podia dedicar-se  msica, a escalar montanhas ou ao que 
quisesse, sem ter de se preocupar em ganhar um salrio... No! O que estava a 
pensar? Estas pedras preciosas no eram s suas, deviam servir para ajudar os 
ndios. Com esta riqueza incrvel teria poder para cumprir a misso que Iyomi 
lhe confiara: negociar com os nahab. Converter-se-ia no protector da tribo e dos 
seus bosques e cascatas. Com a pena da sua av e o seu dinheiro transformariam o 
Olho do Mundo na reserva natural mais extensa do mundo. Em poucas horas poderia 
encher a cabaa e mudar o destino do povo da neblina e da sua prpria famlia.
O rapaz comeou a esgaravatar com a ponta do canivete em redor de uma pedra 
verde, fazendo saltar pedacinhos da rocha. Minutos mais tarde conseguiu solt-la 
e quando a teve entre os dedos conseguiu v-la bem. No tinha o brilho de uma 
esmeralda polida, como as dos anis, mas era sem dvida da mesma cor. Ia p-la 
na cabaa, quando se lembrou do objectivo daquela misso ao centro da terra: 
encher a cabaa com a gua da sade. No. No seriam jias que comprariam a 
sade da sua me, era preciso alguma coisa milagrosa. Com um suspiro guardou a 
pedra verde no bolso das calas e continuou em frente, preocupado porque tinha 
perdido minutos preciosos e no sabia quanto teria ainda de andar at chegar  
fonte maravilhosa.
De sbito a vereda terminou diante de um monte de pedras. Alex tacteou certo de 
haver uma forma de seguir em frente. No acreditava que a sua viagem acabasse 
dessa forma to abrupta. Se Walimai o tinha enviado nesta viagem infernal s 
profundezas da montanha, era porque a fonte existia, era tudo uma questo de 
encontr-la. Pode ser que tivesse vindo por um caminho errado que, nalguma 
bifurcao do tnel, se tivesse desviado. Talvez devesse ter atravessado a lagoa 
de leite, e a rapariga no fosse uma tentao para o distrair, mas a sua guia 
para encontrar a gua da sade... As dvidas comearam a retumbar no seu 
crebro, como gritos no
volume mximo. Levou as mos s fontes, tentando acalmar-s repetiu a respirao 
profunda que tinha praticado no tnel e de ouvidos  voz remota do seu pai, que 
o guiava. Tenho de situa -me no centro de mim mesmo, onde h calma e fora, 
murmuro Decidiu no perder energia contemplando os possveis erros com, tidos, 
mas o obstculo que tinha pela frente. Durante o Inverno c ano anterior, a me 
tinha-lhe pedido que levasse uma grande pill de lenha do ptio para o fundo da 
garagem. Quando ele alegou qi nem Hrcules conseguiria faz-lo, a me mostrou-
lhe como: u pau de cada vez.
O jovem foi retirando as pedras: primeiro os calhaus, depois rochas de tamanho 
mdio, que se soltavam com facilidade, por fi os grandes pedregulhos. Foi um 
trabalho lento e pesado, mas pa sado algum tempo tinha aberto uma brecha. Uma 
baforada de vap quente bateu-lhe no rosto, como se tivesse aberto a porta de u 
forno, obrigando-o a retroceder. Esperou, sem saber qual dever ser o passo 
seguinte, enquanto o jorro de ar saa. No sabia nada ~ minerao, mas tinha 
lido que no interior das minas costuma hav fugas de gs e calculou que, no caso 
de se tratar disso, estava cond nado. Poucos minutos depois, apercebeu-se de que 
o jorro diminu como se tivesse estado sobre presso, acabando por desaparecer. 
E perou um pouco e depois meteu a cabea pelo buraco.
No outro lado havia uma caverna com um poo profundo i meio, de onde surgia o 
fumo e uma luz avermelhada. Ouviampequenas exploses, como se l em baixo 
fervesse algo espes e borbulhante. No teve de se aproximar para adivinhar que 
de' ser lava ardente, talvez os ltimos resduos de actividade de u vulco 
antiqussimo. Estava no corao da cratera. Avaliou a pc sibilidade de os 
vapores serem txicos, mas como no cheirava mal, decidiu que podia introduzir-
se na caverna. Passou o resto corpo pela abertura e deu consigo sobre um cho de 
pedra que te. Aventurou um passo, depois mais outro, decidido a explorai
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recinto. O calor era pior que uma sauna e rapidamente ficou banha
do em suor, mas havia ar suficiente para respirar. Tirou a camiso
la de manga curta e amarrou-a em volta da boca e do nariz. Os olhos
choravam-lhe. Compreendeu que tinha de avanar com muita pru
dncia para no escorregar, caindo ao poo.
A caverna era ampla e de forma irregular, iluminada pela luz
avermelhada e tremeluzente do fogo que crepitava em baixo.  sua
direita abria-se outra sala, que explorou tacteando, descobrindo
que era mais escura, porque a luz que iluminava a primeira quase
no chegava a. Mas a temperatura era mais suportvel, talvez por entrar ar 
fresco atravs de alguma fissura. O rapaz estava no limite da sua resistncia, 
empapado em suor e sedento, convencido de que as foras no lhe chegariam para 
regressar pelo longo caminho que j tinha percorrido. Onde estava a fonte que 
procurava?
Nesse momento sentiu uma forte brisa e logo a seguir uma vibrao pavorosa que 
ressoou nos seus nervos, como se estivesse dentro de um grande tambor metlico. 
Tapou instintivamente os ouvidos, mas no era rudo; era uma energia 
insuportvel e no havia maneira de se defender dela. Voltou-se  procura da 
causa. E ento viu-a. Era um morcego gigantesco, cujas asas abertas deviam medir 
uns cinco metros de uma ponta  outra. O seu corpo de ratazana era duas vezes 
maior que o do seu co Poncho e na cabeorra via-se um focinho com longos 
caninos de fera. No era preto mas sim completamente branco, um morcego albino.
Aterrado, Alex compreendeu que aquele animal, tal como as Bestas, era o ltimo 
sobrevivente de uma idade muito antiga, quando os primeiros seres humanos 
ergueram a testa do cho, olhando assombrados para as estrelas, h milhares e 
milhares de anos. A cegueira do animal no era uma vantagem para ele, porque 
aquela vibrao era o seu sistema de sonar: o vampiro sabia exactamente como era 
e onde estava o intruso. A ventania repetiu-se: eram as asas agitando-se, 
prontas para o ataque. Era esse o Rahakanariwa dos ndios, o terrvel pssaro 
chupa-sangue?
O seu esprito desatou a voar. Sabia que as suas possibilid& des de fuga eram 
quase nulas, pois no podia retroceder para a outi sala e desatar a correr, com 
aquele terreno traioeiro e correndo risco de cair no poo de lava. 
Instintivamente levou a mo ao c, nivete suo que trazia  cintura, embora 
soubesse que era uma arm ridcula comparada com o tamanho do seu inimigo. Os 
seus dedc esbarraram na flauta pendurada no cinto e, sem pensar duas vezes 
soltou-a e levou-a aos lbios. Conseguiu murmurar o nome do av Joseph Cold, 
pedindo-lhe ajuda nesse instante de perigo mortal, depois comeou a tocar.
As primeiras notas ecoaram cristalinas, frescas, puras, naque le recinto 
malfico. O enorme vampiro, extremamente sensvel ac sons, recolheu as asas e 
pareceu encolher. Tinha vivido talvez v, rios sculos na solido e no silncio 
daquele mundo subterrneo aqueles sons tiveram o efeito de uma exploso no seu 
crebro, ser tindo-se crivado por milhes de dardos pontiagudos. Lanou outr 
grito na sua onda inaudvel para os ouvidos humanos, embora ch ramente dolorosa, 
mas a vibrao confundiu-se com a msica e vampiro, desconcertado, no conseguiu 
interpret-la no seu sona
Enquanto Alex tocava a sua flauta, o grande morcego branc chegou-se para trs, 
retrocedendo aos poucos, at ficar imvi num canto, como um urso branco alado, 
com os caninos e as ga ras de fora, mas paralisado. Uma vez mais o rapaz 
admirou-se coi o poder daquela flauta, que o tinha acompanhado em cada moment 
crucial da sua aventura. Quando o animal se moveu, Alex viu ul pequeno fio de 
gua que jorrava pela parede da caverna e sout nesse momento que tinha chegado 
ao fim do seu caminho: esta-,  frente da fonte da eterna juventude. No era o 
manancial abui dante a meio de um jardim que a lenda descrevia. Eram apenas a 
gumas gotas humildes deslizando pela rocha viva.
Alexander Cold avanou com cautela, um passo de cac vez, sem deixar de tocar a 
flauta, aproximando-se do monstruos
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vampiro, tentando pensar com o corao e no com a cabea. Era
uma experincia to extraordinria que no podia confiar apenas
na razo ou na lgica. Tinha chegado o momento de utilizar o mes
mo recurso de que se servia para escalar montanhas e criar msi
ca: a intuio. Tentou imaginar como se sentiria o animal e concluiu
que devia estar to aterrado como ele prprio. Estava pela primei
ra vez diante de um ser humano, nunca tinha ouvido sons como os
da flauta e o rudo devia ser atroador no seu sonar, por isso pare
cia estar hipnotizado. Lembrou-se de que tinha de recolher a gua
na cabaa e regressar antes do anoitecer. Era-lhe impossvel cal
cular h quantas horas estaria no mundo subterrneo, mas a nica
coisa que queria era sair dali o mais depressa possvel.
Enquanto tocava uma nica nota na flauta, valendo-se de uma mo, esticou a outra 
para a frente, quase a roar o vampiro, mas assim que caram as primeiras gotas 
dentro da cabaa, a gua do jorro diminuiu, desaparecendo completamente. A 
frustrao de Alex foi to grande, que esteve prestes a arremeter aos murros 
contra a rocha. A nica coisa que o deteve foi o animal horrendo que se erguia 
como uma sentinela ao seu lado.
E nessa altura, quando ia dar meia volta, lembrou-se das palavras de Walimai 
sobre a lei inexorvel da Natureza: dar o mesmo que se recebe. Passou revista 
aos seus escassos bens: a bssola, o canivete suo e a flauta. Podia deixar os 
dois primeiros. De qualquer forma, no lhe serviriam de muito, mas no podia 
desfazer-se da sua flauta mgica, da herana do seu famoso av, do seu 
instrumento de poder. Sem ela estava perdido. Colocou a bssola e a navalha no 
cho e esperou. Nada. Nem mais uma gota saiu da rocha.
Ento compreendeu que essa gua da sade era, para ele, o tesouro mais valioso 
deste mundo, o nico que poderia salvar a vida da sua me. Em troca devia 
entregar o seu bem mais precioso. Colocou a flauta no cho enquanto as ltimas 
notas ecoavam entre as paredes da caverna. Imediatamente o pequeno jorro de gua
voltou a fluir. Esperou minutos interminveis, at ter a caba cheia, sem perder 
de vista o vampiro, que espreitava ao seu lado Estava to prximo que podia 
cheirar a sua fetidez de tumba, cor tar-lhe os dentes e sentir uma compaixo 
infinita pela profund solido que o envolvia, mas no permitiu que isso o 
distrasse d sua tarefa. Quando a cabaa estava a transbordar, retrocedeu ler 
tamente, para no provocar o monstro. Saiu da caverna, entrou r outra onde se 
ouvia o gargarejo da lava ardendo nas entranhas d Terra e deixou-se escorregar 
depois pela abertura. Pensou volt, a colocar as pedras para tap-la, mas no 
tinha tempo e calcule que o vampiro era demasiado grande para sair por aquele 
burac e por isso no o seguiria.
Fez o caminho de volta mais depressa, porque j o conhecia No teve a tentao 
de apanhar pedras preciosas e, quando passc pela lagoa de leite onde a miragem 
de Cecilia Burns o esperav tapou o nariz, para se defender do gs odorfero que 
perturbava entendimento, e no parou. O mais dificil foi voltar a meter-se r 
tnel estreito por onde viera, segurando verticalmente na caba( para no 
entornar a gua. Tinha uma tampa: um pedao de pe amarrado com uma corda, mas 
no era hermtico e ele no quer perder nem uma gota do lquido maravilhoso da 
sade. Desta ve o corredor, embora opressivo e tenebroso, no lhe pareceu to ho 
rvel, porque sabia que no fim chegaria  luz e ao ar.


O colcho de nuvens na boca do tepui, que recebia os ltimi raios do sol, tinha 
adquirido tons avermelhados, do ferrugem dourado. As seis luas de luz comeavam 
a desaparecer no estrani firmamento do tepui, quando Nadia Santos e Alexander 
Cold r gressaram. Walimai esperava no anfiteatro da cidade de ouro, dia: te do 
conselho das Bestas, acompanhado por Borob. Mal o maca) viu a sua dona, correu 
aliviado pendurando-se-lhe ao pescoo. jovens estavam extenuados, com o corpo 
coberto de arranhes
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ndoas negras, mas cada um deles trazia o tesouro que fora buscar. O velho 
feiticeiro no deu mostras de surpresa, recebendo-os com a mesma serenidade com 
que cumpria cada acto da sua existncia e disse-lhes que tinha chegado o momento 
de partir. No havia tempo para descansar porque, durante a noite, tinham de 
atravessar o interior da montanha e sair para o Olho do Mundo.
- Tive de deixar o meu talism - contou Nadia, desanimada, ao seu amigo.
- E eu, a minha flauta - replicou ele.
- Podes arranjar outra. A msica s tu que a fazes, no a flauta - disse Nadia.
- Tambm os poderes do talism esto dentro de ti - consolou-a ele.
Walimai observou cuidadosamente os trs ovos e cheirou a gua da cabaa. Aprovou 
com uma grande seriedade. Depois desamarrou um dos saquinhos de pele que lhe 
pendiam do basto de curandeiro e entregou-o a Alex, com instrues para moer as 
folhas e mistur-las nessa gua, para curar a me. O rapaz pendurou o saquinho 
ao pescoo, com lgrimas nos olhos. Walimai agitou o cilindro de quartzo sobre a 
cabea de Alex durante muito tempo, soprou-lhe no peito, nas fontes e nas 
costas, tocou-o nos braos e nas pernas com o seu basto.
- Se no fosses nahab, serias o meu sucessor, nasceste com alma de xam. Tens o 
poder de curar, usa-o bem - disse-lhe.
- Isso significa que posso curar a minha me com esta gua e estas folhas?
- Pode ser e pode no ser...
Alex apercebia-se de que as suas iluses no tinham uma base lgica, tinha de 
confiar nos modernos tratamentos do hospital do Texas e no numa cabaa com gua 
e numas folhas secas obtidas de um ancio nu a meio do Amazonas, mas nesta 
viagem tinha aprendido a abrir o seu esprito aos mistrios. Existiam poderes 
sobrenaturais e outras dimenses da realidade, como este tepui
povoado de criaturas de pocas pr-histricas.  verdade. Qua; nada podia 
explicar-se racionalmente, incluindo as Bestas, mi Alex preferiu no o fazer e 
entregou-se simplesmente  esperai a de um milagre.
O conselho dos deuses tinha aceite as advertncias dos jovel forasteiros e do 
sbio Walimai. No sairiam para matar outra nahab. Era uma tarefa intil por 
serem to numerosos como as fo migas e porque viriam outros. As Bestas 
permaneceriam na sI montanha sagrada, onde estavam seguras, pelo menos para j.


Nadia e Alex despediram-se com pesar das grandes preguia No melhor dos casos, 
se tudo corresse bem, a entrada labirntica c tepui nunca seria descoberta e os 
helicpteros tambm no desc riam do ar. Com sorte, passaria outro sculo antes 
que a curtos dade humana chegasse ao ltimo refgio dos tempos pr-histrico 
Caso isso no acontecesse, esperavam pelo menos que a comun dade cientfica 
defendesse aquelas criaturas extraordinrias antes qi a cobia dos aventureiros 
a destrusse. De qualquer forma, no vo tariam a ver as Bestas.
Subiram os degraus que conduziam ao labirinto, quando a noi caa, iluminados 
pela tocha de resina de Walimai. Percorreram se: vacilar o intrincado sistema de 
tneis, que o xam conhecia na pe feio. Nunca deram com um beco sem sada, 
nunca tiveram de r~ troceder ou voltar para trs, porque o feiticeiro tinha o 
mapa grava( na mente. Alex desistiu da ideia de memorizar as voltas porqu mesmo 
que conseguisse record-las e at desenh-las num pape carecia, de qualquer 
forma, de pontos de referncia e seria impo svel situar-se.
Chegaram  caverna maravilhosa onde viram o primeiro dr: go e extasiaram-se 
mais uma vez com as cores das pedras preci~ sas, dos cristais e dos metais que 
brilhavam no seu interior. Era un verdadeira gruta de Ali Bab, com todos os 
tesouros fabulosos qI
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a mente mais ambiciosa poderia imaginar. Alex lembrou-se da pedra verde que 
guardara no bolso e tirou-a para a comparar. No brilho plido da caverna, a 
pedra j no era verde mas amarelada e nessa altura compreendeu que a cor dessas 
gemas era produto da luz e que possivelmente tinham to pouco valor como a mica 
do El Dorado. Tinha feito bem ao rejeitar a tentao de encher a sua cabaa com 
elas, em vez de o fazer com a gua da sade. Guardou a falsa esmeralda como 
recordao: lev-la-ia para a oferecer  me.
O drago alado estava no seu canto, tal como o tinham visto da primeira vez, mas 
com outro mais pequeno e de cores avermelhadas, talvez a sua companheira. No se 
moveram com a presena dos trs seres humanos, nem quando a mulher-esprito de 
Walimai voou para os cumprimentar, esvoaando em redor deles como uma fada sem 
asas.
Desta vez, tal como lhe acontecera na sua peregrinao ao fundo da Terra, Alex 
achou que o regresso era mais curto e fcil, porque j conhecia o caminho e no 
esperava surpresas. No as houve e depois de percorrer a ltima passagem 
encontraram-se na gruta a poucos metros da sada. A, Walimai pediu-lhes que se 
sentassem, abriu um dos seus misteriosos saquinhos e tirou algumas folhas que 
pareciam ser de tabaco. Explicou-lhes rapidamente que tinham de ser limpos 
para apagar a lembrana do que tinham visto. Alex no queria esquecer-se das 
Bestas nem da sua viagem ao fundo da Terra. Nadia tambm no desejava renunciar 
ao que aprendera, mas Walimai garantiu-lhes que se lembrariam de tudo isso, s o 
caminho se apagaria das suas mentes, para que no conseguissem voltar  montanha 
sagrada.
O feiticeiro enrolou as folhas, colando-as com saliva, acendeu-as como um 
cigarro e comeou a fum-lo. Inalava e depois soprava o fumo com fora para a 
boca dos jovens, primeiro para Alex depois para Nadia. No era um tratamento 
agradvel: o fumo, ftido, quente e picante, ia directamente para a zona da 
testa e o
efeito era o de terem aspirado pimenta. Sentiram uma picada agu na cabea, 
desejos incontrolveis de espirrar e depressa ficar enjoados.  mente de Alex 
voltou a sua primeira experincia cc tabaco, quando a sua av Kate se trancou 
com ele no carro a fure at o deixar doente. Desta vez os sintomas eram 
semelhante: alm disso tudo parecia girar  sua volta.
Ento Walimai apagou a tocha. A gruta no recebia o dbil r, de luz que a 
iluminava h alguns dias e, quando entraram, a E curido era total. Os jovens 
deram as mos enquanto Boro gemia assustado, sem largar a cintura da sua dona. 
Os dois jover mergulhados nas trevas, pressentiram monstros  espreita e ou' ram 
alaridos arrepiantes, mas no tiveram medo. Com a pouca l cidez que lhes 
restava, deduziram que aquelas vises aterrador eram o efeito do fumo inalado e 
que, de qualquer forma, enquz to o feiticeiro estivesse com eles, estariam a 
salvo... Instalara: -se no cho, abraados, e, passados alguns minutos, tinham 
perdi a conscincia.
No conseguiram calcular quanto tempo estiveram adorme dos. Acordaram aos poucos 
e, de repente, sentiram a voz de Wa mai chamando-os e as mos dele tacteando 
para encontr-la A gruta j no estava totalmente s escuras, uma suave penuml 
permitia vislumbrar os seus contornos. O xam apontou-lhes a p; sagem estreita 
por onde tinham de sair para o exterior e eles, ain um pouco maldispostos, 
seguiram-no. Saram para o bosque fetos. J tinha amanhecido no Olho do Mundo.
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CAPTULO 17
O pssaro canibal


No dia seguinte, os viajantes iniciaram a marcha de volta a'I pirawa-teri. 
Quando se aproximaram, viram o brilho dos helic teros entre as rvores e 
souberam que a civilizao dos nah, tinha, finalmente, chegado  aldeia. Walimai 
decidiu permanec no bosque. Mantivera-se durante toda a sua vida afastado dos f 
rasteiros e esse no era o momento de alterar os seus hbito O xam, como todo o 
povo da neblina, possua o talento de tc nar-se praticamente invisvel e durante 
anos rondara os naha aproximando-se dos seus acampamentos e povoaes para os o 
servar, sem que ningum suspeitasse da sua existncia. S Na( Santos e o padre 
Valdomero, seu amigo desde os tempos em q o sacerdote vivera com os ndios, o 
conheciam. O feiticeiro tin encontrado a menina cor de mel em vrias das suas 
vises e e tava convencido de que ela era uma enviada dos espritos. Cone 
derava-a da famlia, por isso permitiu que ela o chamasse pelo s nome quando 
estavam sozinhos, por isso lhe contou os mitos e lendas dos ndios, lhe ofereceu 
o seu talism e a conduziu  cio de sagrada dos deuses.
Alex teve um sobressalto de alegria ao ver os helicpteros longe: no estava 
perdido para sempre no planeta das Bestas, poc regressar ao mundo conhecido. 
Calculou que os helicpteros nham percorrido o Olho do Mund durante vrios 
dias, procura do-os. A av devia ter armado uma confuso monumental quan ele 
desapareceu, obrigando o capito Ariosto a sobrevoar aqui

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG:
imensa regio, passando-a  -pente fino. Possivelmente viram o fumo da pira 
funerria de Mokarita e dessa forma descobriram a aldeia.
Walimai explicou aos jovens que esperaria escondido entre as rvores para ver o 
que se passava na aldeia. Alex quis dar-lhe uma lembrana, em troca do remdio 
milagroso para devolver a sade da sua me, e entregou-lhe o seu canivete suo. 
O ndio agarrou naquele objecto metlico pintado de vermelho, sentiu o seu peso 
e a sua estranha forma, sem fazer ideia da sua utilidade. Alex abriu, um por um, 
os canivetes, as pinas, as tesouras, o saca-rolhas, a chave de parafusos, at o 
objecto se transformar num brilhante ourio. Ensinou ao xam o uso de cada uma 
das partes e como abri-las e fech-las.
Walimai agradeceu o obsquio, mas tinha vivido mais de um sculo sem conhecer os 
metais e, francamente, sentia-se um pouco velho para aprender os truques dos 
nahab. Mas no quis ser descorts e pendurou o canivete suo ao pescoo, junto 
dos colares de dentes e dos seus outros amuletos. Depois lembrou a Nadia o grito 
da coruja, que lhes servia para o chamarem, ficando assim em contacto. A 
rapariga entregou-lhe a cesta com os trs ovos de cristal, porque calculou que 
estariam mais seguros nas mos do ancio. No queria aparecer com eles diante 
dos forasteiros, pertenciam ao povo da neblina. Despediram-se e, em menos de um 
segundo, Walimai esfumou-se na Natureza, como uma iluso.
Nadia e Alex aproximaram-se cautelosamente do stio onde tinham aterrado os 
pssaros de rudo e vento, como lhes chamavam os ndios. Esconderam-se entre 
as rvores, onde podiam observar sem serem vistos, embora estivessem longe de 
mais para ouvir com clareza. A meio de Tapirawa-teri estavam os pssaros de 
rudo e vento, trs tendas, um grande toldo e at um fogo a petrleo. Tinham 
estendido um arame de onde pendiam ofertas para atrair os ndios: facas, 
panelas, machados e outros artigos de ao e alumnio, que brilhavam ao sol. 
Viram vrios soldados armados
em atitude de alerta, mas nem rasto dos ndios. O povo da ne na tinha 
desaparecido, como fazia sempre que havia perigo. Aq Ia estratgia fora bastante 
til  tribo, ao contrrio de outros nd que enfrentaram os nahab e foram 
exterminados ou assimilas Aqueles que foram incorporados  civilizao estavam 
transi mados em mendigos, tinham perdido a sua dignidade de guer ros e as suas 
terras, viviam como ratos. Por isso o chefe Moka nunca permitiu que o seu povo 
se aproximasse dos nahab nerr
casse com os seus presentes. Defendia que a troco de um mac te ou de um chapu, 
a tribo esquecia para sempre as suas orige a sua lngua e os seus deuses.
Os dois jovens perguntaram a si prprios o que pretendera aqueles soldados. Se 
faziam parte do plano para eliminar os Inc do Olho do Mundo, era melhor no se 
aproximarem. Lembrava -se de cada uma das palavras da conversa que tinham ouvido 
Santa Maria de Ia Lluvia entre o capito Ariosto e Mauro Caris compreenderam que 
as suas vidas estavam em perigo se ousas intervir.
Comeou a chover, como acontecia duas ou trs vezes por uns aguaceiros 
imprevistos, curtos e violentos, que empapas tudo durante algum tempo e cessavam 
de repente, deixand mundo fresco e limpo. Os dois amigos estavam h quase uma hi 
no seu refgio entre as rvores, observando o acampamento qi; do viram chegar  
aldeia um grupo de trs pessoas, que evide mente tinham ido explorar os 
arredores e voltavam agora a coi molhados at aos ossos. Apesar da distncia, 
reconheceramimediatamente: eram Kate Cold, Csar Santos e o fotgrafo Tis thy 
Bruce. Nadia e Alex no conseguiram evitar uma exclama de alvio: isso 
significava que o professor Leblanc e a dou Omayra Torres tambm andavam perto. 
Com a presena dele: aldeia, o capito Ariosto e Mauro Carias no poderiam 
recorre balas para tirar os ndios - ou eles - do meio.
230

ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGI
Os jovens abandonaram d seu esconderijo e aproximaram-se cautelosamente de 
Tapirawa-teri, mas tinham andado pouco quando foram vistos pelas sentinelas e 
imediatamente cercados. O grito de alegria de Kate Cold quando viu o seu neto s 
foi comparvel ao de Csar Santos quando viu a filha. Os dois correram ao 
encontro dos jovens, que vinham cobertos de arranhes e de ndoas negras, 
imundos, com a roupa em farrapos e extenuados. Alm disso, Alexander parecia 
diferente com um corte de cabelo como o dos ndios, que deixava exposto o 
cocuruto, onde tinha um grande corte coberto por uma crosta seca. Santos 
levantou Nadia nos seus braos robustos e apertou-a com tanta fora que quase 
partiu as costelas de Borob, metido no mesmo abrao. Kate Cold, pelo contrrio, 
conseguiu controlar a vaga de afecto e de alvio que sentia. Mal teve o neto ao 
alcance da mo, pespegou-lhe uma bofetada na cara.
- Isto  pelo susto que nos fizeste passar, Alexander. Da prxima vez que 
desapareceres da minha vista, mato-te - disse a av. Como resposta, Alex 
abraou-a.
Os restantes apareceram imediatamente: Mauro Carias, o capito Ariosto, a 
doutora Omayra Torres e o inefvel professor Leblanc, que estava coberto por 
picadas de abelhas. O ndio Karakawe, carrancudo como sempre, no deu mostras de 
surpresa ao ver os jovens.
- Como chegaram vocs at aqui? O acesso a este stio  impossvel sem um 
helicptero - disse o capito Ariosto.
Alex contou resumidamente a sua aventura com o povo da neblina, sem dar 
pormenores nem explicar por onde tinham subido. Tambm no mencionou a sua 
viagem com Nadia ao tepui sagrado. Imaginou que no traa nenhum segredo, uma 
vez que os nahab j sabiam da existncia da tribo. Havia sinais evidentes de que 
a aldeia tinha sido abandonada pelos ndios apenas h algumas horas: a mandioca 
estava nos canastros, as brasas ainda estavam mornas nas pequenas fogueiras, a 
carne da ltima caada enchia-se de moscas na cabana dos solteiros, algumas 
mascotes domsticas ainda
rondavam por ali. Os soldados tinham matado a machete as ar
zveis boas e os seus corpos mutilados apodreciam ao sol.
- Onde esto os ndios? - perguntou Mauro Carias. - Foram para longe - respondeu 
Nadia.
- No creio que andem muito longe com as mulheres, as cri;
as e os velhos. No podem desaparecer sem deixar rasto.
- So invisveis.
- Falemos a srio, menina! - exclamou ele. - Eu falo sempre a srio.
- Vais dizer-me que essa gente tambm voa como as bruxa - No voam, mas correm 
muito depressa - esclareceu e - Tu consegues falar a lngua desses ndios, 
linda? - O meu nome  Nadia Santos. - Bom, Nadia Santos, consegues falar com 
eles ou no?
insistiu Carias, impaciente.
- Sim.
A doutora Omayra Torres interveio para explicar a nece
dade imperiosa de vacinar a tribo. A aldeia tinha sido descobel
era inevitvel que dentro de um prazo muito curto houvesse cc
tacto com os forasteiros.
- Como sabes, Nadia, sem querer podemos contagi-los c,
doenas mortais para eles. H tribos inteiras que pereceram nu
questo de dois ou trs meses por causa de uma constipao. O m
grave  o sarampo. Tenho as vacinas, posso imunizar estes pob
ndios. Assim ficaro protegidos. Podes ajudar-me? - suplico
bela mulher.
- Tentarei - prometeu a rapariga.
- Como consegues comunicar com a tribo? - Ainda no sei. Tenho de pensar.
Alexander Cold transferiu a gua da sade para uma garre com uma tampa hermtica 
e colocou-a cuidadosamente no saco. A av viu-o e quis saber o que estava a 
fazer.
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
-  a gua para curar a alinha me - disse ele. - Encontrei a fonte da eterna 
juventude, aquela que tantos outros procuraram durante sculos, Kate. A minha 
me vai ficar boa.
Pela primeira vez desde que o rapaz conseguia recordar-se, a av tomou a 
iniciativa de lhe fazer um carinho. Ele sentiu os seus braos magros e 
musculosos envolvendo-o, o seu cheiro a tabaco de cachimbo, o seu cabelo grosso 
cortado s tesouradas, a sua pele seca e spera como couro de sapato. Ouviu a 
sua voz rouca dizendo o seu nome e desconfiou de que talvez a av o amasse um 
bocadinho, afinal de contas. Assim que Kate Cold se apercebeu do que fazia, 
separou-se bruscamente, empurrando-o na direco da mesa, onde Nadia o esperava. 
Os dois jovens, esfomeados e fatigados, atacaram os feijes, o arroz, o po de 
mandioca e uns peixes meio carbonizados e cheios de espinhas. Alex devorou com 
um apetite feroz, diante dos olhos surpreendidos de Kate Cold, que sabia como o 
seu neto era esquisito com a comida.
Depois de comer, os dois amigos foram tomar um longo banho no rio. Sabiam estar 
rodeados por ndios invisveis, que seguiam da mata cada movimento dos nahab. 
Enquanto chapinhavam na gua, sentiam os olhos dos ndios postos em si como se 
estes os tocassem com as mos. Concluram que estes no se aproximavam devido  
presena dos desconhecidos e dos helicpteros, que tinham avistado no cu, mas 
que nunca tinham visto de to perto. Tentaram afastar-se um pouco pensando que, 
se estivessem ss, o povo da neblina se mostraria, mas havia muito movimento na 
aldeia e foi-lhes impossvel internarem-se no bosque sem chamar a ateno. 
Felizmente, os soldados no se atreviam a afastar-se nem um passo do acampamento 
porque as histrias sobre a Besta e a forma como estripara um dos seus 
companheiros os mantinha aterrorizados. Ningum tinha explorado anteriormente o 
Olho do Mundo e todos tinham ouvido falar dos espritos e dos demnios que 
rondavam aquela regio. Temiam menos os ndios, porque tinham as suas armas de 
fogo e eles prprios tinham sangue ndio nas veias.
Ao anoitecer, todos menos as sentinelas de turno, sentara -se em grupos em redor 
de uma fogueira a fumar e a beber. O a biente era lgubre e algum pediu um 
pouco de msica p, levantar os nimos. Alex teve de admitir que tinha perdido a 
i lebre flauta de Joseph Cold, mas no podia dizer onde sem mf cionar a sua 
aventura no interior do tepui. A av lanou-lhe i olhar assassino, mas no disse 
nada, pressentindo que o neto 1 escondia muitas coisas. Um soldado puxou de uma 
harmnic tocou algumas melodias populares, mas as suas boas intenes c ram no 
vazio. O medo apoderara-se de todos.
Kate Cold levou os jovens  parte para lhes contar o que acc tecera na sua 
ausncia, depois de os ndios os terem levado. Que do se aperceberam de que eles 
se tinham evaporado, iniciarr imediatamente a busca e, munidos de lanternas, 
foram pelo bosc chamando por eles durante quase toda a noite. Leblanc contribi 
para a angstia geral com outro dos seus sagazes prognsticos: nham sido 
arrastados pelos ndios e nesse momento com certf estariam a com-los assados no 
espeto. O professor aprovei para os ilustrar sobre a forma como os ndios 
caribes cortavam 1 daos dos prisioneiros vivos para os devorarem.  verdade, 
adi tiu, que no estavam entre caribes, que tinham sido civilizados exterminados 
h mais de cem anos, mas nunca se sabe a que d tncia chegam as influncias 
culturais. Csar Santos tinha esta prestes a atirar-se aos socos contra o 
antroplogo.
Pela tarde do dia seguinte apareceu finalmente um helic ro de resgate. O barco 
com o desgraado Joel Gonzlez tinha cl gado sem novidades a Santa Maria de Ia 
Liuvia, onde as freiras hospital se encarregaram de o tratar. Matuwe, o guia 
ndio, con guiu ajuda e ele prprio acompanhou o helicptero, onde viaj, o 
capito Ariosto. O seu sentido de orientao era to surpreende que, sem nunca 
ter voado, conseguiu orientar-se na intermin extenso verde da selva e indicar 
com exactido o stio onde a exj dio da International Geographic esperava. 
Assim que descera
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAG
Kate Cold obrigou o militar  pedir mais reforos pelo rdio, de modo a 
organizar a busca sistemtica dos jovens desaparecidos.
Csar Santos interrompeu a escritora para acrescentar que ela tinha ameaado o 
capito Ariosto com a imprensa, a embaixada americana e at com a CIA, se este 
no cooperasse. Desta forma conseguiu o segundo helicptero, onde vieram mais 
soldados e tambm Mauro Carias. No pensava sair dali sem o neto, tinha 
garantido, nem que tivesse de percorrer o Amazonas a p.
- A srio que disseste isso, Kate? - perguntou Alex, divertido.
- No por ti, Alexander. Por uma questo de princpios - grunhiu ela.
Nessa noite, Nadia Santos, Kate Cold e Omayra Torres ocuparam uma tenda, Ludovic 
Leblanc e Timothy Bruce outra, Mauro Carias a sua, e o resto dos homens 
instalou-se em redes entre as rvores. Puseram guardas nos quatro lados do 
acampamento e mantiveram acesos candeeiros a petrleo. Embora ningum o tivesse 
mencionado em voz alta, calcularam que assim manteriam a Besta afastada. As 
luzes convertiam-nos em alvos fceis para os ndios, mas, at  data as tribos 
nunca tinham atacado na escurido, porque receavam os demnios nocturnos que 
fogem dos pesadelos humanos.
Nadia, que tinha um sonho leve, dormiu algumas horas e acordou depois da meia-
noite com os roncos de Kate Cold. Depois de comprovar que a doutora tambm no 
se mexia, ordenou a Borob que permanecesse quieto e deslizou silenciosamente 
para fora da tenda. Tinha observado com muita ateno o povo da neblina, 
decidida a imitar a sua capacidade de passar despercebida, descobrindo assim que 
no consistia apenas em camuflar o corpo, mas tambm numa vontade frrea de se 
tornar imaterial e desaparecer. Requeria concentrao para atingir o estado 
mental de invisibilidade,
no qual era possvel colocar-se a um metro de outra pessoa s ser visto. Sabia 
que tinha atingido esse estado quando sentia o corpo muito leve, parecendo 
depois dissolver-se, apagar-se de to Precisava de manter o seu objectivo sem se 
distrair, sem perm que os nervos a trassem, nica forma de permanecer oculta 
pera os outros. Ao sair da sua tenda teve de passar a pouca distncia i guardas 
que rondavam o acampamento, mas f-lo sem nenh temor, protegida por esse 
extraordinrio campo mental que ti criado  sua volta.
Assim que se sentiu segura no bosque, vagamente ilumine pela Lua, imitou o canto 
da coruja duas vezes e esperou. Alg tempo depois, sentiu ao seu lado a presena 
silenciosa de W mai. Pediu ao feiticeiro que falasse com o povo da neblina p o 
convencer a aproximar-se do acampamento e a vacinar-se. b podiam esconder-se 
indefinidamente nas sombras das rvor disse, e se tentassem construir uma nova 
aldeia, seriam descober pelos pssaros de rudo e vento. Prometeu-lhe que 
manteria Rahakanariwa  distncia e que o Jaguar negociaria com os nah Contou-
lhe que o amigo tinha uma av poderosa, mas no tens explicar-lhe o valor de 
escrever e publicar na imprensa, calcu que o xam no entenderia a que se 
referia, porque desconheci escrita e nunca vira uma pgina impressa. Limitou-se 
a dizer c essa av tinha muita magia no mundo dos nahab, embora a magia de pouco 
servisse no Olho do Mundo.
Por outro lado, Alexander Cold deitou-se numa rede ao livre, um pouco afastado 
dos outros. Tinha esperana de que, c rante a noite, os ndios comunicassem com 
ele, mas adormec como uma pedra. Sonhou com o jaguar negro. O encontro cor seu 
animal totmico foi to claro e preciso que, no dia seguir. no tinha a certeza 
se o tinha sonhado ou se, na realidade, acc tecera. No sonho, levantava-se da 
sua rede e afastava-se caute samente do acampamento, sem ser visto pelas 
sentinelas. Ao eni no bosque, fora do alcance da luz da fogueira e dos 
candeeiros
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ISABEL ALLENDE
A CIDADE DOS DEUSES SELVAGE
petrleo, via o felino negro deitado num ramo grosso de um enorme castanheiro, a 
sua cauda balanando no ar, os seus olhos brilhando na noite como topzios 
deslumbrantes, tal como tinha aparecido na sua viso, quando bebera a poo 
mgica de Walimai. Com os seus dentes e garras podia esquartejar um jacar, com 
os seus msculos poderosos corria como o vento, com a sua fora e coragem podia 
enfrentar qualquer inimigo. Era um animal magnfico, rei das feras, filho do Sol 
Pai, prncipe da mitologia da Amrica. No sonho o rapaz parava a poucos passos 
do jaguar e, tal como no seu primeiro encontro no acampamento de Mauro Carias, 
ouvia a voz cavernosa saudando-o pelo seu nome: Alexander... Alexander... A voz 
ecoava no seu crebro como um gigantesco gongo de bronze, repetindo sem parar o 
seu nome. O que significaria o sonho? Qual seria a mensagem que o jaguar negro 
queria transmitir-lhe?
Acordou quando j todos no acampamento estavam de p. O sonho realista da noite 
anterior angustiava-o, tinha a certeza de que continha uma mensagem, mas no 
conseguia decifr-lo. A nica palavra que o jaguar tinha dito nas suas aparies 
fora o seu nome, Alexander. Nada mais. A av aproximou-se com uma almoadeira de 
caf com leite condensado, uma coisa que antigamente no teria provado, mas que 
agora lhe parecia um pequeno-almoo delicioso. Num impulso, contou-lhe o sonho.
- Defensor dos homens - disse-lhe a av.
- O qu?
-  o significado do teu nome. Alexander  um nome grego e quer dizer defensor.
- Por que me deram esse nome, Kate?
- Por mim. Os teus pais queriam chamar-te Joseph, como o teu av, mas eu insisti 
em chamar-te Alexander, como o grande guerreiro da Antiguidade. Atirmos uma 
moeda ao ar e eu ganhei. Por isso tens esse nome - explicou Kate.
- Como te ocorreu que eu devia ter esse nome?
- H muitas vtimas e causas nobres para defender ne
mundo, Alexander. Um bom nome de guerreiro ajuda a lutar pi
justia.
- Vais ter uma decepo comigo, Kate. No sou um her - Veremos - replicou ela, 
passando-lhe a almoadeira.


A sensao de serem observados por centenas de olhos pun todos nervosos no 
acampamento. Em anos recentes, vrios func nrios do governo, enviados para 
ajudar os ndios, tinham sido sassinados pelas mesmas tribos que pretendiam 
proteger. s ver o primeiro contacto era cordial, trocavam presentes e comida, n 
de sbito os ndios empunhavam as suas armas e atacavam surpresa. Os ndios eram 
imprevisveis e violentos, disse o ca to Ariosto, que estava totalmente de 
acordo com as teorias de I blanc, por isso no podemos baixar a guarda, temos de 
permanei sempre alerta. Nadia interveio para dizer que o povo da neblina 
diferente, mas ningum lhe deu ateno.
A doutora Omayra Torres explicou que durante os ltimos c anos o seu trabalho de 
mdica tinha sido principalmente entre 1 bos pacificadas; nada sabia sobre esses 
ndios que Nadia chan va povo da neblina. Em todo o caso, esperava ter mais 
sorte q no passado e conseguir vacin-los antes de se contagiarem. Admi que em 
vrias ocasies anteriores as suas vacinas chegaram den siado tarde. Injectava-
os e, de qualquer forma, adoeciam passas poucos dias e morriam s centenas.
Nessa altura, j Ludovic Leblanc perdera por completo a 1 cincia. A sua misso 
fora intil, teria de regressar com as mi vazias, sem notcias da famosa Besta 
do Amazonas. O que diria editores da International Geographic? Que um soldado 
morrera d pedaado em circunstncias misteriosas, que tinham sido expos a um 
odor bastante desagradvel e que ele cara involuntariamE te no excremento de um 
animal desconhecido? Francamente, r,
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eram provas muito convinceites da existncia da Besta. Tambm no tinha nada a 
acrescentar sobre os ndios da regio, porque nem sequer os tinha avistado. 
Tinha perdido o seu tempo miseravelmente. No via a hora de regressar  sua 
universidade, onde o tratavam como um heri e estaria a salvo das picadas das 
abelhas e de outras incomodidades. A sua relao com o grupo deixava muito a 
desejar e com Karakawe era um desastre. O ndio contratado como seu assistente 
pessoal deixou de abanic-lo com a folha de bananeira assim que saram de Santa 
Mara de Ia Lluvia e, em vez de servi-lo, dedicou-se a tornar-lhe a vida mais 
dificil. Leblanc acusou-o de pr um escorpio vivo no seu saco e um lagarto 
morto no seu caf e tambm de o ter levado de m-f ao stio onde as abelhas o 
picaram. Os outros membros da expedio toleravam o professor porque era muito 
pitoresco e podiam troar dele  vontade sem que ele se desse por achado. 
Leblanc levava-se to a srio que no conseguia imaginar que os outros no o 
fizessem.
Mauro Carias enviou grupos de soldados explorarem em todas as direces. Os 
homens partiram de m vontade e regressaram rapidamente, sem notcias da tribo. 
Tambm sobrevoaram a zona com os helicpteros, apesar de Kate Cold lhes fazer 
ver que o rudo assustaria os ndios. A escritora aconselhou a esperar com 
pacincia: mais cedo ou mais tarde regressariam  sua aldeia. Tal como Leblanc, 
ela estava mais interessada na Besta que nos indgenas, porque tinha de escrever 
o seu artigo.
- Sabes alguma coisa sobre a Besta que no me tenhas dito, Alexander? - 
perguntou ao neto.
- Pode ser e pode no ser... - respondeu o rapaz, sem se atrever a olh-la de 
frente.
- Que raio de resposta  essa?
Por volta do meio-dia, o acampamento ficou em alerta: uma figura tinha sado do 
bosque e aproximava-se timidamente. Mauro Carias fez-lhe sinais amistosos 
chamando-a, depois de ordenar aos soldados que retrocedessem, para no a 
assustar. O fotgrafo
Timothy Bruce passou a mquina fotogrfica a Kate Cold e ele ag rou na mquina 
de filmar: o primeiro contacto com uma tribo i uma ocasio nica. Nadia e Alex 
reconheceram imediatamente visitante: era Iyomi, chefe dos chefes de Tapirawa-
teri. Vinha nua, incrivelmente velha, toda enrugada e sem dentes, apoiada m pau 
torcido que lhe servia de bordo e com o chapu redondo penas amarelas enfiado 
at s orelhas. Passo a passo aproximo -se, perante o estupor dos nahab. Mauro 
Carias chamou Ka kawe e Matuwe para lhes perguntar se conheciam a tribo  qi 
pertencia aquela mulher, mas nenhum dos dois conhecia. Nadia cl gou-se  frente.
- Eu posso falar com ela - disse.
- Diz-lhe que no lhe faremos mal, somos amigos do povo, que venham ver-nos sem 
as suas armas, porque temos m tos presentes para ela e para os outros - disse 
Mauro Carias.
Nadia traduziu livremente, sem mencionar a parte das arm que no lhe pareceu uma 
boa ideia, considerando a quantidade armas dos soldados.
- No queremos ofertas dos nahab, queremos que saiam Olho do Mundo - replicou 
Iyomi com firmeza.
-  intil, no sairo - explicou Nadia  velhota.
- Nesse caso, os meus guerreiros mat-los-o.
- Viro mais, muitos mais, e morrero todos os teus guen ros.
- Os meus guerreiros so fortes, estes nahab no tm are nem flechas, so 
pesados, torpes, de cabea mole e, alm dis assustam-se como crianas.
- A guerra no  soluo, chefe dos chefes. Devemos ne; ciar - suplicou Nadia.
- Que diacho est a dizer esta velha? - perguntou Cai impaciente porque a 
rapariga deixara de traduzir h algum tem
- Diz que o seu povo no come h vrios dias e tem mi fome - inventou Nadia no 
momento.
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- Diz-lhe que lhes daremos toda a comida que quiserem.
- Tm medo das armas - acrescentou ela, embora na realidade os ndios nunca 
tivessem visto uma pistola ou uma espingarda e no suspeitassem do seu poder 
mortfero.
Mauro Carias deu uma ordem aos homens para deporem as armas como sinal de boa 
vontade, mas Leblanc, apavorado, interveio para recordar-lhes que os ndios 
costumavam atacar  traio. Tendo isso em vista, largaram as metralhadoras mas 
mantiveram as pistolas na cintura. Iyomi recebeu uma taa de carne com milho das 
mos da doutora Omayra Torres e afastou-se por onde tinha vindo. O capito 
Ariosto quis segui-la, mas em menos de um minuto ela esfumara-se na vegetao.
Esperaram o resto do dia esquadrinhando a mata sem ver ningum, enquanto 
aguentavam as advertncias de Leblanc, que esperava um contingente de canibais 
dispostos a cair-lhes em cima. O professor, armado at aos dentes e rodeado de 
soldados, tinha ficado trmulo depois da visita de uma bisav nua com um chapu 
de penas amarelas. As horas decorreram sem incidentes, exceptuando um momento de 
tenso que ocorreu quando a doutora Omayra Torres surpreendeu Karakawe metendo 
as mos nas suas caixas de vacinas. No era a primeira vez que isso acontecia. 
Mauro Carias interveio para avisar o ndio que, se voltasse a v-lo perto dos 
medicamentos, o capito Ariosto o prenderia imediatamente.
 tarde, quando j desconfiavam de que a velhota no regressaria, toda a tribo 
do povo da neblina se materializou diante do acampamento. Primeiro vieram as 
mulheres e as crianas, impalpveis, tnues e misteriosas. Demoraram alguns 
segundos a ver os homens, que na realidade tinham chegado primeiro e se tinham 
colocado em semicrculo. Surgiram do nada, mudos e soberbos, encabeados por 
Tahama, pintados para a guerra com o vermelho do
urucu, o preto do carvo, o branco da cal, e o verde das plantas, d corados com 
penas, dentes, garras e sementes, com todas as arm, na mo. Estavam a meio do 
acampamento, mas o seu mimetisn com o ambiente que os rodeava era tal que se 
tomava necessr focar a vista para os ver com nitidez. Eram leves, etreos, par 
ciam desenhados na paisagem, mas no havia dvidas de que tar bm eram ferozes.
Por longos minutos os dois grupos observaram-se mutuame te. em silncio, de um 
lado os ndios transparentes e do outro perplexos forasteiros. Por fim, Mauro 
Carias acordou do transe ps-se em aco, dando instrues aos soldados para 
servirem c mida e repartirem ofertas. Com pena, Alex e Nadia viram as m lheres e 
as crianas receberem as bugigangas com que pretendia atra-los. Sabiam que 
dessa forma, com esses inocentes present( comeava o fim das tribos. Tahama e os 
seus guerreiros manti% ram-se de p, alerta, sem largar as armas. O mais 
perigoso era os seus grossos garrotes, com os quais podiam arremeter num gundo, 
ao passo que apontar uma flecha demorava mais, dan tempo aos soldados de 
disparar.
- Explica-lhes o assunto das vacinas, linda - ordenou Mau Carias  rapariga.
- Nadia, chamo-me Nadia Santos - repetiu ela.
-  para o bem deles, Nadia, para os proteger - acresce tou a doutora Omayra 
Torres. - Tero medo das agulhas, mas realidade di menos que uma picadela de 
mosquito. Talvez os I mens queiram ser os primeiros, para dar o exemplo s 
mulhere s crianas...
- Por que no d voc o exemplo? - perguntou Nadia a M, ro Carias.
O sorriso perfeito, sempre presente no rosto bronzeado do e presrio, apagou-se 
diante do desafio da rapariga e uma express de completo terror cobriu-lhe os 
olhos por momentos. Alex,  observava a cena, pensou que era uma reaco 
exagerada. Sal
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGENS
que havia pessoas que receavam as injeces, mas a cara de Carias era a de quem 
tinha visto o Drcula.
Nadia traduziu e aps longas discusses, nas quais o nome de Rahakanariwa surgiu 
muitas vezes, Iyomi aceitou pensar no assunto e consultar a tribo. Estavam 
nisso, a meio das conversaes sobre as vacinas, quando de sbito Iyomi murmurou 
uma ordem, imperceptvel para os forasteiros, e de imediato o povo da neblina se 
esfumou to rapidamente como tinha aparecido. Retiraram-se para o bosque como 
sombras, sem que se ouvisse um passo, uma palavra ou um nico choro de beb. 
Durante o resto da noite os soldados de Ariosto montaram guarda, esperando um 
ataque a qualquer momento.
Nadia acordou  meia-noite ao sentir a doutora Omayra Torres sair da tenda. 
Calculou que iria fazer as suas necessidades entre os arbustos, mas teve um 
pressentimento e decidiu segui-la. Kate Cold roncava com o sono profundo que a 
caracterizava e no se apercebeu das movimentaes das suas companheiras. 
Silenciosa como um gato, recorrendo ao talento recm-adquirido para se tomar 
invisvel, avanou. Escondida atrs de uns fetos, viu a silhueta da mdica  luz 
tnue da lua. Um minuto mais tarde, aproximou-se uma segunda figura que, perante 
a surpresa de Nadia, agarrou na mdica pela cintura e a beijou.
- Tenho medo - disse ela.
- No tenhas receio, meu amor. Tudo correr bem. Em poucos dias teremos acabado 
aqui e poderemos regressar  civilizao. J sabes que preciso de ti...
- A srio que me amas?
- Claro que sim. Adoro-te, far-te-ei muito feliz, ters tudo o que desejares.
Nadia regressou furtivamente  tenda, deitou-se na sua esteira e fingiu-se 
adormecida.
O homem que estava com a doutora Omayra Torres era Mauro Carias.


Pela manh, o povo da neblina regressou. As mulheres traziam cestas com fruta e 
um grande tapir morto para retriburem as ofertas recebidas no dia anterior. A 
atitude dos guerreiros parecia mais descontrada e, embora no largassem os seus 
garrotes, demonstraram a mesma curiosidade das mulheres e das crianas. Olhavam, 
de longe e sem se aproximarem, os extraordinrios pssaros de rudo e vento, 
tocavam na roupa e nas armas dos nahab, remexiam nos seus pertences, metiam-se 
nas tendas, posavam para as cmaras, penduravam os colares de plstico ao 
pescoo e experimentavam os machetes e facas, maravilhados.
A doutora Omayra Torres considerou que o clima era adequado para iniciar o seu 
trabalho. Pediu a Nadia que explicasse mais uma vez aos ndios a necessidade 
imperiosa de se protegerem contra as epidemias, mas estes no estavam 
convencidos. A nica razo pela qual o capito Ariosto no os obrigou  bala, 
foi a presena de Kate Cold e Timothy Bruce. No podia recorrer  fora bruta 
diante da imprensa, tinha de manter as aparncias. No teve outro remdio seno 
esperar com pacincia as eternas discusses entre Nadia Santos e a tribo. A 
incongruncia de os matar a tiro para impedir que morressem de sarampo no 
cruzou a mente do capito.
Nadia lembrou aos ndios que tinha sido nomeada por Iyomi chefe para aplacar o 
Rahakanariwa, que costumava castigar os humanos com terrveis epidemias, de modo 
que deviam obedecer-lhe. Ofereceu-se para ser a primeira a submeter-se  
picadela da vacina, mas isso foi considerado ofensivo para Tahama e para os seus 
guerreiros. Eles seriam os primeiros, acabaram por dizer. Com um suspiro de 
satisfao, ela traduziu a deciso do povo da neblina.
A doutora Omayra Torres mandou colocar uma mesa  sombra e espalhou as suas 
seringas e os seus frascos, enquanto Mauro
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Caras tentava organizar a tribo numa fila, garantindo-se desta forma que no 
ficava ningum por vacinar.
Entretanto Nadia levou Alex  parte para lhe contar o que tinha presenciado na 
noite anterior. Nenhum dos dois soube interpretar aquela cena, mas sentiram-se 
vagamente trados. Como era possvel que a doce Omayra Torres mantivesse uma 
relao com Mauro Caras, o homem que levava o seu corao numa malinha? 
Deduziram que sem dvida Mauro Carias seduzira a boa mdica. No diziam que 
tinha muito sucesso com as mulheres? Nadia e Alex no viam qualquer atractivo 
naquele homem, mas calcularam que os seus modos e o seu dinheiro poderiam 
enganar os outros. A notcia cairia como uma bomba entre os admiradores da 
mdica: Csar Santos, Timothy Bruce e at o professor Ludovic Leblanc.
- Isto no me agrada nada - disse Alex.
- Tu tambm ests ciumento? - troou Nadia.
- No! - exclamou ele indignado. - Mas sinto alguma coisa aqui no peito, um peso 
enorme.
-  por causa da viso que partilhmos na cidade de ouro, lembras-te? Quando 
bebemos a poo dos sonhos colectivos de Walimai, todos sonhmos o mesmo, at as 
Bestas.
-  verdade. Esse sonho parecia-se com outro que tive antes de comear esta 
viagem: um abutre enorme raptava a minha me e levava-a voando. Nessa altura 
interpretei-o como a doena que ameaava a sua vida, pensei que o abutre 
representava a morte. No tepui sonhmos que o Rahakanariwa partia a caixa onde 
estava prisioneiro e que os ndios estavam amarrados s rvores, lembras-te?
- Sim, e os nahab usavam mscaras. O que significam as mscaras, Jaguar?
- Segredo, mentira, traio.
- Por que achas que Mauro Carias tem tanto interesse em vacinar os ndios?
A pergunta ficou no ar como uma flecha parada em pleno voo. Os dois jovens 
entreolharam-se horrorizados. Num instante
de lucidez compreenderam a terrvel armadilha em que todos tinham cado: o 
Rahakanariwa era a epidemia. A morte que ameaava a tribo no era um pssaro 
mitolgico, mas uma coisa muito mais concreta e imediata. Correram at ao centro 
da aldeia, onde a doutora Omayra Torres apontava a agulha da sua seringa ao 
brao de Tahama. Sem pensar, Alex lanou-se como um blide contra o guerreiro, 
atirando-o de costas para o cho. Tahama levantou-se de um salto e ergueu o 
garrote para esmagar o rapaz como uma barata, mas um grito de Nadia deteve a 
arma no ar.
-No! No! A est o Rahakanariwa! - gritou ela apontando para os frascos das 
vacinas.
Csar Santos pensou que a filha enlouquecera e tentou agarr-la, mas ela 
libertou-se dos seus braos e foi a correr juntar-se a Alex, guinchando e dando 
palmadas contra Mauro Caras, que se interps no seu caminho. Tentava explicar 
aos ndios, a toda a pressa, que se tinha enganado, que as vacinas no os 
salvariam, pelo contrrio, mat-los-iam, porque o Rahakanariwa estava na
seringa.
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CAPTULO 18
Manchas de sangue


A doutora Omayra Torres no perdeu a calma. Disse que tudo aquilo era uma 
fantasia dos jovens, o calor transtornara-os, e ordenou ao capito Ariosto que 
os levasse. Seguidamente, disps-se a prosseguir com a sua tarefa interrompida, 
apesar de nessa altura os nimos da tribo se terem alterado completamente. Nesse 
momento, quando o capito Ariosto estava pronto para impor a ordem aos tiros, 
enquanto os soldados agarravam Nadia e Alex, Karakawe, que no tinha pronunciado 
mais do que meia dzia de palavras em toda a viagem, avanou.
- Um momento! - exclamou.
Perante a perplexidade geral, aquele homem anunciou que era funcionrio do 
Departamento de Proteco do Indgena e explicou pormenorizadamente que a sua 
misso consistia em averiguar por que razo pereciam em massa tribos do 
Amazonas, sobretudo aquelas que viviam perto das jazidas de ouro e diamantes. 
Suspeitava h muito tempo de Mauro Carias, o homem que mais beneficiara 
explorando a regio.
- Capito Ariosto, requisite as vacinas! - ordenou Karakawe. - Farei com que 
sejam examinadas num laboratrio. Se tiver razo, esses frascos no contm 
vacinas, mas uma dose mortal do vrus do sarampo.
Como nica resposta, o capito Ariosto apontou a sua arma e disparou para o 
peito de Karakawe. O funcionrio caiu morto instantaneamente. Mauro Carias 
empurrou a doutora Omayra Torres,
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tirou a sua arma e, no instante em que Csar Santos corria para cobrir a mulher 
com o seu corpo, esvaziou a pistola nos frascos alinhados em cima da mesa, 
fazendo-os em fanicos. O lquido espalhou-se pela terra.
Os acontecimentos precipitaram-se com tal violncia que, mais tarde, ningum 
conseguiu descrev-los com preciso, cada um tinha uma- verso diferente. A 
mquina de filmar de Timothy Bruce registou parte dos factos e o resto ficou na 
mquina fotogrfica de Kate Cold.
Ao ver os frascos destrudos, os ndios julgaram que o Rahakanariwa tinha fugido 
da sua priso e voltaria  sua forma de pssaro canibal para os devorar. Antes 
que algum conseguisse impedi-lo, Tahama lanou um grito arrepiante e 
descarregou uma bordoada na cabea de Mauro Caras, que caiu no cho como um 
saco de batatas. O capito Ariosto voltou a sua arma para Tahama, mas Alex 
atirou-se contra as suas pernas e o macaco de Nadia, Borob, saltou-lhe para a 
cara. As balas do capito perderam-se no ar, dando tempo a Tahama de retroceder, 
protegido pelos seus guerreiros, que j tinham empunhado os arcos.
Nos escassos segundos que os soldados demoraram a organizar-se e a empunhar as 
suas pistolas, a tribo dispersou-se. As mulheres e as crianas fugiram como 
esquilos, desaparecendo na vegetao, e os homens conseguiram atirar vrias 
flechas antes de fugirem tambm. Os soldados disparavam s cegas, enquanto Alex 
ainda lutava no cho com Ariosto, ajudado por Nadia e Borob. O capito deu-lhe 
uma pancada no maxilar com a coronha da pistola que o deixou meio aturdido, 
depois livrou-se de Nadia e do macaco  bofetada. Kate Cold correu para socorrer 
o neto, arrastando-o para fora do centro do tiroteio. Com a gritaria e a 
confuso, ningum ouvia as ordens de comando de Ariosto.
Em poucos minutos a aldeia estava manchada de sangue: havia trs soldados 
feridos por flechas e vrios ndios mortos, alm do cadver de Karakawe e do 
corpo inerte de Mauro Carias. Uma
mulher cara trespassada pelas balas e o beb que trazia ao colo ficou jogado no 
cho a um passo dela. Ludovic Leblanc, que desde o aparecimento da tribo se 
tinha mantido a uma distncia prudente, entrincheirado atrs de uma rvore, teve 
uma reaco inesperada. At essa altura comportara-se como um feixe de nervos, 
mas ao ver o beb exposto  violncia, arranjou coragem nalgum stio, atravessou 
a correr o campo de batalha e ps ao colo a pobre criana. Era um beb de poucos 
meses, salpicado com o sangue da me e guinchando desesperado. Leblanc ficou 
ali, a meio do caos, apertando-o com fora contra o peito e tremendo de fria e 
perplexidade. Os seus piores pesadelos tinham-se invertido: os selvagens no 
eram os ndios, eram eles. Por fim, aproximou-se de Kate Cold, que tentava 
limpar a boca do neto com um pouco de gua, e entregou-lhe a criana.
- Vamos, Cold, voc  mulher, saber o que fazer com isto - disse-lhe.
A escritora, surpreendida, recebeu o beb agarrando-o com os braos estendidos, 
como se fosse um vaso. H tantos anos que no tinha uma criana nos braos que 
no sabia o que fazer com ela.
Nessa altura, Nadia conseguira levantar-se e observava o campo coberto de 
corpos. Aproximou-se dos corpos dos ndios, tentando reconhec-los, mas o pai 
obrigou-a a retroceder, abraando-a, chamando-a pelo nome, murmurando palavras 
tranquilizadoras. Nadia conseguiu ver que lyomi e Tahama no estavam entre os 
cadveres e pensou que pelo menos o povo da neblina ainda dispunha de dois dos 
seus chefes, porque os outros dois, guia e Jaguar, tinham falhado.
- Ponham-se todos contra essa rvore! - ordenou o capito Ariosto aos 
expedicionrios. O militar estava lvido, com a arma a tremer-lhe na mo. As 
coisas tinham sado muito mal.
Kate Cold, Timothy Bruce, o professor Leblanc e os dois jovens obedeceram-lhe. 
Alex tinha um dente partido, a boca cheia
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de sangue e ainda estava apalermado pela coronhada na boca. Nadia parecia em 
estado de choque, com um grito engasgado no peito e os olhos fixos nos ndios 
mortos e nos soldados que gemiam atirados pelo cho. A doutora Omayra Torres, 
alheia a tudo o que a rodeava e banhada em lgrimas, segurava sobre as suas 
pernas a cabea de Mauro Carias. Beijava-lhe o rosto pedindo-lhe para no 
morrer, para no a deixar, enquanto a sua roupa se empapava de sangue. amos 
casar...  repetia como uma litania.
-A doutora  cmplice de Mauro Carias. Ele referia-se a ela quando disse que 
algum da sua confiana viajaria com a expedio, lembras-te? E ns acusmos 
Karakawe! - sussurrou Alex a Nadia, mas ela estava mergulhada no pavor e no 
conseguia ouvi-lo.
O rapaz compreendeu que o plano do empresrio para exterminar os ndios com uma 
epidemia de sarampo requeria a colaborao da doutora Torres. H vrios anos que 
os indgenas morriam em massa, vtimas dessa e de outras doenas, apesar dos 
esforos das autoridades para os protegerem. Uma vez declarada uma epidemia no 
havia nada a fazer, porque os ndios careciam de defesas. Tinham vivido isolados 
durante milhares de anos e o seu sistema imunolgico no resistia aos vrus dos 
brancos. Uma constipao comum podia mat-los em poucos dias, para no falar em 
outros males mais srios. Os mdicos que estudavam o problema no entendiam por 
que razo nenhuma das medidas preventivas dava resultados. Ningum podia 
imaginar que Omayra Torres, a pessoa designada para vacinar os ndios, era quem 
lhes injectava a morte, para o seu amante poder apropriar-se das suas terras.
A mdica tinha eliminado vrias tribos sem levantar suspeitas, tal como 
pretendia faz-lo com o povo da neblina. O que lhe teria prometido Caras para a 
levar a cometer um crime desta magnitude? Talvez no o tivesse feito por 
dinheiro, mas por amor quele homem. De qualquer forma, por amor ou por cobia, 
o resultado era o mesmo: centenas de homens, de mulheres e de crianas
assassinados. Se no fosse Nadia Santos ter visto Omayra Torres e Mauro Carias 
beijando-se, os desgnios desse casal no teriam sido descobertos. E graas  
oportuna interveno de Karakawe - que pagou com a sua vida - o plano 
fracassara.
Agora Alexander Cold entendia o papel que Mauro Carias tinha atribudo aos 
membros da expedio da International Geographic. Algumas semanas depois de 
serem inoculados com o vrus do sarampo, declarar-se-ia a epidemia na tribo e o 
contgio espalhar-se-ia a outras aldeias com grande rapidez. Ento o parvo 
professor Ludovic Leblanc testemunharia perante a imprensa mundial ter estado 
presente quando se dera o primeiro contacto com o povo da neblina. No se podia 
acusar ningum: tinham sido tomadas todas as precaues necessrias para 
proteger a aldeia. O antroplogo, apoiado pela reportagem de Kate Cold e pelas 
fotografias de Timothy Bruce, poderia provar que todos os membros da tribo 
tinham sido vacinados. Aos olhos do mundo a epidemia teria sido uma desgraa 
inevitvel, ningum suspeitaria de outra coisa e, dessa forma, Mauro Carias 
podia ter a certeza de que no haveria nenhuma investigao do Governo. Era um 
mtodo de extermnio limpo e eficaz, que no deixava rastos de sangue, como as 
balas e as bombas que, durante anos, tinham sido usadas contra os indgenas para 
limpar o territrio do Amazonas, abrindo caminho aos mineiros, traficantes, 
colonos e aventureiros.
Ao ouvir a denncia de Karakawe, o capito Ariosto tinha perdido a cabea e, num 
impulso, matara-o, para proteger Carias e proteger-se a si prprio. Actuava com 
a segurana que o uniforme lhe outorgava. Naquela regio remota e quase 
despovoada, onde o longo brao da lei no chegava, ningum questionava a sua 
palavra. Isso dava-lhe um poder perigoso. Era um homem rude e sem escrpulos, 
que tinha passado anos em postos fronteirios e estava habituado  violncia. 
Como se a sua arma  cintura e a sua condio de oficial no fossem suficientes, 
contava ainda com a proteco de Mauro Carias. Por sua vez o empresrio dispunha 
de
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ligaes nas mais altas esferas do Governo, pertencia  classe dominante, tinha 
muito dinheiro e prestgio, ningum lhe pedia contas. A associao entre Ariosto 
e Carias tinha sido benfica para ambos. O capito calculava que em menos de 
dois anos poderia pendurar a farda e ir viver para Miami, convertido em 
milionrio. Mas agora Mauro Carias jazia com a cabea despedaada e no poderia 
continuar a proteg-lo. Isso significava o fim da sua impunidade. Teria de 
justificar perante o Governo o assassinato de Karakawe e daqueles ndios, que 
jaziam no cho a meio do acampamento.
Kate Cold, ainda com o beb ao colo, calculou que a sua vida e a dos restantes 
expedicionrios, incluindo as dos jovens, corria grave perigo porque Ariosto 
tinha de evitar a todo o custo que se divulgassem os acontecimentos de Tapirawa-
teri. J no era simplesmente uma questo de borrifar os corpos com gasolina, 
pegar-lhes fogo e d-los como desaparecidos. Ao capito sara-lhe o tiro
pela culatra: a presena da expedio da International Geographic
tinha deixado de ser uma vantagem para se transformar num problema grave. Tinha 
de se desfazer das testemunhas, mas tinha de o fazer com muita prudncia, no 
podia mat-los aos tiros sem se meter numa enrascada. Infelizmente, para os 
estrangeiros, estes estavam muito longe da civilizao, onde era fcil o capito 
cobrir os seus rastos.
Kate Cold tinha a certeza de que, no caso de o militar decidir assassin-los, os 
soldados no mexeriam um dedo para o evitar nem se atreveriam a denunciar o seu 
superior. A selva engoliria a evidncia dos crimes. No podiam ficar de braos 
cruzados  espera do tiro de misericrdia, era preciso fazer alguma coisa. No 
tinha nada a perder, a situao no podia ser pior. Ariosto era um desalmado e, 
alm disso, estava nervoso, podia reservar-lhes a mesma sorte de Karakawe. Kate 
precisava de um plano, mas pensou que a primeira coisa a fazer era distrair as 
fileiras inimigas.
- Capito, creio que o mais urgente  enviar estes homens para um hospital - 
sugeriu, apontando para Caras e para os soldados feridos.
- Cale-se, velha! - ladrou de volta o militar.
Passados alguns minutos, no entanto, Ariosto ordenou que levassem Mauro Carias e 
os trs soldados para um dos helicpteros. Ordenou a Omayra Torres que tentasse 
arrancar as flechas aos feridos antes de os embarcar, mas a mdica ignorou-o 
completamente: s tinha olhos para o seu amante moribundo. Kate Cold e Csar 
Santos dedicaram-se  tarefa de improvisar tampes com trapos para evitar que os 
infelizes soldados continuassem a perder sangue.


Enquanto os militares desempenhavam a tarefa de instalar os feridos no 
helicptero e tentavam em vo comunicar pelo rdio com Santa Maria de Ia Lluvia, 
Kate explicou em voz baixa ao professor Leblanc os seus receios sobre a situao 
em que se encontravam. O antroplogo tambm chegara s mesmas concluses que 
ela: corriam mais perigo nas mos de Ariosto que nas dos ndios ou da Besta.
- Se consegussemos fugir para a selva... - sussurrou Kate.
Por uma vez o homem surpreendeu-a com uma reaco razovel. Kate estava to 
habituada aos chiliques e arrebatamentos do professor que, ao v-lo to sereno, 
lhe cedeu a autoridade de forma quase automtica.
- Isso seria uma loucura - replicou Leblanc com firmeza. - A nica maneira de 
sair daqui  de helicptero. A chave  Ariosto. Felizmente  ignorante e 
vaidoso, isso funciona a nosso favor. Devemos fingir que no suspeitamos dele e 
venc-lo com astcia.
- Como? - perguntou a escritora, incrdula.
- Manipulando. Est assustado, de modo que lhe ofereceremos a oportunidade de 
salvar a pele e de sair daqui, alm disso, transformado em heri - disse 
Leblanc.
- Nunca! - exclamou Kate.
- No seja tonta, Cold. Isso ser o que lhe ofereceremos, mas no significa que 
o iremos cumprir. Uma vez a salvo fora deste
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pas, Ludovic Leblanc ser o primeiro a denunciar as atrocidades que se cometem 
contra estes pobres ndios.
- Vejo que a sua opinio sobre os ndios se alterou um pouco - resmungou Kate 
Cold.
O professou nem se dignou responder. Ergueu-se em toda a sua reduzida estatura, 
endireitou a camisa salpicada de lama e de sangue e dirigiu-se ao capito 
Ariosto.
- Como voltaremos a'Santa Maria de Ia Lluvia, meu prezado capito? No cabemos 
todos no segundo helicptero - disse, apontando para os soldados e para o grupo 
que esperava ao p da rvore.
- No meta o nariz nisto! Aqui quem d ordens sou eu! - bramou Ariosto.
- Evidentemente!  um alvio o senhor estar a cargo de tudo
isto, capito, de outra forma estaramos numa situao muito di
fcil - comentou Leblanc com suavidade.
Ariosto, desconcertado, comeou a ouvir.
- Se no fosse pelo seu herosmo, teramos perecido s mos
dos ndios - acrescentou o professor.
Ariosto, um pouco mais tranquilo, contou as pessoas, viu que Leblanc tinha razo 
e decidiu enviar metade do contingente de soldados no primeiro helicptero. Isso 
deixou-o com apenas cinco homens e com os expedicionrios, mas como estes no 
estavam armados, no representavam perigo. A mquina ps-se em movimento, 
formando nuvens de p avermelhado ao levantar do cho. Afastou-se por cima da 
cpula verde da selva, perdendo-se no
cu.
Nadia Santos seguia os acontecimentos abraada ao pai e a Borob. Estava 
arrependida por ter deixado o talism de Walimai no ninho dos ovos de cristal, 
porque sem a proteco do amuleto se sentia perdida. De repente, comeou a piar 
como a coruja. Perplexo,
Csar Santos julgou que a sua pobre filha tinha suportado demasiadas emoes e 
estava com um ataque de nervos. A batalha travada na aldeia tinha sido muito 
violenta, os gemidos dos soldados feridos e o regueiro de sangue de Mauro Caras 
tinham sido um espectculo arrepiante. Os corpos dos ndios ainda estavam no 
cho onde tinham cado, sem que ningum fizesse teno de os recolher. O guia 
concluiu que Nadia estava transtornada pela brutalidade dos acontecimentos 
recentes, no havia outra explicao para aqueles gritos da rapariga. Alexander 
Cold, pelo contrrio, teve de esconder um sorriso de orgulho ao ouvir a amiga: 
Nadia recorria  ltima tbua de salvao possvel.
- D-me os rolos fotogrficos! - exigiu o capito Ariosto a Timothy Bruce.
Para o fotgrafo isso equivalia a entregar a vida. Era um fantico no que se 
referia aos seus negativos, nunca se desfizera de nenhum, tinha-os todos 
cuidadosamente classificados no seu estdio de Londres.
- Parece-me excelente que tome precaues para que no se percam esses valiosos 
negativos, capito Ariosto - interveio Leblanc. - So a prova do que aconteceu 
aqui, de como aquele ndio atacou o senhor Carias, de como caram os seus 
valentes soldados sob as flechas, de como o senhor mesmo se viu obrigado a 
disparar contra Karakawe.
-Aquele homem imiscuiu-se no que no devia! - exclamou o capito.
- Evidentemente! Era um louco. Quis impedir que a doutora Torres cumprisse o seu 
dever. As suas acusaes eram dementes! Lamento que os frascos das vacinas 
tivessem sido destrudos no fragor da luta. Agora nunca saberemos o que 
continham e no se poder provar que Karakawe mentia - disse Leblanc com 
astcia.
Ariosto fez uma careta que noutras circunstncias poderia ter sido um sorriso. 
Colocou a arma no cinto, adiou o assunto dos negativos e, pela primeira vez, 
deixou de responder aos gritos. Talvez
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aqueles estrangeiros no suspeitassem de nada, eram muito mais imbecis do que 
ele julgava, resmungou para si prprio.
Kate Cold seguia o dilogo do antroplogo com o militar, de boca aberta. Nunca 
imaginou que o metedio de Leblanc fosse capaz de tanto sangue-frio.
- Cala-te, Nadia, por favor -- rogou Csar Santos quando Nadia repetiu o pio da 
coruja pela dcima vez.
- Suponho que passaremos a noite aqui. Deseja que preparemos alguma coisa para o 
jantar, capito? - ofereceu Leblanc amavelmente.
O militar autorizou-os a preparar comida e a circular pelo acampamento, mas 
ordenou-lhes que se mantivessem dentro de um raio de trinta metros, onde os 
pudesse ver. Mandou os soldados recolher os ndios mortos e coloc-los todos no 
mesmo stio; no dia seguinte poderiam enterr-los ou queim-los. Aquelas horas 
de noite dar-lhe-iam tempo para tomar uma deciso a respeito dos estrangeiros. 
Santos e a filha podiam desaparecer sem que ningum fizesse perguntas, mas com 
os outros era preciso tomar precaues. Ludovic Leblanc era uma celebridade e a 
velha e o rapaz eram americanos. Sabia por experincia prpria que, quando 
alguma coisa acontecia a um americano, havia sempre uma investigao; aqueles 
gringos arrogantes achavam-se donos do mundo.


Embora tenha sido o professor Leblanc a dar a ideia, foram Csar Santos e 
Timothy Bruce quem fez o jantar porque o antroplogo era incapaz de fritar um 
ovo. Kate Cold desculpou-se explicando que s sabia fazer almndegas e ali no 
dispunha dos ingredientes; alm disso estava demasiado ocupada tentando 
alimentar o beb s colherezinhas com uma soluo de gua e leite condensado. 
Entretanto, Nadia sentou-se a esquadrinhar a mata, repetindo o pio da coruja de 
vez em quando. A uma discreta ordem sua, Borob saiu dos seus braos e correu, 
desaparecendo no
bosque. Uma meia hora depois, o capito Ariosto lembrou-se dos rolos de 
fotografia e obrigou Timothy Bruce a entreg-los com o pretexto que Leblanc lhe 
tinha dado: nas suas mos estariam seguros. Foi intil o fotgrafo ingls 
argumentar e at tentar suborn-lo; o militar manteve-se firme.
Comeram por turnos, enquanto os soldados vigiavam e depois Ariosto mandou os 
expedicionrios dormir para as tendas, onde estariam um pouco mais protegidos em 
caso de ataque, conforme disse, embora a verdadeira razo fosse, dessa forma, 
poder control-los melhor. Nadia, Kate Cold e o beb ocuparam uma das tendas, 
Ludovic Leblanc, Csar Santos e Timothy Bruce a outra. O capito no se 
esquecera da forma como Alex investira contra ele e tinha-lhe um dio cego. Por 
causa daqueles fedelhos, especialmente do maldito rapaz americano, ele estava 
metido numa enrascada tremenda. Mauro Carias tinha o crebro numa papa, os 
ndios tinham fugido e os seus planos de viver em Miami convertido em milionrio 
perigavam seriamente. Alexander representava um risco para ele, tinha de ser 
castigado. Decidiu separ-lo dos restantes e ordenou que o amarrassem a uma 
rvore num extremo do acampamento, longe das tendas dos outros membros do seu 
grupo e longe dos candeeiros de petrleo. Kate Cold reclamou, furiosa, contra o 
tratamento dado ao seu neto, mas o capito f-la calar-se.
- Talvez seja melhor assim, Kate. Jaguar  muito esperto, com certeza ocorrer-
lhe- uma maneira de fugir - sussurrou Nadia.
- Ariosto pensa mat-lo durante a noite, tenho a certeza - replicou a escritora, 
trmula de raiva.
- Borob foi procurar ajuda - disse Nadia.
- Achas que aquele macaquinho nos salvar? - protestou a outra.
- Borob  muito inteligente.
- Menina, no ests boa da cabea! - exclamou a av.
Passaram vrias horas sem que ningum conseguisse adormecer no acampamento, 
excepto o beb, exausto de tanto chorar. Kate
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Cold instalara-o sobre um monte de roupa, perguntando a si prpria o que faria 
com aquela infeliz criatura: a ltima coisa que desejava na vida era ter um 
rfo a seu cargo. A escritora mantinha-se vigilante, convencida de que a 
qualquer momento Ariosto podia assassinar primeiro o seu neto e depois os 
outros, ou talvez o contrrio; primeiro estes, vingando-se depois de Alex com 
alguma morte lenta e horrvel. Aquele homem era muito perigoso. Timothy Bruce e 
Csar Santos tambm tinham as orelhas coladas ao pano da sua tenda, tentando 
adivinhar os movimentos dos soldados l fora. O professor Ludovic Leblanc, por 
outro lado, saiu da sua tenda com a desculpa de fazer as suas necessidades e 
ficou a conversar com o capito Ariosto. O antroplogo, consciente de que cada 
hora decorrida aumentava o risco que corriam, e que convinha distrair o capito, 
convidou-o para um jogo de cartas e para partilharem uma garrafa de vodka, 
dispensada por Kate Cold.
- No tente embriagar-me, professor - avisou-o Ariosto, mas encheu o seu copo.
- Como pode pensar uma coisa dessas, capito! Um gole de vodka no faz mossa a 
um homem como o senhor. A noite  longa, podemos divertir-nos um pouco - 
replicou Leblanc.
Como acontecia frequentemente no planalto, a temperatura desceu de sbito depois 
do pr do Sol. Os soldados, habituados ao calor das terras baixas, tiritavam nas 
suas roupas ainda empapadas pela chuva da tarde. Nenhum deles dormia, por ordem 
do capito todos deviam montar guarda em redor do acampamento. Mantinham-se 
alerta, com as mos aferradas s armas. J no receavam apenas os demnios da 
selva ou o aparecimento da Besta; tambm receavam os ndios, que podiam 
regressar a qualquer momento para vingar os seus mortos. Eles tinham a vantagem 
das armas de fogo, mas os ndios conheciam o terreno e possuam aquela 
arrepiante faculdade de surgir do nada, como almas penadas. Se no fosse pelos 
corpos empilhados junto de uma rvore, poderia pensar-se que no eram humanos e 
que as balas no os feriam. Os soldados esperavam ansiosos pela manh para 
sarem dali a voar, o mais rapidamente possvel; na escurido o tempo passava 
muito lentamente e os rudos do bosque circundante tomavam-se aterradores.
Kate Cold, sentada de pernas cruzadas junto do beb adormecido na tenda das 
mulheres, pensava como poderia ajudar o neto e como sair com vida do Olho do 
Mundo. Atravs do tecido da tenda filtrava-se um pouco da claridade da fogueira 
e a escritora podia ver a silhueta de Nadia envolta no colete do pai.
- Vou sair agora... - sussurrou a rapariga.
- No podes sair! - impediu-a a outra.
CAPTULO 19
Proteco
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- Ningum me ver, consigo tornar-me invisvel.
Kate Cold agarrou na rapariga pelos braos, certa de que delirava.
- Nadia, ouve-me... No s invisvel. Ningum  invisvel, isso so fantasias. 
No podes sair daqui.
- Posso sim. No faa barulho, senhora Cold. Cuide do beb at eu voltar; mais 
tarde entreg-lo-emos  tribo - murmurou Nadia.
Havia uma tal certeza e calma na sua voz, que Kate no se atreveu a ret-la.
Nadia Santos colocou-se primeiro no estado mental da invisibilidade, tal como 
aprendera com os ndios, reduziu-se a nada, a puro esprito transparente. Depois 
abriu silenciosamente o fecho da tenda e deslizou para fora a coberto das 
sombras. Passou como uma ladra silenciosa a poucos metros da mesa onde o 
professor Leblanc e o capito Ariosto jogavam s cartas, passou  frente dos 
guardas armados que cercavam o acampamento, passou diante da rvore onde Alex 
estava amarrado e nenhum deles a viu. A rapariga afastou-se do vacilante crculo 
de luz dos candeeiros e da fogueira e desapareceu no meio das rvores. Depressa 
o pio de uma coruja interrompeu o coaxar dos sapos.
Alex, tal como os soldados, tiritava de frio. Tinha as pernas dormentes e as 
mos inchadas devido aos ns apertados nos pulsos. Doa-lhe o maxilar, podia 
sentir a pele esticada, devia ter um inchao enorme. Com a lngua tocava no 
dente partido e sentia a gengiva tumefacta onde a coronha do capito lhe 
acertara. Tentava no pensar nas muitas horas escuras que se estendiam pela 
frente ou na possibilidade de ser assassinado. Por que razo Ariosto o separara 
dos outros? O que planeava fazer com ele? Quis ser o jaguar negro, possuir a 
fora, a ferocidade, a agilidade do grande felino, converter-se em puros 
msculos, garras e dentes para enfrentar Ariosto. Pensou na garrafa de gua da 
sade que esperava
no seu saco e pensou que teria de sair vivo do Olho do Mundo para a levar  me. 
A lembrana da sua famlia era imprecisa, como a imagem difusa de uma fotografia 
desfocada, onde a cara da sua me era apenas uma mancha plida.
Comeava a cabecear, vencido pela exausto, quando de repente sentiu umas 
mozinhas tocando-o. Ergueu-se sobressaltado. Na escurido, conseguiu 
identificar Borob cheirando-lhe o pescoo, abraando-o, gemendo devagarinho no 
seu ouvido. Borob, Borob, murmurou o jovem, to comovido que os olhos se lhe 
encheram de lgrimas. Era apenas um macaco do tamanho de um esquilo, mas a sua 
presena despertou nele uma vaga de esperana. Deixou-se acariciar pelo animal, 
profundamente reconfortado. Ento apercebeu-se de que ao seu lado estava outra 
presena, uma presena invisvel e silenciosa, dissimulada nas sombras da 
rvore. Primeiro julgou que era Nadia, mas deu-se conta imediatamente de que se 
tratava de Walimai. O pequenino ancio estava agachado ao seu lado, podia sentir 
o seu cheiro a fumo, mas por mais que focasse a vista, no o via. O xam ps-lhe 
uma mo no peito, como se procurasse o bater do seu corao. O peso e o calor 
dessa mo amiga transmitiram coragem ao rapaz, que se sentiu mais calmo, deixou 
de tremer e conseguiu pensar com clareza. O canivete, o canivete, murmurou. 
Ouviu o clique do metal ao abrir-se e logo a seguir o gume do canivete deslizava 
sobre as cordas. No se mexeu. Estava escuro e Walimai nunca tinha usado uma 
faca, podia cortar-lhe os pulsos, mas instantes depois o velho tinha cortado as 
cordas e agarrava-o por um brao para o guiar pela selva.
No acampamento, o capito Ariosto tinha dado por concluda a partida de cartas e 
a garrafa de vodka j no tinha nada. Ludovic Leblanc j no sabia como distra-
lo e ainda faltavam muitas horas para amanhecer. O lcool no tinha embebedado o 
militar, como ele esperava. De facto, tinha tripas de ao. Sugeriu-lhe que 
tentassem o rdio, para ver se conseguiam comunicar com o quartel de Santa Maria 
de Ia Lluvia. Durante algum tempo manipularam o aparelho,
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no meio de um ensurdecedor rudo de esttica, mas foi impossvel contactar o 
operador. Ariosto estava preocupado; no lhe convinha ausentar-se do quartel, 
tinha de regressar o mais depressa possvel, necessitava controlar as verses 
dos soldados sobre o que acontecera em Tapirawa-teri. O que andariam a contar os 
seus homens? Tinha de enviar um relatrio aos seus superiores do Exrcito e 
confrontar a imprensa antes que as bisbilhotices se espalhassem. Omayra Torres 
partira falando sobre o vrus do sarampo. Se comeasse a falar, estava frito. 
Que mulher tonta! - murmurou o capito.
Ariosto ordenou ao antroplogo que regressasse  sua tenda, deu uma volta pelo 
acampamento para se certificar de que os seus homens estavam de guarda como 
deviam e depois dirigiu-se  rvore onde tinha amarrado o rapaz americano, 
disposto a divertir-se um pouco  custa dele. Nesse instante, o cheiro atingiu-o 
como uma bordoada. O impacto atirou-o de costas para o cho. Quis levar a mo ao 
cinto para tirar a sua arma, mas no conseguiu mover-se. Sentiu uma vaga de 
nusea, o corao explodindo-lhe no peito e depois mais nada. Mergulhou na 
inconscincia. No chegou a ver a Besta a trs passos de distncia, borrifando-o 
directamente com o mortfero fedor das suas glndulas.
A fetidez asfixiante da Besta invadiu o resto do acampamento, derrubando 
primeiro os soldados e depois aqueles que estavam protegidos pelo tecido das 
tendas. Em menos de dois minutos no restava ningum de p. Durante algumas 
horas reinou uma quietude aterradora em Tapirawa-teri e na selva prxima, onde 
at os pssaros e os animais fugiram apavorados com o cheiro. As duas Bestas, 
que tinham atacado simultaneamente, retiraram-se com a sua lentido habitual, 
mas o seu cheiro persistiu durante uma boa parte da noite. Ningum no 
acampamento soube o que acontecera durante essas horas, porque s recuperaram a 
conscincia na manh seguinte. Mais tarde viram as marcas e puderam chegar a 
algumas concluses.
Alex, com Borob empoleirado nos ombros e seguindo Walimai, andou sob as 
sombras, contornando a vegetao at as luzes vacilantes do acampamento 
desaparecerem por completo. O xam avanava como se fosse dia claro, seguindo 
talvez a sua mulher-anjo, que Alex no conseguia ver. Serpentearam por entre as 
rvores durante muito tempo e finalmente o velho encontrou o stio onde tinha 
deixado Nadia  sua espera. Nadia Santos e o xam tinham comunicado atravs dos 
pios da coruja durante uma boa parte da tarde e' da noite, at ela conseguir 
sair do acampamento para se reunir com ele. Quando se viram, os jovens amigos 
abraaram-se, enquanto Borob se pendurava na sua dona, guinchando de 
felicidade.
Walimai confirmou o que j sabiam: a tribo vigiava o acampamento, mas aprendera 
a temer a magia dos nahab e no se atrevia a enfrent-los. Os guerreiros estavam 
to perto que tinham ouvido o choro do beb, tal como ouviam o chamamento dos 
mortos, que ainda no tinham recebido um funeral digno. Os espritos dos homens 
e da mulher assassinados ainda permaneciam colados aos corpos, disse Walimai; 
no conseguiam libertar-se sem uma cerimnia apropriada e sem serem vingados. 
Alex explicou-lhe que a nica esperana dos indgenas era atacar de noite, 
porque durante o dia os nahab utilizariam o pssaro de rudo e vento para 
percorrer o Olho do Mundo at os encontrarem.
- Se atacarem agora, alguns morrero, mas no sendo assim a tribo inteira ser 
exterminada - disse Alex, acrescentando estar disposto a conduzi-los e a lutar 
junto deles, para isso fora iniciado: ele tambm era um guerreiro.
- Chefe para a guerra: Tahama. Chefe para negociar com os nahab: tu - replicou 
Walimai.
-  tarde para negociar. Ariosto  um assassino.
- Tu disseste que alguns nahab eram malvados e outros nahab eram amigos. Onde 
esto os amigos? - insistiu o feiticeiro.
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- A minha av e alguns homens do acampamento so amigos. O capito Ariosto e os 
seus soldados so inimigos. No podemos negociar com eles.
- A tua av e os seus amigos devem negociar com os nahab inimigos.
- Os amigos no tm armas.
- No tm magia?
- No Olho do Mundo no tm muita magia. Mas h outros amigos com muita magia 
longe daqui, nas cidades, noutras partes do mundo - argumentou Alexander Cold, 
desesperado pelas limitaes da linguagem.
- Ento tens de ir para junto desses amigos - concluiu o ancio.
- Como? Estamos presos aqui!
Walimai no respondeu a mais perguntas. Ficou de ccoras olhando para a noite, 
acompanhado pela sua mulher, que tinha adoptado a forma mais transparente, de 
modo que nenhum dos jovens conseguia v-la. Alex e Nadia passaram as horas sem 
dormir, muito juntos, tentando transmitir calor um ao outro, sem falar, porque 
havia muito pouco a dizer. Pensavam na sorte que esperava Kate Cold, Csar 
Santos e os outros membros do seu grupo; pensavam no povo da neblina, condenado; 
pensavam nas preguias centenrias e na cidade de ouro; pensavam na gua da 
sade e nos ovos de cristal. O que seria de ambos, presos na selva?
Uma baforada do cheiro terrvel atingiu-os de sbito, atenuado pela distncia, 
mas perfeitamente reconhecvel. Levantaram-se de um salto, mas Walimai no se 
mexeu, como se tivesse estado  espera disso.
- So as Bestas! - exclamou Nadia.
- Pode ser e pode no ser - comentou impassvel o xam.
O resto da noite tomou-se muito longo. Pouco antes do amanhecer o frio era 
intenso e os jovens, enroscados com Borob, batiam
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os dentes, enquanto o velho feiticeiro, imvel, com o olhar perdido nas sombras, 
esperava. Com os primeiros sinais da manh os macacos e os pssaros acordaram e, 
nessa altura, Walimai deu o sinal de partida. Seguiram-no por entre as rvores 
durante muito tempo e, quando a luz do Sol j atravessava a folhagem, chegaram 
diante do acampamento. A fogueira e os candeeiros estavam apagados, no havia 
sinais de vida e o cheiro ainda impregnava o ar, como se cem zorrilhos tivessem 
borrifado aquele stio ao mesmo tempo. Tapando a cara com as mos, entraram no 
permetro do que, at h pouco tempo, fora a aprazvel aldeia de Tapirawa-teri. 
As tendas, a mesa, o fogo, tudo jazia espalhado pelo cho; havia restos de 
comida atirados por todo o lado, mas nenhum macaco ou pssaro esgaravatava entre 
os escombros e o lixo, porque no se atreviam a desafiar a pavorosa hediondez 
das Bestas. At Borob se manteve longe, gritando e dando saltos a vrios metros 
de distncia. Walimai demonstrou a mesma indiferena face ao fedor que tivera na 
noite anterior face ao frio. Os jovens no tiveram outro remdio seno segui-lo.
No havia ningum, nem rasto dos membros da expedio, nem dos soldados, nem do 
capito Ariosto, nem dos corpos dos ndios assassinados. As armas, o equipamento 
e at as mquinas fotogrficas de Timothy Bruce estavam ali. Tambm viram uma 
grande mancha de sangue que escurecia a terra perto da rvore onde Alex tinha 
sido amarrado. Depois de uma breve inspeco, que pareceu deix-lo bastante 
satisfeito, o velho Walimai iniciou a retirada. Os dois jovens partiram atrs 
sem fazer perguntas, to enjoados com o cheiro que mal conseguiam manter-se de 
p.  medida que se afastavam e enchiam os pulmes com o ar fresco da manh, iam 
recuperando o nimo, mas as fontes latejavam-lhes e tinham nuseas. Borob 
reuniu-se-lhes assim que comearam a andar e o pequeno grupo internou-se selva 
adentro.
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Vrios dias antes, ao ver os pssaros de rudo e vento rondando os cus, os 
habitantes de Tapirawa-teri tinham fugido da sua aldeia, abandonado as suas 
escassas posses e os seus animais domsticos, que lhes dificultavam a capacidade 
de se esconderem. Deslocaram-se, encobertos pela vegetao, at um lugar seguro 
e a montaram as suas moradas provisrias nas copas das rvores. Os grupos de 
soldados enviados por Ariosto passaram muito perto sem os verem, mas todos os 
movimentos dos forasteiros, pelo contrrio, foram observados pelos guerreiros de 
Tahama, dissimulados na Natureza.
lyomi e Tahama discutiram demoradamente sobre os nahab e a convenincia de se 
aproximarem deles, tal como tinham aconselhado guia a Jaguar. Iyomi era de 
opinio que o seu povo no podia esconder-se para sempre nas rvores, como os 
macacos. Tinha chegado o tempo de visitarem os nahab e de receberem as suas 
ofertas e as suas vacinas, era inevitvel. Tahama considerava que era melhor 
morrer combatendo; mas Iyomi era o chefe dos chefes e por fim o seu critrio 
prevaleceu. Ela decidiu ser a primeira a aproximar-se, por isso apareceu sozinha 
no acampamento, enfeitada com o soberbo chapu de penas amarelas para demonstrar 
aos forasteiros quem era a autoridade. A presena 'entre os forasteiros de 
Jaguar e de guia, que tinham regressado da montanha sagrada, tranquilizou-a. 
Eram amigos e podiam traduzir, de modo que aqueles pobres seres vestidos de 
trapos hediondos no se sentiriam perdidos diante dela. Os nahab receberam-na 
bem, estavam sem dvida impressionados pelo seu porte majestoso e pelo nmero 
das suas rugas, prova do muito que tinha vivido e dos conhecimentos adquiridos. 
Apesar da comida que lhe ofereceram, a anci viu-se obrigada a exigir-lhes que 
se fossem embora do Olho do Mundo, porque estavam a incomodar. Essa era a sua 
ltima palavra, no estava disposta a negociar. Retirou-se majestosamente com a 
sua taa de carne com milho, certa de ter atemorizado os nahab com o peso da sua 
imensa dignidade.
Em vista do xito da visita de lyomi, o resto da tribo armou-se de coragem e 
seguiu-lhe o exemplo. Assim, regressaram ao stio onde estava a sua aldeia, 
agora espezinhada pelos forasteiros, que evidentemente no conheciam a regra 
mais elementar de prudncia e cortesia: no se deve visitar um shabono sem ser 
convidado. A, os ndios viram os grandes pssaros reluzentes, as tendas e os 
estranhos nahab, sobre os quais tinham ouvido histrias to pavorosas. Aqueles 
estrangeiros de maneiras vulgares mereciam umas boas bordoadas na cabea, mas 
por ordem de Iyomi, os ndios tiveram de encher-se de pacincia para com eles. 
Aceitaram a sua comida e os seus presentes para no os ofenderem, depois foram 
caar e colher mel e frutas, de modo a poderem retribuir as ofertas recebidas, 
como era correcto.
No dia seguinte, quando Iyomi teve a certeza de que Jaguar e guia ainda l 
estavam, autorizou a tribo a aparecer novamente diante dos nahab e a vacinar-se. 
Nem ela nem ningum conseguiu explicar o que aconteceu nessa altura. No sabiam 
por que razo os jovens forasteiros, que tinham insistido tanto na necessidade 
de se vacinarem, saltaram de sbito para o impedir. Ouviram um rudo 
desconhecido, como pequenos troves. Viram que, ao partir-se os frascos, se 
libertou o Rahakanariwa. Na sua forma invisvel atacou os ndios que caram 
mortos serem serem atingidos por flechas ou garrotes. Na violncia da batalha, 
os restantes fugiram como puderam, desconcertados e confusos. J no sabiam quem 
eram os seus amigos e os seus inimigos.
Finalmente, Walimai veio dar-lhes algumas explicaes. Disse que os jovens guia 
e Jaguar eram amigos e deviam ser ajudados, mas todos os outros podiam ser 
inimigos. Disse que o Rahakanariwa andava  solta e podia tomar qualquer forma: 
seriam precisos conjuros muito fortes para o mandar de volta para o reino dos 
espritos. Disse que precisavam de recorrer aos deuses. Ento, as duas 
gigantescas preguias, que ainda no tinham regressado ao tepui sagrado e 
deambulavam pelo Olho do Mundo, foram chamadas e
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levadas durante a noite at  aldeia em runas. Nunca se tinham aproximado da 
morada dos ndios por sua prpria iniciativa, nunca o tinham feito em milhares e 
milhares de anos. Foi necessrio que Walimai lhes fizesse entender que essa j 
no era a aldeia do povo da neblina, porque tinha sido profanada pela presena 
dos nahab e pelos assassinatos cometidos no seu solo. Tapirawa-teri teria de ser 
reconstruda noutro lugar do Olho do Mundo, longe dali, onde as almas dos 
humanos e dos espritos dos antepassados se sentissem bem, onde a maldade no 
tivesse contaminado a terra nobre. As Bestas encarregaram-se de borrifar o 
acampamento dos nahab, incapacitando amigos e inimigos por igual.
Os guerreiros de Tahama tiveram de esperar muitas horas at o odor se desvanecer 
o suficiente para permitir que se aproximassem. Recolheram primeiro os corpos 
dos ndios e levaram-nos para lhes preparar um funeral apropriado. Depois 
voltaram para buscar os restantes e levaram-nos de rastos, incluindo o cadver 
do capito Ariosto, despedaado pelas garras impressionantes de um dos deuses.


Os nahab foram acordando um por um. Deram consigo numa clareira da selva, 
atirados pelo cho e to estonteados, que nem se lembravam dos seus prprios 
nomes. Muito menos se lembravam de como tinham chegado at ali. Kate Cold foi a 
primeira a reagir. No fazia ideia onde se encontrava nem o que tinha acontecido 
com o acampamento, com o helicptero, com o capito e, sobretudo, com o seu 
neto. Lembrou-se do beb e procurou-o pelos arredores, mas no conseguiu 
encontr-lo. Sacudiu os outros que, aos poucos, foram espevitando. Todos tinham 
horrveis dores na cabea e nas articulaes, vomitavam, tossiam e choravam, 
sentiam-se como se tivessem sido espancados, mas nenhum apresentava marcas de 
violncia.
O ltimo a abrir os olhos foi o professor Leblanc, a quem a experincia afectara 
tanto que no conseguia pr-se de p. Kate Cold
pensou que uma chvena de caf e um gole de vodka cairia bem a todos, mas no 
tinham nada para levar  boca. O fedor das Bestas impregnava-lhes ainda a roupa, 
o cabelo e a pele. Tiveram de se arrastar at um riacho prximo e de se meter na 
gua durante muito tempo. Os cinco soldados estavam perdidos, sem armas e sem 
capito, de modo que, quando Csar Santos assumiu o comando, lhe obedeceram sem 
piar. Timothy Bruce, bastante aborrecido por ter estado to perto da Besta sem a 
ter fotografado, queria ir ao acampamento buscar as mquinas fotogrficas, mas 
no sabia que direco devia tomar e ningum parecia disposto a acompanh-lo. O 
fleumtico ingls, que tinha acompanhado Kate Cold em guerras, cataclismos e 
muitas aventuras, raras vezes perdia o seu ar de tdio, mas os ltimos 
acontecimentos tinham conseguido p-lo de mau humor. Kate Cold e Csar Santos s 
pensavam no neto e na filha, respectivamente. Onde estariam os jovens?
O guia examinou o terreno com muita ateno e encontrou ramos partidos, penas, 
sementes e outros sinais do povo da neblina. Concluiu que os ndios os tinham 
trazido at a, salvando-lhes assim a vida, porque de outra forma teriam morrido 
asfixiados ou despedaados pela Besta. Sendo assim, no conseguia entender por 
que razo os ndios no tinham aproveitado a oportunidade para os matar, 
vingando dessa forma os seus mortos. Se estivesse em condies de raciocinar, o 
professor Leblanc teria sido obrigado a rever uma vez mais a sua teoria sobre a 
ferocidade dessas tribos, mas o pobre antroplogo gemia de bruos no cho, meio 
morto de nusea e de enxaqueca.
Tinham todos a certeza de que o povo da neblina voltaria e foi exactamente isso 
que aconteceu. De repente, a tribo completa surgiu da mata. A sua incrvel 
capacidade para se deslocar num silncio absoluto e se materializar numa questo 
de segundos serviu para rodearem os forasteiros antes que estes se apercebessem. 
Os soldados responsveis pela morte dos ndios tremiam como crianas. Tahama 
aproximou-se deles e olhou-os fixamente, mas no
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lhes tocou; talvez pensasse que aqueles vermes no mereciam umas boas bordoadas 
de um guerreiro to nobre como ele.
Iyomi deu um passo em frente e fez um longo discurso na sua lngua, que ningum 
compreendeu, depois agarrou em Kate Cold pela camisa e comeou a gritar a dois 
centmetros da sua cara. A nica coisa que ocorreu  escritora foi agarrar na 
velhota do chapu de penas amarelas pelos ombros e gritar-lhe de volta em 
ingls. Assim, as duas avs estiveram um bom pedao. a lanar uma  outra 
improprios incompreensveis, at Iyomi se cansar, dar meia volta e ir sentar-se 
debaixo de uma rvore. Os outros ndios tambm se sentaram, falando entre eles, 
comendo frutas, nozes e cogumelos que encontravam entre as razes e que passavam 
de mo em mo, enquanto Tahama e vrios dos seus guerreiros permaneciam 
vigilantes, mas sem agredir ningum. Kate Cold reconheceu o beb que tinha 
cuidado ao colo de uma rapariga jovem e alegrou-se por a criana ter sobrevivido 
ao fedor fatal da Besta, estando de volta ao seio dos seus.
A meio da tarde apareceram Walimai e os dois jovens. Kate Cold e Csar Santos 
correram ao seu encontro, abraando-os aliviados, porque estavam com receio de 
nunca mais os ver. Com a presena de Nadia a comunicao tomou-se mais fcil; 
ela pde traduzir e assim se esclareceram alguns pontos. Os forasteiros ficaram 
a saber que os ndios ainda no relacionavam a morte dos seus companheiros com 
as armas de fogo dos soldados, porque nunca as tinham visto. A nica coisa que 
desejavam era reconstruir a sua aldeia noutro stio, comer as cinzas dos seus 
mortos e recuperar a paz de que sempre tinham gozado. Queriam devolver o 
Rahakanariwa ao seu lugar entre os demnios e expulsar os nahab do Olho do 
Mundo.
O professor Leblanc, um pouco mais recomposto, mas ainda aturdido pelo mal-
estar, tomou a palavra. Tinha perdido o chapu australiano com peninhas e estava 
imundo e ftido, como todos eles, com a roupa impregnada do odor das Bestas. 
Nadia traduziu,
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adaptando as frases, para que os ndios no julgassem que todos os nahab eram 
to arrogantes como aquele homenzinho.
- Podem estar tranquilos. Prometo que me encarregarei pessoalmente de proteger o 
povo da neblina. O mundo ouve quando Ludovic Leblanc fala - garantiu o 
professor.
Acrescentou que publicaria as suas impresses sobre o que vira, no s no artigo 
da International Geographic; escreveria tambm outro livro. Graas a ele, 
garantiu, o Olho do Mundo seria declarado reserva indgena e protegido de 
qualquer forma de explorao. Iam ver quem era Ludovic Leblanc!
O povo da neblina no entendeu uma palavra de toda esta discursata, mas Nadia 
resumiu dizendo que esse era um nahab amigo. Kate Cold acrescentou que ela e 
Timothy Bruce ajudariam Leblanc nos seus propsitos, tendo sido incorporados 
tambm na categoria dos nahab amigos. Finalmente, aps eternas negociaes para 
ver quem era amigo e quem era inimigo, os' indgenas aceitaram conduzi-los a 
todos no dia seguinte de volta ao helicptero. Esperavam que nessa altura o 
fedor das Bestas em Tapirawa-teri tivesse diminudo.
lyomi, sempre prtica, deu ordem aos guerreiros para irem caar, enquanto as 
mulheres preparavam o fogo e umas redes para passarem a noite.
- Repito a pergunta que j te fiz anteriormente, Alexander: o que sabes sobre a 
Besta? - perguntou Kate Cold ao neto.
- No  uma, Kate, so vrias. Parecem preguias gigantes, animais muito 
antigos, talvez da Idade da Pedra ou anteriores.
- Viste-as?
- Se no as tivesse visto no poderia descrev-las, no te parece? Vi onze 
delas, mas creio que h mais uma ou duas rondando por aqui. Parecem ser de 
metabolismo muito lento, vivem muitos anos, talvez sculos. Aprendem, tm boa 
memria e, no vais acreditar, falam - explicou Alex.
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A CIDADE DOS DEUSES SELVAGENS
- Ests a gozar comigo! - exclamou a av.
-  verdade. No so assim muito eloquentes, mas falam a mesma lngua do povo da 
neblina.
Alexander Cold informou-a de que em troca da proteco dos ndios, esses seres 
preservavam a sua histria.
- Uma vez disseste-me que os ndios no precisavam de escrita porque tm boa 
memria. As preguias so a memria viva da tribo - acrescentou o rapaz.
- Onde as viste, Alexander?
- No posso dizer-te,  um segredo.
- Suponho que vivem no mesmo stio onde encontraste a gua da sade... - 
arriscou a av.
- Pode ser e pode no ser - replicou o neto com ironia.
- Tenho de ver essas Bestas e fotograf-las, Alexander.
- Para qu? Para um artigo numa revista? Isso seria o fim dessas pobres 
criaturas, Kate, viriam ca-las para as trancar em zoolgicos ou para as 
estudarem em laboratrios.
-Alguma coisa terei de escrever, para isso me contrataram...
- Escreve que a Besta  uma lenda, superstio pura. Eu garanto-te que mais 
ningum voltar a v-las durante muito, muito tempo. Esquecer-se-o delas.  
mais interessante escrever sobre o povo da neblina, esse povo que permanece 
imutvel h milhares de anos e que pode desaparecer a qualquer momento. Conta 
que iam inject-los com o vrus do sarampo, tal como fizeram com outras tribos. 
Podes torn-los famosos e assim salv-los do extermnio, Kate. Podes converter-
te em protectora do povo da neblina e, com um pouco de astcia, podes conseguir 
que Leblanc seja teu aliado. A tua pena pode trazer alguma justia a estes 
lados, podes denunciar os facnoras como Carias e Ariosto, questionar o papel 
dos militares e levar Omayra Torres a tribunal. Tens de fazer alguma coisa, ou 
depressa outros canalhas continuaro a cometer crimes por estas bandas com a 
mesma impunidade de sempre.
- Vejo que cresceste muito nestas semanas, Alexander - admitiu Kate Cold, 
admirada.
- Podes chamar-me Jaguar, av?
- Como a marca de automveis?
- Sim.
- Cada um com o seu gosto. Posso chamar-te como quiseres, desde que no me 
chames av - replicou ela.
- De acordo, Kate.
- De acordo, Jaguar.
Nessa noite, os nahab comeram com os ndios um jantar frugal de macaco assado. 
Desde a chegada dos pssaros de rudo e vento a Tapirawa-teri, a tribo tinha 
perdido a sua horta, as suas bananeiras e a sua mandioca e, como no podiam 
fazer fogo, para no atrair os seus inimigos, estavam h vrios dias com fome. 
Enquanto Kate Cold tentava trocar informaes com lyomi e com as outras 
mulheres, o professor Leblanc, fascinado, interrogava Tahama sobre os costumes 
da tribo e as artes da guerra. Nadia, que estava encarregada de traduzir, 
apercebeu-se de que Tahama tinha um sentido de humor perverso e que estava a 
contar ao professor uma srie de fantasias. Disse-lhe, entre outras coisas, que 
era o terceiro marido de Iyomi e que nunca tivera filhos, o que desbaratou a 
teoria de Leblanc sobre a superioridade gentica dos machos alfa. Num futuro 
prximo, estas histrias de Tahama seriam a base de outro livro do famoso 
professor Ludovic Leblanc.
No dia seguinte, o povo da neblina, com lyomi e Walimai  cabea e Tahama e os 
seus guerreiros na retaguarda, conduziram os nahab de volta a Tapirawa-teri. A 
cem metros da aldeia viram o corpo do capito Ariosto, que os ndios tinham 
colocado entre dois grossos ramos de uma rvore, para alimento dos pssaros e 
dos animais, como faziam com aqueles seres que no mereciam uma cerimnia 
funerria. Estava to despedaado pelas garras da Besta, que os soldados no 
tiveram estmago para o tirar e levar de volta a Santa Maria de Ia Lluvia. 
Decidiram regressar mais tarde para recolher os seus ossos e dar-lhe uma 
sepultura crist.
- A Besta fez justia - murmurou Kate.
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Csar Santos ordenou a Timothy Bruce e a Alexander Cold que recolhessem todas as 
armas dos soldados, que estavam espalhadas pelo acampamento, para evitar outra 
exploso de violncia no caso de algum ficar nervoso. No entanto, no era 
provvel que isso acontecesse, porque o fedor das Bestas, que ainda os 
impregnava, mantinha-os a todos maldispostos e mansos. Santos mandou embarcar o 
equipamento para o helicptero, excepto as tendas, que foram enterradas, porque 
calculou que seria impossvel tirar-lhes o cheiro. Entre as tendas desarmadas 
Timothy Bruce recuperou vrias mquinas fotogrficas e vrios rolos de 
negativos, embora aqueles que o capito Ariosto requisitara estivessem 
inutilizados. O militar expusera-os,  luz. Por outro lado, Alex encontrou o seu 
saco e l dentro estava, intacta, a garrafa com a gua da sade.
Os expedicionrios prepararam-se para regressar a Santa Maria de Ia Lluvia. No 
tinham piloto, porque aquele helicptero tinha sido pilotado pelo capito 
Ariosto e o outro piloto tinha seguido no primeiro helicptero, Santos nunca 
tinha conduzido um desses aparelhos, mas se era capaz de pr a voar a sua 
ruinosa avioneta, tinha a certeza de que tambm podia fazer o mesmo com este.
Tinha chegado o momento de se despedirem do povo da neblina. Fizeram-no trocando 
presentes, como era costume entre os ndios. Uns desfizeram-se de cintos, 
machetes, facas e utenslios de cozinha, outros tiraram penas, sementes, 
orqudeas e colares de dentes. Alex deu a sua bssola a Tahama, que a pendurou 
ao pescoo como um adorno, e ofereceu ao rapaz americano um feixe de dardos 
envenenados com curare e uma zarabatana de trs metros de comprimento, que 
conseguiram encaixar com dificuldade no espao reduzido do helicptero. Iyomi 
voltou a agarrar Kate Cold pela camisa, gritando-lhe um discurso no volume 
mximo e a escritora respondeu-lhe com a mesma paixo em ingls. No ltimo 
instante, quando os nahab se preparavam para entrar no pssaro de rudo e vento, 
Walimai entregou a Nadia uma pequena cesta.
CAPTULO 20
Caminhos separados


A viagem de regresso a Santa Maria de Ia Lluvia foi um pesadelo, porque Csar 
Santos demorou mais de uma hora a dominar os comandos e a estabilizar o 
aparelho. Durante essa primeira hora, ningum acreditou chegar com vida  
civilizao e at Kate Cold, que tinha o sangue-frio de um peixe de mares 
profundos, se despediu do neto com um firme aperto de mo.
- Adeus, Jaguar. Receio que no passemos daqui. Lamento que a tua vida tenha 
sido to curta - disse-lhe.
Os soldados rezavam em voz alta e bebiam para acalmar os nervos, enquanto 
Timothy Bruce manifestava o seu profundo desagrado levantando a sobrancelha 
esquerda, coisa que fazia quando estava prestes a explodir. Os nicos 
verdadeiramente calmos eram Nadia, que tinha perdido o medo das alturas e 
confiava na mo firme do seu pai, e o professor Ludovic Leblanc, to enjoado que 
nem teve conscincia do perigo.
Horas mais tarde, depois de uma aterragem to atribulada como a descolagem, os 
membros da expedio puderam instalar-se finalmente no msero hotel de Santa 
Maria de Ia Lluvia. No dia seguinte regressariam a Manaus, onde tomariam o avio 
para os seus pases. Fariam a travessia de barco pelo rio Negro, tal como tinham 
feito  chegada, porque a avioneta de Csar Santos se recusou a levantar do 
cho, apesar do motor novo. Joel Gonzlez, o ajudante de Timothy Bruce, que 
recuperara bastante, iria com eles. As freiras tinham improvisado um corpete de 
gesso, que o
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imobilizava do pescoo s ancas, e prognosticaram que as suas costelas sarariam 
sem consequncias, embora possivelmente o infeliz nunca conseguisse curar-se dos 
seus pesadelos. Sonhava todas as noites com o abrao da anaconda.
As freiras garantiram tambm que os trs soldados feridos recuperariam porque, 
felizmente para eles, as flechas no estavam envenenadas. A previso quanto ao 
futuro de Mauro Carias, pelo contrrio, era pssima. A bordoada de Tahama 
danificara-lhe o crebro e, na melhor das hipteses, ficaria inutilizado e numa 
cadeira de rodas para o resto da sua vida, com a cabea nas nuvens e alimentado 
por uma sonda. Tinha sido levado na sua prpria avioneta para Caracas, com 
Omayra Torres, que no se separava dele um instante. A mulher no sabia que 
Ariosto tinha morrido e j  no podia proteg-la. Tambm no suspeitava que, 
assim que os estrangeiros contassem o que acontecera com as falsas vacinas, ela 
teria de enfrentar a justia. Estava com os nervos destroados, repetia sem 
parar que era a culpada de tudo, que Deus os castigara, a Mauro e a ela, por 
causa do vrus do sarampo. Ningum compreendia as suas estranhas declaraes, 
mas o padre Valdomero, que foi dar consolo espiritual ao moribundo, prestou 
ateno e tomou nota das suas palavras. O sacerdote, tal como Karakawe, 
suspeitava h muito tempo que Mauro Carias tinha um plano para explorar as 
terras dos ndios, mas no tinha conseguido descobrir em que consistia. As 
aparentes divagaes da mdica deram-lhe a chave.
Enquanto o capito Ariosto esteve no comando da guarnio, o empresrio tinha 
feito o que lhe apetecera naquele territrio. O missionrio no tinha poder para 
desmascarar aqueles homens, embora durante anos tivesse informado a Igreja das 
suas suspeitas. As suas advertncias tinham sido ignoradas, porque faltavam 
provas e porque o consideravam tambm um pouco louco. Mauro Caras encarregara-
se de difundir a histria de que o padre delirava desde que tinha sido raptado 
pelos ndios. O padre Valdomero tinha chegado a viajar at ao Vaticano para 
denunciar os abusos
contra os indgenas, mas os seus superiores eclesisticos recordaram-lhe que a 
sua misso era levar a palavra de Cristo ao Amazonas e no meter-se em poltica. 
O homem regressou derrotado, perguntando a si prprio como pretendiam que 
salvasse as almas para o Cu, sem salvar primeiro as suas vidas na Terra. Por 
outro lado, no tinha a certeza da convenincia de cristianizar os ndios, que 
tinham a sua prpria espiritualidade. Tinham vivido milhares de anos em harmonia 
com a Natureza, como Ado e Eva no Paraso, que necessidade havia de inculcar-
lhes a noo de pecado? - pensava o padre Valdomero.
Ao inteirar-se de que o grupo da International Geographic estava de volta a 
Santa Maria de Ia Lluvia e de que o capito Ariosto tinha morrido de forma 
inexplicvel, o missionrio apareceu no hotel. As verses dos soldados sobre o 
que se tinha passado no planalto eram contraditrias. Uns culpavam os ndios, 
outros a Besta e no faltou quem apontasse o dedo aos membros da expedio. De 
qualquer forma, sem Ariosto no horizonte, havia finalmente uma possibilidade 
mnima de fazer justia. Rapidamente outro militar viria comandar as tropas e 
no havia qualquer certeza de que seria mais honrado que Ariosto. Tambm poderia 
sucumbir ao suborno e ao crime, como acontecia frequentemente no Amazonas.
O padre Valdomero entregou as informaes que tinha acumulado ao professor 
Ludovic Leblanc e a Kate Cold. A ideia de que Mauro Carias espalhava epidemias 
com a cumplicidade da doutora Omayra Torres e a proteco de um oficial do 
Exrcito, era um crime to pavoroso que ningum acreditaria sem provas.
- A notcia de que esto a massacrar os ndios dessa maneira comoveria o mundo. 
 uma pena no podermos prov-lo - disse a escritora.
- Acho que podemos - respondeu Csar Santos, tirando do bolso do colete um dos 
frascos das supostas vacinas.
Explicou que Karakawe conseguira subtra-lo da bagagem da mdica pouco antes de 
ser assassinado por Ariosto.
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- Alexander e Nadia surpreenderam-no a mexer nas caixas das vacinas e, apesar de 
ele os ter ameaado se o denunciassem, os midos contaram-me. Julgmos que 
Karakawe tinha sido enviado por Carias, nunca pensmos que era agente do governo 
- disse Kate Cold.
Eu sabia que Karakawe trabalhava no Departamento de Proteco do Indgena e por 
isso sugeri ao professor Leblanc que o contratasse como seu assistente pessoal. 
Dessa forma podia acompanhar a expedio sem levantar suspeitas - explicou Csar 
Santos.
- De modo que voc me usou, Santos - insinuou o professor.
- O senhor queria que algum o abanasse com uma folha de bananeira e Karakawe 
queria ir com a expedio. Ningum saiu perdendo, professor - disse o guia a 
sorrir, acrescentando que Karakawe investigava h muitos meses Mauro Carias e 
tinha um grosso dossier com os negcios escuros desse homem, em especial a forma 
como explorava as terras dos indgenas. Com certeza suspeitava da relao entre 
Mauro Carias e a doutora Omayra Torres, por isso decidira seguir a pista da 
mdica.
- Karakawe era meu amigo, mas era um homem hermtico e no dizia mais do que o 
indispensvel. Nunca me contou que suspeitava de Omayra - disse Santos. - 
Imagino que andava  procura da chave para explicar as mortes em massa dos 
ndios e por isso se apoderou de um dos frascos de vacinas, entregando-mo para 
que o guardasse num local seguro.
- Com isto poderemos provar a forma sinistra como se espalhavam as epidemias - 
disse Kate Cold, olhando para a garrafinha em contraluz.
- Eu tambm tenho uma coisa para ti, Kate - disse Timothy Bruce a sorrir, 
mostrando-lhe alguns rolos de negativos na palma da mo.
- O que  isto? - perguntou a escritora, intrigada.
- So as imagens de Ariosto assassinando Karakawe com um tiro  queima-roupa, de 
Mauro Carias destruindo os frascos e do tiroteio contra os ndios. Graas ao 
professor Leblanc, que distraiu o capito por meia hora, tive tempo de os trocar 
antes que ele os destrusse. Entreguei-lhe os rolos da primeira parte da viagem 
e salvei estes - esclareceu Timothy Bruce.
Kate Cold teve uma reaco inesperada nela: saltou para o pescoo de Santos e de 
Bruce e pespegou-lhes um beijo na cara.
- Benditos sejam, rapazes! - exclamou feliz.
- Se isto contm o vrus, como julgamos, Mauro Carias e essa mulher levaram a 
cabo um genocdio e tero de pagar por isso... - murmurou o padre Valdomero, 
segurando no frasquinho entre os dedos, com o brao esticado, como se receasse 
que o veneno lhe saltasse para a cara.
Foi ele quem sugeriu a criao de uma fundao destinada a proteger o Olho do 
Mundo e, em especial, o povo da neblina. Com a pena eloquente de Kate Cold e o 
prestgio internacional de Ludovic Leblanc, tinha a certeza de consegui-lo, 
explicou entusiasmado. Faltava financiamento,  verdade, mas entre todos veriam 
como obter o dinheiro: recorreriam s igrejas, aos partidos polticos, aos 
organismos internacionais, aos governos, no deixariam de bater a todas as 
portas at conseguirem os fundos necessrios. Era preciso salvar as tribos, 
decidiu o missionrio e os outros estavam de acordo com ele.
- O senhor ser o presidente da fundao, professor - ofereceu Kate Cold.
- Eu? - perguntou Leblanc, genuinamente surpreendido e encantado.
- Quem poderia faz-lo melhor do que o senhor? Quando Ludovic Leblanc fala, o 
mundo ouve... - disse Kate Cold, imitando o tom presunoso do antroplogo, e 
todos se riram, menos Leblanc, evidentemente.
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Alexander Cold e Nadia Santos estavam sentados no cais de Santa Maria de Ia 
Liuvia, onde h algumas semanas tinham conversado pela primeira vez e iniciado a 
sua amizade. Tal como nessa altura, a noite tinha cado com o coaxar de sapos e 
os uivos de macacos, mas desta vez a Lua no os iluminava. O firmamento estava 
escuro e salpicado de estrelas. Alexander nunca tinha visto um cu assim, no 
sabia que havia tantas e tantas estrelas. Os jovens sentiam que tinham vivido 
muito desde que se conheceram; ambos tinham crescido e mudado em poucas semanas. 
Estiveram calados, olhando para o cu durante muito tempo, pensando que dentro 
em pouco teriam de se separar, at Nadia se lembrar da cestinha que trazia para 
o amigo. A mesma que Walimai lhe dera ao despedir-se. Alex recebeu-a com 
reverncia e abriu-a: l dentro brilhavam os trs ovos da montanha sagrada.
- Guarda-os, Jaguar. So muito valiosos, so os maiores diamantes do mundo - 
disse-lhe Nadia num sussurro.
- Isto so diamantes? - perguntou Alex, apavorado, sem se atrever a toc-los.
- Sim. Pertencem ao povo da neblina. Segundo a viso que tive, estes ovos podem 
salvar esses ndios e o bosque onde sempre viveram.
- E por que mos ds?
- Porque tu foste nomeado chefe para negociar com os nahab. Os diamantes servir-
te-o para a troca - explicou ela.
-Ai, Nadia! Eu no passo de um fedelho de quinze anos, no tenho qualquer poder 
no mundo, no posso negociar com ningum e muito menos responsabilizar-me por 
esta fortuna.
- Quando chegares ao teu pas, entrega-os  tua av. Certamente ela saber o que 
fazer com eles. A tua av parece ser uma senhora bastante poderosa, ela pode 
ajudar os ndios - garantiu a rapariga.
- Parecem pedaos de vidro. Como sabes que so diamantes? - perguntou ele.
- Mostrei-os ao meu pai que os reconheceu imediatamente. Mas mais ningum deve 
saber disto at estarem num lugar seguro, ou roub-los-o. Entendes, Jaguar?
- Entendo. O professor Leblanc viu-os?
- No. S tu, o meu pai e eu. Se o professor souber disto, ir a correr cont-lo 
a meio mundo - afirmou ela.
- O teu pai  um homem muito honesto, qualquer outro teria ficado com os 
diamantes.
- Tu f-lo-ias?
- No.
- O meu pai tambm no. No quis tocar neles, disse que atraem desgraas, que as 
pessoas matam por essas pedras - respondeu Nadia.
- E como vou pass-los pela alfndega nos Estados Unidos? - perguntou o rapaz, 
avaliando o peso daqueles ovos magnficos.
- Num bolso. Se algum os vir, pensar que  artesanato do Amazonas para 
turistas. Ningum suspeita que existem diamantes desse tamanho, muito menos em 
poder de um mido com metade da cabea rapada - disse Nadia, rindo-se e 
passando-lhe os dedos pela tonsura.
Permaneceram muito tempo em silncio olhando para a gua aos seus ps e para a 
vegetao sombria que os rodeava, tristes, porque dentro de muito poucas horas 
teriam de dizer adeus. Pensavam que nunca mais aconteceria nada de to 
extraordinrio nas suas vidas como a aventura que tinham partilhado. O que podia 
comparar-se s Bestas,  cidade de ouro,  viagem ao fundo da Terra de Alexander 
ou  subida ao ninho dos ovos maravilhosos de Nadia?
- A minha av foi encarregada de escrever outra reportagem para a International 
Geographic. Tem de ir ao Reino do Drago Trovejante - comentou Alex.
- Isso parece ser to interessante como o Olho do Mundo. Onde fica? - perguntou 
ela.
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- Nas montanhas dos Himalaias. Gostaria de ir com ela, mas...
O rapaz compreendia que isso era quase impossvel. Tinha de regressar  sua 
existncia normal. Tinha estado ausente por vrias semanas, era hora de voltar 
para as aulas ou perderia o ano escolar. Tambm queria ver a famlia e abraar o 
seu co. Poncho. Precisava, sobretudo, de entregar a gua da sade e a planta de 
Walimai  sua me; tinha a certeza de que isso, juntamente com a quimioterapia, 
a curaria. No entanto, deixar Nadia magoava-o mais do que tudo, desejava que 
nunca mais amanhecesse, queria ficar eternamente sob as estrelas na companhia da 
amiga. Ningum no mundo o conhecia to bem, ningum estava to perto do seu 
corao como aquela menina cor de mel que encon-trana. milagrosamente no fim do 
mundo. O que seria dela no futuro ? Cresceria sbia e selvagem na selva, muito 
longe dele.
- Voltarei a ver-te? - suspirou Alex.
- Claro que sim! - disse ela, abraada a Borob, .fingindo
alegria para que ele no suspeitasse das suas lgrimas.
- Escreveremos um ao outro, no  verdade?
- Os correios por estes lados no so l muito bons...
- No importa. Mesmo que as cartas demorem, vou escrever.
Para mim, o mais importante desta -viagem foi ter-te conhecido.
Nunca, nunca te esquecerei, sers sempre a minha melhor amiga
- prometeu Alexander Cold, com a voz entrecortada.
- E tu o meu melhor amigo, desde que possamos ver-nos com
o corao - replicou Nadia Santos.
- At  vista, guia...
- At  vista, Jaguar.. .
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